Avaliar a gravidade faz parte da rotina de quem trabalha em terapia intensiva. Desde a admissão até a evolução diária, decisões são tomadas com base na extensão da disfunção orgânica, na resposta às intervenções e na trajetória clínica do paciente.
Nesse cenário, os escores de gravidade não são apenas ferramentas acadêmicas. Eles organizam o raciocínio clínico, criam uma linguagem comum entre profissionais e permitem acompanhar, de forma objetiva, se o paciente está melhorando ou piorando ao longo do tempo.
O escore SOFA sempre ocupou papel central nesse processo. Porém, muita coisa mudou na medicina intensiva desde sua publicação original, em 1996. Portanto, com a atualização para o SOFA 2.0, somos convidados a revisitar conceitos que usamos quase automaticamente à beira do leito.
Por que o escore SOFA é importante na prática da UTI?
O paciente crítico raramente apresenta falência isolada de um único órgão. O que define a gravidade é a soma e a progressão das disfunções. O escore SOFA foi criado justamente com esse objetivo: descrever disfunção orgânica de forma sequencial e dinâmica.
Diferente de escores prognósticos como APACHE, o SOFA não foi desenvolvido para prever mortalidade, mas para quantificar o grau de falência orgânica ao longo do tempo.
Na prática, isso traz aplicações importantes:
- Avaliação seriada da disfunção orgânica
- Monitoramento da resposta ao tratamento
- Identificação precoce de deterioração clínica
- Padronização da comunicação entre equipes
- Uso como desfecho em pesquisas clínicas
- Avaliação objetiva da evolução do paciente crítico
O delta SOFA, por exemplo, ajuda a tornar objetivo aquilo que muitas vezes percebemos de forma subjetiva à beira do leito.
Para o médico que atua em UTI, conhecer o SOFA significa compreender melhor a fisiopatologia da disfunção orgânica múltipla e reconhecer precocemente a deterioração clínica.
Contexto histórico do escore SOFA
O SOFA original foi publicado em 1996, em um cenário muito diferente da terapia intensiva atual. Na época:
- ventilação protetora ainda não era padrão
- ECMO era pouco disponível
- monitorização hemodinâmica era mais invasiva
- diálise era menos acessível
- menos drogas vasoativas disponíveis
- coortes menores para validação
Desde então, a medicina intensiva evoluiu profundamente. Novas tecnologias, estratégias ventilatórias, maior acesso à terapia renal substitutiva e prontuários eletrônicos transformaram o cuidado ao paciente crítico.
O SOFA 2.0 surge nesse contexto como uma atualização necessária para alinhar o escore à prática contemporânea.
O que mudou no SOFA 2.0?
O princípio central foi mantido. Continuamos avaliando seis sistemas orgânicos, cada um pontuado de 0 a 4, com foco na descrição da disfunção. O que mudou foi a forma de medir essa disfunção, os pontos de corte e a incorporação explícita de terapias hoje amplamente utilizadas.
Principais mudanças do SOFA 2.0 nos sistemas orgânicos
No sistema respiratório, uma das mudanças mais relevantes foi a incorporação formal da relação SpO₂/FiO₂ como alternativa à PaO₂/FiO₂, reconhecendo que nem todos os pacientes têm gasometria arterial disponível. Além disso, o uso de oxigenoterapia de alto fluxo, CPAP, ventilação não invasiva e ECMO passou a ser considerado no escore, refletindo a prática atual, em que muitos pacientes com insuficiência respiratória grave não estão intubados ou estão em uso de suporte artificial com ECMO.
No sistema cardiovascular, o SOFA 2.0 amplia o espectro de drogas vasoativas consideradas, incluindo vasopressina e angiotensina II, com equivalência de doses. O uso de suporte circulatório mecânico também passou a fazer parte da avaliação, algo inexistente na versão original.
No sistema renal, além do ajuste dos pontos de corte de creatinina e débito urinário, a terapia renal substitutiva foi incorporada de forma mais clara. O score também contempla situações em que a diálise seria indicada, mas não está disponível, tornando-o mais aplicável a diferentes realidades.
O sistema neurológico manteve a Escala de Coma de Glasgow, mas trouxe regras explícitas para pacientes sedados ou em ventilação mecânica, mas conscientes. Além disso, incluiu também o tratamento farmacológico do delirium como marcador de disfunção cerebral.
Nos sistemas hepático e de coagulação, bilirrubina e plaquetas foram mantidas como variáveis centrais, mas os pontos de corte foram atualizados.
Tabela 1. Principais mudanças do SOFA original para o SOFA 2.0
| Sistema | SOFA original (1996) | SOFA 2.0 (2025) |
| Respiratório | PaO₂/FiO₂, pontuação maior apenas com VM invasiva | PaO₂/FiO₂ ou SpO₂/FiO₂, inclusão de VNI, alto fluxo e ECMO |
| Cardiovascular | PAM e uso de dopamina, noradrenalina ou adrenalina | Ampliação de vasopressores, equivalência de doses, descreve o uso combinado de vasopressores e define o suporte mecânico |
| Renal | Creatinina ou débito urinário, TRS como grau máximo | Ajuste de limiares, critérios explícitos para TRS ou sua indicação |
| Neurológico | GCS total | Regras para sedação e pacientes em ventilação mecânica, uso do escore motor e inclusão do tratamento do delirium |
| Hepático | Bilirrubina | Bilirrubina mantida, com novos pontos de corte |
| Coagulação | Plaquetas | Plaquetas mantidas, com novos pontos de corte |
Como usar o SOFA 2.0 à beira do leito?
Assim como seu antecessor, o SOFA 2.0 não deve ser encarado como um número isolado, mas como uma ferramenta de acompanhamento. O valor absoluto importa, mas a tendência ao longo dos dias é ainda mais relevante. O score ajuda a quantificar aquilo que observamos clinicamente e pode servir como alerta precoce de deterioração.
Segundo os próprios autores, o SOFA 2.0 continua tendo papel tanto clínico quanto em pesquisa. Ele não substitui o julgamento médico, mas organiza informações, padroniza avaliações e permite comparações mais justas entre pacientes, serviços e estudos. Sua estrutura também foi pensada para integração com prontuários eletrônicos, facilitando cálculo automático e reduzindo erros manuais.
Vale lembrar que o SOFA 2.0 foi desenvolvido e validado em pacientes de UTI. Seu uso em enfermarias ou do departamento de emergência ainda precisa de validação específica.
Considerações finais
O SOFA 2.0 não representa uma ruptura, mas uma evolução natural. Ele preserva a simplicidade conceitual do score original, ao mesmo tempo em que incorpora quase três décadas de avanços da Medicina Intensiva. Para quem trabalha na UTI, entender essas mudanças é fundamental para aplicar o score de forma objetiva e crítica.
Mais do que decorar pontos de corte, o essencial é compreender o que cada sistema representa e como a soma das disfunções reflete a gravidade real do doente crítico. Nesse sentido, o SOFA 2.0 reforça algo que sempre esteve no centro da terapia intensiva: acompanhar o paciente ao longo do tempo, com método, linguagem comum, foco na fisiopatologia, mas com olhar individualizado para cada paciente!
Tabela 2. Escore SOFA-2
Sistema neurológico (cérebro)
| Pontuação | Critério |
|---|---|
| 0 | GCS 15 (ou, em pacientes que não podem falar – ex.: ventilação mecânica: sinal positivo com polegar, punho fechado ou sinal de paz) |
| 1 | GCS 13–14 (ou localiza dor) ou necessidade de medicação para tratar delirium |
| 2 | GCS 9–12 (ou retira ao estímulo doloroso) |
| 3 | GCS 6–8 (ou flexão à dor) |
| 4 | GCS 3–5 (ou extensão à dor, sem resposta à dor ou mioclonias generalizadas) |
Observações
- Em pacientes sedados, usar o último GCS antes da sedação. Se desconhecido, pontuar como zero.
- Se não for possível avaliar todos os domínios do GCS, usar o melhor escore motor.
- Uso de medicação para delirium pontua 1 ponto, mesmo com GCS 15.
Sistema respiratório
| Pontuação | Critério |
|---|---|
| 0 | PaO₂/FiO₂ >300 mmHg (>40 kPa) |
| 1 | PaO₂/FiO₂ ≤300 mmHg (>40 kPa) |
| 2 | PaO₂/FiO₂ ≤225 mmHg (≤30 kPa) |
| 3 | PaO₂/FiO₂ ≤150 mmHg (≤20 kPa) e suporte ventilatório avançado |
| 4 | PaO₂/FiO₂ ≤75 mmHg (≤10 kPa) e suporte ventilatório avançado ou ECMO |
Observações
- Pode-se usar SpO₂/FiO₂ quando PaO₂/FiO₂ não estiver disponível e SpO₂ <98%.
- Cortes:
0 pontos >300
1 ponto ≤300
2 pontos ≤250
3 pontos ≤200 com suporte ventilatório
4 pontos ≤120 com suporte ventilatório ou ECMO - Suporte ventilatório avançado inclui: alto fluxo nasal, CPAP, BiPAP, ventilação não invasiva ou invasiva.
- Pacientes sem suporte ventilatório avançado podem pontuar no máximo 2, exceto se indisponibilidade ou limitação terapêutica.
- ECMO para falência respiratória pontua 4 no sistema respiratório, mas não no sistema cardiovascular. Caso a ECMO seja utilizada para suporte cardiovascular, pontua 4 tanto no sistema respiratório quanto cardiovascular.
Sistema cardiovascular
| Pontuação | Critério |
|---|---|
| 0 | PAM ≥70 mmHg, sem vasopressor ou inotrópicos |
| 1 | PAM <70 mmHg, sem vasopressor ou inotrópicos |
| 2 | Vasopressor baixa dose (noradrenalina ou adrenalina ≤0,2 µg/kg/min) ou qualquer dose de outro vasopressor/inotrópico) |
| 3 | Vasopressor dose intermediária (noradrenalina ou adrenalina >0,2 a ≤0,4 µg/kg/min) ou baixa dose associada a outro vasopressor/inotrópico |
| 4 | Vasopressor em alta dose (noradrenalina ou adrenalina >0,4 µg/kg/min) ou dose intermediária associada a outro vasopressor/inotrópico ou suporte mecânico |
Observações
- Vasopressores devem ser administrados por infusão contínua por pelo menos 1 hora para pontuação.
- Doses de noradrenalina devem ser expressas na forma base (ajustes para apresentações diferentes – exemplo mais comum: norepinefrina hemitartarato).
- Dopamina, se usada, segue cortes equivalentes baseados em estudos de equivalência com noradrenalina.
- Na ausência de vasopressores (por limitação terapêutica), usar PAM para pontuação:
0: ≥70 mmHg
1: 60–69 mmHg
2: 50–59 mmHg
3: 40–49 mmHg
4: <40 mmHg - Suporte cardiovascular mecânico inclui ECMO venoarterial, balão intra-aórtico, dispositivos de assistência ventricular, entre outros.
Sistema hepático
| Pontuação | Bilirrubina total |
|---|---|
| 0 | ≤1,2 mg/dL (≤20,6 µmol/L) |
| 1 | ≤3,0 mg/dL (≤51,3 µmol/L) |
| 2 | ≤6,0 mg/dL (≤102,6 µmol/L) |
| 3 | ≤12,0 mg/dL (≤102,6 µmol/L) |
| 4 | >12 mg/dL (>205 µmol/L) |
Sistema renal
| Pontuação | Critério |
|---|---|
| 0 | Creatinina ≤1,2 mg/dL (≤110 µmol/L) |
| 1 | Creatinina ≤2,0 mg/dL (≤170 µmol/L) ou diurese <0,5 mL/kg/h por 6–12 h |
| 2 | Creatinina ≤3,5 mg/dL (≤300 µmol/L) ou diurese <0,5 mL/kg/h por ≥12 h |
| 3 | Creatinina >3,5 mg/dL (>300 µmol/L) ou diurese <0,3 mL/kg/h por ≥24 h ou anúria por ≥12 h |
| 4 | Terapia renal substitutiva (TRS) ou atende critérios para TRS (incluindo uso crônico) |
Observações
- Exclui pacientes em TRS por causas não renais (ex: remoção de toxinas).
- Pacientes sem TRS, mas com indicação, devem pontuar 4 (critérios clínicos e laboratoriais).
- Em TRS intermitente, pontuar 4 mesmo nos dias sem diálise até suspensão definitiva.
Hemostasia (coagulação)
| Pontuação | Plaquetas |
|---|---|
| 0 | >150 ×10³/µL |
| 1 | ≤150 ×10³/µL |
| 2 | ≤100 ×10³/µL |
| 3 | ≤80 ×10³/µL |
| 4 | ≤50 ×10³/µL |
Legenda
- ECMO: oxigenação por membrana extracorpórea
- GCS: Escala de Coma de Glasgow
- PAM: pressão arterial média
- TRS: terapia renal substitutiva
- SOFA: Sequential Organ Failure Assessment
Observações gerais
- O escore final é obtido somando os maiores valores de cada um dos 6 sistemas em um período de 24 horas (0 a 24 pontos).
- Para dados ausentes no dia 1, recomenda-se pontuar como zero. Em avaliações sequenciais, usar o último valor disponível.
Referências
- Vincent JL, Moreno R, Takala J, et al. The SOFA (Sepsis-related Organ Failure Assessment) score to describe organ dysfunction/failure. Intensive Care Med. 1996;22(7):707-710.
- Moreno R, Vincent JL, Matos R, et al. The use of maximum SOFA score to quantify organ dysfunction/failure in intensive care. Intensive Care Med. 1999;25(7):686-696.
- Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA. 2016;315(8):801-810.
- Seymour CW, Singer M. Development and Validation of the Sequential Organ Failure Assessment SOFA-2 Score. JAMA. 2025.
- Ranzani OT, et al. Rationale and methodological approach for the SOFA 2.0 score. JAMA Netw Open. 2025.
- Lobo SM, Roepke RML, Myatra SN, Rezende E. Using the SOFA 2.0 score: a quick guide for clinicians and researchers. Crit Care Sci. 2025;37:e20250395.
- Moreno R, et al. Evolution of organ dysfunction scoring systems in intensive care. Crit Care. 2025.
- Seymour CW, Singer M. JAMA Author Interview Podcast: Development and Validation of the SOFA-2 Score. JAMA Network Audio. 2025.