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Gastroenterologia/Hepatologia

TGO (AST) e TGP (ALT): Interpretação Clínica e Indicações

As transaminases TGO (transaminase glutâmico-oxalacética, também denominada AST — aspartato aminotransferase) e TGP (transaminase glutâmico-pirúvica, também denominada ALT — alanina aminotransferase) são os marcadores bioquímicos mais utilizados na avaliação de lesão hepatocelular. A TGP/ALT é predominantemente hepática, sendo mais específica para doença do fígado. A TGO/AST está presente no fígado, músculo cardíaco, músculo esquelético, rins, cérebro e eritrócitos, sendo menos específica. A elevação das transaminases pode ocorrer em diversas condições, desde causas benignas e transitórias até hepatite viral aguda grave, hepatite medicamentosa e doença hepática gordurosa não alcoólica. A magnitude e o padrão de elevação (hepatocelular vs. colestático), associados ao contexto clínico, são fundamentais para a interpretação e para guiar a investigação complementar.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Soro (tubo seco ou com gel separador)
Resultado em
2–8 horas
Código TUSS
40317578 (AST/TGO) / 40317586 (ALT/TGP)
Especialidade
Gastroenterologia, Hepatologia, Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Diagnóstico e monitoramento de hepatites virais agudas e crônicas CID B15
  • Investigação de hepatite alcoólica e doença hepática alcoólica CID K70
  • Rastreamento e monitoramento de doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA/MAFLD) CID K76
  • Monitoramento de hepatotoxicidade por medicamentos (estatinas, isoniazida, metotrexato) CID K71
  • Avaliação pré-operatória em cirurgias abdominais e hepatectomias CID Z01
  • Investigação de icterícia de causa não determinada CID R17
  • Diagnóstico de insuficiência hepática aguda e cirrose hepática CID K72
  • Avaliação de doença de Wilson e hemocromatose hereditária CID E83
  • Avaliação de autoimunidade hepática (hepatite autoimune, CEP, CBP) CID K73
  • Monitoramento de toxicidade hepática em quimioterapia e imunoterapia CID K71
  • Investigação de dor abdominal em quadrante superior direito CID R10
  • Rastreamento de complicações hepáticas no lúpus eritematoso sistêmico CID M32

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Não é necessário jejum; porém refeições muito gordurosas podem causar lipemia e interferir na leitura fotométrica
  • Evitar exercício físico intenso nas 24–48h antes da coleta — pode elevar AST por lesão muscular
  • Informar todos os medicamentos em uso, especialmente estatinas, antibióticos, anticonvulsivantes e fitoterápicos
  • Informar consumo de álcool nas últimas 24–72 horas
  • Rejeitar amostras hemolisadas (eritrócitos contêm AST em grande quantidade)
  • Amostras lipêmicas podem interferir nos métodos fotométricos — ultracentrifugar ou reportar interferência
  • Coleta de sangue venoso periférico (evitar coleta de veia femoral com dificuldade — pode causar hemólise)

Valores de Referência

Valores de referência do TGO (AST) e TGP (ALT)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
TGO (AST)10 – 40 U/L10 – 32 U/LNeonatos: até 97 U/L; 1–3 anos: 20–60; 4–15 anos: 15–40 U/LU/L
TGP (ALT)7 – 56 U/L7 – 35 U/LNeonatos: até 54 U/L; 1–15 anos: 5–45 U/LU/L
Relação AST/ALT (De Ritis)< 1 (normal); > 2 sugestivo de hepatopatia alcoólica< 1 (normal); > 2 sugestivo de hepatopatia alcoólica< 1 (normal)ratio

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do TGO (AST) e TGP (ALT)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
AST e ALT > 10× LSN (acima de 10 vezes o limite superior da normalidade)Padrão de lesão hepatocelular grave — hepatite viral aguda, isquemia hepática, hepatite medicamentosa grave Solicitar anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HCV, PCR dos vírus, TP/INR, bilirrubinas, albumina; hospitalizar se sinais de insuficiência hepática
AST/ALT 2–10× LSN com relação AST/ALT > 2Sugestivo de hepatopatia alcoólica — razão de De Ritis elevada por deficiência de piridoxal-5-fosfato que afeta preferencialmente a ALT Questionar consumo de álcool; solicitar GGT (marcador sensível de álcool), VCM, CDT; orientar abstinência
ALT persistentemente elevada (1,5–3× LSN) em paciente com obesidade/dislipidemia/diabetesDoença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA/MAFLD) — causa mais comum de transaminases elevadas no mundo Solicitar USG hepática, lipidograma, glicemia, insulinemia; avaliar fibrose com FIB-4 e elastografia; encaminhar hepatologista
ALT > 2× LSN assintomático em uso de medicamento hepatotóxicoHepatotoxicidade medicamentosa (DILI — drug-induced liver injury) Suspender o medicamento suspeito; monitorar TP/INR e bilirrubinas; aplicar escala RUCAM para causalidade; considerar biópsia se não houver melhora
AST elevada isoladamente sem elevação de ALTOrigem extra-hepática predominante — lesão muscular esquelética, IAM, hemólise, tireoidopatia Solicitar CPK, LDH, troponina; excluir rabdomiólise, IAM, hemólise; investigar hipotireoidismo
Transaminases levemente elevadas + fosfatase alcalina e GGT muito elevadasPadrão colestático — colestase intra ou extra-hepática (colelitíase, colangiopatia, CEP, CBP) Solicitar bilirrubinas, GGT, FA, USG abdominal; considerar CPRE ou colangio-RM se obstrução biliar
Transaminases progressivamente elevadas + TP alargado + albumina baixa + bilirrubina elevadaInsuficiência hepática aguda ou cirrose descompensada — múltiplas disfunções sintéticas Hospitalização urgente; avaliar MELD; solicitar sorologias completas; discutir com centro de transplante hepático
AST e ALT normalizadas após tratamento de hepatite viral ou retirada de fármacoResposta ao tratamento ou resolução de agressão hepática aguda Confirmar sustentabilidade da resposta com dosagem seriada; monitorar sorologias de controle viral

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para TGO (AST) e TGP (ALT)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
AST e ALT > 10× LSN, surgimento agudoHepatite viral aguda (A, B, E), hepatite isquêmica, intoxicação por paracetamolAnti-HAV IgM, HBsAg, anti-HCV, anti-HEV, PCR viral, TP/INR, paracetamolemia, ecocardiogramaHepatologia, Medicina Intensiva
AST/ALT 2–5× LSN, relação >2, GGT muito elevadoHepatopatia alcoólica crônica, hepatite alcoólica agudaGGT, VCM, CDT (transferrina deficiente em carboidratos), USG hepática, biópsia se indicadoHepatologia, Gastroenterologia
ALT 1,5–3× LSN crônica + USG esteatoseDHGNA/MAFLD, resistência insulínica, obesidade visceralLipidograma, glicemia, insulina, HOMA-IR, FIB-4, elastografia hepáticaHepatologia, Endocrinologia
ALT > 5× LSN + hipergamaglobulinemia + FAN positivoHepatite autoimuneFAN, anti-músculo liso (ASMA), anti-LKM1, eletroforese de proteínas, biópsia hepáticaHepatologia
ALT aumentada + FA e GGT muito elevados + colestaseColangite biliar primária (CBP), colangite esclerosante primária (CEP)Anti-mitocôndria (AMA), ANCA, colangio-RM, CPRE, biópsia hepáticaHepatologia
AST e ALT elevadas em jovem com anemia hemolítica e psiquiátricoDoença de WilsonCeruloplasmina sérica, cobre urinário 24h, ceruplasminúria, lâmpada de fenda (anéis de Kayser-Fleischer)Hepatologia, Neurologia
AST muito elevada isolada + CPK muito elevadoRabdomiólise, distrofia muscular, polimiositeCPK total e frações, LDH, mioglobina urinária, aldolase, EMG, biópsia muscularClínica Médica, Neurologia
Transaminases elevadas após contraste com queda rápidaHepatite isquêmica pós-hipotensão, crise de hepatite isquêmica por ICC descompensadaTroponina, BNP, ecocardiograma, LDH (marcadamente elevado), TP/INRCardiologia, Hepatologia

Medicamentos e Interferentes

  • Hemólise: eleva falsamente AST/TGO — eritrócitos contêm quantidades significativas de AST
  • Exercício físico intenso: eleva AST por microlesão muscular; ALT menos afetada
  • Lipemia intensa: pode interferir nos métodos fotométricos; ultracentrifugar amostra
  • Vitamina B6 (piridoxal-5-fosfato): deficiência (comum em alcoolistas) subestima principalmente a ALT, pois é cofator da transaminase
  • Macroenzimas (macro-AST): complexo entre AST e imunoglobulina — eleva persistentemente AST sem doença ativa, não requer tratamento
  • Uremia grave: pode inibir enzimaticamente as transaminases, subestimando lesão hepática em pacientes dialíticos
  • Medicamentos: rifampicina, fenitoína, carbamazepina e barbitúricos podem induzir elevação das transaminases por indução enzimática hepática

Contextos Clínicos Especiais

Pacientes em uso de estatinas

As estatinas podem elevar transitoriamente as transaminases em 1–3% dos pacientes. Elevações de até 3× LSN geralmente são benignas e não requerem suspensão. A monitorização de AST/ALT deve ser feita no início do tratamento e periodicamente. Elevação > 3× LSN persistente requer suspensão ou troca de estatina. A miopatia por estatinas (com elevação de CPK) é entidade distinta da hepatotoxicidade.

Gestantes

Durante a gestação normal, as transaminases devem permanecer dentro dos valores de referência habituais. A elevação de AST e ALT associada a hipertensão, trombocitopenia e hemólise na gestação configura síndrome HELLP — emergência obstétrica. A colestase intra-hepática da gestação cursa mais com FA e GGT elevados, com prurido, e as transaminases podem estar levemente aumentadas.

Pacientes com HIV em TARV

A TARV com efavirenz, nevirapina, ritonavir e abacavir pode causar hepatotoxicidade com elevação de transaminases. Em pacientes com coinfecção HIV/HCV ou HIV/HBV, a elevação das transaminases pode refletir tanto hepatotoxicidade da TARV quanto a progressão da hepatite viral. Monitorar transaminases a cada 3–6 meses em pacientes em uso de TARV.

Crianças e adolescentes

Valores de referência de AST são naturalmente mais elevados em neonatos e lactentes (até 97 U/L para AST). A DHGNA pediátrica tem crescido em prevalência paralelamente à epidemia de obesidade infantil. Em adolescentes com hepatopatia inexplicada, sempre investigar doença de Wilson (ceruloplasmina, cobre urinário) e hepatite autoimune.

Pacientes em quimioterapia e imunoterapia

Os inibidores de checkpoint imune (pembrolizumabe, nivolumabe, ipilimumabe) podem causar hepatite imunomediada com elevação de transaminases em 5–10% dos pacientes. O monitoramento de AST e ALT deve ser feito a cada ciclo. A hepatite imunomediada grau 3–4 (AST/ALT > 5–20× LSN) requer suspensão da imunoterapia e pulsoterapia com corticosteroide.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Kwo PY, Cohen SM, Lim JK. ACG Clinical Guideline: Evaluation of Abnormal Liver Chemistries. Am J Gastroenterol. 2017;112(1):18-35. 10.1038/ajg.2016.517
  2. Chalasani NP, et al. The diagnosis and management of nonalcoholic fatty liver disease: Practice guidance from the American Association for the Study of Liver Diseases. Hepatology. 2018;67(1):328-357. 10.1002/hep.29367
  3. Fontana RJ, et al. Drug-Induced Liver Injury Network (DILIN) Prospective Study. Drug Saf. 2009;32(1):55-68. 10.2165/00002018-200932010-00005
  4. Lee WM. Acute Liver Failure. N Engl J Med. 1993;329(25):1862-1872. 10.1056/NEJM199312163292508
  5. Mofrad P, et al. Clinical and histologic spectrum of nonalcoholic fatty liver disease associated with normal ALT values. Hepatology. 2003;37(6):1286-1292. 10.1053/jhep.2003.50229

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