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Uma mulher de 53 anos, com diagnóstico de fibromialgia há mais de 8 anos, procura atendimento médico devido à piora do padrão de dor generalizada, fadiga crônica e alterações de sono. Após tentativa mal-sucedida de múltiplos esquemas terapêuticos com analgésicos não opioides, antidepressivos tricíclicos, inibidores da recaptação de serotonina-noradrenalina e fisioterapia, foi iniciado uso de tramadol, com melhora parcial do quadro. No entanto, ela desenvolveu episódios de sudorese intensa, agitação, tremores finos e mioclonias após aumento da dose. O médico cogita substituir o esquema atual por outro opioide semi-sintético com melhor perfil de segurança.

Com base nesse cenário clínico e nos princípios farmacológicos, qual das condutas abaixo está INCORRETA?

A

Evitar a combinação de tramadol com antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, como a fluoxetina, pelo risco aumentado de síndrome serotoninérgica, especialmente em pacientes com fibromialgia.

B

Avaliar a hidromorfona oral em doses baixas como alternativa escalonada, particularmente em pacientes com intolerância a morfina ou que apresentem efeitos adversos por liberação de histamina.

C

Considerar a buprenorfina transdérmica como alternativa em dor crônica refratária, por seu perfil de agonista parcial µ e menor risco de depressão respiratória, desde que utilizada com cautela em associação com outros depressivos centrais.

D

Manter vigilância clínica rigorosa ao utilizar opioides em pacientes com transtornos afetivos, devido à sobreposição entre dor crônica e alterações psiquiátricas, que podem predispor à dependência.

E

Substituir o tramadol por codeína isolada, pois seu efeito analgésico é padronizado e sua conversão em morfina pelo fígado é consistente entre pacientes com dor crônica.

F

Dica do autor: A fibromialgia é uma síndrome complexa de dor crônica, com alterações na percepção da dor, fadiga, distúrbios do sono e frequente associação com transtornos do humor. O tratamento é multimodal, envolvendo medidas não farmacológicas (como atividade física regular) e medicações neuromoduladoras. Os opioides clássicos, como morfina e derivados, não são recomendados de forma rotineira nesse contexto, pois apresentam baixo benefício analgésico e alto risco de efeitos adversos e dependência. O tramadol, um opioide atípico e fraco, é uma exceção parcial, pois atua também como inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina, o que confere algum benefício em casos selecionados. No entanto, o risco de síndrome serotoninérgica aumenta com seu uso concomitante com antidepressivos serotoninérgicos. Outros opioides semissintéticos ou parciais, como a buprenorfina, podem ser considerados em situações refratárias, com cautela e vigilância clínica. Além disso, é importante lembrar que algumas medicações, como a codeína, possuem metabolismo hepático dependente do CYP2D6, o que gera variabilidade na eficácia e risco de toxicidade.

Alternativa A: CORRETA. A associação de tramadol com ISRSs, como a fluoxetina, aumenta significativamente o risco de síndrome serotoninérgica, uma condição potencialmente grave caracterizada por hiperatividade autonômica, neuromuscular e alterações mentais. Isso é especialmente relevante em pacientes com fibromialgia, que frequentemente já utilizam antidepressivos. A conduta de evitar essa combinação é adequada e clinicamente fundamentada.

Alternativa B: CORRETA. A buprenorfina transdérmica pode ser considerada em casos selecionados de dor crônica refratária, como fibromialgia, embora sua indicação nesse cenário ainda gere debate. Por ser um agonista parcial do receptor μ, apresenta menor risco de depressão respiratória e menor potencial de abuso, mas deve ser usada com cautela quando combinada com outros depressivos centrais, como benzodiazepínicos ou antidepressivos, devido ao risco potencial de interações farmacodinâmicas. A conduta é aceitável, com ressalvas.

Alternativa C: CORRETA. Pacientes com dor crônica e transtornos afetivos apresentam maior vulnerabilidade à dependência de opioides, por mecanismos neurobiológicos e psicossociais compartilhados entre a nocicepção crônica e a regulação do humor. Por isso, é essencial uma vigilância clínica rigorosa ao prescrever opioides nesses casos, especialmente os de ação plena.

Alternativa D: CORRETA. A hidromorfona é um opioide semissintético potente, com perfil mais limpo em relação à liberação de histamina, o que a torna uma alternativa interessante em pacientes com intolerância à morfina, especialmente quando esta causa prurido, hipotensão ou náuseas. Seu uso deve ser cuidadoso, com doses ajustadas conforme a resposta e tolerância.

Alternativa E: INCORRETA. A codeína é um opioide fraco, cuja eficácia depende da conversão hepática em morfina via CYP2D6, uma via metabólica altamente variável entre os indivíduos. Há pessoas com metabolismo ultrarrápido, que convertem grandes quantidades de codeína em morfina e estão sob risco de toxicidade grave, e outras com metabolismo lento, que quase não obtêm efeito analgésico. Portanto, o efeito analgésico da codeína não é padronizado, tornando essa alternativa incorreta no contexto de dor crônica de difícil controle como a fibromialgia.

Resposta: Alternativa E

Referências

  • Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica, 13ª ed., 2023.
  • Hilal-Dandan R., Brunton L.L. Manual de Farmacologia e Terapêutica de Goodman & Gilman, 2ª ed., 2023.
  • Katzung B.G. Farmacologia Básica e Clínica, 15ª ed., 2021.
  • Rang H.P. et al. Farmacologia, 9ª ed., 2020.
  • Cahill CM et al. "Delta opioid receptor: a target for pain and depression therapy." Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry, 2020.

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