TGP (ALT): Interpretação Clínica e Indicações
A TGP (transaminase glutâmico-pirúvica), também conhecida como ALT (alanina aminotransferase), é uma enzima intracelular predominantemente hepática, sendo o marcador bioquímico mais específico para lesão hepatocelular na prática clínica. Avalia a integridade dos hepatócitos, com elevações indicando necrose ou inflamação hepática. É clinicamente relevante para diagnóstico, monitoramento e prognóstico de doenças hepáticas agudas e crônicas, como hepatites virais, doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) e hepatotoxicidade medicamentosa. Indicada para médicos generalistas, gastroenterologistas e residentes na investigação de síndromes hepáticas, sendo essencial na abordagem inicial de pacientes com suspeita de disfunção hepática.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de hepatite aguda com icterícia, astenia e colúria CID B15
- Monitoramento de hepatite crônica B ou C em terapia antiviral CID B18
- Avaliação de doença hepática gordurosa não alcoólica em paciente com obesidade e resistência insulínica CID K76.0
- Triagem de hepatotoxicidade por medicamentos como paracetamol, amiodarona ou estatinas CID K71
- Acompanhamento de hepatite autoimune com fadiga e elevação de gamaglobulinas CID K75.4
- Investigação de cirrose hepática compensada com ascite e esplenomegalia CID K74.6
- Avaliação de colestase intra-hepática na gestação com prurido intenso CID O26.6
- Monitoramento de hepatite alcoólica em paciente com consumo crônico e dor abdominal CID K70.1
- Triagem de doença de Wilson em jovem com tremor e anel de Kayser-Fleischer CID E83.0
- Avaliação de hepatite isquêmica pós-choque circulatório com hipotensão persistente CID K76.2
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise da amostra — libera ALT eritrocitária, causando pseudo-elevação de até 10 vezes
- Lipemia intensa — interfere na absorbância espectrofotométrica, podendo causar falsa redução
- Icterícia marcada — bilirrubina elevada compete na reação enzimática, levando a subestimação
- Armazenamento inadequado — degradação enzimática se mantido em temperatura ambiente >24h, reduzindo valores
- Uso de anticoagulantes como EDTA ou heparina — inibem a atividade enzimática, resultando em falsa redução
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| TGP (ALT) | 10–40 U/L | 7–35 U/L | 5–30 U/L (1–12 anos) | U/L |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| Elevação leve (1,5–3x o limite superior) | Sugere hepatite crônica, DHGNA ou hepatotoxicidade medicamentosa inicial | Solicitar painel hepático completo, ultrassonografia abdominal e sorologias virais |
| Elevação moderada a grave (>5x o limite superior) | Indica hepatite aguda viral, autoimune ou isquêmica | Investigar com sorologias (hepatite A, B, C), autoanticorpos e gasometria arterial |
| Elevação desproporcional em relação à TGO (ALT > TGO) | Padrão sugestivo de hepatite viral ou tóxica | Avaliar história de exposição a vírus ou medicamentos hepatotóxicos |
| Normalização após elevação prévia | Pode indicar resolução da hepatite aguda ou progressão para cirrose | Monitorar com exames de função hepática e elastografia hepática |
| Valor persistentemente normal em paciente com doença hepática conhecida | Pode refletir cirrose avançada com pouca massa hepatocelular remanescente | Avaliar com exames de função sintética (albumina, TP) e imagem |
| Elevação isolada sem outros achados hepáticos | Pode ser miopatia ou exercício físico intenso recente | Dosar CK e mioglobina para descartar origem muscular |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| ALT > 1000 U/L | Hepatite viral aguda, hepatite isquêmica, hepatite tóxica | Sorologias virais, acetaminofeno sérico, ecografia Doppler hepático | Gastroenterologia / Infectologia |
| ALT 100–300 U/L crônica | DHGNA, hepatite C crônica, hepatite autoimune | Elastografia hepática, sorologia HCV, autoanticorpos (ANA, LKM) | Gastroenterologia |
| ALT elevada com bilirrubina normal | Hepatite crônica compensada, miopatia | CK, mioglobina, painel hepático completo | Clínica Médica / Reumatologia |
| ALT normal com elevação de FA e GGT | Colestase intra ou extra-hepática | CPRE, RM colangiopancreatografia | Gastroenterologia |
| ALT discretamente elevada em gestante | Colestase gravídica, pré-eclâmpsia HELLP | Ácidos biliares séricos, pressão arterial, proteinúria | Obstetrícia / Gastroenterologia |
Medicamentos e Interferentes
- Estatinas (sinvastatina, atorvastatina) — hepatotoxicidade dose-dependente, eleva ALT em 1–3% dos usuários
- Anticonvulsivantes (fenitoína, carbamazepina) — induzem citocromo P450, causando hepatite idiossincrática
- Suplementos de ervas (kava, chaparral) — toxicidade mitocondrial direta, elevação marcada
- Corticosteroides em altas doses — esteatose hepática, elevação leve a moderada
- Deficiência de piridoxina — reduz atividade enzimática, causando falsa redução
Contextos Clínicos Especiais
Gestante
Valores de referência podem ser 20–30% menores devido à hemodiluição fisiológica. Elevações > 100 U/L devem investigar colestase gravídica, pré-eclâmpsia HELLP ou hepatite viral aguda. A monitorização seriada é crucial para diferenciar alterações fisiológicas de patológicas.
Criança
Valores normais são mais baixos que em adultos, com variação por idade. Elevações persistentes podem indicar hepatite autoimune, doença de Wilson ou deficiência de alfa-1-antitripsina. A investigação deve incluir exames metabólicos e genéticos específicos.
Idoso
Pode haver redução fisiológica da ALT com o envelhecimento. Elevações devem ser interpretadas com cautela, pois doenças hepáticas podem se apresentar atipicamente. Maior risco de hepatotoxicidade medicamentosa devido a polifarmácia e alterações no metabolismo hepático.
Exames Relacionados
- Se ALT > 1000 U/L com icterícia Gasometria Arterial
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Os valores de referência variam conforme o método laboratorial, mas geralmente são: homens 10–40 U/L e mulheres 7–35 U/L pelo método IFCC. Sempre confira os valores do laboratório local, pois podem haver diferenças de até 20% entre plataformas.
Elevação da TGP indica lesão hepatocelular, com necrose ou inflamação dos hepatócitos. Causas incluem hepatites virais, doença hepática gordurosa, hepatotoxicidade medicamentosa ou hepatite autoimune. O grau de elevação ajuda a diferenciar etiologias.
A TGP é mais específica para lesão hepática, enquanto a TGO também se eleva em miopatias e infarto agudo do miocárdio. Solicite TGP como primeiro marcador na suspeita de doença hepática, e TGO quando houver dúvida diagnóstica entre origem hepática e extra-hepática.
Não, a dosagem de TGP não requer jejum obrigatório. No entanto, lipemia pós-prandial intensa pode interferir no método analítico. Recomenda-se coleta preferencialmente em jejum de 4 horas para evitar interferências pré-analíticas.
Na hepatite viral aguda, a TGP geralmente ultrapassa 1000 U/L com elevação rápida. Na doença hepática gordurosa, os valores são moderados (50–150 U/L) e crônicos. A história clínica, sorologias e imagem são essenciais para confirmação.
Não, TGP normal não exclui doença hepática avançada. Em cirrose descompensada, a enzima pode estar normal devido à redução da massa hepatocelular. Avalie sempre com exames de função sintética (albumina, TP) e imagem.
Na hepatite alcoólica, a relação AST/ALT (TGO/TGP) é > 2, com TGP geralmente AST. A desproporção ocorre devido à deficiência de piridoxina no alcoolismo crônico.
Sim, elevações leves a moderadas podem ocorrer em miopatias (exercício intenso, polimiosite), infarto do miocárdio (geralmente com TGO mais elevada) ou doença celíaca. A dosagem de CK e avaliação clínica são necessárias para diferenciação.
Referências
- Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Diretrizes para coleta, processamento e interpretação de enzimas hepáticas. 2021.
- European Association for the Study of the Liver (EASL). Clinical Practice Guidelines on non-invasive tests for evaluation of liver disease severity and prognosis. J Hepatol. 2021;75(3):659-689. 10.1016/j.jhep.2021.05.025
- Kwo PY, Cohen SM, Lim JK. ACG Clinical Guideline: Evaluation of Abnormal Liver Chemistries. Am J Gastroenterol. 2017;112(1):18-35. 10.1038/ajg.2016.517
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral Crônica. 2020.
- Kaplan MM. Alanine aminotransferase levels: what's normal? Ann Intern Med. 2002;137(1):49-51. 10.7326/0003-4819-137-1-200207020-00012