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Hematologia/Clínica Médica

Coagulograma Completo: TP, TTPA, Fibrinogênio e Plaquetas – Guia Clínico: Interpretação Clínica e Indicações

O coagulograma é um conjunto de exames laboratoriais que avalia a hemostasia, compreendendo as vias de coagulação extrínseca, intrínseca e comum. Os parâmetros principais são: Tempo de Protrombina (TP) com sua relação padronizada INR, Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA) e fibrinogênio. Em contexto clínico, frequentemente acompanham-se ainda a contagem de plaquetas e o tempo de trombina. O exame é fundamental no pré-operatório, na avaliação de hepatopatias, no manejo de anticoagulação, na investigação de diáteses hemorrágicas e no diagnóstico e monitoramento de coagulação intravascular disseminada (CIVD). A interpretação inteligente do coagulograma exige compreensão das cascatas de coagulação: o TP/INR avalia as vias extrínseca e comum (fatores I, II, V, VII, X), enquanto o TTPA avalia as vias intrínseca e comum (fatores I, II, V, VIII, IX, X, XI, XII). O fibrinogênio é o substrato final da coagulação e marcador de fase aguda.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso em tubo com citrato de sódio 3,2% (tampa azul)
Resultado em
2–4 horas
Código TUSS
40304108
Especialidade
Hematologia / Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Avaliação pré-operatória de risco hemorrágico CID Z01.6
  • Diagnóstico e monitoramento de coagulação intravascular disseminada (CIVD) CID D65
  • Investigação de coagulopatias congênitas (hemofilia A e B, doença de von Willebrand) CID D66
  • Monitoramento de anticoagulação com warfarina (INR) CID Z79
  • Investigação de hepatopatia (avaliação da síntese hepática de fatores) CID K74
  • Investigação de sangramentos anormais ou espontâneos CID D68
  • Avaliação em sepse grave e choque séptico CID A41
  • Investigação de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar CID I26
  • Gestantes com pré-eclâmpsia grave ou HELLP CID O14
  • Trauma grave com sangramento ativo (damage control) CID T14
  • Diagnóstico de deficiência de vitamina K CID E56
  • Monitoramento de anticoagulação com heparina não fracionada (TTPA) CID Z79

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Tubo de citrato de sódio 3,2% deve ser preenchido exatamente até a linha de demarcação — volume insuficiente (excesso de citrato) prolonga falsamente TP e TTPA
  • Não coletar em cateter com heparina ou linha arterial sem descarte adequado das primeiras alíquotas (mínimo 5 mL)
  • Informar todos os anticoagulantes em uso: warfarina altera TP/INR, heparina não fracionada altera TTPA, DOACs podem interferir em ambos
  • Hemólise, lipemia intensa ou icterícia grave podem interferir nos métodos ópticos de coagulação
  • Processar a amostra em até 4 horas ou congelar plasma a -20°C para análise posterior
  • Evitar exercícios físicos intensos antes da coleta (pode elevar fator VIII transitoriamente)
  • Anotar temperatura do paciente: hipotermia grave causa coagulopatia in vivo que pode não ser detectada in vitro (exames realizados a 37°C)
  • Em pacientes com anticoagulante lúpico, o TTPA pode estar falsamente prolongado sem coagulopatia real

Valores de Referência

Valores de referência do Coagulograma Completo: TP, TTPA, Fibrinogênio e Plaquetas – Guia Clínico
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Tempo de Protrombina (TP)11–14 segundos11–14 segundos11–16 segundossegundos
Atividade de Protrombina70–120%70–120%70–120%%
INR (anticoagulados)2,0–3,0 (fibrilação atrial/TVP); 2,5–3,5 (prótese valvar mecânica)2,0–3,0 (fibrilação atrial/TVP); 2,5–3,5 (prótese valvar mecânica)Não aplicável rotineiramente
INR (sem anticoagulação)0,8–1,20,8–1,20,8–1,3
TTPA25–40 segundos25–40 segundos25–45 segundossegundos
Relação TTPA (rTTPA)0,8–1,20,8–1,20,8–1,2
TTPA terapêutico (heparina)1,5–2,5x o valor de referência do laboratório1,5–2,5x o valor de referência do laboratório1,5–2,5x o valor de referência do laboratóriosegundos
Fibrinogênio (Clauss)200–400 mg/dL200–400 mg/dL (gestantes: até 600 mg/dL)150–400 mg/dLmg/dL
Tempo de Trombina (TT)14–19 segundos14–19 segundos14–21 segundossegundos
Plaquetas (associado)150.000–400.000/mm³150.000–400.000/mm³150.000–450.000/mm³/mm³

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Coagulograma Completo: TP, TTPA, Fibrinogênio e Plaquetas – Guia Clínico
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
TP/INR prolongado + TTPA normalDeficiência isolada de fator VII (via extrínseca) — o mais comum na hepatopatia inicial e na deficiência de vitamina K Avaliar função hepática completa; dosar vitamina K; se hepatopatia grave, solicitar painel hepático e considerar biópsia
TTPA prolongado + TP normalDeficiência de fatores da via intrínseca: VIII (hemofilia A), IX (hemofilia B), XI, XII, von Willebrand; ou anticoagulante lúpico Teste de correção com plasma normal (mixing test): corrige → deficiência de fator; não corrige → inibidor. Dosagem de fatores VIII, IX, XI. Se suspeita de anticoagulante lúpico, solicitar anticardiolipina e anticoagulante lúpico
TP/INR e TTPA prolongados + fibrinogênio reduzido + plaquetas baixasCoagulação Intravascular Disseminada (CIVD) — consumo global dos fatores de coagulação Tratar causa base (sepse, trauma, placenta abrupta, neoplasia). Solicitar D-dímero, esquizócitos no sangue periférico. Reposição com PFC, crioprecipitado e concentrado de plaquetas conforme protocolo
TP/INR e TTPA prolongados + fibrinogênio normal + plaquetas normaisDeficiência de fatores da via comum (fator X, V, II, I) ou hepatopatia grave com múltipla deficiência de fatores Avaliar hepatopatia grave (Child-Pugh, MELD), dosar fatores individuais, verificar vitamina K sérica
INR entre 2,0–3,0 em paciente em uso de warfarinaAnticoagulação terapêutica adequada para a maioria das indicações (FA, TVP, EP) Manter dose de warfarina atual; reavaliar INR em 4 semanas se estável ou conforme protocolo institucional
INR > 4,0 em uso de warfarina sem sangramentoAnticoagulação excessiva — risco hemorrágico elevado Suspender warfarina por 1–2 doses; avaliar reversão com vitamina K oral (1–2,5 mg) se INR > 5,0 sem sangramento; repetir INR em 24–48h
Fibrinogênio < 100 mg/dL isoladoDisfibrinogenemia congênita, hepatopatia grave (insuficiência hepática fulminante), CIVD avançada Repor com crioprecipitado (cada unidade eleva fibrinogênio ~7–10 mg/dL em adulto de 70 kg); investigar causa base
TTPA > 2,5x com heparina não fracionadaAnticoagulação excessiva com heparina não fracionada — risco de sangramento Reduzir infusão de heparina; em sangramento ativo, reverter com sulfato de protamina (1 mg por 100 UI de heparina)

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Coagulograma Completo: TP, TTPA, Fibrinogênio e Plaquetas – Guia Clínico
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
TP↑ + TTPA normal + plaquetas normaisDeficiência de fator VII, deficiência de vitamina K inicial, hepatopatia leve, uso de warfarinaPainel hepático, dosagem de vitamina K, dosagem de fator VII, histórico de medicamentosHematologia / Gastroenterologia
TTPA↑ + TP normal + plaquetas normaisHemofilia A (F VIII), hemofilia B (F IX), doença de von Willebrand, deficiência F XI/XII, anticoagulante lúpico, heparinaMixing test, dosagem de fatores VIII, IX, XI, atividade de von Willebrand, anticoagulante lúpicoHematologia
TP↑ + TTPA↑ + fibrinogênio↓ + plaquetas↓CIVD (sepse, trauma, neoplasia, complicação obstétrica, hepatopatia fulminante)D-dímero, hemograma com esquizócitos, lactato, hemocultura, fator V, fibrinogênio seriadoHematologia / UTI
TP↑ + TTPA↑ + fibrinogênio normal + plaquetas normaisDeficiência de fatores da via comum (F X, V, II), hepatopatia grave, deficiência grave de vitamina KDosagem de fatores V, X, II; vitamina K; painel hepático; MELD/Child-PughHematologia / Hepatologia
Plaquetas↓ + coagulograma normalPTI, PTT, HIT, hiperesplenismo, aplasia medular, quimioterapia, infecção viral (dengue, HIV)Hemograma, esfregaço, LDH, haptoglobina, anticorpos anti-plaquetários, pesquisa de dengueHematologia
INR > 3,5 em uso de warfarinaSuperdosagem, interação medicamentosa (antibióticos, azólicos, amiodarona), insuficiência hepática intercorrente, diarreia prolongada (↓ vitamina K)Revisão de medicamentos, painel hepático, INR seriadoClínica Médica / Cardiologia
TTPA↑ corrige com plasma normal (mixing test positivo)Deficiência de fator da via intrínseca ou comum (hemofilia, déficit adquirido)Dosagem individual de fatores VIII, IX, XI, XII, X, V, IIHematologia
TTPA↑ não corrige com plasma normal (mixing test negativo)Inibidor circulante: anticoagulante lúpico, inibidor adquirido anti-FVIIIAnticoagulante lúpico, anticardiolipina, anti-beta2-glicoproteína I, dosagem de anti-FVIIIHematologia / Reumatologia

Medicamentos e Interferentes

  • Tubo de citrato de sódio insuficientemente preenchido: relação citrato/sangue incorreta prolonga artificialmente TP e TTPA
  • Lipemia intensa: interfere nos métodos ópticos de coagulação
  • Hemólise: pode liberar fosfolipídios e encurtar falsamente o TTPA
  • Hematócrito >55% ou <20%: requer ajuste do volume de citrato
  • Heparina residual em cateter venoso central: prolonga TTPA e pode prolongar TP
  • Anticoagulante lúpico: prolonga TTPA in vitro sem risco hemorrágico real — representa paradoxalmente estado pró-trombótico
  • DOACs (rivaroxabana, apixabana, dabigatrana): podem prolongar TP e/ou TTPA em graus variáveis dependendo da droga e do método laboratorial
  • Temperatura de armazenamento: amostras a temperatura ambiente >4h ou refrigeradas >24h podem subestimar atividade de fatores lábeis (V e VIII)

Contextos Clínicos Especiais

Gestantes

Na gestação, o fibrinogênio fisiologicamente eleva-se para 400–600 mg/dL (estado pró-trombótico adaptativo). O TP e TTPA geralmente permanecem normais. Na síndrome HELLP, há consumo de plaquetas e fatores; na CIVD obstétrica (descolamento de placenta, embolia por líquido amniótico), há coagulopatia grave com queda rápida do fibrinogênio — valor <150 mg/dL em gestante é sinal de alarme.

Recém-nascidos

Recém-nascidos apresentam deficiência fisiológica de fatores dependentes de vitamina K (II, VII, IX, X) ao nascimento, com TP e TTPA prolongados nos primeiros dias de vida. A doença hemorrágica do recém-nascido é prevenida pela administração de vitamina K ao nascer. Em prematuros, os valores de referência diferem dos adultos; interpretar sempre com tabelas específicas para a faixa etária e idade gestacional.

Hepatopatas

O fígado sintetiza a maioria dos fatores de coagulação (I, II, V, VII, VIII parcialmente, IX, X, XI, XII, XIII). Na cirrose, o TP/INR eleva-se progressivamente conforme a função sintética declina — é componente do escore de Child-Pugh e MELD. Contudo, hepatopatas têm coagulação 'reequilibrada' (queda tanto de pró-coagulantes quanto de anticoagulantes naturais como proteína C e S), não sendo necessariamente hemorrágicos. O INR isolado não prediz risco de sangramento em cirrose.

Pacientes em anticoagulação oral

O INR é o padrão de monitoramento da warfarina e acenocumarol. Metas: 2,0–3,0 para FA, TVP/EP, próteses valvares biológicas; 2,5–3,5 para próteses valvares mecânicas de alto risco. Interações medicamentosas são extremamente comuns (antibióticos, antifúngicos, amiodarona, AINEs). Pacientes bem controlados necessitam de INR mensal; instáveis, semanal.

Pacientes em UTI/Trauma

Em trauma grave e cirurgia de grande porte, a coagulopatia aguda do trauma (CAT) pode instalar-se rapidamente. A tromboelastografia (TEG) e ROTEM são superiores ao coagulograma convencional para guiar reposição hemostática em tempo real. O conceito de damage control resuscitation preconiza reposição precoce de concentrado de hemácias, PFC e plaquetas na proporção 1:1:1.

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Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Levi M, Scully M. How I treat disseminated intravascular coagulation. Blood. 2018;131(8):845-854. 10.1182/blood-2017-10-804096
  2. Keeling D, Baglin T, Tait C, et al. Guidelines on oral anticoagulation with warfarin. Br J Haematol. 2011;154(3):311-324. 10.1111/j.1365-2141.2011.08753.x
  3. Tripodi A, Mannucci PM. The coagulopathy of chronic liver disease. N Engl J Med. 2011;365(2):147-156. 10.1056/NEJMra1011170
  4. Srivastava A, Santagostino E, Dougall A, et al. WFH Guidelines for the Management of Hemophilia, 3rd edition. Haemophilia. 2020;26(Suppl 6):1-158. 10.1111/hae.14046
  5. Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia. Diretrizes para o diagnóstico e tratamento da coagulação intravascular disseminada. Rev Bras Hematol Hemoter. 2013;35(6).

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