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Medicina de Urgência

Lactato sérico: Interpretação Clínica e Indicações

O lactato sérico é um marcador bioquímico fundamental na avaliação de hipoperfusão tecidual e choque na prática clínica de urgência e terapia intensiva. Este exame mede a concentração de ácido lático no sangue, produto do metabolismo anaeróbico que se acumula quando a oferta de oxigênio aos tecidos é insuficiente para atender à demanda metabólica. Sua dosagem é clinicamente relevante por ser um indicador precoce de disfunção celular, permitindo identificar estados de choque antes da instalação de falência orgânica irreversível. É indicado para pacientes com suspeita de sepse, choque séptico, hipovolêmico, cardiogênico ou obstrutivo, além de monitorar a resposta à ressuscitação volêmica e terapêutica vasoativa. Também conhecido como ácido lático sérico, seu uso é respaldado por diretrizes internacionais como as da Surviving Sepsis Campaign.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso ou arterial — tubo com fluoreto de sódio (tampa cinza) para inibição da glicólise
Resultado em
15–30 minutos (urgência: disponível em POCT - point of care testing)
Código TUSS
40313203
Especialidade
Medicina de Urgência / Terapia Intensiva

Quando solicitar este exame?

  • Paciente com sepse ou choque séptico para estratificação de risco e guia de ressuscitação volêmica CID A41
  • Síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) com suspeita de hipoperfusão periférica CID J80
  • Trauma grave com sinais de choque hipovolêmico e necessidade de monitorização da ressuscitação CID T14
  • Insuficiência cardíaca aguda descompensada com baixo débito cardíaco e hipoperfusão periférica CID I50
  • Paciente pós-parada cardiorrespiratória para avaliação de lesão por reperfusão e hipoperfusão residual CID I46
  • Intoxicação exógena grave (ex: monóxido de carbono, cianeto) com suspeita de hipóxia tecidual CID T58
  • Paciente cirúrgico de alto risco no perioperatório para detecção precoce de hipoperfusão oculta CID Z01
  • Insuficiência hepática aguda ou crônica descompensada com suspeita de hiperlactatemia tipo B CID K72
  • Paciente com queimaduras extensas e risco de choque distributivo e hipovolêmico CID T30
  • Monitorização da resposta terapêutica em pacientes com choque refratário em uso de drogas vasoativas

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — libera lactato dos eritrócitos, causando pseudo-elevação significativa; invalida a amostra
  • Tempo prolongado entre coleta e processamento — a glicólise continua in vitro, elevando artificialmente o lactato; processar em até 15 minutos
  • Uso de tubo inadequado (sem fluoreto) — permite glicólise in vitro, elevando falsamente os níveis; usar sempre tubo cinza
  • Exercício físico vigoroso pré-coleta — aumenta produção muscular de lactato, causando elevação transitória; aguardar 30 minutos de repouso
  • Hiperventilação iatrogênica — alcalose respiratória estimula produção de lactato, elevando níveis; considerar contexto clínico

Valores de Referência

Valores de referência do Lactato sérico
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Lactato0,5–1,60,5–1,60,5–2,0 (recém-nascidos podem ter até 2,5)mmol/L

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Lactato sérico
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Lactato < 2,0 mmol/LNormal ou hiperlactatemia leve, geralmente sem significado clínico de hipoperfusão significativa Manter monitorização clínica, considerar outras causas de hiperlactatemia se sintomático
Lactato 2,0–4,0 mmol/LHiperlactatemia moderada, sugestiva de hipoperfusão tecidual ou choque inicial Iniciar ressuscitação volêmica guiada por lactato, investigar foco infeccioso
Lactato > 4,0 mmol/LHiperlactatemia grave, indicativa de choque estabelecido com alto risco de mortalidade Ressuscitação agressiva com cristaloides, antibioticoterapia empírica na sepse, suporte vasopressor
Lactato persistentemente elevado após ressuscitaçãoChoque refratário ou inadequada ressuscitação, sugere pior prognóstico Otimizar suporte hemodinâmico, considerar drogas inotrópicas, avaliar necessidade de suporte avançado
Lactato em queda >10% por horaResposta adequada à ressuscitação, associada a melhor prognóstico na sepse Manter conduta atual, continuar monitorização seriada a cada 2-4 horas
Lactato normal com sinais clínicos de choquePossível choque distributivo puro ou hipoperfusão regional não detectada Baseado na avaliação clínica e hemodinâmica, considerar outros marcadores
Lactato elevado sem sinais de hipoperfusãoHiperlactatemia tipo B (ex: convulsões, intoxicações, insuficiência hepática) Investigar causa específica, tratar condição de base, evitar sobrecarga volêmica

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Lactato sérico
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Lactato >4,0 mmol/L com hipotensãoChoque séptico, cardiogênico, hipovolêmico, obstrutivoHemoculturas, ecocardiograma, gasometria arterial, TAP/TTPAMedicina de Urgência / Terapia Intensiva
Lactato 2,0-4,0 mmol/L sem hipotensãoSepse sem choque, hipoperfusão regional, hiperlactatemia tipo BPCR, procalcitonina, painel hepático, CK-MBClínica Médica / Infectologia
Lactato elevado com acidose metabólica graveAcidose lática tipo A ou B, cetoacidose diabética, insuficiência renalGasometria arterial, glicemia, cetonas, creatinina-ureiaEndocrinologia / Nefrologia
Lactato persistentemente elevado após ressuscitaçãoChoque refratário, isquemia mesentérica, infecção não controladaAngiotomografia de abdome, ecografia abdominal, novas hemoculturasCirurgia Geral / Terapia Intensiva
Lactato normal com sinais de choqueChoque distributivo puro, hipoperfusão esplâncnica isolada, erro de coletaGasometria venosa central, ecodoppler esplâncnico, lactato em sangue arterialTerapia Intensiva

Medicamentos e Interferentes

  • Adrenalina — aumenta glicólise e produção de lactato, eleva níveis séricos
  • Metformina — inibe gliconeogênese hepática, causa hiperlactatemia tipo B especialmente na insuficiência renal
  • Beta-2 agonistas (salbutamol) — estimulam produção muscular de lactato, elevam transitoriamente
  • Álcool etílico — altera metabolismo redox hepático, pode elevar lactato em intoxicação aguda
  • Antirretrovirais (NRTIs) — causam toxicidade mitocondrial, elevam lactato cronicamente

Contextos Clínicos Especiais

Idoso

Idosos podem apresentar hiperlactatemia com hipoperfusão mais precoce devido a reservas fisiológicas reduzidas. A resposta à ressuscitação pode ser mais lenta. Comorbidades como insuficiência renal e hepática são frequentes, podendo causar hiperlactatemia tipo B. Monitorização rigorosa da volemia é essencial para evitar sobrecarga.

Criança

Valores de referência similares aos adultos, mas recém-nascidos podem ter níveis até 2,5 mmol/L fisiológicos. Na sepse pediátrica, lactato >2,0 mmol/L já indica necessidade de intervenção agressiva. A coleta em neonatos requer volume mínimo e técnica adequada para evitar hemólise.

Gestante

A gestação normal não altera significativamente os níveis basais de lactato. Na sepse obstétrica (ex: corioamnionite), lactato elevado indica maior gravidade. No choque hemorrágico obstétrico, a monitorização seriada guia a reposição volêmica. Cautela com metformina no diabetes gestacional.

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes para o manejo da sepse e choque séptico. 2021.
  2. Rhodes A, Evans LE, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock: 2021. Intensive Care Med. 2021;47(11):1181-1247. 10.1007/s00134-021-06506-y
  3. Bakker J, Nijsten MW, Jansen TC. Clinical use of lactate monitoring in critically ill patients. Ann Intensive Care. 2013;3(1):12. 10.1186/2110-5820-3-12
  4. Jansen TC, van Bommel J, Schoonderbeek FJ, et al. Early lactate-guided therapy in intensive care unit patients: a multicenter, open-label, randomized controlled trial. Am J Respir Crit Care Med. 2010;182(6):752-761. 10.1164/rccm.200912-1918OC
  5. Kraut JA, Madias NE. Lactic acidosis. N Engl J Med. 2014;371(24):2309-2319. 10.1056/NEJMra1309483

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