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Gastroenterologia

TGO (AST): Interpretação Clínica e Indicações

A aspartato aminotransferase (AST), também conhecida como transaminase glutâmico-oxalacética (TGO), é uma enzima intracelular presente principalmente em hepatócitos, miócitos cardíacos, músculo esquelético, rins e cérebro. Sua dosagem sérica é um marcador sensível de lesão celular, especialmente hepatocelular, sendo fundamental na avaliação de hepatopatias agudas e crônicas. A elevação da AST ocorre por liberação citoplasmática e mitocondrial após necrose ou dano de membrana celular. Na prática clínica, a AST é frequentemente dosada em conjunto com a ALT (TGP) para calcular a relação AST/ALT, que auxilia no diagnóstico diferencial das doenças hepáticas. Este exame é indicado para médicos generalistas, gastroenterologistas, hepatologistas e intensivistas na investigação de síndromes de lesão hepática, monitoramento de hepatotoxicidade medicamentosa e avaliação de doenças musculares ou cardíacas quando clinicamente suspeitas.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou com gel separador
Resultado em
2–6 horas (métodos automatizados em plataformas como Sysmex ou Beckman Coulter)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Gastroenterologia / Clínica Médica / Hepatologia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de hepatite aguda com icterícia, astenia e colúria CID B15
  • Monitoramento de hepatotoxicidade por medicamentos (ex: paracetamol, isoniazida, estatinas) CID K71
  • Avaliação de doença hepática alcoólica em paciente com consumo crônico e risco elevado CID K70
  • Triagem de esteatohepatite não alcoólica (NASH) em paciente com síndrome metabólica e hepatomegalia CID K75.8
  • Investigação de miopatia inflamatória com fraqueza muscular proximal e mialgias CID M60
  • Avaliação de lesão miocárdica em contexto de infarto agudo do miocárdio suspeito CID I21
  • Monitoramento de hepatite viral crônica (B ou C) em tratamento ou vigilância CID B18
  • Investigação de colestase intra-hepática com prurido e elevação de fosfatase alcalina CID K83.1
  • Avaliação de doença de Wilson em paciente jovem com alterações neurológicas e hepáticas CID E83.0
  • Triagem de hepatopatia autoimune em mulher com outras doenças autoimunes e fadiga CID K75.4

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — libera AST eritrocitária, causando pseudo-elevação significativa dos valores
  • Icterícia intensa — interfere na absorbância espectrofotométrica, podendo causar resultados falsamente baixos
  • Lipemia acentuada — turbidez interfere na leitura óptica, requerindo ultracentrifugação prévia
  • Tempo prolongado em temperatura ambiente — degradação enzimática progressiva, reduzindo valores após 48 horas
  • Uso de tubo com heparina — inibe enzimas em alguns métodos, levando a resultados falsamente baixos

Valores de Referência

Valores de referência do TGO (AST)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
AST (TGO)10–409–3225–75 (recém-nascidos a 1 mês); 15–60 (1 mês a 1 ano); 15–50 (1–18 anos)U/L

Como interpretar o resultado?

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para TGO (AST)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
AST > ALT (relação > 2:1)Hepatopatia alcoólica, cirrose avançada, doença de WilsonGGT, VCM, ceruloplasmina, cobre urinário, elastografia hepáticaGastroenterologia/Hepatologia
AST e ALT > 10x ULNHepatite viral aguda, hepatite autoimune, toxicidade por paracetamolSorologias virais, autoanticorpos (ANA, anti-LKM, anti-músculo liso), acetaminofeno séricoGastroenterologia/Clínica Médica
AST elevada com CK muito elevadaRabdomiólise, polimiosite, distrofia muscularMioglobina, aldolase, eletromiografia, biópsia muscularNeurologia/Reumatologia
AST elevada com bilirrubina direta elevadaHepatite colestática, colangite, obstrução biliarFosfatase alcalina, GGT, ultrassonografia abdominal, CPREGastroenterologia
AST discretamente elevada isoladaEsteatose hepática, doença muscular subclínica, variação normalUltrassonografia abdominal, CK, perfil lipídico, glicemiaClínica Médica

Medicamentos e Interferentes

  • Paracetamol — hepatotoxicidade dose-dependente, eleva AST em 24–72 horas após overdose
  • Estatinas — miotoxicidade e hepatotoxicidade, eleva AST e CK, geralmente reversível
  • Anticonvulsivantes (fenitoína, carbamazepina) — indução enzimática e hepatotoxicidade idiosincrática, eleva AST
  • Antituberculosos (isoniazida, rifampicina) — hepatotoxicidade em 1–3 meses de uso, eleva AST e ALT
  • Corticoides — miopatia esteroidal, eleva AST e CK com uso crônico em altas doses
  • Álcool — consumo agudo e crônico, eleva AST predominantemente sobre ALT
  • Antibióticos (amoxicilina-clavulanato, eritromicina) — hepatotoxicidade colestática, eleva AST e fosfatase alcalina

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

Valores de AST podem estar ligeiramente reduzidos no terceiro trimestre devido à hemodiluição. Elevações > 2x ULN requerem investigação de colestase intra-hepática da gravidez, pré-eclâmpsia com síndrome HELLP ou hepatite viral aguda. A relação AST/ALT perde valor diagnóstico na gestação.

Criança

Valores de referência são mais elevados no primeiro ano de vida, declinando progressivamente até a adolescência. Elevações persistentes devem investigar hepatite autoimune, doença de Wilson, deficiência de alfa-1-antitripsina ou doenças metabólicas hepáticas. Considerar coleta com volume mínimo adequado.

Idoso

Valores podem estar ligeiramente reduzidos devido à diminuição da massa muscular. Elevações discretas são comuns por polifarmácia (hepatotoxicidade medicamentosa) ou esteatose hepática. A relação AST/ALT > 1 é mais frequente, mas não específica de alcoolismo. Investigar causas cardiovasculares (ICC, IAM silencioso).

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...
  • Se AST > ALT (relação > 2:1) e suspeita de hepatopatia alcoólica GGT
  • Se AST muito elevada (> 1000 U/L) com suspeita de hepatite fulminante Coagulograma
  • Se AST elevada com suspeita de doença de Wilson em paciente jovem Ceruloplasmina

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Hepatologia. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Hepatologia para o manejo das hepatites virais. 2021.
  2. American College of Gastroenterology. ACG Clinical Guideline: Evaluation of Abnormal Liver Chemistries. Am J Gastroenterol. 2017;112(1):18-35. 10.1038/ajg.2016.517
  3. Kwo PY, Cohen SM, Lim JK. ACG Clinical Guideline: Evaluation of Abnormal Liver Chemistries. Am J Gastroenterol. 2017;112(1):18-35.
  4. Giannini EG, Testa R, Savarino V. Liver enzyme alteration: a guide for clinicians. CMAJ. 2005;172(3):367-379. 10.1503/cmaj.1040752
  5. Green RM, Flamm S. AGA technical review on the evaluation of liver chemistry tests. Gastroenterology. 2002;123(4):1367-1384.

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