Sepse é a nomenclatura dada para a infecção sistêmica que acontece no recém-nascido, isso é, nos primeiros 28 adias de vida. Geralmente o RN apresenta um quadro “arrastado”, sem resposta as propostas de antibioticoterapia, seguido de rebaixamento em seu estado geral.

O diagnóstico é realizado através de hemocultura, um exame laboratorial que pesquisa micro-organismos na corrente sanguínea. É importante ressaltar que a coleta de sangue deve ser realizada de forma estéril, com sangue arterial e que o acesso central é uma via alternativa para a coleta. Não é indicada a coleta através o cateter central de inserção periférica (PICC), pois existe o risco de obstrução da via. Também é contraindicada a coleta por cateterismo venoso umbilical, pois possui alto risco de contaminação. A sensibilidade da hemocultura é muito alta, por isso foi eleito como o exame padrão-ouro para fechar o diagnóstico de sepse neonatal.
Dessa forma, não podemos confundir a aplicação da hemocultura com a do exame de avaliação da proteína C reativa. O PCR é usado para fazer o acompanhamento da evolução do processo séptico no RN. Uma alternativa ao PCR é a análise da mensuração de procalcitonina, porém esse é um exame menos disponível devido ao alto custo de seu processo de análise e em se tratando de eficiência, pode demonstrar elevação precoce quando em processo infeccioso bacteriano de origem sistêmica, assim como retorna aos seus valores padrões com o tratamento eficaz.
A aplicação do Escore hematológico de Rodwell é bastante importante como instrumento de sugestão para a sepse neonatal, consiste na seguinte distribuição de pontos atribuídos a alterações no exame sanguíneo, sendo um escore > ou igual a 3 um forte indicativo de sepse.
| Pontuação | Mensuração |
| 1 ponto | Leucócitos < ou = 5000/mm³ ou > ou = 25000/mm³ ao nascimentoLeucócitos > ou = 30000/mm³ em 12-24h de vidaLeucócitos > ou = 21000/mm³ após as 48h de vida |
| 1 ponto | Aumento ou diminuição de neutrófilos totais |
| 1 ponto | Aumento de neutrófilos imaturos |
| 1 ponto | Aumento da relação neutrófilos imaturos/totais |
| 1 ponto | Relação neutrófilos imaturos/segmentados > ou = 0,3 |
| 1 ponto | Alterações degenerativas nos neutrófilos (vacuolização e granulação) |
| 1 ponto | Plaquetas < 150000/mm³ |
Classificação da sepse neonatal:
Sepse Neonatal Precoce (SNNP):
Acontece nas primeiras 48h do nascimento do RN e geralmente está relacionada com fatores gestacionais como:
- Periparto
- Micro-organismos do trato genital materno (principalmente os Gram-)
- Infecções intraútero
O diagnóstico de Sepse Neonatal Precoce é relativamente difícil, por se tratar de uma clínica muito inespecífica. Dessa forma, são relacionadas três condições para se fechar o diagnóstico, são elas:
- Fatores de risco maternos e neonatais;
- Manifestações clínicas do RN;
- Achados nos exames complementares.
Baseado na dificuldade em se fechar o diagnóstico, em algumas situações, para que haja intervenção ágil, em se tratando de um quadro clínico grave, pode-se realizar o diagnóstico presuntivo, em que não se realiza confirmação laboratorial.

Sepse Neonatal Tardia (SNNT):
Acontece após as primeiras 48h do nascimento do RN e tem como principais fatores associados as seguintes condições:
- Infecções hospitalares (também chamadas de nasocomiais)
- Consequência de contaminação em procedimentos invasivos
- Utilização de dispositivos de longa permanência, como cânulas de TQT (traqueostomia) e cateteres, por exemplo (principalmente relacionados com Gram+)
Após a 2° semana de vida, a sepse neonatal tardia tende a expressar dados altos de mortalidade e a prematuridade é um fator de risco potencial devido ao fato de geralmente necessitar de longos períodos de internação hospitalar, por ter imaturidade em diferentes sistemas do organismo, pela imunidade estar menos desenvolvida e até mesmo por não ter tido de ganhar peso.
O diagnóstico é realizado de forma muito parecida com a sepse neonatal precoce. Se baseia em manifestações clínicas inespecíficas e que são associadas aos fatores preditores de risco e achados nos exames laboratoriais, sendo a neutropenia um achado bastante comum e fidedigno. É frequente o aparecimento de SNNT em RNs que fazem uso de dispositivos invasivos e é uma indicação direta de cultura sempre que houver suspeita de infecção. Especificamente na SNNT, existe a obrigatoriedade de coletar líquor do RN devido a dados epidemiológicos significativos na incidência de meningite. Só é dispensável o procedimento, em caso de instabilidade hemodinâmica de forma a impedir o procedimento.
Tratamento:
Na sepse neonatal precoce, segue-se a indicação de oferta de suporte ventilatório, oxigenoterapia e monitorização contínua, além de suporte nutricional. Apenas iniciar antibioticoterapia profilática após coleta de exames e hemocultura. O protocolo de tratamento varia de acordo com o quadro clínico e resultados dos exames, mas é comum o uso de Penicilina cristalina associado a Amicacina ou ainda, Ampicilina associado a Gentamicina.
Já na sepse neonatal tardia segue-se o protocolo padrão também usado na SNNP, considera-se o perfil de resistência bacteriana e quando se tratar de bactérias Gram +, indica-se Oxacilina e Vancomicina. Quando Gram -, Cefotaxima ou Cefepime. Se infecções fúngicas, indica-se Anfotericina B.
Autor: Lara T. F. S. Honório
Instagram: @medcandoo
Referências:
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Sousa, N. A. de; Coelho, C. G. V.; Mesquita, C. H. S. de et al. Sepse neonatal – perfil microbiológico e sensibilidade antimicrobiana em um hospital no Nordeste do Brasil. RBAC, 2019, (1): 46-51. Fortaleza- Ceará. Date accessed: 23 sep. 2021. Disponível em: RBAC vol 51 – no 1 – 2019 – ref 775.pmd (bvsalud.org)
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