Esfregaço de Sangue Periférico — Análise Morfológica: Interpretação Clínica e Indicações
O esfregaço de sangue periférico (ESP) é o exame hematológico morfológico por excelência, permitindo a avaliação direta da forma, tamanho, cor e estrutura de eritrócitos, leucócitos e plaquetas em lâmina corada pelo método de Romanowsky (Giemsa, Wright ou May-Grünwald-Giemsa). É indispensável para confirmar, complementar e corrigir os dados do hemograma automatizado, identificando achados que o contador eletrônico não detecta: parasitas intracelulares (Plasmodium, Babesia), blastos leucêmicos, eritrócitos fragmentados (esquizócitos), linfócitos atípicos, células de Sézary e inclusões citoplasmáticas. O ESP integra a investigação de anemias, leucemias, síndromes mieloproliferativas, trombocitopenias e infecções parasitárias, sendo solicitado sempre que o hemograma automatizado apresentar alertas morfológicos ou quando a clínica sugere doença hematológica primária ou secundária.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de anemia de causa indeterminada ou com morfologia suspeita no hemograma CID D64
- Suspeita de leucemia aguda ou crônica (leucocitose, pancitopenia, blastos) CID C91
- Suspeita de malária (febre terçã/quartã em paciente de área endêmica ou viajante) CID B54
- Trombocitopenia ou trombocitose de causa não esclarecida CID D69
- Suspeita de microangiopatia trombótica (PTT, SHU) — detecção de esquizócitos CID M31
- Investigação de pancitopenia (aplasia medular, infiltração neoplásica, hiperesplenismo) CID D61
- Confirmação ou exclusão de hemoglobinopatias (falciforme, talassemia) CID D57
- Linfocitose atípica (mononucleose infecciosa, CMV, infecções virais) CID B27
- Hemograma automatizado com flagging (alarmes) para blastos, linfócitos atípicos ou eritrócitos anormais CID D75
- Policitemia vera ou síndrome mieloproliferativa suspeita CID D45
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Coletar em tubo EDTA (tampa roxa/lilás); misturar por inversão suave 8-10 vezes para homogeneização sem hemólise
- Processar e confeccionar o esfregaço em até 2-4 horas após a coleta para evitar artefatos morfológicos (vacuolização, picnose)
- Se confeccionado à beira-leito (suspeita de malária), preparar tanto esfregaço delgado quanto gota espessa imediatamente após a coleta
- Identificar a lâmina com nome, data e hora da coleta imediatamente após a confecção
- Secar a lâmina ao ar antes da coloração — nunca usar soprador quente, que distorce a morfologia celular
- Registrar uso de medicações que alteram morfologia: hidroxiureia (megaloblastose), metotrexato, quimioterapia, antivirais
- Amostras com hematócrito muito elevado (policitemia) podem requerer diluição prévia para esfregaço adequado
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Eritrócitos — morfologia | Normocíticos normocrômicos, bicôncavos, 6-8 µm | Normocíticos normocrômicos, bicôncavos, 6-8 µm | Podem ter leve policromasia fisiológica | Descritivo |
| Neutrófilo segmentado | 50-70% | 50-70% | Varia por faixa etária | % |
| Linfócito | 20-40% | 20-40% | Até 60% em < 4 anos | % |
| Monócito | 2-8% | 2-8% | 2-8% | % |
| Eosinófilo | 1-4% | 1-4% | 1-4% | % |
| Basófilo | 0-1% | 0-1% | 0-1% | % |
| Plaquetas — morfologia | Discoides, 2-4 µm, distribuição uniforme | Discoides, 2-4 µm, distribuição uniforme | Idem adultos | Descritivo |
| Blastos (leucemia) | 0% (ausentes em sangue periférico normal) | 0% | 0% | % |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| Esquizócitos (eritrócitos fragmentados, capacetes, triângulos) > 1% | Microangiopatia trombótica: PTT (púrpura trombocitopênica trombótica), SHU (síndrome hemolítico-urêmica), CIVD, prótese valvar mecânica, eclâmpsia | Urgente: dosar ADAMTS13, DHL, haptoglobina, Coombs; plasmaférese imediata se PTT |
| Drepanocitos (eritrócitos em foice/foiçe) | Anemia falciforme (HbSS) ou traço falciforme com anemia (HbSC, HbS-talassemia) | Confirmar com eletroforese de hemoglobina; HbA1c não confiável; encaminhar hematologia |
| Esferócitos > 5% sem Coombs positivo | Esferocitose hereditária ou hemólise mecânica — perda da biconcavidade e aumento da CHCM | Coombs direto, osmotic fragility test, EMA binding (citometria); avaliar esplenomegalia |
| Blastos em sangue periférico (qualquer percentual) | Leucemia aguda (mieloide ou linfoide) — emergência hematológica. Nunca normal em adultos | Mielograma urgente, citometria de fluxo, cariótipo; internação e avaliação por hematologista |
| Plasmodium spp. intraeritrócito (anéis, trofozoítos, gametócitos) | Malária — espécie identificada pelo morfologia: P. falciparum (anéis finos, infecção múltipla, Maurer), P. vivax (eritrócitos aumentados, ameboides, pontilhado de Schüffner) | Notificação compulsória; tratamento específico por espécie (cloroquina para não-falciparum; artemeter/lumefantrina para falciparum) |
| Linfócitos atípicos (Downey cells) > 10% | Mononucleose infecciosa (EBV) ou outras infecções virais (CMV, HIV agudo, toxoplasmose, hepatite viral) | Sorologias para EBV (IgM VCA), CMV, HIV; monotest (Paul-Bunnell); enzimas hepáticas |
| Hipossegmentação neutrofílica (Pelger-Huët): núcleo bilobado em óculos | Anomalia de Pelger-Huët (hereditária, benigna) ou pseudo-Pelger-Huët em mielodisplasia, infecções graves | Se adquirido, investigar síndrome mielodisplásica — mielograma, cariótipo, diferencial com anomalia constitucional familiar |
| Hipersegmentação neutrofílica (≥ 5 lóbulos em >5% dos neutrófilos) | Deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico (anemia megaloblástica); também em uremia, quimioterapia e ferro | Dosar vitamina B12, ácido fólico, homocisteína; avaliar VCM (macrocitose), LDH e bilirrubina |
| Eritroblastos no sangue periférico (em adultos) | Eritropoiese extramedular: mielofibrose, infiltração medular por tumor/linfoma, hemólise intensa, anemia ferropriva grave | Mielograma e biópsia de medula óssea; LDH, fosfatase alcalina leucocitária; imagem de baço e fígado |
| Dacriócitos (eritrócitos em lágrima) | Mielofibrose primária, infiltração medular (carcinoma, linfoma), talassemia major | Mielograma com biópsia; avaliação de fibrose medular; JAK2, CALR, MPL se mielofibrose primária |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| Esquizócitos + trombocitopenia + anemia hemolítica | PTT, SHU, CIVD, HTA maligna, eclâmpsia | ADAMTS13, coagulograma, creatinina, DHL, Coombs, haptoglobina | Hematologia / Nefrologia |
| Blastos ≥ 20% no sangue periférico | Leucemia aguda mieloide (LAM) ou linfoide (LLA) | Mielograma, imunofenotipagem, cariótipo, FISH, mutações moleculares (NPM1, FLT3, BCR-ABL) | Hematologia |
| Drepanocitos + anemia hemolítica crônica | Anemia falciforme (HbSS), HbSC, HbS-beta talassemia | Eletroforese de hemoglobina, reticulócitos, Coombs direto | Hematologia |
| Linfocitose com pequenos linfócitos maduros (> 5.000/mm³) | Leucemia linfoide crônica (LLC), linfoma pequenos linfócitos | Imunofenotipagem (CD5+, CD19+, CD23+, FMC7-), LDH, beta-2-microglobulina | Hematologia |
| Macrocitose + hipersegmentação neutrofílica + pancitopenia | Anemia megaloblástica por deficiência de B12 ou folato | Vitamina B12, ácido fólico, homocisteína, reticulócitos, mielograma se necessário | Clínica Médica / Hematologia |
| Plasmodium intraeritrócito — anéis duplos, eritrócitos não aumentados | Malária por P. falciparum (risco de malária grave) | Gota espessa, PCR para Plasmodium, parasitemia (%), função renal e hepática | Infectologia / Medicina Tropical |
| Leucoeritroblastose (eritroblastos + desvio esquerdo) + dacriócitos | Mielofibrose primária, metástases medulares, linfoma com infiltração medular | Mielograma com biópsia, JAK2/CALR, LDH, imagem de baço e fígado, PSA/CEA | Hematologia / Oncologia |
| Linfócitos atípicos/virocíticos > 10% em paciente jovem com febre e adenomegalia | Mononucleose infecciosa (EBV), CMV, HIV agudo, toxoplasmose | IgM VCA-EBV, CMV IgM, anti-HIV 4ª geração, toxoplasmose IgM, enzimas hepáticas | Infectologia / Clínica Médica |
Medicamentos e Interferentes
- Demora na confecção do esfregaço (> 6 horas após coleta) causa vacuolização citoplasmática, picnose nuclear e rouleaux artificiais
- Excesso de EDTA ou proporção sangue:anticoagulante incorreta distorce a morfologia celular e causa pseudotrombocitopenia por satelitismo plaquetário
- Hiperglicemia grave e hiperosmolaridade podem causar artefatos de crenação nos eritrócitos (acantocitose artefatual)
- Amostras refrigeradas por tempo prolongado alteram a morfologia leucocitária — manter à temperatura ambiente
- Lipemia e icterícia intensa comprometem a qualidade da coloração e a visualização de células
- Uso de G-CSF (filgrastim) produz neutrófilos hipergranulares e com núcleos vacuolizados, simulando granulações tóxicas
- Artefatos de coagulação na coleta geram agregados plaquetários e falsas trombocitopenias (pseudotrombocitopenia por EDTA)
Contextos Clínicos Especiais
Neonatos e lactentes
No período neonatal é normal encontrar eritroblastos, policromasia e macrocitose leve. A doença hemolítica do recém-nascido (eritroblastose fetal) cursa com esferocitose, eritroblastose e Coombs positivo. Neutrófilos com granulações tóxicas e vacúolos indicam infecção bacteriana neonatal (sepse neonatal precoce). Leucemia neonatal (rara) deve ser considerada em qualquer leucocitose com blastos no período perinatal.
Gestantes
Anisocitose leve e linfócitos reativos são comuns na gestação. Esquizócitos e trombocitopenia no 3º trimestre ou puerpério imediato devem ser investigados para PTT/SHU gestacional (síndrome HELLP), que é uma emergência obstétrica. Malária na gestação tem maior gravidade e deve ser pesquisada com gota espessa em toda febre de origem indeterminada em gestante de área endêmica.
Idosos
Displasias eritroides e hipossegmentação neutrofílica (pseudo-Pelger-Huët) em idosos levantam suspeita de síndrome mielodisplásica. LLC é mais prevalente em > 60 anos — linfocitose de pequenos linfócitos maduros deve ser investigada com imunofenotipagem. Anemia megaloblástica por deficiência de B12 (gastrite atrófica, uso de IBP) é comum e manifesta-se com hipersegmentação neutrofílica e macrocitose.
Imunossuprimidos e pacientes em quimioterapia
Esperar neutropenia, anemia e trombocitopenia após quimioterapia mieloablativa. Granulações tóxicas e vacúolos leucocitários indicam infecção bacteriana grave — importante reconhecer em neutropênicos febris. Corpos de Döhle são achados frequentes em infecções. A recuperação medular pós-quimio cursa com precursores mieloides (metamielócitos, mielócitos) que não representam recaída.
Pacientes com anemia falciforme
No ESP de falciformes em crise vaso-oclusiva observam-se drepanocitos aumentados, poiquilocitose intensa, corpos de Howell-Jolly (asplenia funcional) e neutrofilia reativa. Na crise aplásica (parvovírus B19), há reticulocitopenia importante. Sequestro esplênico cursa com queda súbita de hemoglobina e esplenomegalia. O ESP orienta a conduta em cada complicação específica.
Exames Relacionados
- Esquizócitos > 1% + trombocitopenia Coagulograma
- Blastos identificados no esfregaço Mielograma
- Drepanocitos identificados Eletroforese de Hemoglobina
- Hipersegmentação neutrofílica + macrocitose Vitamina B12 e Ácido Fólico
- Linfócitos atípicos > 10% CMV/EBV (sorologia)
- Plasmodium identificado LDH e função renal
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Referências
- Bain BJ. Blood Cells: A Practical Guide. 5th ed. Wiley-Blackwell; 2015. https://www.wiley.com/en-us/Blood+Cells%3A+A+Practical+Guide%2C+5th+Edition-p-9781118817766
- George-Gay B, Parker K. Understanding the complete blood count with differential. J Perianesth Nurs. 2003;18(2):96-117. 10.1053/jpan.2003.50013
- International Council for Standardization in Haematology (ICSH). ICSH recommendations for the standardization of nomenclature and grading of peripheral blood cell morphological features. Int J Lab Hematol. 2015;37(3):287-303. 10.1111/ijlh.12327
- Sarkar S, Prakash D, Marwaha RK, et al. Relative merits of peripheral blood smear examination compared to whole-blood count in evaluation of hematological abnormalities. J Trop Pediatr. 1993;39(3):180-183. 10.1093/tropej/39.3.180
- WHO. Malaria microscopy quality assurance manual. Version 2. Geneva: World Health Organization; 2016. https://www.who.int/publications/i/item/malaria-microscopy-quality-assurance-manual---v2