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Reumatologia

Líquido Sinovial — Análise e Interpretação: Interpretação Clínica e Indicações

A análise do líquido sinovial (LS) é o exame mais importante na investigação de monoartrite aguda ou crônica. Obtido por artrocentese, o LS permite diferenciar processos inflamatórios de não inflamatórios, identificar cristais patológicos (urato monossódico na gota, pirofosfato de cálcio na pseudogota) e diagnosticar artrite séptica — condição que exige tratamento imediato para evitar destruição articular. A classificação clássica divide o LS em quatro grupos: grupo I (normal/não inflamatório), grupo II (inflamatório), grupo III (séptico) e grupo IV (hemorrágico). Cada grupo apresenta características macroscópicas, contagem celular, tipo de células e achados bioquímicos distintos que orientam o diagnóstico diferencial e a conduta terapêutica, tornando a artrocentese e a análise do LS procedimentos indispensáveis na prática reumatológica e da clínica médica geral.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Líquido sinovial obtido por artrocentese
Resultado em
Microscopia: 1-2h; cultura: 48-72h; análise completa: 24-48h
Código TUSS
40317012
Especialidade
Reumatologia / Clínica Médica / Ortopedia

Quando solicitar este exame?

  • Monoartrite aguda não traumática CID M13
  • Suspeita de artrite séptica bacteriana CID M00
  • Suspeita de artrite gotosa (hiperuricemia + artrite) CID M10
  • Suspeita de pseudogota (condrocalcinose) CID M11
  • Artrite reumatoide com derrame articular de início ou piora aguda CID M05
  • Artrite reativa ou espondiloartropatia com derrame articular CID M02
  • Hemartrose de causa indeterminada CID M25
  • Derrame articular de grandes articulações em investigação CID M25
  • Artropatia por deposição de cristais de hidroxiapatita CID M11
  • Artrite tuberculosa com derrame articular CID M01

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Realizar artrocentese com técnica asséptica rigorosa para evitar contaminação da amostra e do espaço articular
  • Coletar em tubos separados: EDTA para celularidade/diferencial, tubo seco para cristais e frasco estéril para cultura
  • Registrar o volume total coletado e as características macroscópicas imediatas (cor, turbidez, viscosidade)
  • Transportar e processar o material em no máximo 1-2 horas após a coleta, pois células se degeneram rapidamente
  • Não centrifugar o material destinado à contagem celular; preparar lâmina para cristais imediatamente
  • Se suspeita de artrite séptica, inocular diretamente em frasco de hemocultura no momento da coleta para aumentar sensibilidade
  • Anotar uso prévio de antibióticos, corticoides intra-articulares e anticoagulantes, pois interferem na interpretação

Valores de Referência

Valores de referência do Líquido Sinovial — Análise e Interpretação
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Volume (joelho)< 3,5 mL< 3,5 mL< 2 mLmL
Leucócitos (normal)< 200/mm³< 200/mm³< 200/mm³células/mm³
Leucócitos (não inflamatório)200–2.000/mm³200–2.000/mm³200–2.000/mm³células/mm³
Leucócitos (inflamatório)2.000–50.000/mm³2.000–50.000/mm³2.000–50.000/mm³células/mm³
Leucócitos (séptico)> 50.000/mm³> 50.000/mm³> 50.000/mm³células/mm³
PMN (% neutrófilos – séptico)> 75%> 75%> 75%%
Glicose (relação LS/soro)> 0,5> 0,5> 0,5razão
Proteína total1–3 g/dL1–3 g/dL1–3 g/dLg/dL
LDH< 250 U/L< 250 U/LVariávelU/L

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Líquido Sinovial — Análise e Interpretação
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
LS claro, viscoso, leucócitos < 200/mm³, sem cristaisNormal ou grupo I (não inflamatório) — articulação saudável Investigar outra causa de dor articular; considerar osteoartrite, trauma leve
LS amarelo-claro, leucócitos 200–2.000/mm³, >50% mononuclearesGrupo I não inflamatório — osteoartrite, artropatia traumática, artropatia neuropática Tratamento da doença de base; analgesia; fisioterapia
LS turvo, amarelo, leucócitos 2.000–50.000/mm³, >50% PMNGrupo II inflamatório — artrite reumatoide, espondiloartropatias, artrite reativa, gota, pseudogota Pesquisa de cristais obrigatória; sorologias; iniciar AINE se sem contraindicação
Cristais em agulha, birrefringência negativa (urato monossódico)Artrite gotosa — diagnóstico confirmado pela presença de cristais de UMS Colchicina ou AINE na crise aguda; alopurinol/febuxostate após resolução; monitorar uricemia
Cristais romboides, birrefringência positiva (pirofosfato de cálcio)Pseudogota (condrocalcinose) — doença por deposição de pirofosfato de cálcio (CPPD) AINE ou colchicina; investigar hiperparatireoidismo, hemocromatose, hipomagnesemia
LS purulento, leucócitos > 50.000/mm³, >75% PMN, Gram ou cultura positivaArtrite séptica bacteriana — emergência reumatológica Internação imediata, antibioticoterapia empírica IV (cobre S. aureus), artrocentese diária ou drenagem cirúrgica
LS hemorrágico (sangue vivo), sem coagulaçãoGrupo IV hemorrágico — hemofilia, trauma, tumor sinovial vilonodular pigmentado, fratura intra-articular Investigar coagulopatia (hemofilia); afastar trauma e neoplasia sinovial; coagulograma
LS com leucócitos 2.000–50.000/mm³ e glicose baixa (LS/soro < 0,5)Sugestivo de processo infeccioso — artrite bacteriana parcialmente tratada ou tuberculosa Cultura para micobactérias; PCR para Mycobacterium tuberculosis; biópsia sinovial se necessário
LS xantocrômico, viscosidade normal, sem células inflamatóriasArtropatia neuropática (Charcot) ou hemartrose antiga resolvida Avaliação neurológica; glicemia; investigação de sífilis terciária ou neuropatia diabética

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Líquido Sinovial — Análise e Interpretação
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
LS leucócitos > 50.000/mm³, >75% PMN, Gram +Artrite séptica bacterianaHemocultura, PCR, procalcitonina, VHSReumatologia / Infectologia
LS com cristais UMS negativamente birrefringentesGota agudaÁcido úrico sérico, função renal, uricosúria 24hReumatologia / Clínica Médica
LS com cristais CPPD positivamente birrefringentesPseudogota / CPPDCálcio, fósforo, PTH, ferritina, magnésioReumatologia
LS inflamatório (2.000–50.000/mm³), sem cristais, FR+Artrite reumatoideFR, anti-CCP, VHS, PCR, FANReumatologia
LS inflamatório, jovem, oligoartrite assimétrica, uveíteEspondiloartropatia / artrite reativaHLA-B27, VDRL, culturas urogenitais, PCR ChlamydiaReumatologia
LS hemorrágico recorrente, sem traumaSinovite vilonodular pigmentada / hemofilia / artropatia hemofílicaCoagulograma, fator VIII/IX, ressonância magnética articularReumatologia / Hematologia
LS linfocitário, leucócitos 5.000–20.000/mm³, glicose baixaArtrite tuberculosa / artrite fúngicaPPD/IGRA, ADA, cultura para BAAR, biópsia sinovial, beta-D-glucanaInfectologia / Reumatologia
LS não inflamatório, articulação neuropática, CharcotArtropatia neuropática (diabetes, sífilis, siringomielia)Glicemia, HbA1c, VDRL/FTA-Abs, RM colunaClínica Médica / Neurologia

Medicamentos e Interferentes

  • Coleta traumática (punção hemorrágica) pode elevar artificialmente a contagem de leucócitos e simular hemartrose
  • Antibioticoterapia prévia reduz a sensibilidade da cultura — pode negativar o Gram e a cultura mesmo em artrite séptica ativa
  • Corticoterapia intra-articular recente pode reduzir a celularidade e alterar a morfologia dos cristais
  • Demora no processamento (> 2h) degrada leucócitos e dificulta a identificação de cristais e células
  • Anticoagulantes sistêmicos (varfarina, heparinas) podem causar hemartrose espontânea sem artrite inflamatória verdadeira
  • Contaminação cutânea durante a artrocentese pode contaminar a cultura e gerar resultado falso-positivo
  • Gelos e refrigeração excessiva precipitam cristais de urato artificialmente e podem gerar falsos positivos
  • Diluição da amostra com solução salina durante a artrocentese interfere na contagem celular e na dosagem de proteínas

Contextos Clínicos Especiais

Idosos

Maior prevalência de osteoartrite (grupo I) e CPPD/pseudogota. A artrite séptica em idosos pode apresentar-se de forma insidiosa, com febre baixa ou ausente, retardando o diagnóstico. S. aureus e gram-negativos são mais frequentes. Considerar sempre artrite séptica em idoso com piora aguda de derrame articular prévio.

Imunossuprimidos (HIV, transplantados, uso de biológicos)

Perfil microbiológico atípico: fungos (Candida, Cryptococcus), micobactérias, gram-negativos. A contagem celular pode ser falsamente baixa. Solicitar culturas especiais (fungos, BAAR) e considerar beta-D-glucana sérica. Biológicos anti-TNF aumentam risco de artrite tuberculosa e fúngica.

Crianças

Artrite séptica é a principal emergência — Staphylococcus aureus em qualquer faixa etária, Kingella kingae em < 4 anos, Haemophilus influenzae em não vacinados. Artrite reativa pós-estreptocócica é comum. Febre reumática deve ser lembrada. Artrocentese de quadril requer guia de imagem em crianças.

Usuários de drogas intravenosas

Alto risco de artrite séptica, especialmente por S. aureus (incluindo MRSA), Pseudomonas aeruginosa e Candida. Articulações axiais (sacroilíacas, esternoclaviculares) são mais acometidas. Hemocultura positiva frequentemente associada.

Pacientes com artrite reumatoide em uso de biológicos

Difícil diferenciação entre flare da AR e artrite séptica. A celularidade pode estar intermediária. Suspender biológico diante de suspeita de artrite séptica. Solicitar cultura e Gram mesmo com leucócitos 'apenas' elevados. Considerar artrite por Listeria ou micobactérias.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

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  3. FitzGerald JD, Dalbeth N, Mikuls T, et al. 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout. Arthritis Care Res. 2020;72(6):744-760. 10.1002/acr.24180
  4. Shirtliff ME, Mader JT. Acute septic arthritis. Clin Microbiol Rev. 2002;15(4):527-544. 10.1128/CMR.15.4.527-544.2002
  5. Swan A, Amer H, Dieppe P. The value of synovial fluid assays in the diagnosis of joint disease: a literature survey. Ann Rheum Dis. 2002;61(6):493-498. 10.1136/ard.61.6.493

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