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Gastroenterologia

Albumina sérica: Interpretação Clínica e Indicações

A albumina sérica é uma proteína de síntese hepática fundamental para a manutenção da pressão oncótica plasmática, transporte de hormônios, fármacos e metabólitos. Sua dosagem é um marcador sensível da função sintética do fígado e do estado nutricional proteico, sendo amplamente utilizada na prática clínica para estadiamento de doenças hepáticas crônicas (escore Child-Pugh), monitoramento de desnutrição proteico-calórica e avaliação de síndromes edematosas. Também conhecida como albumina plasmática, é indicada para médicos generalistas, gastroenterologistas, intensivistas e nutricionistas em cenários de insuficiência hepática, cirrose, síndrome nefrótica, queimaduras extensas e pacientes críticos.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou tubo com gel separador
Resultado em
2–6 horas (métodos automatizados em plataformas como Beckman Coulter AU, Roche Cobas)
Código TUSS
40312079
Especialidade
Gastroenterologia / Clínica Médica / Nutrologia

Quando solicitar este exame?

  • Estadiamento da cirrose hepática e cálculo do escore Child-Pugh para avaliação prognóstica e priorização de transplante CID K74.6
  • Avaliação de desnutrição proteica em pacientes hospitalizados, idosos ou com doenças crônicas debilitantes CID E46
  • Investigação de hipoalbuminemia em síndrome nefrótica com proteinúria maciça (>3,5 g/dia) CID N04
  • Monitoramento de pacientes com hepatite alcoólica grave ou hepatite autoimune em tratamento imunossupressor CID K70.1
  • Avaliação de edemas generalizados (anasarca) de etiologia indeterminada para diferenciar causas hepáticas, renais ou nutricionais CID R60.1
  • Triagem de disfunção hepática em pacientes com ascite de novo ou icterícia progressiva CID R18
  • Acompanhamento nutricional de pacientes submetidos a cirurgia bariátrica ou com doenças inflamatórias intestinais graves CID K50.0
  • Avaliação pré-operatória de risco cirúrgico em pacientes com suspeita de reserva hepática comprometida CID Z01.81
  • Monitoramento de resposta ao tratamento nutricional enteral ou parenteral em UTI CID Z51.0
  • Investigação de hipoproteinemia em queimaduras extensas (>20% da superfície corporal) CID T30.0

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise moderada a grave — interfere na absorbância do método colorimétrico, causando falsa elevação da albumina
  • Lipemia intensa (triglicerídeos >1000 mg/dL) — causa turbidez que interfere na leitura espectrofotométrica, podendo elevar ou reduzir resultados
  • Hiperbilirrubinemia significativa (bilirrubina total >20 mg/dL) — compete com o corante no método, causando falsa redução
  • Uso de garrote prolongado (>1 minuto) — causa hemoconcentração e aumento relativo da albumina em até 10%
  • Coleta em tubo com EDTA ou citrato — anticoagulantes quelantes interferem no método, invalidando a amostra

Valores de Referência

Valores de referência do Albumina sérica
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Albumina sérica3,5–5,03,5–5,03,8–5,4 (1-18 anos, valores similares aos adultos)g/dL

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Albumina sérica
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Albumina <3,5 g/dL (hipoalbuminemia leve a moderada)Sugere redução da síntese hepática (cirrose, hepatite crônica), perda renal (síndrome nefrótica), perda gastrointestinal (enteropatia perdedora de proteínas) ou hipercatabolismo (sepse, queimaduras) Solicitar proteinúria de 24h ou relação proteína/creatinina urinária, painel hepático completo e avaliação nutricional
Albumina <2,5 g/dL (hipoalbuminemia grave)Associada a alto risco de complicações: ascite refratária, infecções, má cicatrização e mortalidade aumentada em cirróticos Avaliar urgente para transplante hepático se Child-Pugh C, iniciar suporte nutricional agressivo e investigar causas secundárias
Albumina >5,0 g/dL (hiperalbuminemia)Geralmente por desidratação (hemoconcentração) ou raramente por gamopatia monoclonal (interferência analítica)
Albumina normal (3,5–5,0 g/dL) em paciente com suspeita de doença hepática avançadaNão exclui cirrose compensada (Child-Pugh A) ou hepatopatia crônica em fase inicial Complementar com outros marcadores de função hepática (bilirrubinas, INR) e métodos de imagem (USG abdominal, FibroScan)
Queda rápida da albumina (>0,5 g/dL em 1 semana) em paciente críticoSugere hipercatabolismo por resposta inflamatória sistêmica (sepse, pancreatite) ou agravamento de doença de base Monitorar PCR, procalcitonina e avaliar necessidade de suporte nutricional precoce
Albumina baixa com proteinas totais normais ou elevadasSugere gamopatia monoclonal (aumento de globulinas mascarando a hipoalbuminemia) ou processo inflamatório crônico Solicitar eletroforese de proteínas séricas e pesquisa de proteína de Bence-Jones na urina

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Albumina sérica
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Hipoalbuminemia isolada sem outras alterações hepáticasSíndrome nefrótica, enteropatia perdedora de proteínas, desnutrição primáriaProteinúria de 24h, relação proteína/creatinina urinária, albumina fecal, avaliação antropométricaNefrologia / Gastroenterologia / Nutrologia
Hipoalbuminemia com elevação de TGO/TGPHepatite crônica ativa, cirrose hepática, hepatite alcoólicaPainel hepático completo, sorologias virais, autoanticorpos, FibroScanGastroenterologia / Hepatologia
Hipoalbuminemia com INR prolongadoInsuficiência hepática grave, deficiência de vitamina K, coagulopatia de consumoCoagulograma completo, fator V, vitamina K sérica, prova de correçãoHematologia / Gastroenterologia
Hipoalbuminemia com hipocalcemiaHipoalbuminemia falsa (cálcio corrigido normal), pancreatite aguda, hipoparatireoidismoCálcio ionizado, amilase/lipase, PTH, albumina corrigida para cálcioEndocrinologia / Gastroenterologia
Hipoalbuminemia com edema generalizado (anasarca)Síndrome nefrótica, cirrose com ascite, insuficiência cardíaca direita, mixedemaEcocardiograma, USG abdominal, TSH, albumina urináriaCardiologia / Nefrologia / Gastroenterologia

Medicamentos e Interferentes

  • Corticosteroides em altas doses — estimulam a síntese hepática de albumina, podendo elevar levemente os níveis
  • Insulina — promove síntese proteica hepática, com possível aumento em diabéticos bem controlados
  • Estrogênios (terapia de reposição) — reduzem levemente a síntese hepática, podendo diminuir os níveis
  • Anti-inflamatórios não esteroidais — podem causar nefropatia com perda urinária de albumina em uso crônico
  • Heparina — interfere em alguns métodos analíticos, causando falsa redução se amostra coletada em tubo com heparina

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

Há diluição fisiológica do plasma, com redução média de 0,5–1,0 g/dL no terceiro trimestre. Valores <2,5 g/dL são patológicos e associados a pré-eclâmpsia, síndrome HELLP ou doença hepática gestacional. Monitorar com painel hepático e função renal.

Idoso

Redução fisiológica de 0,1–0,2 g/dL por década após os 60 anos, devido à diminuição da síntese hepática e massa muscular. Hipoalbuminemia <3,2 g/dL prediz fragilidade, infecções e mortalidade aumentada. Avaliar desnutrição sarcopênica e doenças crônicas.

Criança

Valores similares aos adultos a partir de 1 ano. Em lactentes, níveis <2,5 g/dL sugerem kwashiorkor, síndrome nefrótica congênita ou hepatopatias metabólicas. Monitorar crescimento e desenvolvimento.

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Hepatologia. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Hepatologia para o manejo da cirrose hepática. Arq Gastroenterol. 2023;60(Suppl 1):1-45. 10.1590/S0004-2803.202300501-01
  2. European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines on nutrition in chronic liver disease. J Hepatol. 2019;70(1):172-193. 10.1016/j.jhep.2018.06.024
  3. KDIGO. KDIGO Clinical Practice Guideline for Glomerulonephritis. Kidney Int Suppl. 2012;2(2):139-274. 10.1038/kisup.2012.9
  4. Guyton AC, Hall JE. Textbook of Medical Physiology. 14th ed. Elsevier; 2020:855-870.
  5. SBPC/ML. Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial para coleta e processamento de amostras biológicas. 2022.

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