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Nefrologia/Clínica Médica

EAS – Urina Rotina (Tipo I): Guia Completo para Médicos: Interpretação Clínica e Indicações

O exame de urina rotina, também chamado EAS (Elementos Anormais e Sedimento) ou urina tipo I, é um dos exames laboratoriais mais solicitados na prática clínica. Consiste na análise físico-química e microscópica da urina, permitindo rastrear alterações renais e do trato urinário, diabetes, doenças hepáticas, distúrbios metabólicos e infecções. É barato, de execução rápida e altamente informativo quando interpretado em conjunto com o contexto clínico do paciente. O exame avalia características físicas como cor, aspecto e densidade; parâmetros químicos como pH, proteinúria, glicosúria, hematúria, leucocitúria, cetonúria, bilirrubinúria e urobilinogênio; e o sedimento urinário, que inclui células, cilindros, cristais, bactérias e fungos. Sua solicitação é indicada tanto para triagem quanto para acompanhamento de doenças renais, metabólicas e infecciosas, tornando-o ferramenta indispensável no arsenal diagnóstico do médico generalista e especialista.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Urina (jato médio, preferencialmente primeira urina da manhã)
Resultado em
1–4 horas
Código TUSS
40304361
Especialidade
Nefrologia / Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Rastreamento de infecção do trato urinário (ITU) CID N39.0
  • Investigação de hematúria macro ou microscópica CID R31
  • Acompanhamento de doença renal crônica CID N18
  • Rastreamento e monitoramento de diabetes mellitus CID E11
  • Investigação de glomerulonefrite CID N03
  • Investigação de síndrome nefrótica CID N04
  • Avaliação de hipertensão arterial com suspeita de acometimento renal CID I12
  • Investigação de cetoacidose diabética CID E10
  • Triagem pré-operatória e check-up de saúde CID Z01
  • Avaliação de gestantes (pré-natal) CID Z34
  • Investigação de litíase renal e cólica nefrética CID N20
  • Monitoramento de nefrotoxicidade por medicamentos CID N14

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Higiene genital adequada com água e sabão antes da coleta
  • Descartar o primeiro jato urinário e coletar o jato médio em frasco estéril
  • Não é necessário jejum, mas evitar exercícios físicos intensos nas 24h anteriores (pode causar proteinúria e hematúria transitórias)
  • Anotar medicamentos em uso: vitamina C pode falsear negativo para glicose e sangue oculto
  • Mulheres em período menstrual devem informar, pois sangue menstrual pode contaminar a amostra
  • Processar a amostra em até 2 horas (temperatura ambiente) ou 4 horas (refrigerada a 4–8 °C)
  • Evitar contaminação por secreções vaginais ou prostáticas; uso de tampão vaginal pode ser orientado em mulheres
  • Identificar corretamente o frasco com nome, data e hora da coleta

Valores de Referência

Valores de referência do EAS – Urina Rotina (Tipo I): Guia Completo para Médicos
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
CorAmarelo-palha a âmbarAmarelo-palha a âmbarAmarelo-palha a âmbar
AspectoLímpido a levemente turvoLímpido a levemente turvoLímpido a levemente turvo
Densidade1.005–1.0301.005–1.0301.001–1.030
pH4,5–8,04,5–8,04,5–8,0
ProteínaNegativo ou traços (<10 mg/dL)Negativo ou traços (<10 mg/dL)Negativo ou traçosmg/dL
GlicoseNegativo (<130 mg/dL em 24h)Negativo (<130 mg/dL em 24h)Negativomg/dL
CetonasNegativoNegativoNegativo
BilirrubinaNegativoNegativoNegativo
Urobilinogênio0,1–1,0 EU/dL0,1–1,0 EU/dL0,1–1,0 EU/dLEU/dL
Hemácias (microscopia)0–2 por campo (400x)0–2 por campo (400x)0–2 por campo (400x)por campo
Leucócitos (microscopia)0–5 por campo (400x)0–5 por campo (400x)0–5 por campo (400x)por campo
Cilindros hialinos0–2 por campo (100x)0–2 por campo (100x)0–2 por campo (100x)por campo
BactériasAusentes ou rarasAusentes ou rarasAusentes ou raras

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do EAS – Urina Rotina (Tipo I): Guia Completo para Médicos
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Leucocitúria (>5 leuc/campo) + bacteriúria + nitrito positivoSugere fortemente infecção do trato urinário Solicitar urocultura com antibiograma; iniciar antibioticoterapia empírica conforme protocolo local
Hematúria microscópica (>2 hem/campo) sem cilindrosOrigem glomerular (com dismorfismo eritrocitário ou acantócitos) ou urológica (células isomórficas) Investigar com USG de vias urinárias, relação proteína/creatinina; se >40 anos, afastar neoplasia urotelial
Proteinúria 2+ a 4+ na dipstickSugestivo de proteinúria patológica; pode indicar glomerulonefrite, síndrome nefrótica ou doença renal avançada Quantificar com relação proteína/creatinina urinária ou proteinúria de 24h; avaliar função renal (creatinina, ureia, TFG)
Cilindros granulosos ou celularesSinal de lesão tubular ativa; cilindros epiteliais indicam necrose tubular aguda Avaliar função renal seriada, investigar causa (isquemia, nefrotóxico, contraste iodado, mioglobinúria)
Glicosúria com glicemia normalGlicosúria renal (defeito tubular); pode ocorrer na síndrome de Fanconi, gravidez e uso de inibidores de SGLT2 Verificar glicemia em jejum e hemoglobina glicada; avaliar síndrome de Fanconi se associada a outras alterações tubulares
Cetonúria isoladaCatabolismo aumentado: jejum prolongado, dieta cetogênica, diabetes descompensado, vômitos repetidos Correlacionar com glicemia; se glicemia elevada, investigar cetoacidose diabética (gasometria, glicemia, eletrólitos)
Bilirrubinúria positiva + urobilinogênio aumentadoHepatite, colestase intra-hepática ou doença hepatobiliar Solicitar painel hepático completo (TGO, TGP, FA, GGT, bilirrubinas)
Cilindros hemáticosPatognomônico de glomerulonefrite; indica sangramento de origem glomerular Investigação nefrológica urgente: complemento, ANCA, FAN, anti-DNA, biópsia renal se indicado
Densidade urinária fixa (isostenúria, ~1.010)Perda de capacidade de concentração tubular; encontrada na doença renal avançada Avaliar TFG, solicitar creatinina sérica, ureia e complementar com urina de 24h para clearance
Cristais de oxalato de cálcio em grande quantidadeRisco aumentado para nefrolitíase por oxalato; pode indicar hiperoxalúria primária ou dietética Solicitar urina de 24h para cálcio, oxalato, citrato e ácido úrico; orientar hidratação e dieta

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para EAS – Urina Rotina (Tipo I): Guia Completo para Médicos
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Leucocitúria + bacteriúria + nitrito positivoITU baixa (cistite), pielonefrite, uretrite, prostatiteUrocultura, hemocultura (se febre e calafrios), PCR, procalcitoninaClínica Médica / Urologia
Hematúria + proteinúria + cilindros hemáticosGlomerulonefrite aguda, nefrite lúpica, vasculite ANCA+, síndrome de GoodpastureComplemento C3/C4, FAN, ANCA, anti-DNA, anti-GBM, biópsia renalNefrologia
Proteinúria maciça (≥3,5 g/24h) + hematúria discretaSíndrome nefrótica (GESF, GN membranosa, nefropatia diabética)Proteinúria de 24h, albumina sérica, lipidograma, glicemia, FAN, anti-DNA, biópsia renalNefrologia
Glicosúria + cetonúria + densidade elevadaCetoacidose diabética, descompensação hiperglicêmicaGlicemia, gasometria arterial, eletrólitos, beta-hidroxibutiratoClínica Médica / Endocrinologia
Bilirrubinúria + urobilinogênio aumentado + colúriaHepatite viral aguda, cirrose, colestase intra-hepáticaPainel hepático, bilirrubinas totais e frações, sorologia hepatites A, B e CGastroenterologia / Hepatologia
Cilindros granulosos + densidade fixa + proteinúriaNecrose tubular aguda, doença renal crônica avançadaCreatinina seriada, ureia, TFG estimada, eletrólitos, USG renalNefrologia
Hematúria isolada sem proteinúria ou cilindrosLitíase renal, neoplasia urotelial, trauma, esquistossomose urogenitalUSG vias urinárias, tomografia urológica sem contraste, cistoscopia (se >40 anos)Urologia
Leucocitúria sem bacteriúria (piúria estéril)Tuberculose renal, nefrite intersticial, uretrite por clamídia, uso de AINEsPesquisa de BAAR na urina, cultura para micobactérias, PCR para clamídia, histórico de medicamentosInfectologia / Nefrologia

Medicamentos e Interferentes

  • Vitamina C (ácido ascórbico): falso-negativo para glicose, bilirrubina e sangue na dipstick
  • Contaminação menstrual: falso-positivo para hemácias, leucócitos e proteínas
  • Atraso no processamento (>2h em temperatura ambiente): lise celular, multiplicação bacteriana, degradação de cilindros
  • Urina muito diluída (densidade <1.005): falso-negativo para proteinúria na dipstick
  • pH muito alcalino (>8,5): falso-positivo para proteínas na dipstick (reação com amônio)
  • Betadine (iodo-povidona) na higiene genital: pode causar resultado falso-positivo para sangue
  • Rifampicina e nitrofurantoína: alteram a cor da urina (laranja-avermelhada), podendo interferir na leitura automatizada
  • Exercício físico intenso: proteinúria e hematúria transitórias (até 48h após)
  • Rabdomiólise: dipstick positiva para sangue (hemoglobina) com microscopia sem hemácias (mioglobinúria)
  • Solução glicosada EV prévia: pode aumentar artificialmente a glicosúria

Contextos Clínicos Especiais

Gestantes

A proteinúria é parâmetro fundamental no pré-natal. Valores ≥300 mg/24h ou relação proteína/creatinina ≥0,3 mg/mg associados à hipertensão definem pré-eclâmpsia. Bacteriúria assintomática na gravidez deve ser tratada (risco de pielonefrite e parto prematuro). Leucocitúria fisiológica pode ocorrer por contaminação vaginal; sempre considerar coleta com técnica adequada ou sondagem se necessário.

Crianças

Em crianças, leucocitúria acima de 5 leucócitos/campo deve ser investigada com urocultura, especialmente se associada a febre ou sintomas urinários. Hematúria macroscópica recorrente em criança pode indicar nefropatia por IgA ou síndrome de Alport. A glomerulonefrite pós-estreptocócica cursa classicamente com hematúria, proteinúria e cilindros hemáticos 1–3 semanas após faringoamigdalite ou impetigo.

Idosos

Em idosos, a bacteriúria assintomática é extremamente frequente (até 50% das mulheres institucionalizadas) e NÃO deve ser tratada na ausência de sintomas. A interpretação de leucocitúria deve ser cautelosa nessa faixa etária. Hematúria microscópica persistente em homens idosos deve sempre levar à investigação de carcinoma de próstata, bexiga ou rim.

Imunossuprimidos

Em pacientes transplantados renais, o EAS é monitorado periodicamente para detecção precoce de rejeição (proteinúria, hematúria, cilindros) e infecção oportunista. Infecção pelo vírus BK pode causar nefropatia com hematúria e decoy cells no sedimento urinário. Em pacientes com HIV, atentar para nefropatia associada ao HIV (HIVAN).

Diabéticos

No diabetes mellitus, o EAS é parte da triagem anual de complicações renais. A presença de microalbuminúria (detectável apenas com métodos específicos, não pela dipstick convencional) precede a nefropatia clínica. A glicosúria ocorre quando a glicemia ultrapassa o limiar de reabsorção tubular (~180 mg/dL). Com SGLT2i, a glicosúria é esperada mesmo com glicemia controlada.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Fogazzi GB, Garigali G. The clinical art and science of urine microscopy. Curr Opin Nephrol Hypertens. 2003;12(6):625-632. 10.1097/00041552-200311000-00009
  2. Simerville JA, Maxted WC, Pahira JJ. Urinalysis: a comprehensive review. Am Fam Physician. 2005;71(6):1153-1162.
  3. KDIGO 2012 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int Suppl. 2013;3(1):1-150. 10.1038/kisup.2012.73
  4. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial. Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica para o Exame de Urina Tipo I. 2017.
  5. Devillé WL, Yzermans JC, van Duijn NP, et al. The urine dipstick test useful to rule out infections. A meta-analysis of the accuracy. BMC Urol. 2004;4:4. 10.1186/1471-2490-4-4

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