Eletroforese de hemoglobina: Interpretação Clínica e Indicações
A eletroforese de hemoglobina é um exame laboratorial que separa e quantifica os diferentes tipos de hemoglobina (Hb) presentes nas hemácias, baseando-se na migração diferencial em um campo elétrico conforme suas cargas e tamanhos moleculares. Avalia a presença e proporção de hemoglobinas normais (HbA, HbA2, HbF) e variantes patológicas (como HbS, HbC, HbE), sendo clinicamente relevante para o diagnóstico e classificação de hemoglobinopatias, distúrbios genéticos que afetam a síntese ou estrutura da globina. É indicado para pacientes com suspeita clínica de anemia hemolítica, microcitose inexplicada, história familiar de hemoglobinopatias, ou triagem neonatal positiva para doença falciforme. Também conhecida como eletroforese de Hb ou hemoglobina eletroforética, é uma ferramenta essencial na prática hematológica e de clínica médica.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de anemia microcítica hipocrômica com VCM < 80 fL e HCM < 27 pg, sem resposta à suplementação de ferro, suspeita de talassemia. CID D56
- Paciente com crises de dor óssea, infecções recorrentes e história familiar de anemia falciforme, para confirmação de hemoglobinopatia S. CID D57
- Triagem de hemoglobinopatias em gestantes de risco (origem africana, mediterrânea, asiática) para aconselhamento genético. CID O99.0
- Avaliação de policitemia inexplicada com hemoglobina elevada e hematócrito > 52% em homens, suspeita de hemoglobinopatia com alta afinidade pelo oxigênio. CID D75.1
- Monitoramento de pacientes com doença falciforme em uso de hidroxiureia, para avaliar aumento de HbF. CID D57
- Diagnóstico diferencial de anemia hemolítica com esferócitos no esfregaço, suspeita de hemoglobinopatia instável como Hb Köln. CID D58.2
- Avaliação de cianose central sem cardiopatia, suspeita de hemoglobinopatia M (metahemoglobinemia hereditária). CID D74
- Investigação de retardo de crescimento em crianças com história étnica de talassemia, associado a hepatomegalia e esplenomegalia. CID D56.9
- Paciente com úlceras de perna de difícil cicatrização e anemia, em região endêmica para hemoglobinopatia S. CID D57
- Confirmação de hemoglobinopatia após triagem neonatal com teste do pezinho alterado para HbS. CID D57
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise da amostra — causa falsa elevação de Hb livre e interfere na separação eletroforética, invalidando o resultado.
- Transfusão sanguínea recente (< 3 meses) — dilui a hemoglobina do paciente, mascarando hemoglobinopatias e alterando proporções de HbA2/HbF.
- Armazenamento prolongado sem refrigeração — leva à desnaturação da hemoglobina, formando hemoglobinas precipitadas que alteram o padrão eletroforético.
- Uso de anticoagulante heparinizado — pode causar interferência na migração em HPLC, resultando em picos espúrios.
- Hiperbilirrubinemia grave (> 20 mg/dL) — interfere na leitura espectrofotométrica em alguns métodos, causando subestimação de HbA2.
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| HbA | 96,5–98,5% | 96,5–98,5% | Recém-nascidos: 10–40% (aumenta progressivamente até 6 meses) | % |
| HbA2 | 2,0–3,3% | 2,0–3,3% | > 6 meses: 2,0–3,3% | % |
| HbF | < 1,0% | < 1,0% | Recém-nascidos: 50–85% (diminui até 6 meses para < 1%) | % |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| HbA2 elevada (> 3,5%) com microcitose (VCM < 80 fL) | Sugere talassemia beta heterozigota (traço talassêmico). | Solicitar ferritina para excluir deficiência de ferro concomitante e aconselhamento genético. |
| Presença de HbS (> 40%) com HbF elevada | Indica anemia falciforme (homozigose SS) ou variante S/beta-talassemia. | Encaminhar para hematologista, iniciar profilaxia com penicilina e vacinas, considerar hidroxiureia. |
| HbA ausente, HbF > 90% | Sugere talassemia beta major (anemia de Cooley) ou homozigose para deleções graves. | Encaminhar urgente para hematologista, avaliar necessidade de transfusão crônica e quelação de ferro. |
| HbA2 normal com microcitose e hipocromia | Pode indicar talassemia alfa ou deficiência de ferro. | Solicitar ferritina, saturação de transferrina e PCR; considerar teste genético para talassemia alfa se ferro normal. |
| Pico anormal na posição de HbC (migração mais lenta que HbS) | Avaliar esfregaço periférico para alvoócitos e encaminhar para hematologista se sintomático. | |
| HbF elevada (5–30%) em adulto sem hemoglobinopatia S | Solicitar mielograma ou biópsia de medula óssea para investigação. | |
| Padrão de hemoglobina instável com precipitação no teste de estabilidade | Encaminhar para hematologista, evitar oxidantes e solicitar teste de Heinz bodies. |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| Microcitose (VCM < 80 fL) com HbA2 elevada (> 3,5%) | Talassemia beta heterozigota, deficiência de ferro concomitante | Ferritina, saturação de transferrina, PCR, eletroforese de Hb em cônjuge | Hematologia |
| Anemia hemolítica com HbS presente | Anemia falciforme (SS), variante S/beta-talassemia, traço falciforme com outra causa | Hemograma, reticulócitos, LDH, bilirrubinas, esfregaço periférico | Hematologia |
| HbA2 normal com microcitose e ferritina normal | Talassemia alfa, anemia de doença crônica, anemia sideroblástica | PCR, eletroforese de Hb com focagem isoelétrica, teste genético para talassemia alfa | Hematologia |
| HbF elevada em adulto sem hemoglobinopatia | Síndrome da persistência hereditária de HbF, neoplasia mieloproliferativa, anemia aplásica | Mielograma, biópsia de medula óssea, cariótipo, BCR-ABL | Hematologia |
| Policitemia com hemoglobina variante | Hemoglobinopatia com alta afinidade pelo oxigênio (ex: Hb Chesapeake), policitemia vera | Gasometria arterial, saturação de O2 venosa, teste de p50, JAK2 V617F | Hematologia |
Medicamentos e Interferentes
- Transfusão sanguínea recente — dilui hemoglobina do paciente, reduzindo proporção de variantes patológicas e HbA2; efeito: falso negativo.
- Hidroxiureia — aumenta síntese de HbF em pacientes com anemia falciforme, alterando padrão eletroforético; efeito: eleva HbF.
- Deficiência de ferro grave — pode reduzir HbA2, mascarando diagnóstico de talassemia beta heterozigota; efeito: reduz HbA2.
- Gestação — leve aumento fisiológico de HbF (< 5%) no terceiro trimestre; efeito: eleva HbF.
- Hemoglobinas labilizadas por calor — degradação forma hemoglobinas precipitadas que interferem na migração; efeito: padrão anormal.
Contextos Clínicos Especiais
Gestante
A gestação pode causar leve aumento fisiológico de HbF ( 3,5% ainda é sugestivo de talassemia beta heterozigota.
Criança
Em recém-nascidos, a HbF é predominante (50–85%), diminuindo progressivamente até 6 meses de idade. A eletroforese de hemoglobina para diagnóstico de anemia falciforme deve ser realizada após 6 meses, quando a HbS se torna detectável. Valores de HbA2 só são confiáveis após 6 meses. A triagem neonatal (teste do pezinho) utiliza técnicas diferentes (cromatografia ou eletroforese em pH ácido) para detecção precoce de HbS.
Idoso
No idoso, a prevalência de hemoglobinopatias é menor, mas condições como neoplasias mieloproliferativas ou anemias aplásicas podem causar elevação secundária de HbF. A interpretação deve considerar comorbidades e medicamentos (ex: hidroxiureia para policitemia vera). A deficiência de ferro é comum e pode mascarar elevação de HbA2 em talassemia beta heterozigota, necessitando correção prévia para diagnóstico preciso.
Exames Relacionados
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Em adultos, os valores de referência são: HbA: 96,5–98,5%, HbA2: 2,0–3,3%, HbF: < 1,0%. Em recém-nascidos, a HbF é predominante (50–85%), diminuindo até 6 meses. Valores de HbA2 > 3,5% sugerem talassemia beta heterozigota, enquanto HbF > 1% em adultos indica condições como anemia falciforme ou neoplasias.
Não, a eletroforese de hemoglobina não requer jejum, pois a alimentação não interfere na separação das hemoglobinas. A coleta é feita em sangue venoso com EDTA, e o exame avalia proteínas específicas das hemácias, cujos níveis não variam com a dieta. No entanto, é importante evitar transfusões recentes, que podem alterar os resultados.
HbA2 elevada (> 3,5%) é um marcador sugestivo de talassemia beta heterozigota (traço talassêmico), especialmente se associada a microcitose (VCM < 80 fL) e hipocromia (HCM < 27 pg). Pode também ocorrer em deficiência de ferro grave, mas é menos comum. A conduta inclui dosar ferritina para excluir deficiência de ferro e considerar aconselhamento genético.
Na talassemia beta heterozigota, a HbA2 está elevada (> 3,5%) com microcitose, enquanto na deficiência de ferro, a HbA2 geralmente é normal ou reduzida (< 2,0%). No entanto, deficiência de ferro concomitante pode mascarar a elevação de HbA2. Para diferenciar, solicite ferritina e saturação de transferrina: baixas indicam deficiência de ferro; normais ou altas com HbA2 elevada confirmam talassemia.
Solicite eletroforese de hemoglobina quando o hemograma mostrar microcitose inexplicada (VCM < 80 fL) sem deficiência de ferro, ou em suspeita clínica de hemoglobinopatias (ex: anemia hemolítica, história familiar de anemia falciforme, triagem neonatal alterada). O hemograma é triagem; a eletroforese confirma e classifica hemoglobinopatias específicas.
Na eletroforese, o traço falciforme (AS) apresenta HbS < 40% com HbA presente, enquanto a anemia falciforme (SS) tem HbS > 40% e HbA ausente. A quantificação é crucial: traço falciforme é geralmente assintomático, enquanto anemia falciforme requer manejo especializado com profilaxia para infecções e crises vaso-oclusivas.
Não, a eletroforese de hemoglobina padrão pode ser normal na maioria das talassemias alfa (exceto na doença da HbH, que mostra HbH). Para excluir talassemia alfa em pacientes com microcitose e ferritina normal, é necessário teste genético ou eletroforese com focagem isoelétrica. Sempre correlacione com clínica e hemograma.
HbF elevada (> 1%) em adulto sem hemoglobinopatia S pode indicar síndrome da persistência hereditária de HbF, neoplasias mieloproliferativas (ex: leucemia mieloide crônica), anemia aplásica ou uso de hidroxiureia. A conduta inclui investigação com mielograma, biópsia de medula óssea e exames como BCR-ABL para leucemia, encaminhando para hematologista.
Referências
- Sociedade Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (SBHH). Diretrizes para diagnóstico e tratamento das hemoglobinopatias. 2020.
- World Health Organization. Guidelines for the management of haemoglobin disorders. 2022. 10.1016/j.hemonc.2022.01.001
- Bain BJ. Haemoglobinopathy diagnosis. 3rd ed. Wiley-Blackwell; 2020.
- Piel FB, Steinberg MH, Rees DC. Sickle cell disease. N Engl J Med. 2017;376(16):1561-73. 10.1056/NEJMra1510865
- Taher AT, Weatherall DJ, Cappellini MD. Thalassaemia. Lancet. 2018;391(10116):155-67. 10.1016/S0140-6736(17)31822-6