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Hematologia

Ferritina sérica: Interpretação Clínica e Indicações

A ferritina sérica é uma proteína intracelular de armazenamento de ferro, cuja dosagem no soro reflete de forma direta os estoques corporais totais de ferro. É o marcador laboratorial mais sensível e específico para avaliação do estado do ferro, sendo fundamental na prática clínica para diagnosticar deficiência de ferro (mesmo antes do desenvolvimento de anemia) e para identificar sobrecarga férrica. A ferritina é uma proteína de fase aguda, e seus níveis podem estar elevados em processos inflamatórios, infecciosos ou neoplásicos, independentemente dos estoques de ferro, o que exige interpretação contextualizada. É indicada para médicos generalistas, hematologistas, gastroenterologistas, nefrologistas e reumatologistas na investigação de anemias, síndromes inflamatórias crônicas e doenças de sobrecarga como hemocromatose. Sinônimos incluem dosagem de ferritina, ferritinemia e ferritina plasmática.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou tubo com gel separador
Resultado em
4–8 horas (método de imunoensaio quimioluminescente)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Hematologia / Clínica Médica / Gastroenterologia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de anemia microcítica hipocrômica (VCM < 80 fL, HCM < 27 pg) para confirmar deficiência de ferro como etiologia. CID D50
  • Avaliação de estoques de ferro em pacientes com doença renal crônica estágio 3-5, especialmente em uso de eritropoietina. CID N18
  • Rastreio de sobrecarga de ferro em pacientes com hepatopatia crônica de etiologia indeterminada ou com elevação persistente de ferrossaturação. CID K76
  • Monitoramento da reposição de ferro oral ou endovenoso em pacientes com anemia ferropriva confirmada. CID D50
  • Avaliação de deficiência de ferro sem anemia em gestantes, especialmente no terceiro trimestre, ou em pacientes com síndrome das pernas inquietas. CID O99
  • Investigação de anemia em pacientes com doença inflamatória intestinal (retocolite ulcerativa ou doença de Crohn) para diferenciar anemia de doença crônica de deficiência de ferro. CID K50
  • Triagem de hemocromatose hereditária em pacientes com história familiar positiva ou com artralgias, diabetes e hiperpigmentação cutânea (bronzeamento). CID E83
  • Avaliação de pacientes com policitemia vera em uso de flebotomias para monitorar depleção dos estoques de ferro. CID D45
  • Investigação de fadiga crônica inexplicada em mulheres em idade fértil, associada a outros parâmetros hematimétricos. CID R53
  • Monitoramento de pacientes com anemias hemolíticas crônicas (ex: esferocitose hereditária) para detectar sobrecarga de ferro secundária a hemólise e transfusões. CID D58

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — libera ferro e ferritina intracelular, podendo causar elevação falsa dos níveis séricos.
  • Lipemia intensa — interfere na leitura fotométrica de alguns imunoensaios, podendo causar resultados imprecisos (geralmente subestimados).
  • Icterícia marcante (bilirrubina > 20 mg/dL) — pode interferir em ensaios colorimétricos, levando a subestimação dos valores.
  • Amostra coletada em tubo com EDTA — anticoagulante quelante pode interferir no ensaio, resultando em valores falsamente baixos; deve-se usar tubo seco.
  • Exposição da amostra a temperaturas elevadas (> 25°C) por período prolongado — pode degradar a ferritina, reduzindo a mensuração.

Valores de Referência

Valores de referência do Ferritina sérica
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Ferritina sérica30–400 ng/mL15–150 ng/mL (pré-menopausa); 30–400 ng/mL (pós-menopausa)7–140 ng/mL (1–15 anos); recém-nascidos: 25–200 ng/mLng/mL

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Ferritina sérica
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Ferritina < 30 ng/mL (homens) ou < 15 ng/mL (mulheres)Indica depleção dos estoques de ferro, compatível com deficiência de ferro. Em contextos inflamatórios, o ponto de corte sobe para < 100 ng/mL. Confirmar com hemograma (anemia microcítica hipocrômica) e saturação da transferrina. Iniciar reposição de ferro e investigar causa da perda (sangramento digestivo, ginecológico).
Ferritina 30–100 ng/mL (zona cinzenta)Estoques de ferro podem estar normais ou reduzidos, especialmente na presença de inflamação. Necessita correlação clínica e com outros marcadores. Solicitar proteína C reativa (PCR) ou VHS para avaliar inflamação. Se PCR elevado, considerar deficiência de ferro se ferritina < 100 ng/mL.
Ferritina > 400 ng/mL (homens) ou > 300 ng/mL (mulheres)Sugere sobrecarga de ferro ou elevação secundária a processo inflamatório/neoplásico. Solicitar saturação da transferrina. Se > 45%, investigar hemocromatose hereditária com teste genético (HFE). Avaliar fígado com USG e TGP.
Ferritina > 1000 ng/mLFortemente sugestivo de sobrecarga de ferro (hemocromatose, transfusões múltiplas) ou, menos comumente, síndrome de ativação macrofágica ou neoplasias. Encaminhar para hematologia ou gastroenterologia. Solicitar ressonância magnética hepática para quantificação de ferro e biópsia de medula óssea se suspeita de neoplasia.
Ferritina normal (15–150 ng/mL) com anemia microcíticaPode indicar anemia de doença crônica ou talassemia minor. Deficiência de ferro é menos provável, mas não excluída se houver inflamação. Solicitar eletroforese de hemoglobina e saturação da transferrina. Avaliar PCR e VHS.
Ferritina elevada com saturação da transferrina baixa (< 20%)Padrão típico de anemia de doença crônica ou de processos inflamatórios/infecciosos. A ferritina está elevada como reagente de fase aguda. Investigar foco infeccioso ou doença inflamatória. Monitorar hemograma e considerar reposição de ferro se anemia sintomática.

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Ferritina sérica
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Ferritina baixa (< 30 ng/mL) + anemia microcíticaAnemia ferropriva, deficiência de ferro sem anemia.Saturação da transferrina, endoscopia digestiva alta/colonoscopia, pesquisa de sangue oculto nas fezes.Clínica Médica / Gastroenterologia
Ferritina normal/elevada + anemia microcíticaAnemia de doença crônica, talassemia minor, anemia sideroblástica.PCR, VHS, eletroforese de hemoglobina, saturação da transferrina, biópsia de medula óssea.Hematologia
Ferritina elevada (> 400 ng/mL) + saturação da transferrina > 45%Hemocromatose hereditária, hemocromatose secundária a hemólise crônica.Teste genético para mutação HFE, ressonância magnética hepática, TGP, ferritina hepática em biópsia.Gastroenterologia / Hematologia
Ferritina elevada (> 1000 ng/mL) + febre + citopeniasSíndrome hemofagocítica (HLH), sepse grave, neoplasias hematológicas.Biópsia de medula óssea, triglicerídeos, fibrinogênio, pesquisa de infecções (CMV, EBV).Hematologia / Infectologia
Ferritina elevada em paciente com hepatopatia crônicaSobrecarga de ferro secundária a doença hepática, hemocromatose, esteatohepatite alcoólica.Saturação da transferrina, teste genético HFE, elastografia hepática (FibroScan), biópsia hepática.Gastroenterologia / Hepatologia

Medicamentos e Interferentes

  • Suplementos de ferro oral — podem elevar levemente a ferritina sérica após semanas de uso, mas o efeito é variável.
  • Transfusões de concentrado de hemácias — elevam a ferritina de forma aguda e sustentada, contribuindo para sobrecarga férrica.
  • Corticosteroides — podem elevar a ferritina como parte da resposta de fase aguda.
  • Anticoncepcionais orais — podem elevar levemente os níveis de ferritina em algumas mulheres.
  • Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) — em uso crônico, podem causar sangramento digestivo oculto, levando a redução da ferritina.

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

Os estoques de ferro diminuem progressivamente durante a gestação devido à expansão do volume plasmático e às demandas fetais. No terceiro trimestre, ferritina 200 ng/mL são incomuns e devem investigar sobrecarga ou inflamação.

Criança

Crianças têm estoques de ferro mais baixos e maior demanda devido ao crescimento. Deficiência de ferro é comum entre 6 meses e 3 anos, especialmente com dieta pobre em ferro heme. Ferritina < 12 ng/mL indica deficiência. Em processos infecciosos frequentes na infância, a ferritina pode estar falsamente elevada, exigindo correlação com PCR. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda suplementação preventiva em lactentes de risco.

Idoso

Idosos apresentam maior prevalência de anemia por múltiplas causas. A ferritina tende a ser mais elevada devido a comorbidades inflamatórias crônicas. Ponto de corte para deficiência de ferro é < 50 ng/mL em idosos frágeis ou com doença crônica. A deficiência é frequentemente secundária a sangramento digestivo (angiodisplasias, uso de AINEs) ou má absorção. A sobrecarga de ferro é rara, mas pode ocorrer em pacientes com hemocromatose não diagnosticada ou transfusões múltiplas.

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH). Diretrizes para o diagnóstico e tratamento da anemia ferropriva. 2021.
  2. Camaschella C. Iron deficiency. Blood. 2019;133(1):30-39.
  3. Kowdley KV, Brown KE, Ahn J, Sundaram V. ACG Clinical Guideline: Hereditary Hemochromatosis. Am J Gastroenterol. 2019;114(8):1202-1218.
  4. Weiss G, Ganz T, Goodnough LT. Anemia of inflammation. Blood. 2019;133(1):40-50.
  5. Pfeiffer CM, Looker AC. Laboratory methodologies for indicators of iron status: strengths, limitations, and analytical challenges. Am J Clin Nutr. 2017;106(Suppl 6):1606S-1614S.

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