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Hematologia

Esfregaço de Sangue Periférico — Análise Morfológica: Interpretação Clínica e Indicações

O esfregaço de sangue periférico (ESP) é o exame hematológico morfológico por excelência, permitindo a avaliação direta da forma, tamanho, cor e estrutura de eritrócitos, leucócitos e plaquetas em lâmina corada pelo método de Romanowsky (Giemsa, Wright ou May-Grünwald-Giemsa). É indispensável para confirmar, complementar e corrigir os dados do hemograma automatizado, identificando achados que o contador eletrônico não detecta: parasitas intracelulares (Plasmodium, Babesia), blastos leucêmicos, eritrócitos fragmentados (esquizócitos), linfócitos atípicos, células de Sézary e inclusões citoplasmáticas. O ESP integra a investigação de anemias, leucemias, síndromes mieloproliferativas, trombocitopenias e infecções parasitárias, sendo solicitado sempre que o hemograma automatizado apresentar alertas morfológicos ou quando a clínica sugere doença hematológica primária ou secundária.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue total em EDTA (tubo roxo/lilás), esfregaço confeccionado no laboratório ou pela equipe assistencial
Resultado em
2-4 horas (análise manual por hematologista); urgência: 1-2 horas
Código TUSS
40312060
Especialidade
Hematologia / Clínica Médica / Infectologia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de anemia de causa indeterminada ou com morfologia suspeita no hemograma CID D64
  • Suspeita de leucemia aguda ou crônica (leucocitose, pancitopenia, blastos) CID C91
  • Suspeita de malária (febre terçã/quartã em paciente de área endêmica ou viajante) CID B54
  • Trombocitopenia ou trombocitose de causa não esclarecida CID D69
  • Suspeita de microangiopatia trombótica (PTT, SHU) — detecção de esquizócitos CID M31
  • Investigação de pancitopenia (aplasia medular, infiltração neoplásica, hiperesplenismo) CID D61
  • Confirmação ou exclusão de hemoglobinopatias (falciforme, talassemia) CID D57
  • Linfocitose atípica (mononucleose infecciosa, CMV, infecções virais) CID B27
  • Hemograma automatizado com flagging (alarmes) para blastos, linfócitos atípicos ou eritrócitos anormais CID D75
  • Policitemia vera ou síndrome mieloproliferativa suspeita CID D45

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Coletar em tubo EDTA (tampa roxa/lilás); misturar por inversão suave 8-10 vezes para homogeneização sem hemólise
  • Processar e confeccionar o esfregaço em até 2-4 horas após a coleta para evitar artefatos morfológicos (vacuolização, picnose)
  • Se confeccionado à beira-leito (suspeita de malária), preparar tanto esfregaço delgado quanto gota espessa imediatamente após a coleta
  • Identificar a lâmina com nome, data e hora da coleta imediatamente após a confecção
  • Secar a lâmina ao ar antes da coloração — nunca usar soprador quente, que distorce a morfologia celular
  • Registrar uso de medicações que alteram morfologia: hidroxiureia (megaloblastose), metotrexato, quimioterapia, antivirais
  • Amostras com hematócrito muito elevado (policitemia) podem requerer diluição prévia para esfregaço adequado

Valores de Referência

Valores de referência do Esfregaço de Sangue Periférico — Análise Morfológica
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Eritrócitos — morfologiaNormocíticos normocrômicos, bicôncavos, 6-8 µmNormocíticos normocrômicos, bicôncavos, 6-8 µmPodem ter leve policromasia fisiológicaDescritivo
Neutrófilo segmentado50-70%50-70%Varia por faixa etária%
Linfócito20-40%20-40%Até 60% em < 4 anos%
Monócito2-8%2-8%2-8%%
Eosinófilo1-4%1-4%1-4%%
Basófilo0-1%0-1%0-1%%
Plaquetas — morfologiaDiscoides, 2-4 µm, distribuição uniformeDiscoides, 2-4 µm, distribuição uniformeIdem adultosDescritivo
Blastos (leucemia)0% (ausentes em sangue periférico normal)0%0%%

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Esfregaço de Sangue Periférico — Análise Morfológica
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Esquizócitos (eritrócitos fragmentados, capacetes, triângulos) > 1%Microangiopatia trombótica: PTT (púrpura trombocitopênica trombótica), SHU (síndrome hemolítico-urêmica), CIVD, prótese valvar mecânica, eclâmpsia Urgente: dosar ADAMTS13, DHL, haptoglobina, Coombs; plasmaférese imediata se PTT
Drepanocitos (eritrócitos em foice/foiçe)Anemia falciforme (HbSS) ou traço falciforme com anemia (HbSC, HbS-talassemia) Confirmar com eletroforese de hemoglobina; HbA1c não confiável; encaminhar hematologia
Esferócitos > 5% sem Coombs positivoEsferocitose hereditária ou hemólise mecânica — perda da biconcavidade e aumento da CHCM Coombs direto, osmotic fragility test, EMA binding (citometria); avaliar esplenomegalia
Blastos em sangue periférico (qualquer percentual)Leucemia aguda (mieloide ou linfoide) — emergência hematológica. Nunca normal em adultos Mielograma urgente, citometria de fluxo, cariótipo; internação e avaliação por hematologista
Plasmodium spp. intraeritrócito (anéis, trofozoítos, gametócitos)Malária — espécie identificada pelo morfologia: P. falciparum (anéis finos, infecção múltipla, Maurer), P. vivax (eritrócitos aumentados, ameboides, pontilhado de Schüffner) Notificação compulsória; tratamento específico por espécie (cloroquina para não-falciparum; artemeter/lumefantrina para falciparum)
Linfócitos atípicos (Downey cells) > 10%Mononucleose infecciosa (EBV) ou outras infecções virais (CMV, HIV agudo, toxoplasmose, hepatite viral) Sorologias para EBV (IgM VCA), CMV, HIV; monotest (Paul-Bunnell); enzimas hepáticas
Hipossegmentação neutrofílica (Pelger-Huët): núcleo bilobado em óculosAnomalia de Pelger-Huët (hereditária, benigna) ou pseudo-Pelger-Huët em mielodisplasia, infecções graves Se adquirido, investigar síndrome mielodisplásica — mielograma, cariótipo, diferencial com anomalia constitucional familiar
Hipersegmentação neutrofílica (≥ 5 lóbulos em >5% dos neutrófilos)Deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico (anemia megaloblástica); também em uremia, quimioterapia e ferro Dosar vitamina B12, ácido fólico, homocisteína; avaliar VCM (macrocitose), LDH e bilirrubina
Eritroblastos no sangue periférico (em adultos)Eritropoiese extramedular: mielofibrose, infiltração medular por tumor/linfoma, hemólise intensa, anemia ferropriva grave Mielograma e biópsia de medula óssea; LDH, fosfatase alcalina leucocitária; imagem de baço e fígado
Dacriócitos (eritrócitos em lágrima)Mielofibrose primária, infiltração medular (carcinoma, linfoma), talassemia major Mielograma com biópsia; avaliação de fibrose medular; JAK2, CALR, MPL se mielofibrose primária

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Esfregaço de Sangue Periférico — Análise Morfológica
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Esquizócitos + trombocitopenia + anemia hemolíticaPTT, SHU, CIVD, HTA maligna, eclâmpsiaADAMTS13, coagulograma, creatinina, DHL, Coombs, haptoglobinaHematologia / Nefrologia
Blastos ≥ 20% no sangue periféricoLeucemia aguda mieloide (LAM) ou linfoide (LLA)Mielograma, imunofenotipagem, cariótipo, FISH, mutações moleculares (NPM1, FLT3, BCR-ABL)Hematologia
Drepanocitos + anemia hemolítica crônicaAnemia falciforme (HbSS), HbSC, HbS-beta talassemiaEletroforese de hemoglobina, reticulócitos, Coombs diretoHematologia
Linfocitose com pequenos linfócitos maduros (> 5.000/mm³)Leucemia linfoide crônica (LLC), linfoma pequenos linfócitosImunofenotipagem (CD5+, CD19+, CD23+, FMC7-), LDH, beta-2-microglobulinaHematologia
Macrocitose + hipersegmentação neutrofílica + pancitopeniaAnemia megaloblástica por deficiência de B12 ou folatoVitamina B12, ácido fólico, homocisteína, reticulócitos, mielograma se necessárioClínica Médica / Hematologia
Plasmodium intraeritrócito — anéis duplos, eritrócitos não aumentadosMalária por P. falciparum (risco de malária grave)Gota espessa, PCR para Plasmodium, parasitemia (%), função renal e hepáticaInfectologia / Medicina Tropical
Leucoeritroblastose (eritroblastos + desvio esquerdo) + dacriócitosMielofibrose primária, metástases medulares, linfoma com infiltração medularMielograma com biópsia, JAK2/CALR, LDH, imagem de baço e fígado, PSA/CEAHematologia / Oncologia
Linfócitos atípicos/virocíticos > 10% em paciente jovem com febre e adenomegaliaMononucleose infecciosa (EBV), CMV, HIV agudo, toxoplasmoseIgM VCA-EBV, CMV IgM, anti-HIV 4ª geração, toxoplasmose IgM, enzimas hepáticasInfectologia / Clínica Médica

Medicamentos e Interferentes

  • Demora na confecção do esfregaço (> 6 horas após coleta) causa vacuolização citoplasmática, picnose nuclear e rouleaux artificiais
  • Excesso de EDTA ou proporção sangue:anticoagulante incorreta distorce a morfologia celular e causa pseudotrombocitopenia por satelitismo plaquetário
  • Hiperglicemia grave e hiperosmolaridade podem causar artefatos de crenação nos eritrócitos (acantocitose artefatual)
  • Amostras refrigeradas por tempo prolongado alteram a morfologia leucocitária — manter à temperatura ambiente
  • Lipemia e icterícia intensa comprometem a qualidade da coloração e a visualização de células
  • Uso de G-CSF (filgrastim) produz neutrófilos hipergranulares e com núcleos vacuolizados, simulando granulações tóxicas
  • Artefatos de coagulação na coleta geram agregados plaquetários e falsas trombocitopenias (pseudotrombocitopenia por EDTA)

Contextos Clínicos Especiais

Neonatos e lactentes

No período neonatal é normal encontrar eritroblastos, policromasia e macrocitose leve. A doença hemolítica do recém-nascido (eritroblastose fetal) cursa com esferocitose, eritroblastose e Coombs positivo. Neutrófilos com granulações tóxicas e vacúolos indicam infecção bacteriana neonatal (sepse neonatal precoce). Leucemia neonatal (rara) deve ser considerada em qualquer leucocitose com blastos no período perinatal.

Gestantes

Anisocitose leve e linfócitos reativos são comuns na gestação. Esquizócitos e trombocitopenia no 3º trimestre ou puerpério imediato devem ser investigados para PTT/SHU gestacional (síndrome HELLP), que é uma emergência obstétrica. Malária na gestação tem maior gravidade e deve ser pesquisada com gota espessa em toda febre de origem indeterminada em gestante de área endêmica.

Idosos

Displasias eritroides e hipossegmentação neutrofílica (pseudo-Pelger-Huët) em idosos levantam suspeita de síndrome mielodisplásica. LLC é mais prevalente em > 60 anos — linfocitose de pequenos linfócitos maduros deve ser investigada com imunofenotipagem. Anemia megaloblástica por deficiência de B12 (gastrite atrófica, uso de IBP) é comum e manifesta-se com hipersegmentação neutrofílica e macrocitose.

Imunossuprimidos e pacientes em quimioterapia

Esperar neutropenia, anemia e trombocitopenia após quimioterapia mieloablativa. Granulações tóxicas e vacúolos leucocitários indicam infecção bacteriana grave — importante reconhecer em neutropênicos febris. Corpos de Döhle são achados frequentes em infecções. A recuperação medular pós-quimio cursa com precursores mieloides (metamielócitos, mielócitos) que não representam recaída.

Pacientes com anemia falciforme

No ESP de falciformes em crise vaso-oclusiva observam-se drepanocitos aumentados, poiquilocitose intensa, corpos de Howell-Jolly (asplenia funcional) e neutrofilia reativa. Na crise aplásica (parvovírus B19), há reticulocitopenia importante. Sequestro esplênico cursa com queda súbita de hemoglobina e esplenomegalia. O ESP orienta a conduta em cada complicação específica.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Bain BJ. Blood Cells: A Practical Guide. 5th ed. Wiley-Blackwell; 2015. https://www.wiley.com/en-us/Blood+Cells%3A+A+Practical+Guide%2C+5th+Edition-p-9781118817766
  2. George-Gay B, Parker K. Understanding the complete blood count with differential. J Perianesth Nurs. 2003;18(2):96-117. 10.1053/jpan.2003.50013
  3. International Council for Standardization in Haematology (ICSH). ICSH recommendations for the standardization of nomenclature and grading of peripheral blood cell morphological features. Int J Lab Hematol. 2015;37(3):287-303. 10.1111/ijlh.12327
  4. Sarkar S, Prakash D, Marwaha RK, et al. Relative merits of peripheral blood smear examination compared to whole-blood count in evaluation of hematological abnormalities. J Trop Pediatr. 1993;39(3):180-183. 10.1093/tropej/39.3.180
  5. WHO. Malaria microscopy quality assurance manual. Version 2. Geneva: World Health Organization; 2016. https://www.who.int/publications/i/item/malaria-microscopy-quality-assurance-manual---v2

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