TGO (AST) e TGP (ALT): Interpretação Clínica e Indicações
As transaminases TGO (transaminase glutâmico-oxalacética, também denominada AST — aspartato aminotransferase) e TGP (transaminase glutâmico-pirúvica, também denominada ALT — alanina aminotransferase) são os marcadores bioquímicos mais utilizados na avaliação de lesão hepatocelular. A TGP/ALT é predominantemente hepática, sendo mais específica para doença do fígado. A TGO/AST está presente no fígado, músculo cardíaco, músculo esquelético, rins, cérebro e eritrócitos, sendo menos específica. A elevação das transaminases pode ocorrer em diversas condições, desde causas benignas e transitórias até hepatite viral aguda grave, hepatite medicamentosa e doença hepática gordurosa não alcoólica. A magnitude e o padrão de elevação (hepatocelular vs. colestático), associados ao contexto clínico, são fundamentais para a interpretação e para guiar a investigação complementar.
Quando solicitar este exame?
- Diagnóstico e monitoramento de hepatites virais agudas e crônicas CID B15
- Investigação de hepatite alcoólica e doença hepática alcoólica CID K70
- Rastreamento e monitoramento de doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA/MAFLD) CID K76
- Monitoramento de hepatotoxicidade por medicamentos (estatinas, isoniazida, metotrexato) CID K71
- Avaliação pré-operatória em cirurgias abdominais e hepatectomias CID Z01
- Investigação de icterícia de causa não determinada CID R17
- Diagnóstico de insuficiência hepática aguda e cirrose hepática CID K72
- Avaliação de doença de Wilson e hemocromatose hereditária CID E83
- Avaliação de autoimunidade hepática (hepatite autoimune, CEP, CBP) CID K73
- Monitoramento de toxicidade hepática em quimioterapia e imunoterapia CID K71
- Investigação de dor abdominal em quadrante superior direito CID R10
- Rastreamento de complicações hepáticas no lúpus eritematoso sistêmico CID M32
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Não é necessário jejum; porém refeições muito gordurosas podem causar lipemia e interferir na leitura fotométrica
- Evitar exercício físico intenso nas 24–48h antes da coleta — pode elevar AST por lesão muscular
- Informar todos os medicamentos em uso, especialmente estatinas, antibióticos, anticonvulsivantes e fitoterápicos
- Informar consumo de álcool nas últimas 24–72 horas
- Rejeitar amostras hemolisadas (eritrócitos contêm AST em grande quantidade)
- Amostras lipêmicas podem interferir nos métodos fotométricos — ultracentrifugar ou reportar interferência
- Coleta de sangue venoso periférico (evitar coleta de veia femoral com dificuldade — pode causar hemólise)
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| TGO (AST) | 10 – 40 U/L | 10 – 32 U/L | Neonatos: até 97 U/L; 1–3 anos: 20–60; 4–15 anos: 15–40 U/L | U/L |
| TGP (ALT) | 7 – 56 U/L | 7 – 35 U/L | Neonatos: até 54 U/L; 1–15 anos: 5–45 U/L | U/L |
| Relação AST/ALT (De Ritis) | < 1 (normal); > 2 sugestivo de hepatopatia alcoólica | < 1 (normal); > 2 sugestivo de hepatopatia alcoólica | < 1 (normal) | ratio |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| AST e ALT > 10× LSN (acima de 10 vezes o limite superior da normalidade) | Padrão de lesão hepatocelular grave — hepatite viral aguda, isquemia hepática, hepatite medicamentosa grave | Solicitar anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HCV, PCR dos vírus, TP/INR, bilirrubinas, albumina; hospitalizar se sinais de insuficiência hepática |
| AST/ALT 2–10× LSN com relação AST/ALT > 2 | Sugestivo de hepatopatia alcoólica — razão de De Ritis elevada por deficiência de piridoxal-5-fosfato que afeta preferencialmente a ALT | Questionar consumo de álcool; solicitar GGT (marcador sensível de álcool), VCM, CDT; orientar abstinência |
| ALT persistentemente elevada (1,5–3× LSN) em paciente com obesidade/dislipidemia/diabetes | Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA/MAFLD) — causa mais comum de transaminases elevadas no mundo | Solicitar USG hepática, lipidograma, glicemia, insulinemia; avaliar fibrose com FIB-4 e elastografia; encaminhar hepatologista |
| ALT > 2× LSN assintomático em uso de medicamento hepatotóxico | Hepatotoxicidade medicamentosa (DILI — drug-induced liver injury) | Suspender o medicamento suspeito; monitorar TP/INR e bilirrubinas; aplicar escala RUCAM para causalidade; considerar biópsia se não houver melhora |
| AST elevada isoladamente sem elevação de ALT | Origem extra-hepática predominante — lesão muscular esquelética, IAM, hemólise, tireoidopatia | Solicitar CPK, LDH, troponina; excluir rabdomiólise, IAM, hemólise; investigar hipotireoidismo |
| Transaminases levemente elevadas + fosfatase alcalina e GGT muito elevadas | Padrão colestático — colestase intra ou extra-hepática (colelitíase, colangiopatia, CEP, CBP) | Solicitar bilirrubinas, GGT, FA, USG abdominal; considerar CPRE ou colangio-RM se obstrução biliar |
| Transaminases progressivamente elevadas + TP alargado + albumina baixa + bilirrubina elevada | Insuficiência hepática aguda ou cirrose descompensada — múltiplas disfunções sintéticas | Hospitalização urgente; avaliar MELD; solicitar sorologias completas; discutir com centro de transplante hepático |
| AST e ALT normalizadas após tratamento de hepatite viral ou retirada de fármaco | Resposta ao tratamento ou resolução de agressão hepática aguda | Confirmar sustentabilidade da resposta com dosagem seriada; monitorar sorologias de controle viral |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| AST e ALT > 10× LSN, surgimento agudo | Hepatite viral aguda (A, B, E), hepatite isquêmica, intoxicação por paracetamol | Anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HCV, anti-HEV, PCR viral, TP/INR, paracetamolemia, ecocardiograma | Hepatologia, Medicina Intensiva |
| AST/ALT 2–5× LSN, relação >2, GGT muito elevado | Hepatopatia alcoólica crônica, hepatite alcoólica aguda | GGT, VCM, CDT (transferrina deficiente em carboidratos), USG hepática, biópsia se indicado | Hepatologia, Gastroenterologia |
| ALT 1,5–3× LSN crônica + USG esteatose | DHGNA/MAFLD, resistência insulínica, obesidade visceral | Lipidograma, glicemia, insulina, HOMA-IR, FIB-4, elastografia hepática | Hepatologia, Endocrinologia |
| ALT > 5× LSN + hipergamaglobulinemia + FAN positivo | Hepatite autoimune | FAN, anti-músculo liso (ASMA), anti-LKM1, eletroforese de proteínas, biópsia hepática | Hepatologia |
| ALT aumentada + FA e GGT muito elevados + colestase | Colangite biliar primária (CBP), colangite esclerosante primária (CEP) | Anti-mitocôndria (AMA), ANCA, colangio-RM, CPRE, biópsia hepática | Hepatologia |
| AST e ALT elevadas em jovem com anemia hemolítica e psiquiátrico | Doença de Wilson | Ceruloplasmina sérica, cobre urinário 24h, ceruplasminúria, lâmpada de fenda (anéis de Kayser-Fleischer) | Hepatologia, Neurologia |
| AST muito elevada isolada + CPK muito elevado | Rabdomiólise, distrofia muscular, polimiosite | CPK total e frações, LDH, mioglobina urinária, aldolase, EMG, biópsia muscular | Clínica Médica, Neurologia |
| Transaminases elevadas após contraste com queda rápida | Hepatite isquêmica pós-hipotensão, crise de hepatite isquêmica por ICC descompensada | Troponina, BNP, ecocardiograma, LDH (marcadamente elevado), TP/INR | Cardiologia, Hepatologia |
Medicamentos e Interferentes
- Hemólise: eleva falsamente AST/TGO — eritrócitos contêm quantidades significativas de AST
- Exercício físico intenso: eleva AST por microlesão muscular; ALT menos afetada
- Lipemia intensa: pode interferir nos métodos fotométricos; ultracentrifugar amostra
- Vitamina B6 (piridoxal-5-fosfato): deficiência (comum em alcoolistas) subestima principalmente a ALT, pois é cofator da transaminase
- Macroenzimas (macro-AST): complexo entre AST e imunoglobulina — eleva persistentemente AST sem doença ativa, não requer tratamento
- Uremia grave: pode inibir enzimaticamente as transaminases, subestimando lesão hepática em pacientes dialíticos
- Medicamentos: rifampicina, fenitoína, carbamazepina e barbitúricos podem induzir elevação das transaminases por indução enzimática hepática
Contextos Clínicos Especiais
Pacientes em uso de estatinas
As estatinas podem elevar transitoriamente as transaminases em 1–3% dos pacientes. Elevações de até 3× LSN geralmente são benignas e não requerem suspensão. A monitorização de AST/ALT deve ser feita no início do tratamento e periodicamente. Elevação > 3× LSN persistente requer suspensão ou troca de estatina. A miopatia por estatinas (com elevação de CPK) é entidade distinta da hepatotoxicidade.
Gestantes
Durante a gestação normal, as transaminases devem permanecer dentro dos valores de referência habituais. A elevação de AST e ALT associada a hipertensão, trombocitopenia e hemólise na gestação configura síndrome HELLP — emergência obstétrica. A colestase intra-hepática da gestação cursa mais com FA e GGT elevados, com prurido, e as transaminases podem estar levemente aumentadas.
Pacientes com HIV em TARV
A TARV com efavirenz, nevirapina, ritonavir e abacavir pode causar hepatotoxicidade com elevação de transaminases. Em pacientes com coinfecção HIV/HCV ou HIV/HBV, a elevação das transaminases pode refletir tanto hepatotoxicidade da TARV quanto a progressão da hepatite viral. Monitorar transaminases a cada 3–6 meses em pacientes em uso de TARV.
Crianças e adolescentes
Valores de referência de AST são naturalmente mais elevados em neonatos e lactentes (até 97 U/L para AST). A DHGNA pediátrica tem crescido em prevalência paralelamente à epidemia de obesidade infantil. Em adolescentes com hepatopatia inexplicada, sempre investigar doença de Wilson (ceruloplasmina, cobre urinário) e hepatite autoimune.
Pacientes em quimioterapia e imunoterapia
Os inibidores de checkpoint imune (pembrolizumabe, nivolumabe, ipilimumabe) podem causar hepatite imunomediada com elevação de transaminases em 5–10% dos pacientes. O monitoramento de AST e ALT deve ser feito a cada ciclo. A hepatite imunomediada grau 3–4 (AST/ALT > 5–20× LSN) requer suspensão da imunoterapia e pulsoterapia com corticosteroide.
Exames Relacionados
- Suspeita de hepatite viral HBsAg e Anti-HCV
- Suspeita de doença alcoólica Gama-GT
- Insuficiência hepática suspeita Albumina Sérica
- AST elevada isolada CK e CK-MB
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Referências
- Kwo PY, Cohen SM, Lim JK. ACG Clinical Guideline: Evaluation of Abnormal Liver Chemistries. Am J Gastroenterol. 2017;112(1):18-35. 10.1038/ajg.2016.517
- Chalasani NP, et al. The diagnosis and management of nonalcoholic fatty liver disease: Practice guidance from the American Association for the Study of Liver Diseases. Hepatology. 2018;67(1):328-357. 10.1002/hep.29367
- Fontana RJ, et al. Drug-Induced Liver Injury Network (DILIN) Prospective Study. Drug Saf. 2009;32(1):55-68. 10.2165/00002018-200932010-00005
- Lee WM. Acute Liver Failure. N Engl J Med. 1993;329(25):1862-1872. 10.1056/NEJM199312163292508
- Mofrad P, et al. Clinical and histologic spectrum of nonalcoholic fatty liver disease associated with normal ALT values. Hepatology. 2003;37(6):1286-1292. 10.1053/jhep.2003.50229