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Oncologia

LDH (Desidrogenase lática): Interpretação Clínica e Indicações

A Desidrogenase Lática (LDH) é uma enzima citoplasmática presente em praticamente todas as células do organismo, com isoenzimas distribuídas diferencialmente nos tecidos (LDH-1 predominante em coração e eritrócitos, LDH-2 em sistema reticuloendotelial, LDH-3 em pulmões, LDH-4 em rins e placenta, LDH-5 em fígado e músculo esquelético). Clinicamente, a dosagem da LDH total no soro é utilizada como marcador inespecífico de lesão celular e necrose tecidual, sendo particularmente relevante em contextos oncológicos e hematológicos. Na prática médica, a LDH é fundamental para o estadiamento prognóstico de linfomas (especialmente linfoma difuso de grandes células B e linfoma de Burkitt), monitoramento de resposta terapêutica em tumores sólidos (como tumores germinativos e melanoma), e avaliação de síndromes de lise tumoral. Também auxilia no diagnóstico diferencial de anemias hemolíticas, doenças hepáticas, infarto do miocárdio (embora com menor especificidade que troponina) e pneumonias. A interpretação deve considerar o contexto clínico, pois elevações podem ocorrer em múltiplas condições benignas e malignas.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou com gel separador
Resultado em
2–6 horas (métodos automatizados em plataformas como Beckman Coulter AU, Roche Cobas)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Hematologia / Oncologia / Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Estadiamento prognóstico de linfomas agressivos (linfoma difuso de grandes células B, linfoma de Burkitt) conforme critérios do International Prognostic Index (IPI) CID C85
  • Monitoramento de resposta terapêutica e detecção de recidiva em tumores germinativos (seminoma, não-seminoma) e melanoma metastático CID C62
  • Investigação de anemia hemolítica com icterícia, esplenomegalia e reticulocitose CID D59
  • Avaliação de síndrome de lise tumoral em pacientes com leucemias agudas ou linfomas de alto grau após início de quimioterapia CID E88
  • Diagnóstico diferencial de derrames cavitários (pleural, peritoneal) entre exsudato e transudato (critério de Light) CID J90
  • Avaliação de lesão hepática em hepatites virais, esteatohepatite ou toxicidade medicamentosa, quando TGO/TGP não estão disponíveis CID K73
  • Suspeita de infarto do miocárdio em contexto de dor torácica com eletrocardiograma inconclusivo e troponina negativa precoce CID I21
  • Investigação de pneumonias graves com comprometimento parenquimatoso extenso (especialmente por Pneumocystis jirovecii) CID J18
  • Triagem de doenças musculares em pacientes com mialgia, fraqueza e CK normal ou levemente elevada CID M60
  • Acompanhamento de pacientes com neoplasias sólidas metastáticas em tratamento com terapia alvo ou imunoterapia para detecção precoce de progressão CID C80

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — liberação de LDH-1 e LDH-2 dos eritrócitos causa elevação falsa significativa; rejeitar amostras com hemólise visível
  • Exercício físico vigoroso — aumento transitório de LDH-5 por liberação muscular, podendo elevar resultados em até 40% por 24–48 horas
  • Icterícia intensa (bilirrubina > 20 mg/dL) — interfere em métodos fotométricos, causando subestimação dos valores
  • Lipemia acentuada — turbidez interfere na leitura espectrofotométrica, podendo causar resultados falsamente elevados ou reduzidos
  • Uso de anticoagulantes heparinizados — inibição enzimática leve, resultando em subestimação de 5–10% nos valores

Valores de Referência

Valores de referência do LDH (Desidrogenase lática)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
LDH total125–220 U/L125–220 U/L150–300 U/L (1–12 anos); valores mais altos em neonatos (até 450 U/L)U/L

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do LDH (Desidrogenase lática)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
LDH > 2,5 vezes o limite superior da normalidade (LSV)Sugere lesão tecidual extensa, como linfomas agressivos, tumores germinativos metastáticos, anemia hemolítica grave ou síndrome de lise tumoral Solicitar exames de imagem (TC de tórax/abdome/pelve) e biópsia de medula óssea se indicado; avaliar função renal e uricemia
LDH 1,5–2,5 vezes o LSVPode indicar doenças hepáticas (hepatite, esteatohepatite), pneumonias, infarto do miocárdio ou neoplasias sólidas localizadas Correlacionar com TGO/TGP, PCR, troponina e radiografia de tórax; investigar etiologia específica
LDH levemente elevado (até 1,5 vezes o LSV)Frequentemente associado a condições benignas: exercício recente, hemólise in vitro, doença hepática gordurosa não alcoólica, uso de estatinas Repetir o exame após 2–4 semanas com coleta cuidadosa; avaliar estilo de vida e medicações
LDH normal em paciente com linfoma conhecidoPode ocorrer em linfomas indolentes (linfoma folicular estágio inicial) ou tumores localizados sem grande carga tumoral Manter acompanhamento conforme estadiamento; não exclui necessidade de tratamento se outros critérios estiverem presentes
LDH persistentemente elevada após tratamento oncológicoSugere doença residual, recidiva ou transformação histológica (ex: linfoma folicular para difuso de grandes células B) Solicitar PET-CT e reavaliação histológica; considerar troca de esquema terapêutico
LDH elevada com bilirrubina indireta alta e reticulocitosePadrão sugestivo de anemia hemolítica intravascular ou extravascular Solicitar esfregaço de sangue periférico, teste de Coombs, haptoglobina e LDH no líquor se meningite suspeita
Relação LDH líquido/soro > 0,6 em derrame pleuralCritério de Light para exsudato, sugerindo etiologia inflamatória, infecciosa ou neoplásica Realizar toracocentese diagnóstica com citologia, bioquímica e culturas
LDH elevada com CK normal em paciente com mialgiaPode indicar miopatia inflamatória (dermatomiosite, polimiosite) ou rabdomiólise subclínica Solicitar anticorpos específicos (anti-Jo1, anti-Mi2), eletromiografia e biópsia muscular se persistente

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para LDH (Desidrogenase lática)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
LDH muito elevada (> 1000 U/L) com linfadenopatiaLinfoma agressivo (Burkitt, difuso de grandes células B), leucemia aguda, síndrome de lise tumoralBiópsia de linfonodo, PET-CT, mielograma, uricemia, creatininaHematologia / Oncologia
LDH elevada com icterícia e anemiaAnemia hemolítica, hepatite aguda, síndrome de Budd-ChiariEsfregaço de sangue, bilirrubinas fracionadas, TGO/TGP, ultrassom abdominal com DopplerHematologia / Gastroenterologia
LDH elevada com dor torácica e dispneiaInfarto do miocárdio, embolia pulmonar, pneumonia grave, pericarditeTroponina, ECG, angiotomografia de tórax, radiografia de tóraxCardiologia / Pneumologia
LDH elevada com derrame pleuralTuberculose, neoplasia pleural, empiema, lúpus eritematoso sistêmicoToracocentese com citologia e ADA, biópsia pleural, FANPneumologia / Reumatologia
LDH elevada com mialgia e fraquezaRabdomiólise, dermatomiosite, polimiosite, hipotireoidismoCK, aldolase, anticorpos específicos, TSH, T4 livreReumatologia / Neurologia
LDH persistentemente elevada sem sintomasDoença hepática gordurosa, hemólise subclínica, macroenzima LDH, neoplasia ocultaEcografia abdominal, ferritina, haptoglobina, pesquisa de macroenzimasClínica Médica

Medicamentos e Interferentes

  • Ácido acetilsalicílico (doses altas) — inibição enzimática leve, pode reduzir LDH em 5–10%
  • Clofibrato — indução enzimática hepática, pode elevar LDH-5 em 15–20%
  • Anestésicos halogenados (halotano) — toxicidade hepática, eleva LDH-5 significativamente
  • Anticonvulsivantes (fenitoína, carbamazepina) — indução hepática, elevação moderada de LDH
  • Estatinas (sinvastatina, atorvastatina) — miotoxicidade, eleva LDH-5 em 10–30% dos usuários
  • Ácido valproico — hepatotoxicidade dose-dependente, eleva LDH-5 e LDH-4
  • Álcool etílico (consumo crônico) — hepatotoxicidade, eleva LDH-5 predominantemente
  • Corticosteroides (prednisona, dexametasona) — podem elevar LDH por efeito catabólico muscular

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

A LDH pode estar fisiológica e discretamente elevada no terceiro trimestre (até 1,3 vezes o LSV) devido ao aumento do metabolismo placentário (LDH-4). Valores acima desse limiar sugerem complicações como pré-eclâmpsia grave, síndrome HELLP (onde a LDH > 600 U/L é critério diagnóstico) ou trombose venosa hepática. A isoenzima LDH-4 predomina na placenta.

Criança

Valores de referência são naturalmente mais altos em neonatos (até 450 U/L) e crianças (150–300 U/L), diminuindo progressivamente até a adolescência. Elevações significativas devem investigar causas como leucemia aguda, linfoma (especialmente linfoma de Burkitt endêmico), anemias hemolíticas congênitas (esferocitose, deficiência de G6PD) e doenças musculares hereditárias.

Idoso

Pequena elevação relacionada à idade pode ocorrer (até 1,2 vezes o LSV) devido a comorbidades subclínicas (esteatose hepática, doença muscular sarcopênica). No entanto, elevações importantes devem sempre investigar neoplasias (especialmente linfomas e tumores sólidos), doenças cardiovasculares (insuficiência cardíaca, infarto silencioso) e polifarmácia (efeito de estatinas, anticonvulsivantes).

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Diretrizes para coleta, processamento e interpretação de enzimas séricas. 2021.
  2. Cheson BD, Fisher RI, Barrington SF, et al. Recommendations for initial evaluation, staging, and response assessment of Hodgkin and non-Hodgkin lymphoma: the Lugano classification. J Clin Oncol. 2014;32(27):3059-3068. 10.1200/JCO.2013.54.8800
  3. Howard SC, Jones DP, Pui CH. The tumor lysis syndrome. N Engl J Med. 2011;364(19):1844-1854. 10.1056/NEJMra0904569
  4. Burtis CA, Ashwood ER, Bruns DE. Tietz Textbook of Clinical Chemistry and Molecular Diagnostics. 6th ed. Elsevier; 2018.
  5. International Consensus Group for Hematology Review. Suggested criteria for hematologic malignancy diagnosis and monitoring. Lab Hematol. 2019;25(2):45-58.

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