É fato que o movimento vegano vem crescendo exponencialmente durante
os últimos anos e isso deve-se à diversas questões, tais como a coerção ao
sofrimento de animais e a alegação de que a dieta vegetal é rica e suficiente. De acordo com Richard Corliss,
em um texto publicado na Revista Time Americana, para milhões de vegetarianos,
carne significa morte; vitela invoca visões de infanticídio. Muitas crianças,
que cresceram assistindo sucessos como “Babe: O Porquinho Atrapalhado” e “Fuga
das Galinhas”, evitam comer seus heróis cinematográficos e adotam o que os
detratores da carne chamam de “dieta não-violenta”. O veganismo (e suas mais
variáveis vertentes) resolve uma guerra interior da pessoa consciente,
fornecendo um complexo comestível de boa ação: ser vegano é ser mais humano.
Contudo, os plantívoros colocam em cheque a biologia humana. Anatomicamente,
o ser humano possui características representativas de onívoros (capacidade
para metabolização de diferentes classes de alimentos). No entanto, a dentição
está de acordo com o preparo da carne para digestão, ilustrado com a presença
de caninos que atuam juntamente com os incisivos para rasgar a carne. Além
disso, o organismo humano é incapaz de digerir celulose e, por isso, jamais
poderia exercer uma alimentação exclusivamente herbívora. Por esta razão, a
celulose passa pelo sistema digestivo sem ser digerida nem absorvida. As vacas,
e outros ruminantes, também não podem sintetizar celulose, porém, eles contam
com a ajuda de bactérias, protozoários e fungos presentes nos pré-estômagos,
com quem vivem numa relação de simbiose. Portanto, se a espécie humana não tem
o rúmen e o apêndice tende a se tornar um órgão vestigial, não há como digerir
celulose. Além disso, a flora intestinal humana com variedade de micróbios
também ilustra a ancestralidade representada acima.
Nesse flerte, tomemos como base o processo de hominização – evolução
física e intelectual do homem – que fora consolidada puramente pelos hábitos de
caça, pesca e domesticação animal. O homenídeo desenvolveu sua capacidade
motora e de cognição, e, posteriormente, as relações intracromossomiais
específicas, que resultaram na intelectualidade e inteligência racional, por
efeito da dieta rica em vitamina B12, que também é de suma importância para o
sangue e para evitar anemia perniciosa. Além disso, por ser hidrossolúvel, ela
ajuda a manter o metabolismo do sistema nervoso e das hemácias saudáveis, bem
como reduz o risco de danos no DNA e trabalha no controle de níveis de
homocisteína, um aminoácido muito associado à doenças cardíacas. Ademais, uma
pesquisa publicada no The American Journal of Psychiatry, concluiu que doses
periódicas de vitamina B12 diminuem o risco de pessoas desenvolverem depressão,
principalmente na puberdade.
Além disso, o cálcio, que é essencial para a formação e mineralização
óssea, contração muscular e impulsos nervosos, também tem um papel importante
na prevenção de fraturas que são comuns durante a infância. Além do mais, este
mineral está envolvido nos processos de transporte de nutrientes nas células,
na secreção hormonal, na ativação e liberação de enzimas em várias vias de
metabolismo, na coagulação sanguínea, na contração muscular, na transmissão de
impulsos nervosos e, ainda, na regulação da função muscular cardíaca. No início
da puberdade e com o novo pico no crescimento, também haverá maior absorção e
deposição do cálcio nos ossos. Portanto, cerca de metade do cálcio ósseo
presente na idade adulta é acumulado durante a adolescência. Alguns estudos
demonstram que o baixo consumo alimentar de cálcio na infância e na
adolescência, pode causar déficit de crescimento e de desenvolvimento durante a
puberdade, maior probabilidade de desenvolver sobrepeso ou obesidade,
aparecimento de doenças ósseas (fraturas com maior frequência e osteoporose na
fase adulta e idosa).
Ademais, os
ácidos graxos do tipo ômega-3, que estão presentes nos ovos, peixes e algas, apresentam diversas funções na
fisiologia humana, particularmente, como componentes das membranas celulares e
precursores na síntese de prostaglandinas, leucotrienos e eicosanoides.
De acordo com uma pesquisa divulgada na Revista Paulista de Pediatria, de 2017,
alegou-se que a ingestão desse ácido em idade entre 4 e 12 anos, corrobora na
melhora em aspectos cognitivos, como a atenção ao realizar tarefas de
brincadeiras ao ar livre, além de atuar na pressão arterial de forma protetora.
Observou-se ainda uma melhora na imunidade nessa faixa etária, diminuindo
infecções comuns durante o período, principalmente sintomas de resfriados, bem
como na melhoria da compreensão auditiva e na aquisição de vocabulário,
diminuição de escores de ansiedade e timidez.
Desse modo, atualmente, nota-se que a alimentação onívora é de suma
importância para o desenvolvimento das crianças, principalmente até os nove
anos de idade, visto que, é por meio de suplementações presentes em artigos
animais, majoritariamente, que desenvolvem-se capacidades cognitivas, motoras,
sensitivas e linguísticas do infante. Em elo a isso, depreende-se que, é
durante os primeiros anos de vida em que ocorre um colossal desenvolvimento
neurológico. Assim, uma dieta restritiva pode vir a comprometer o natural
desenvolvimento da criança, devido à carência calórica-proteica, sinalizada por
meio de fadigas, falta de concentração, falhas na memória, alucinações,
icterícias e redução nas capacidades cognitivas, deficiências.
Infere-se
portanto, que as crianças que mantém uma dieta restrita ao veganismo, têm
maiores riscos de déficits fisiológicos. Médicos alertam para casos de
raquitismo e AVC em crianças que seguem dietas veganas radicais, sem controle e
sem suplementos. Sob essa perspectiva, deve haver um equilíbrio do aporte de
nutrientes, tendo em conta o estado de desenvolvimento da criança, para
assegurar um harmonioso crescimento e desenvolvimento. Conclui-se, assim, que a
dieta vegana e todas as suas variantes, podem ser adotadas em pediatria se
planeadas, e caso necessário, suplementadas, não causando qualquer dano e até
podendo trazer benefícios a longo prazo.