Anúncio

Sequential Organ Failure Assessment Score (SOFA)-2: o que mudou na nossa avaliação do doente grave na UTI?

Médico monitorando ventilador mecânico e monitor multiparamétrico em paciente crítico na UTI

Índice

ÚLTIMAS VAGAS - SÓ ATÉ 22/04

Escolha a Pós que te acompanha de perto com condição especial + brindes exclusivos

*Consulte condições

Dias
Horas
Min

Avaliar a gravidade faz parte da rotina de quem trabalha em terapia intensiva. Desde a admissão até a evolução diária, decisões são tomadas com base na extensão da disfunção orgânica, na resposta às intervenções e na trajetória clínica do paciente.

Nesse cenário, os escores de gravidade não são apenas ferramentas acadêmicas. Eles organizam o raciocínio clínico, criam uma linguagem comum entre profissionais e permitem acompanhar, de forma objetiva, se o paciente está melhorando ou piorando ao longo do tempo.

O escore SOFA sempre ocupou papel central nesse processo. Porém, muita coisa mudou na medicina intensiva desde sua publicação original, em 1996. Portanto, com a atualização para o SOFA 2.0, somos convidados a revisitar conceitos que usamos quase automaticamente à beira do leito.

Por que o escore SOFA é importante na prática da UTI?

O paciente crítico raramente apresenta falência isolada de um único órgão. O que define a gravidade é a soma e a progressão das disfunções. O escore SOFA foi criado justamente com esse objetivo: descrever disfunção orgânica de forma sequencial e dinâmica.

Diferente de escores prognósticos como APACHE, o SOFA não foi desenvolvido para prever mortalidade, mas para quantificar o grau de falência orgânica ao longo do tempo.

Na prática, isso traz aplicações importantes:

  • Avaliação seriada da disfunção orgânica
  • Monitoramento da resposta ao tratamento
  • Identificação precoce de deterioração clínica
  • Padronização da comunicação entre equipes
  • Uso como desfecho em pesquisas clínicas
  • Avaliação objetiva da evolução do paciente crítico

O delta SOFA, por exemplo, ajuda a tornar objetivo aquilo que muitas vezes percebemos de forma subjetiva à beira do leito.

Para o médico que atua em UTI, conhecer o SOFA significa compreender melhor a fisiopatologia da disfunção orgânica múltipla e reconhecer precocemente a deterioração clínica.

Contexto histórico do escore SOFA

O SOFA original foi publicado em 1996, em um cenário muito diferente da terapia intensiva atual. Na época:

  • ventilação protetora ainda não era padrão
  • ECMO era pouco disponível
  • monitorização hemodinâmica era mais invasiva
  • diálise era menos acessível
  • menos drogas vasoativas disponíveis
  • coortes menores para validação

Desde então, a medicina intensiva evoluiu profundamente. Novas tecnologias, estratégias ventilatórias, maior acesso à terapia renal substitutiva e prontuários eletrônicos transformaram o cuidado ao paciente crítico.

O SOFA 2.0 surge nesse contexto como uma atualização necessária para alinhar o escore à prática contemporânea.

O que mudou no SOFA 2.0?

O princípio central foi mantido. Continuamos avaliando seis sistemas orgânicos, cada um pontuado de 0 a 4, com foco na descrição da disfunção. O que mudou foi a forma de medir essa disfunção, os pontos de corte e a incorporação explícita de terapias hoje amplamente utilizadas.

Principais mudanças do SOFA 2.0 nos sistemas orgânicos

No sistema respiratório, uma das mudanças mais relevantes foi a incorporação formal da relação SpO₂/FiO₂ como alternativa à PaO₂/FiO₂, reconhecendo que nem todos os pacientes têm gasometria arterial disponível. Além disso, o uso de oxigenoterapia de alto fluxo, CPAP, ventilação não invasiva e ECMO passou a ser considerado no escore, refletindo a prática atual, em que muitos pacientes com insuficiência respiratória grave não estão intubados ou estão em uso de suporte artificial com ECMO.

No sistema cardiovascular, o SOFA 2.0 amplia o espectro de drogas vasoativas consideradas, incluindo vasopressina e angiotensina II, com equivalência de doses. O uso de suporte circulatório mecânico também passou a fazer parte da avaliação, algo inexistente na versão original.

No sistema renal, além do ajuste dos pontos de corte de creatinina e débito urinário, a terapia renal substitutiva foi incorporada de forma mais clara. O score também contempla situações em que a diálise seria indicada, mas não está disponível, tornando-o mais aplicável a diferentes realidades.

O sistema neurológico manteve a Escala de Coma de Glasgow, mas trouxe regras explícitas para pacientes sedados ou em ventilação mecânica, mas conscientes. Além disso, incluiu também o tratamento farmacológico do delirium como marcador de disfunção cerebral.

Nos sistemas hepático e de coagulação, bilirrubina e plaquetas foram mantidas como variáveis centrais, mas os pontos de corte foram atualizados.

Tabela 1. Principais mudanças do SOFA original para o SOFA 2.0

SistemaSOFA original (1996)SOFA 2.0 (2025)
RespiratórioPaO₂/FiO₂, pontuação maior apenas com VM invasivaPaO₂/FiO₂ ou SpO₂/FiO₂, inclusão de VNI, alto fluxo e ECMO
CardiovascularPAM e uso de dopamina, noradrenalina ou adrenalinaAmpliação de vasopressores, equivalência de doses, descreve o uso combinado de vasopressores e define o suporte  mecânico
RenalCreatinina ou débito urinário, TRS como grau máximoAjuste de limiares, critérios explícitos para TRS ou sua indicação
NeurológicoGCS totalRegras para sedação e pacientes em ventilação mecânica, uso do escore motor e inclusão do tratamento do delirium
HepáticoBilirrubinaBilirrubina mantida, com novos pontos de corte
CoagulaçãoPlaquetasPlaquetas mantidas, com novos pontos de corte

Como usar o SOFA 2.0 à beira do leito?

Assim como seu antecessor, o SOFA 2.0 não deve ser encarado como um número isolado, mas como uma ferramenta de acompanhamento. O valor absoluto importa, mas a tendência ao longo dos dias é ainda mais relevante. O score ajuda a quantificar aquilo que observamos clinicamente e pode servir como alerta precoce de deterioração.

Segundo os próprios autores, o SOFA 2.0 continua tendo papel tanto clínico quanto em pesquisa. Ele não substitui o julgamento médico, mas organiza informações, padroniza avaliações e permite comparações mais justas entre pacientes, serviços e estudos. Sua estrutura também foi pensada para integração com prontuários eletrônicos, facilitando cálculo automático e reduzindo erros manuais.

Vale lembrar que o SOFA 2.0 foi desenvolvido e validado em pacientes de UTI. Seu uso em enfermarias ou do departamento de emergência ainda precisa de validação específica.

Considerações finais

O SOFA 2.0 não representa uma ruptura, mas uma evolução natural. Ele preserva a simplicidade conceitual do score original, ao mesmo tempo em que incorpora quase três décadas de avanços da Medicina Intensiva. Para quem trabalha na UTI, entender essas mudanças é fundamental para aplicar o score de forma objetiva e crítica.

Mais do que decorar pontos de corte, o essencial é compreender o que cada sistema representa e como a soma das disfunções reflete a gravidade real do doente crítico. Nesse sentido, o SOFA 2.0 reforça algo que sempre esteve no centro da terapia intensiva: acompanhar o paciente ao longo do tempo, com método, linguagem comum, foco na fisiopatologia, mas com olhar individualizado para cada paciente!

Tabela 2. Escore SOFA-2

Sistema neurológico (cérebro)

PontuaçãoCritério
0GCS 15 (ou, em pacientes que não podem falar – ex.: ventilação mecânica: sinal positivo com polegar, punho fechado ou sinal de paz)
1GCS 13–14 (ou localiza dor) ou necessidade de medicação para tratar delirium
2GCS 9–12 (ou retira ao estímulo doloroso)
3GCS 6–8 (ou flexão à dor)
4GCS 3–5 (ou extensão à dor, sem resposta à dor ou mioclonias generalizadas)

Observações

  • Em pacientes sedados, usar o último GCS antes da sedação. Se desconhecido, pontuar como zero.
  • Se não for possível avaliar todos os domínios do GCS, usar o melhor escore motor.
  • Uso de medicação para delirium pontua 1 ponto, mesmo com GCS 15.

Sistema respiratório

PontuaçãoCritério
0PaO₂/FiO₂ >300 mmHg (>40 kPa)
1PaO₂/FiO₂ ≤300 mmHg (>40 kPa)
2PaO₂/FiO₂ ≤225 mmHg (≤30 kPa)
3PaO₂/FiO₂ ≤150 mmHg (≤20 kPa) e suporte ventilatório avançado
4PaO₂/FiO₂ ≤75 mmHg (≤10 kPa) e suporte ventilatório avançado ou ECMO

Observações

  • Pode-se usar SpO₂/FiO₂ quando PaO₂/FiO₂ não estiver disponível e SpO₂ <98%.
  • Cortes:
    0 pontos >300
    1 ponto ≤300
    2 pontos ≤250
    3 pontos ≤200 com suporte ventilatório
    4 pontos ≤120 com suporte ventilatório ou ECMO
  • Suporte ventilatório avançado inclui: alto fluxo nasal, CPAP, BiPAP, ventilação não invasiva ou invasiva.
  • Pacientes sem suporte ventilatório avançado podem pontuar no máximo 2, exceto se indisponibilidade ou limitação terapêutica.
  • ECMO para falência respiratória pontua 4 no sistema respiratório, mas não no sistema cardiovascular. Caso a ECMO seja utilizada para suporte cardiovascular, pontua 4 tanto no sistema respiratório quanto cardiovascular.

Sistema cardiovascular

PontuaçãoCritério
0PAM ≥70 mmHg, sem vasopressor ou inotrópicos
1PAM <70 mmHg, sem vasopressor ou inotrópicos
2Vasopressor baixa dose (noradrenalina ou adrenalina ≤0,2 µg/kg/min) ou qualquer dose de outro vasopressor/inotrópico)
3Vasopressor dose intermediária (noradrenalina ou adrenalina >0,2 a ≤0,4 µg/kg/min) ou baixa dose associada a outro vasopressor/inotrópico
4Vasopressor em alta dose (noradrenalina ou adrenalina >0,4 µg/kg/min) ou dose intermediária associada a outro vasopressor/inotrópico ou suporte mecânico

Observações

  • Vasopressores devem ser administrados por infusão contínua por pelo menos 1 hora para pontuação.
  • Doses de noradrenalina devem ser expressas na forma base (ajustes para apresentações diferentes – exemplo mais comum: norepinefrina hemitartarato).
  • Dopamina, se usada, segue cortes equivalentes baseados em estudos de equivalência com noradrenalina.
  • Na ausência de vasopressores (por limitação terapêutica), usar PAM para pontuação:
    0: ≥70 mmHg
    1: 60–69 mmHg
    2: 50–59 mmHg
    3: 40–49 mmHg
    4: <40 mmHg
  • Suporte cardiovascular mecânico inclui ECMO venoarterial, balão intra-aórtico, dispositivos de assistência ventricular, entre outros.

Sistema hepático

PontuaçãoBilirrubina total
0≤1,2 mg/dL (≤20,6 µmol/L)
1≤3,0 mg/dL (≤51,3 µmol/L)
2≤6,0 mg/dL (≤102,6 µmol/L)
3≤12,0 mg/dL (≤102,6 µmol/L)
4>12 mg/dL (>205 µmol/L)

Sistema renal

PontuaçãoCritério
0Creatinina ≤1,2 mg/dL (≤110 µmol/L)
1Creatinina ≤2,0 mg/dL (≤170 µmol/L) ou diurese <0,5 mL/kg/h por 6–12 h
2Creatinina ≤3,5 mg/dL (≤300 µmol/L) ou diurese <0,5 mL/kg/h por ≥12 h
3Creatinina >3,5 mg/dL (>300 µmol/L) ou diurese <0,3 mL/kg/h por ≥24 h ou anúria por ≥12 h
4Terapia renal substitutiva (TRS) ou atende critérios para TRS (incluindo uso crônico)
Observações
  • Exclui pacientes em TRS por causas não renais (ex: remoção de toxinas).
  • Pacientes sem TRS, mas com indicação, devem pontuar 4 (critérios clínicos e laboratoriais).
  • Em TRS intermitente, pontuar 4 mesmo nos dias sem diálise até suspensão definitiva.

Hemostasia (coagulação)

PontuaçãoPlaquetas
0>150 ×10³/µL
1≤150 ×10³/µL
2≤100 ×10³/µL
3≤80 ×10³/µL
4≤50 ×10³/µL

Legenda

  • ECMO: oxigenação por membrana extracorpórea
  • GCS: Escala de Coma de Glasgow
  • PAM: pressão arterial média
  • TRS: terapia renal substitutiva
  • SOFA: Sequential Organ Failure Assessment

Observações gerais

  • O escore final é obtido somando os maiores valores de cada um dos 6 sistemas em um período de 24 horas (0 a 24 pontos).
  • Para dados ausentes no dia 1, recomenda-se pontuar como zero. Em avaliações sequenciais, usar o último valor disponível.

Referências

  1. Vincent JL, Moreno R, Takala J, et al. The SOFA (Sepsis-related Organ Failure Assessment) score to describe organ dysfunction/failure. Intensive Care Med. 1996;22(7):707-710.
  2. Moreno R, Vincent JL, Matos R, et al. The use of maximum SOFA score to quantify organ dysfunction/failure in intensive care. Intensive Care Med. 1999;25(7):686-696.
  3. Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA. 2016;315(8):801-810.
  4. Seymour CW, Singer M. Development and Validation of the Sequential Organ Failure Assessment SOFA-2 Score. JAMA. 2025.
  5. Ranzani OT, et al. Rationale and methodological approach for the SOFA 2.0 score. JAMA Netw Open. 2025.
  6. Lobo SM, Roepke RML, Myatra SN, Rezende E. Using the SOFA 2.0 score: a quick guide for clinicians and researchers. Crit Care Sci. 2025;37:e20250395.
  7. Moreno R, et al. Evolution of organ dysfunction scoring systems in intensive care. Crit Care. 2025.
  8. Seymour CW, Singer M. JAMA Author Interview Podcast: Development and Validation of the SOFA-2 Score. JAMA Network Audio. 2025.

Compartilhe este artigo:

Uma pós que te dá mais confiança para atuar.

Conheça os cursos de pós-graduação em medicina da Sanar e desenvolva sua carreira com especialistas.

Anúncio

📚💻 Não perca o ritmo!

Preencha o formulário e libere o acesso ao banco de questões 🚀