EAS – Urina Rotina (Tipo I): Guia Completo para Médicos: Interpretação Clínica e Indicações
O exame de urina rotina, também chamado EAS (Elementos Anormais e Sedimento) ou urina tipo I, é um dos exames laboratoriais mais solicitados na prática clínica. Consiste na análise físico-química e microscópica da urina, permitindo rastrear alterações renais e do trato urinário, diabetes, doenças hepáticas, distúrbios metabólicos e infecções. É barato, de execução rápida e altamente informativo quando interpretado em conjunto com o contexto clínico do paciente. O exame avalia características físicas como cor, aspecto e densidade; parâmetros químicos como pH, proteinúria, glicosúria, hematúria, leucocitúria, cetonúria, bilirrubinúria e urobilinogênio; e o sedimento urinário, que inclui células, cilindros, cristais, bactérias e fungos. Sua solicitação é indicada tanto para triagem quanto para acompanhamento de doenças renais, metabólicas e infecciosas, tornando-o ferramenta indispensável no arsenal diagnóstico do médico generalista e especialista.
Quando solicitar este exame?
- Rastreamento de infecção do trato urinário (ITU) CID N39.0
- Investigação de hematúria macro ou microscópica CID R31
- Acompanhamento de doença renal crônica CID N18
- Rastreamento e monitoramento de diabetes mellitus CID E11
- Investigação de glomerulonefrite CID N03
- Investigação de síndrome nefrótica CID N04
- Avaliação de hipertensão arterial com suspeita de acometimento renal CID I12
- Investigação de cetoacidose diabética CID E10
- Triagem pré-operatória e check-up de saúde CID Z01
- Avaliação de gestantes (pré-natal) CID Z34
- Investigação de litíase renal e cólica nefrética CID N20
- Monitoramento de nefrotoxicidade por medicamentos CID N14
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Higiene genital adequada com água e sabão antes da coleta
- Descartar o primeiro jato urinário e coletar o jato médio em frasco estéril
- Não é necessário jejum, mas evitar exercícios físicos intensos nas 24h anteriores (pode causar proteinúria e hematúria transitórias)
- Anotar medicamentos em uso: vitamina C pode falsear negativo para glicose e sangue oculto
- Mulheres em período menstrual devem informar, pois sangue menstrual pode contaminar a amostra
- Processar a amostra em até 2 horas (temperatura ambiente) ou 4 horas (refrigerada a 4–8 °C)
- Evitar contaminação por secreções vaginais ou prostáticas; uso de tampão vaginal pode ser orientado em mulheres
- Identificar corretamente o frasco com nome, data e hora da coleta
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Cor | Amarelo-palha a âmbar | Amarelo-palha a âmbar | Amarelo-palha a âmbar | – |
| Aspecto | Límpido a levemente turvo | Límpido a levemente turvo | Límpido a levemente turvo | – |
| Densidade | 1.005–1.030 | 1.005–1.030 | 1.001–1.030 | – |
| pH | 4,5–8,0 | 4,5–8,0 | 4,5–8,0 | – |
| Proteína | Negativo ou traços (<10 mg/dL) | Negativo ou traços (<10 mg/dL) | Negativo ou traços | mg/dL |
| Glicose | Negativo (<130 mg/dL em 24h) | Negativo (<130 mg/dL em 24h) | Negativo | mg/dL |
| Cetonas | Negativo | Negativo | Negativo | – |
| Bilirrubina | Negativo | Negativo | Negativo | – |
| Urobilinogênio | 0,1–1,0 EU/dL | 0,1–1,0 EU/dL | 0,1–1,0 EU/dL | EU/dL |
| Hemácias (microscopia) | 0–2 por campo (400x) | 0–2 por campo (400x) | 0–2 por campo (400x) | por campo |
| Leucócitos (microscopia) | 0–5 por campo (400x) | 0–5 por campo (400x) | 0–5 por campo (400x) | por campo |
| Cilindros hialinos | 0–2 por campo (100x) | 0–2 por campo (100x) | 0–2 por campo (100x) | por campo |
| Bactérias | Ausentes ou raras | Ausentes ou raras | Ausentes ou raras | – |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| Leucocitúria (>5 leuc/campo) + bacteriúria + nitrito positivo | Sugere fortemente infecção do trato urinário | Solicitar urocultura com antibiograma; iniciar antibioticoterapia empírica conforme protocolo local |
| Hematúria microscópica (>2 hem/campo) sem cilindros | Origem glomerular (com dismorfismo eritrocitário ou acantócitos) ou urológica (células isomórficas) | Investigar com USG de vias urinárias, relação proteína/creatinina; se >40 anos, afastar neoplasia urotelial |
| Proteinúria 2+ a 4+ na dipstick | Sugestivo de proteinúria patológica; pode indicar glomerulonefrite, síndrome nefrótica ou doença renal avançada | Quantificar com relação proteína/creatinina urinária ou proteinúria de 24h; avaliar função renal (creatinina, ureia, TFG) |
| Cilindros granulosos ou celulares | Sinal de lesão tubular ativa; cilindros epiteliais indicam necrose tubular aguda | Avaliar função renal seriada, investigar causa (isquemia, nefrotóxico, contraste iodado, mioglobinúria) |
| Glicosúria com glicemia normal | Glicosúria renal (defeito tubular); pode ocorrer na síndrome de Fanconi, gravidez e uso de inibidores de SGLT2 | Verificar glicemia em jejum e hemoglobina glicada; avaliar síndrome de Fanconi se associada a outras alterações tubulares |
| Cetonúria isolada | Catabolismo aumentado: jejum prolongado, dieta cetogênica, diabetes descompensado, vômitos repetidos | Correlacionar com glicemia; se glicemia elevada, investigar cetoacidose diabética (gasometria, glicemia, eletrólitos) |
| Bilirrubinúria positiva + urobilinogênio aumentado | Hepatite, colestase intra-hepática ou doença hepatobiliar | Solicitar painel hepático completo (TGO, TGP, FA, GGT, bilirrubinas) |
| Cilindros hemáticos | Patognomônico de glomerulonefrite; indica sangramento de origem glomerular | Investigação nefrológica urgente: complemento, ANCA, FAN, anti-DNA, biópsia renal se indicado |
| Densidade urinária fixa (isostenúria, ~1.010) | Perda de capacidade de concentração tubular; encontrada na doença renal avançada | Avaliar TFG, solicitar creatinina sérica, ureia e complementar com urina de 24h para clearance |
| Cristais de oxalato de cálcio em grande quantidade | Risco aumentado para nefrolitíase por oxalato; pode indicar hiperoxalúria primária ou dietética | Solicitar urina de 24h para cálcio, oxalato, citrato e ácido úrico; orientar hidratação e dieta |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| Leucocitúria + bacteriúria + nitrito positivo | ITU baixa (cistite), pielonefrite, uretrite, prostatite | Urocultura, hemocultura (se febre e calafrios), PCR, procalcitonina | Clínica Médica / Urologia |
| Hematúria + proteinúria + cilindros hemáticos | Glomerulonefrite aguda, nefrite lúpica, vasculite ANCA+, síndrome de Goodpasture | Complemento C3/C4, FAN, ANCA, anti-DNA, anti-GBM, biópsia renal | Nefrologia |
| Proteinúria maciça (≥3,5 g/24h) + hematúria discreta | Síndrome nefrótica (GESF, GN membranosa, nefropatia diabética) | Proteinúria de 24h, albumina sérica, lipidograma, glicemia, FAN, anti-DNA, biópsia renal | Nefrologia |
| Glicosúria + cetonúria + densidade elevada | Cetoacidose diabética, descompensação hiperglicêmica | Glicemia, gasometria arterial, eletrólitos, beta-hidroxibutirato | Clínica Médica / Endocrinologia |
| Bilirrubinúria + urobilinogênio aumentado + colúria | Hepatite viral aguda, cirrose, colestase intra-hepática | Painel hepático, bilirrubinas totais e frações, sorologia hepatites A, B e C | Gastroenterologia / Hepatologia |
| Cilindros granulosos + densidade fixa + proteinúria | Necrose tubular aguda, doença renal crônica avançada | Creatinina seriada, ureia, TFG estimada, eletrólitos, USG renal | Nefrologia |
| Hematúria isolada sem proteinúria ou cilindros | Litíase renal, neoplasia urotelial, trauma, esquistossomose urogenital | USG vias urinárias, tomografia urológica sem contraste, cistoscopia (se >40 anos) | Urologia |
| Leucocitúria sem bacteriúria (piúria estéril) | Tuberculose renal, nefrite intersticial, uretrite por clamídia, uso de AINEs | Pesquisa de BAAR na urina, cultura para micobactérias, PCR para clamídia, histórico de medicamentos | Infectologia / Nefrologia |
Medicamentos e Interferentes
- Vitamina C (ácido ascórbico): falso-negativo para glicose, bilirrubina e sangue na dipstick
- Contaminação menstrual: falso-positivo para hemácias, leucócitos e proteínas
- Atraso no processamento (>2h em temperatura ambiente): lise celular, multiplicação bacteriana, degradação de cilindros
- Urina muito diluída (densidade <1.005): falso-negativo para proteinúria na dipstick
- pH muito alcalino (>8,5): falso-positivo para proteínas na dipstick (reação com amônio)
- Betadine (iodo-povidona) na higiene genital: pode causar resultado falso-positivo para sangue
- Rifampicina e nitrofurantoína: alteram a cor da urina (laranja-avermelhada), podendo interferir na leitura automatizada
- Exercício físico intenso: proteinúria e hematúria transitórias (até 48h após)
- Rabdomiólise: dipstick positiva para sangue (hemoglobina) com microscopia sem hemácias (mioglobinúria)
- Solução glicosada EV prévia: pode aumentar artificialmente a glicosúria
Contextos Clínicos Especiais
Gestantes
A proteinúria é parâmetro fundamental no pré-natal. Valores ≥300 mg/24h ou relação proteína/creatinina ≥0,3 mg/mg associados à hipertensão definem pré-eclâmpsia. Bacteriúria assintomática na gravidez deve ser tratada (risco de pielonefrite e parto prematuro). Leucocitúria fisiológica pode ocorrer por contaminação vaginal; sempre considerar coleta com técnica adequada ou sondagem se necessário.
Crianças
Em crianças, leucocitúria acima de 5 leucócitos/campo deve ser investigada com urocultura, especialmente se associada a febre ou sintomas urinários. Hematúria macroscópica recorrente em criança pode indicar nefropatia por IgA ou síndrome de Alport. A glomerulonefrite pós-estreptocócica cursa classicamente com hematúria, proteinúria e cilindros hemáticos 1–3 semanas após faringoamigdalite ou impetigo.
Idosos
Em idosos, a bacteriúria assintomática é extremamente frequente (até 50% das mulheres institucionalizadas) e NÃO deve ser tratada na ausência de sintomas. A interpretação de leucocitúria deve ser cautelosa nessa faixa etária. Hematúria microscópica persistente em homens idosos deve sempre levar à investigação de carcinoma de próstata, bexiga ou rim.
Imunossuprimidos
Em pacientes transplantados renais, o EAS é monitorado periodicamente para detecção precoce de rejeição (proteinúria, hematúria, cilindros) e infecção oportunista. Infecção pelo vírus BK pode causar nefropatia com hematúria e decoy cells no sedimento urinário. Em pacientes com HIV, atentar para nefropatia associada ao HIV (HIVAN).
Diabéticos
No diabetes mellitus, o EAS é parte da triagem anual de complicações renais. A presença de microalbuminúria (detectável apenas com métodos específicos, não pela dipstick convencional) precede a nefropatia clínica. A glicosúria ocorre quando a glicemia ultrapassa o limiar de reabsorção tubular (~180 mg/dL). Com SGLT2i, a glicosúria é esperada mesmo com glicemia controlada.
Exames Relacionados
- Cilindros hemáticos presentes FAN (Fator Antinuclear)
- Glicosúria e cetonúria juntas Gasometria arterial
- Bilirrubinúria positiva Painel hepático
- Hematúria isolada sem proteinúria em >40 anos PSA
- Dipstick positiva para sangue sem hemácias na microscopia CK/CK-MB (rabdomiólise)
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Referências
- Fogazzi GB, Garigali G. The clinical art and science of urine microscopy. Curr Opin Nephrol Hypertens. 2003;12(6):625-632. 10.1097/00041552-200311000-00009
- Simerville JA, Maxted WC, Pahira JJ. Urinalysis: a comprehensive review. Am Fam Physician. 2005;71(6):1153-1162.
- KDIGO 2012 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int Suppl. 2013;3(1):1-150. 10.1038/kisup.2012.73
- Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial. Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica para o Exame de Urina Tipo I. 2017.
- Devillé WL, Yzermans JC, van Duijn NP, et al. The urine dipstick test useful to rule out infections. A meta-analysis of the accuracy. BMC Urol. 2004;4:4. 10.1186/1471-2490-4-4