A neuralgia glossofaríngea é uma condição rara, porém muito impactante, que provoca crises súbitas de dor intensa na região da garganta, base da língua, amígdalas, ouvido e, em alguns casos, mandíbula. Embora muitas pessoas associem dor de garganta a infecções, refluxo ou inflamações comuns, a neuralgia glossofaríngea tem outra origem: ela envolve o nono nervo craniano, chamado nervo glossofaríngeo.
Esse nervo participa da sensibilidade da garganta, da parte posterior da língua, da região das tonsilas e de estruturas próximas ao ouvido médio. Além disso, ele também se relaciona com funções como deglutição, reflexo do vômito e controle de algumas respostas cardiovasculares. Por isso, quando ocorre irritação, compressão ou alteração funcional desse nervo, o paciente pode sentir dor muito forte, em pontadas ou choques, mesmo sem apresentar sinais visíveis de inflamação local.
Apesar de rara, a neuralgia glossofaríngea merece atenção porque pode limitar atividades simples do dia a dia, como falar, engolir, mastigar, bocejar ou até escovar os dentes. Além disso, em situações menos comuns, as crises podem se associar a desmaios, queda da frequência cardíaca ou alterações da pressão arterial. Portanto, o diagnóstico correto faz diferença para controlar a dor, investigar possíveis causas e indicar o tratamento mais adequado.
O que é neuralgia glossofaríngea?
A neuralgia glossofaríngea corresponde a uma síndrome dolorosa paroxística, ou seja, com crises breves, intensas e recorrentes. Geralmente, a dor surge de forma abrupta, dura poucos segundos a alguns minutos e desaparece em seguida. Entretanto, a repetição das crises ao longo do dia pode gerar medo de falar, comer ou engolir, já que esses movimentos podem desencadear novos episódios.
A dor costuma atingir um lado da garganta ou da face. Ainda assim, cada paciente pode relatar uma distribuição um pouco diferente, principalmente porque o nervo glossofaríngeo tem conexões com outras estruturas sensitivas da cabeça e do pescoço. Dessa forma, a dor pode irradiar para:
- Ouvido
- Região tonsilar
- Base da língua
- Palato mole
- Ângulo da mandíbula
- Ou parte alta do pescoço.
Embora a neuralgia glossofaríngea lembre outras neuralgias cranianas, como a neuralgia do trigêmeo, ela apresenta localização e gatilhos próprios. Enquanto a neuralgia do trigêmeo afeta com maior frequência regiões da face, a neuralgia glossofaríngea costuma envolver garganta, língua posterior e ouvido. Assim, uma avaliação clínica detalhada ajuda a diferenciar essas condições e evita tratamentos inadequados.
Principais causas da neuralgia glossofaríngea
Causa estrutural
Na maior parte dos casos, o médico não encontra uma causa estrutural evidente logo no início da investigação. Ainda assim, uma das hipóteses mais importantes envolve o contato anormal entre um vaso sanguíneo e a raiz do nervo glossofaríngeo, próximo ao tronco encefálico.
Esse contato pode irritar o nervo e favorecer descargas dolorosas, especialmente em pessoas predispostas.
Na imagem abaixo observa-se a anatomia do nervo glossofaríngeo:

Tumores, lesões e alterações vasculares
Além disso, algumas condições podem provocar neuralgia glossofaríngea secundária. Entre elas, entram tumores da base do crânio, lesões na região da fossa posterior, alterações vasculares, processos inflamatórios, traumas, infecções, cirurgias prévias e doenças que afetam a bainha de mielina dos nervos.
Consequentemente, a investigação não deve considerar apenas a dor, mas também sinais neurológicos associados, história clínica e exames de imagem.
Síndrome de Eagle
Outra possibilidade envolve a síndrome de Eagle, condição relacionada ao alongamento do processo estiloide ou à calcificação do ligamento estilo-hióideo.
Nesses casos, estruturas ósseas ou ligamentares podem irritar regiões próximas ao trajeto do nervo, o que gera dor na garganta, sensação de corpo estranho, desconforto ao engolir e irradiação para o ouvido.
Também vale destacar que muitos pacientes passam por consultas odontológicas, otorrinolaringológicas ou gastroenterológicas antes de chegar ao diagnóstico. Isso acontece porque a dor pode parecer dor de ouvido, amigdalite, dor dentária, disfunção temporomandibular ou refluxo. Portanto, quando a dor surge em choques, aparece em crises curtas e piora com deglutição ou fala, o médico deve considerar a neuralgia glossofaríngea entre as hipóteses.
Sintomas mais comuns
O sintoma central da neuralgia glossofaríngea é a dor intensa, geralmente descrita como choque, facada, queimação aguda ou pontada profunda. Normalmente, o episódio começa de repente e atinge intensidade alta em poucos segundos. Depois, melhora espontaneamente, embora possa retornar várias vezes ao dia.
A dor costuma aparecer em um lado da garganta, na região da amígdala, na base da língua ou no ouvido. Além disso, pode irradiar para mandíbula, palato, pescoço ou região lateral da face. Em muitos pacientes, ações simples funcionam como gatilhos. Por exemplo: engolir saliva, mastigar, falar, tossir, bocejar, rir, espirrar, tocar a garganta ou consumir alimentos muito frios ou muito quentes.
Entre as crises, o paciente pode ficar sem dor. No entanto, alguns relatam desconforto residual, sensação de garganta sensível ou medo de movimentar a boca e engolir. Com o tempo, esse comportamento pode prejudicar alimentação, hidratação, sono e vida social. Além disso, a ansiedade antecipatória pode aumentar o sofrimento, já que o paciente passa a evitar situações que podem disparar a dor.
Em casos raros, a neuralgia glossofaríngea pode se associar a sintomas autonômicos ou cardiovasculares, como tontura, sensação de desmaio, síncope, bradicardia ou queda da pressão. Isso ocorre porque o nervo glossofaríngeo participa de reflexos ligados ao seio carotídeo e à regulação cardiovascular. Assim, quando o paciente apresenta perda de consciência, palpitações, tonturas importantes ou sintomas neurológicos, a avaliação médica deve ocorrer com prioridade.
Como o diagnóstico é feito?
O diagnóstico começa pela história clínica. O médico investiga a localização da dor, o tipo de sensação, a duração das crises, os gatilhos, a frequência dos episódios e os sintomas associados. Além disso, avalia antecedentes de cirurgia, trauma, câncer, doenças neurológicas, infecções e uso de medicamentos.
Em seguida, o exame físico e neurológico ajuda a procurar alterações sensitivas, sinais de comprometimento de outros nervos cranianos, assimetrias, dificuldade para engolir, alterações de voz ou achados otorrinolaringológicos. Embora muitos pacientes apresentem exame normal, essa etapa continua importante, porque pode indicar causas secundárias.
A ressonância magnética do encéfalo e da base do crânio costuma integrar a investigação, especialmente quando o quadro começou recentemente, apresenta sintomas atípicos ou aparece junto com alterações neurológicas. Além disso, exames vasculares podem ajudar quando o médico suspeita de compressão neurovascular. Em situações selecionadas, tomografia da região cervical e da base do crânio pode contribuir para avaliar processo estiloide alongado ou alterações ósseas.
O diagnóstico diferencial inclui neuralgia do trigêmeo, dor temporomandibular, otite, amigdalite, tumores de orofaringe, dor odontogênica, enxaqueca, cefaleias autonômicas trigeminais, refluxo laringofaríngeo e outras dores craniofaciais. Portanto, a combinação entre padrão da dor, gatilhos e exames direcionados orienta a confirmação.
Tratamento medicamentoso
O tratamento geralmente começa com medicamentos que reduzem a hiperexcitabilidade dos nervos. Entre as opções mais usadas, entram anticonvulsivantes, como carbamazepina e oxcarbazepina. Esses medicamentos podem diminuir a frequência e a intensidade das crises, principalmente quando o paciente usa doses ajustadas de forma progressiva e com acompanhamento médico.
Além disso, o médico pode considerar outras opções em casos selecionados, como gabapentina, pregabalina, baclofeno, lamotrigina ou outros fármacos voltados ao controle de dor neuropática. No entanto, a escolha depende do perfil do paciente, idade, comorbidades, interações medicamentosas, tolerância e resposta clínica.
Durante o tratamento, o acompanhamento faz diferença. Isso porque alguns medicamentos exigem monitorização de efeitos adversos, ajuste de dose e, em determinados casos, exames laboratoriais. Além disso, o paciente não deve interromper ou aumentar a dose por conta própria, já que mudanças bruscas podem piorar sintomas ou causar eventos indesejados.
Analgésicos comuns, anti-inflamatórios e antibióticos geralmente não resolvem a neuralgia glossofaríngea, a menos que exista outra condição associada. Por isso, quando uma “dor de garganta” não melhora com tratamentos usuais, aparece em choques e se repete em crises, a investigação precisa avançar.
Tratamento cirúrgico e procedimentos
Quando o tratamento medicamentoso não controla a dor, causa efeitos adversos importantes ou quando exames mostram compressão neurovascular relevante, o médico pode indicar avaliação neurocirúrgica. Uma das alternativas envolve a descompressão microvascular, procedimento que busca separar o vaso em contato com o nervo e reduzir a irritação neural.
Além disso, em alguns casos específicos, procedimentos ablativos ou técnicas voltadas a interromper vias dolorosas podem entrar na discussão. Entretanto, essas opções exigem análise individualizada, porque podem gerar efeitos como alteração da sensibilidade, dificuldade de deglutição, rouquidão ou outros déficits relacionados aos nervos cranianos próximos.
Por isso, a decisão cirúrgica considera intensidade da dor, impacto funcional, resposta aos medicamentos, idade, riscos anestésicos, presença de doenças associadas e achados de imagem. Assim, o tratamento ideal não segue uma única fórmula. Pelo contrário, ele combina diagnóstico preciso, controle da dor e redução de riscos.
Quando procurar atendimento médico?
O paciente deve procurar avaliação quando apresenta dor intensa, em choques, localizada na garganta, língua posterior ou ouvido, principalmente quando a dor surge com fala, mastigação ou deglutição. Além disso, deve buscar atendimento com urgência se tiver desmaios, tontura importante, fraqueza, alteração de voz, dificuldade para engolir, perda de peso inexplicada, febre persistente, sangramentos, caroços no pescoço ou dor progressiva.
Embora a neuralgia glossofaríngea tenha tratamento, o diagnóstico pode demorar quando o quadro se confunde com doenças mais comuns. Portanto, descrever bem a dor ajuda muito: duração, gatilhos, lado afetado, irradiação, frequência e sintomas associados. Com essas informações, o médico consegue direcionar melhor a investigação.
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Referências bibliográficas
- UPTODATE. Glossopharyngeal neuralgia. Waltham: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/glossopharyngeal-neuralgia. Acesso em: 3 maio 2026.
- UPTODATE. Overview of craniofacial pain. Waltham: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/overview-of-craniofacial-pain. Acesso em: 3 maio 2026.
