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Gastroenterologia/Hepatologia

Painel Hepático Completo: TGO, TGP, FA, GGT e Bilirrubinas – Guia Clínico: Interpretação Clínica e Indicações

O painel hepático (também chamado de perfil hepático ou provas de função hepática) é um conjunto de exames laboratoriais que avalia a integridade dos hepatócitos, o fluxo biliar e a capacidade sintética do fígado. Os principais parâmetros incluem: transaminases (TGO/AST e TGP/ALT), marcadores de colestase (fosfatase alcalina — FA e gama-glutamil-transferase — GGT), bilirrubinas totais e frações (direta e indireta), albumina sérica e tempo de protrombina. Cada parâmetro reflete um aspecto diferente da função hepática: as transaminases indicam lesão hepatocelular; FA e GGT refletem obstrução biliar ou colestase; bilirrubinas avaliam o metabolismo do heme e a excreção biliar; albumina e TP medem a síntese hepática. A interpretação em conjunto, classificando o padrão como hepatocelular, colestático ou misto, permite estreitar o diagnóstico diferencial e guiar a investigação subsequente.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso em tubo de soro (tampa amarela ou vermelha) ou gel separador
Resultado em
2–6 horas
Jejum
Sim
Código TUSS
40304434
Especialidade
Gastroenterologia / Hepatologia / Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de icterícia (diagnóstico diferencial entre hepatocelular e obstrutiva) CID R17
  • Diagnóstico e estadiamento de hepatite viral aguda e crônica CID B17
  • Avaliação de hepatopatia alcoólica (doença hepática gordurosa alcoólica) CID K70
  • Diagnóstico e monitoramento de NASH/MASLD (esteatohepatite não alcoólica) CID K75
  • Investigação de colestase intra ou extra-hepática CID K83
  • Monitoramento de hepatotoxicidade por medicamentos CID K71
  • Investigação de cirrose hepática e hipertensão portal CID K74
  • Avaliação de insuficiência hepática aguda CID K72
  • Rastreamento de doença hepática em populações de risco (diabetes, obesidade, HCV, etilismo) CID Z13
  • Check-up de rotina e pré-operatório CID Z01
  • Investigação de doença de Wilson e hemocromatose hereditária CID E83
  • Monitoramento de uso de estatinas, metotrexato, isoniazida e outros hepatotóxicos CID K71

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Jejum de 8–12 horas recomendado (especialmente quando associado a glicemia e lipídios no mesmo painel)
  • Evitar exercícios físicos intensos nas 24h anteriores — TGO/AST é abundante no músculo estriado e pode elevar-se após exercício
  • Informar todos os medicamentos em uso: estatinas, paracetamol, metotrexato, isoniazida, amiodarona, ácido valproico e outros hepatotóxicos
  • Evitar ingestão de álcool nas 48h anteriores — álcool eleva GGT de forma aguda e pode alterar o padrão do painel
  • Proteger o tubo de bilirrubinas da luz solar direta durante transporte e processamento
  • Hemólise eleva falsamente TGO/AST — processar amostra rapidamente e rejeitá-la se hemolisada
  • Anotar quadro clínico relevante (icterícia, dor em hipocôndrio direito, etilismo, medicamentos, tempo de sintomas) para o laudista
  • Lipemia intensa pode interferir na dosagem de bilirrubinas por métodos colorimétricos

Valores de Referência

Valores de referência do Painel Hepático Completo: TGO, TGP, FA, GGT e Bilirrubinas – Guia Clínico
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
TGO (AST — Transaminase Oxaloacética)10–40 U/L10–32 U/L15–60 U/L (varia por idade)U/L
TGP (ALT — Transaminase Pirúvica)7–56 U/L7–35 U/L10–35 U/LU/L
Razão TGO/TGP (De Ritis)<1 (hepatite viral); >2 (hepatopatia alcoólica)<1 (hepatite viral); >2 (hepatopatia alcoólica)Variável
Fosfatase Alcalina (FA)40–130 U/L35–105 U/LAté 350 U/L (pico no crescimento)U/L
Gama-GT (GGT)8–61 U/L5–36 U/LVariável por faixa etáriaU/L
Bilirrubina Total0,3–1,2 mg/dL0,2–1,0 mg/dLAté 1,0 mg/dL (neonatos: valores específicos)mg/dL
Bilirrubina Direta (Conjugada)0–0,3 mg/dL (<20% da total)0–0,3 mg/dL (<20% da total)0–0,3 mg/dLmg/dL
Bilirrubina Indireta (Não conjugada)0,2–0,9 mg/dL0,2–0,7 mg/dLVariável por idademg/dL
Albumina Sérica3,5–5,0 g/dL3,5–5,0 g/dL3,5–5,0 g/dLg/dL
Proteínas Totais Séricas6,0–8,3 g/dL6,0–8,3 g/dL5,5–8,0 g/dLg/dL

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Painel Hepático Completo: TGO, TGP, FA, GGT e Bilirrubinas – Guia Clínico
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
TGP > TGO com aumento de 5–50x (padrão hepatocelular agudo)Hepatite aguda viral (A, B, C, E), hepatite autoimune, hepatotoxicidade medicamentosa grave, lesão isquêmica hepática (hepatite de choque) Solicitar sorologias para hepatite A, B, C, E; FAN e anti-músculo liso (hepatite autoimune); revisão de medicamentos; avaliação de função hepática com albumina e TP/INR
TGO > TGP com razão De Ritis > 2Hepatopatia alcoólica — a razão TGO/TGP > 2 tem sensibilidade de ~70% e especificidade de ~80% para doença hepática alcoólica Investigar etilismo; solicitar GGT (elevada em alcoólatras), VCM, CDT; orientar abstinência; avaliar elastografia ou biópsia hepática
FA e GGT elevadas com transaminases normais ou discretamente elevadas (padrão colestático)Colestase: intra-hepática (colangite biliar primária, CEP, medicamentos, colestase gestacional) ou extra-hepática (coledocolitíase, neoplasia biliopancreática, estenose biliar) USG abdominal para avaliação de vias biliares; se suspeita de CEP, solicitar p-ANCA; colangiorressonância magnética (CPRM) se dilatação de vias biliares; anti-mitocondriais para CBP
GGT isoladamente elevadaIngesta alcoólica recente, doença hepática gordurosa, colestase leve, uso de medicamentos indutores enzimáticos (fenitoína, carbamazepina, rifampicina), hipertireoidismo, pancreatite Correlacionar com GGT seriado (após abstinência alcoólica, normaliza em 2–4 semanas); USG abdominal; painel lipídico e glicemia para MASLD
Bilirrubina indireta elevada com bilirrubina direta e transaminases normaisHiperbilirrubinemia pré-hepática: hemólise (anemia hemolítica), síndrome de Gilbert (familiar, benigna, acentuada pelo jejum) Hemograma completo com reticulócitos para afastar hemólise; se reticulócitos normais e padrão familiar, considerar síndrome de Gilbert (benigna, sem tratamento)
Bilirrubina direta elevada com FA e GGT muito elevadas + transaminases discretasColestase obstrutiva extra-hepática: coledocolitíase, colangiocarcinoma, neoplasia de cabeça de pâncreas, estenose biliar pós-operatória USG abdominal urgente; TC/RM de abdome; CA 19-9 se suspeita de neoplasia pancreática; encaminhar Gastroenterologia/Cirurgia
Albumina baixa + TP prolongado + bilirrubina elevada + transaminases moderadasInsuficiência hepática ou hepatopatia crônica avançada (cirrose) — comprometimento da função sintética Calcular escore Child-Pugh e MELD; solicitar USG com Doppler portal; avaliar varizes de esôfago (endoscopia); encaminhar hepatologista; avaliar transplante hepático
FA muito elevada (> 3x LSN) com GGT normalOrigem óssea da FA: doença de Paget, metástases ósseas, hiperparatireoidismo, raquitismo, fratura em consolidação, puberdade (fisiológico) Dosar GGT (se normal, origem não hepática da FA); solicitar PTH, cálcio, fosfato; cintilografia óssea se suspeita de metástase
TGO muito elevada (> 10x LSN) com TGP relativamente menorLesão isquêmica hepática (hepatite de choque), hepatotoxicidade grave por paracetamol, síndrome de Budd-Chiari aguda, hepatite viral fulminante Avaliar perfusão hepática (Doppler); dosar TP/INR e albumina (função sintética); avaliar N-acetilcisteína se toxicidade por paracetamol; UTI se insuficiência hepática aguda

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Painel Hepático Completo: TGO, TGP, FA, GGT e Bilirrubinas – Guia Clínico
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
TGP > TGO, aumento > 5x LSN, bilirrubina elevada (padrão hepatite aguda)Hepatite A, B, C, E aguda; hepatite autoimune; hepatotoxicidade (paracetamol, isoniazida, halotano)Anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HBc IgM, anti-HCV, HCV-RNA, FAN, anti-músculo liso, dosagem de paracetamolGastroenterologia / Hepatologia
TGO > TGP (razão > 2) + GGT elevada + VCM aumentadoHepatopatia alcoólica: esteatose, hepatite alcoólica, cirrose alcoólicaTransferrina deficiente em carboidrato (CDT), USG abdominal, biópsia hepática se indicadoGastroenterologia / Hepatologia
FA + GGT muito elevadas + bilirrubina direta elevada + USG com vias biliares dilatadasColedocolitíase, colangiocarcinoma, neoplasia de pâncreas, estenose biliarCPRM ou CPRE, CA 19-9, CEA, TC multifásico de abdomeGastroenterologia / Cirurgia
FA + GGT moderadamente elevadas + anticorpos anti-mitocondriais (AMA) positivosColangite biliar primária (CBP), antiga cirrose biliar primáriaAnti-AMA M2 (específico), IgM elevada, biópsia hepática, elastografiaHepatologia
FA + GGT elevadas + p-ANCA positivo + jovem com DIIColangite esclerosante primária (CEP) — associação forte com retocolite ulcerativaCPRM (aspecto em miçangas das vias biliares), colonoscopia com biópsia, biópsia hepáticaHepatologia / Gastroenterologia
Transaminases moderadas + albumina baixa + TP prolongado + cirrótico descompensadoCirrose hepática com insuficiência hepática, peritonite bacteriana espontânea, hepatite alcoólica sobre cirroseParacentese diagnóstica, MELD, Child-Pugh, USG com Doppler, endoscopia digestiva altaHepatologia
TGO e TGP muito elevadas (> 1000 U/L) com bilirrubina moderadaHepatite isquêmica (choque, ICC grave), hepatotoxicidade maciça (paracetamol), síndrome de Budd-Chiari aguda, hepatite viral fulminanteDoppler hepático, TP/INR, lactato, fator V, sorologia vírus, dosagem de paracetamolHepatologia / UTI
Bilirrubina indireta elevada, hemograma com anemia, reticulócitos elevadosAnemia hemolítica: autoimune, microangiopática, eritrocitária (esferocitose, G6PD, drepanocitose)Coombs direto, LDH, haptoglobina, esfregaço, G6PD, eletroforese de hemoglobinaHematologia

Medicamentos e Interferentes

  • Hemólise da amostra: eleva falsamente TGO/AST (eritrócitos têm alta concentração de AST)
  • Lipemia intensa: interfere em dosagens colorimétricas de bilirrubina e albumina
  • Exercício físico intenso: eleva TGO/AST nas 24–48h seguintes (origem muscular)
  • Medicamentos: múltiplos fármacos podem elevar transaminases e GGT — documentar rigorosamente
  • Jejum prolongado (>24h): pode elevar bilirrubina indireta em portadores de síndrome de Gilbert
  • Gravidez: FA placentária eleva fosfatase alcalina total no 3º trimestre (até 2x LSN — fisiológico)
  • Macro-AST e macro-ALT: isoformas ligadas a imunoglobulinas que elevam os valores sem doença hepática — considerar em elevações persistentes isoladas sem correlação clínica
  • Albumina como reagente de fase aguda negativa: estados inflamatórios agudos reduzem albumina independentemente da função sintética hepática

Contextos Clínicos Especiais

Gestantes

Na gravidez normal, a FA pode elevar-se até 2x o limite superior por produção placentária (3º trimestre). TGP e TGO normalmente permanecem inalteradas. Elevação de transaminases na gestação exige investigação imediata de colestase intra-hepática da gestação (GGT e ácidos biliares elevados, prurido), síndrome HELLP (TGO/TGP > 2x + trombocitopenia + hemólise), esteatose hepática aguda da gestação (insuficiência hepática aguda grave) e hepatite viral. Colestase gestacional exige monitoramento fetal intensivo.

Crianças e adolescentes

Em crianças e adolescentes em fase de crescimento, a FA pode ser muito elevada (até 3–5x o valor adulto) sem doença hepática ou óssea — origem na isoforma óssea durante o crescimento. Interpretar sempre com valores de referência pediátricos específicos para a faixa etária. Hepatite autoimune é mais comum em meninas adolescentes. Doença de Wilson (depósito de cobre) deve ser investigada em crianças e jovens adultos com hepatite e anemia hemolítica.

Idosos

Em idosos, polifarmácia é causa frequente de alterações no painel hepático (estatinas, amiodarona, metformina, alopurinol, metildopa). Neoplasias hepáticas primárias e metástases hepáticas devem ser sempre consideradas em elevação de FA e GGT em idosos. A hepatite C crônica com fibrose avançada é prevalente nessa geração e pode ser oligossintomática.

Transplantados hepáticos

Em transplantados hepáticos, o painel hepático é monitorado semanalmente no pós-operatório imediato e mensalmente na manutenção. Elevação de transaminases pode indicar rejeição aguda celular (padrão hepatocelular), colangiopatia isquêmica (padrão colestático) ou infecção (CMV, EBV). A biópsia hepática é o padrão-ouro para diagnóstico de rejeição. GGT isolada elevada pode indicar toxicidade por tacrolimus ou ciclosporina.

Pacientes em uso de estatinas

Estatinas causam elevação de transaminases em 0,5–3% dos pacientes, geralmente leve e transitória. A monitorização rotineira do painel hepático não é mais recomendada para a maioria dos pacientes em uso de estatinas segundo as diretrizes atuais — apenas se houver sintomas sugestivos de hepatotoxicidade. A hepatotoxicidade grave por estatinas (elevação > 3x LSN com sintomas) requer suspensão da droga.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

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  2. Prati D, Taioli E, Zanella A, et al. Updated definitions of healthy ranges for serum alanine aminotransferase levels. Ann Intern Med. 2002;137(1):1-10. 10.7326/0003-4819-137-1-200207020-00006
  3. Chalasani N, Younossi Z, Lavine JE, et al. The diagnosis and management of nonalcoholic fatty liver disease: Practice guidance from the American Association for the Study of Liver Diseases. Hepatology. 2018;67(1):328-357. 10.1002/hep.29367
  4. Bernal W, Wendon J. Acute liver failure. N Engl J Med. 2013;369(26):2525-2534. 10.1056/NEJMra1208937
  5. European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines: management of cholestatic liver diseases. J Hepatol. 2009;51(2):237-267. 10.1016/j.jhep.2009.04.009

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