Sódio sérico (Natremia): Interpretação Clínica e Indicações
O sódio sérico, também conhecido como natremia, é um eletrólito essencial medido no sangue venoso para avaliar o equilíbrio hidroeletrolítico e osmolaridade plasmática. Representa a concentração de sódio no plasma, sendo fundamental para a manutenção do volume extracelular, pressão arterial e transmissão de impulsos nervosos. Clinicamente, é crucial na avaliação de pacientes com alterações do estado mental, desidratação, edema, insuficiência renal, uso de diuréticos e distúrbios endócrinos. A interpretação adequada da natremia, sempre correlacionada com a osmolaridade e o estado volêmico, permite diagnosticar e conduzir disnatremias (hipo e hipernatremia), condições frequentes em serviços de urgência, UTI e ambulatórios de nefrologia. Sinônimos incluem Na+ sérico e dosagem de sódio no sangue.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de alteração do estado mental (confusão, letargia, convulsões) em pacientes idosos ou hospitalizados CID R41.8
- Avaliação de desidratação com sinais de hipovolemia (taquicardia, hipotensão, pele seca) em crianças com gastroenterite CID E86.0
- Monitoramento de pacientes em uso crônico de diuréticos tiazídicos ou de alça para prevenção de hiponatremia CID Y42.4
- Investigação de edema generalizado em paciente com insuficiência cardíaca ou síndrome nefrótica CID I50.9
- Avaliação de poliúria e polidipsia em suspeita de diabetes insipidus ou potomania CID E23.2
- Controle perioperatório em cirurgias de grande porte com perdas hidroeletrolíticas significativas CID Z01.8
- Investigação de hipertensão arterial resistente em associação com dosagem de aldosterona e renina CID I10
- Monitoramento de pacientes com insuficiência renal aguda ou crônica em terapia renal substitutiva CID N18.9
- Avaliação de pacientes com queimaduras extensas e perdas transcutâneas de líquidos CID T30.0
- Investigação de vômitos persistentes ou diarreia profusa com desequilíbrio hidroeletrolítico CID R11
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise da amostra — causa liberação de sódio intracelular, elevando falsamente a natremia; invalida a amostra se grave
- Lipemia intensa — em métodos indiretos (diluição), causa pseudo-hiponatremia por deslocamento do volume aquoso
- Hiperproteinemia — em mieloma ou gamopatias, pode causar pseudo-hiponatremia em métodos indiretos
- Coleta com tubo contendo EDTA — o EDTA liga cálcio e pode interferir em alguns analisadores, causando resultados errôneos
- Tempo prolongado entre coleta e processamento — permite troca iônica através da membrana eritrocitária, alterando a natremia
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Sódio sérico | 135–145 | 135–145 | 135–145 (recém-nascidos a termo: 133–146) | mmol/L |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| Hiponatremia leve (130–134 mmol/L) | Pode ser assintomática ou cursar com náuseas e cefaleia; frequentemente associada a diuréticos, SIADH ou hipovolemia | Avaliar estado volêmico, solicitar osmolaridade sérica e urinária, ureia, creatinina |
| Hiponatremia moderada a grave (< 130 mmol/L) | Risco de edema cerebral, convulsões, coma; requer correção cuidadosa para evitar mielinólise pontina | Internação, correção com soro hipertônico 3% se sintomático, monitorar sódio a cada 4–6 horas |
| Hipernatremia leve (146–150 mmol/L) | Geralmente por perda de água livre (diabetes insipidus, desidratação) ou ganho de sódio | |
| Hipernatremia grave (> 150 mmol/L) | Alteração do estado mental, irritabilidade neuromuscular; risco de hemorragia intracraniana | Reposição hídrica com soro hipotônico, corrigir lentamente (0,5 mmol/L/hora) |
| Sódio normal com alteração do estado mental | Considerar outras causas metabólicas (hipoglicemia, uremia) ou estruturais | Solicitar glicemia, ureia, creatinina, gasometria, exames de imagem se indicado |
| Hiponatremia com osmolaridade sérica baixa | Hiponatremia verdadeira; diferenciar hipovolêmica (ureia elevada) de euvolêmica (SIADH) | Dosar ureia, creatinina, sódio urinário; se SIADH, restringir líquidos |
| Hiponatremia com osmolaridade sérica normal ou alta | Pseudo-hiponatremia (hiperlipidemia, hiperproteinemia) ou translocacional (hiperglicemia) | Dosar glicemia, perfil lipídico, proteinas totais; corrigir para glicemia se necessário |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| Hiponatremia hipovolêmica | Perdas gastrointestinais, diuréticos, insuficiência adrenal | Sódio urinário, ureia, cortisol, ACTH | Nefrologia / Endocrinologia |
| Hiponatremia euvolêmica | SIADH, hipotireoidismo, polidipsia primária | Osmolaridade urinária, TSH, T4 livre, prova de restrição hídrica | Endocrinologia / Nefrologia |
| Hiponatremia hipervolêmica | Insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica | Albumina, BNP, ecocardiograma, USG abdominal | Cardiologia / Gastroenterologia |
| Hipernatremia com poliúria | Diabetes insipidus central, diabetes insipidus nefrogênico | Osmolaridade urinária, prova de privação hídrica, ressonância de hipófise | Endocrinologia / Nefrologia |
| Hipernatremia sem poliúria | Desidratação, ganho de sódio (hiperaldosteronismo, Cushing) | Aldosterona, renina, cortisol, sódio urinário | Endocrinologia |
Medicamentos e Interferentes
- Diuréticos tiazídicos — aumentam excreção de sódio e água, podendo causar hiponatremia
- Inibidores da recaptação de serotonina (ISRS) — associados a SIADH e hiponatremia, especialmente em idosos
- Hidrocortisona — em insuficiência adrenal, a reposição corrige hiponatremia por normalizar excreção de água
- Heparina — em altas doses, pode causar hiperaldosteronismo e hipernatremia
- Lítio — induz diabetes insipidus nefrogênico, levando a hipernatremia
Contextos Clínicos Especiais
Idoso
Idosos têm menor reserva renal e maior prevalência de polifarmácia (diuréticos, ISRS), aumentando risco de hiponatremia. A apresentação pode ser atípica (queda, confusão). A correção deve ser mais lenta (≤ 6 mmol/L em 24 horas) devido ao risco de mielinólise pontina. Avaliar sempre ingestão hídrica e medicamentos.
Criança
Crianças desidratadas por gastroenterite frequentemente apresentam hiponatremia ou hipernatremia. A hipernatremia desidratacional é grave e exige correção lenta para evitar edema cerebral. Use soluções de reidratação oral ou soro hipotônico. Monitorar peso e sinais neurológicos.
Gestante
Na gestação, há diluição fisiológica com leve hiponatremia (até 130 mmol/L) devido à retenção hídrica. Hiponatremia sintomática pode ocorrer na hiperêmese gravídica. Hipernatremia é rara e sugere diabetes insipidus gestacional. Avaliar com obstetra e endocrinologista.
Exames Relacionados
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
O valor de referência do sódio sérico é 135–145 mmol/L para adultos, crianças e idosos. Recém-nascidos a termo podem ter faixa ligeiramente mais ampla (133–146 mmol/L). Valores abaixo de 135 caracterizam hiponatremia e acima de 145, hipernatremia.
Depende da velocidade de instalação e sintomas. Hiponatremia crônica assintomática com 130 mmol/L geralmente não é grave, exigindo investigação da causa. Já hiponatremia aguda sintomática (cefaleia, náuseas) com 130 mmol/L requer atenção, pois pode progredir rapidamente. Avalie sempre o estado clínico e volêmico.
Hipernatremia (> 145 mmol/L) indica desidratação (perda de água livre) ou ganho excessivo de sódio. Causas comuns: diabetes insipidus, desidratação hiperosmolar, ingestão de sal, hiperaldosteronismo. A conduta envolve reposição hídrica e correção da causa de base.
É uma pseudo-hiponatremia: a hiperglicemia atrai água para o intravascular, diluindo o sódio. Para corrigir, use a fórmula: Sódio corrigido = Sódio medido + 1,6 × (Glicemia – 100) / 100. O sódio real pode ser normal ou até alto, guiando a reposição hídrica adequada.
Solicite sódio sérico para avaliar o equilíbrio hidroeletrolítico global (diagnóstico de disnatremia). Sódio urinário é complementar, indicado após natremia alterada para investigar a causa (ex.: na hiponatremia, sódio urinário 40 sugere euvolemia).
Não, o sódio sérico não requer jejum obrigatório. Pode ser coletado a qualquer momento, inclusive em urgências. No entanto, em condições basais (ex.: investigação eletiva), coleta após jejum de 4 horas é aceitável para padronização.
Ambos causam hiponatremia, mas no SIADH o paciente está euvolêmico (sem sinais de desidratação) com sódio urinário > 40 mmol/L e osmolaridade urinária > 100 mOsm/kg. Na hipovolemia, há sinais de desidratação, sódio urinário < 20 mmol/L e ureia frequentemente elevada.
Não. Sódio normal não exclui alterações de volume ou outros eletrólitos (potássio, cálcio). Pacientes podem estar desidratados ou hiper-hidratados com natremia normal (perdas isotônicas). Avalie sempre exame físico, osmolaridade e outros eletrólitos para diagnóstico completo.
Referências
- Sociedade Brasileira de Nefrologia. Diretrizes Brasileiras de Prática Clínica para o Diagnóstico e Tratamento das Disnatremias. São Paulo: SBN; 2021.
- KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney Int Suppl. 2012;2(1):1-141. 10.1038/kisup.2012.1
- Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581-9. 10.1056/NEJM200005253422107
- Sterns RH. Disorders of plasma sodium — causes, consequences, and correction. N Engl J Med. 2015;372(1):55-65. 10.1056/NEJMra1404489
- Ellison DH, Berl T. Clinical practice. The syndrome of inappropriate antidiuresis. N Engl J Med. 2007;356(20):2064-72. 10.1056/NEJMcp066837