CK total e CK-MB: Interpretação Clínica e Indicações
A creatina quinase (CK) total e sua isoenzima MB (CK-MB) são marcadores bioquímicos fundamentais na avaliação de lesão muscular esquelética e cardíaca. A CK total reflete a atividade enzimática liberada por qualquer célula muscular danificada, enquanto a CK-MB é mais específica para o miocárdio, embora também presente em menor quantidade no músculo esquelético. Clinicamente, são essenciais para o diagnóstico diferencial entre infarto agudo do miocárdio (IAM) e rabdomiólise, além de monitorar a extensão de lesões musculares traumáticas, inflamatórias ou metabólicas. São indicados para médicos de emergência, cardiologistas, intensivistas e clínicos que avaliam síndromes dolorosas torácicas ou musculares.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de dor torácica suspeita de infarto agudo do miocárdio com ECG não diagnóstico CID I21
- Monitoramento de rabdomiólise por trauma, exercício extenuante, síndrome compartimental ou miopatias CID M62.8
- Avaliação de miocardite aguda com elevação de marcadores de necrose CID I40
- Controle de lesão muscular pós-cirurgia cardíaca ou procedimentos invasivos CID I97.8
- Diagnóstico diferencial de síndromes coronarianas agudas com troponina negativa precoce CID I20.0
- Avaliação de miopatias inflamatórias (dermatomiosite, polimiosite) com CK elevada CID M33
- Monitoramento de toxicidade muscular por estatinas ou outras drogas miotóxicas CID M62.8
- Investigação de insuficiência renal aguda por rabdomiólise com mioglobinúria CID N17
- Avaliação de recidiva de IAM em pacientes com troponina cronicamente elevada CID I21
- Triagem de distúrbios metabólicos musculares (deficiência de carnitina, glicogenoses) CID E71
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise intensa — libera CK eritrocitária, causando pseudo-elevação da CK total
- Lipemia acentuada — interfere na leitura espectrofotométrica, podendo subestimar resultados
- Icterícia grave — bilirrubina elevada pode interferir em métodos colorimétricos
- Amostra não centrifugada rapidamente — liberação de CK por células sanguíneas em temperatura ambiente
- Exercício físico vigoroso nas 48h anteriores — elevação fisiológica da CK por microlesões musculares
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| CK total | 39–308 U/L | 26–192 U/L | Até 2 anos: 50–200 U/L; 2–16 anos: conforme sexo adulto | U/L |
| CK-MB | < 25 U/L | < 25 U/L | Similar a adultos | U/L |
| Índice CK-MB/CK total | < 6% | < 6% | Similar a adultos | % |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| CK total > 5x limite superior + CK-MB > 25 U/L + índice CK-MB/CK > 6% | Sugestivo de lesão miocárdica aguda (IAM, miocardite) | Solicitar troponina de alta sensibilidade, ECG serial e avaliação cardiológica urgente |
| CK total > 1.000 U/L + CK-MB < 25 U/L + índice CK-MB/CK < 3% | Sugestivo de rabdomiólise ou lesão muscular esquelética extensa | Avaliar função renal (creatinina, urina), hidratação vigorosa, investigar causa muscular |
| CK total moderadamente elevada (2–5x) + CK-MB normal | Possível miopatia crônica, exercício recente ou uso de estatinas | Investigar história de medicamentos, sintomas musculares, solicitar TGO/TGP |
| CK total normal + CK-MB elevada isolada | Raro; considerar macro-CK (complexo imunológico), erro laboratorial ou minúscula lesão miocárdica | Repetir dosagem, solicitar troponina, avaliar contexto clínico |
| CK total persistentemente elevada por semanas | Sugere miopatia inflamatória ou metabólica crônica | Solicitar anticorpos específicos (anti-Jo1, anti-Mi2), eletromiografia, biópsia muscular |
| CK total e CK-MB elevadas pós-revascularização miocárdica | Comum devido à manipulação cirúrgica; diferenciar de IAM perioperatório | Monitorar curva enzimática, correlacionar com sintomas e ECG |
| CK total > 10.000 U/L | Rabdomiólise grave com alto risco de insuficiência renal aguda | Internação urgente, hidratação agressiva, monitorar diurese e eletrólitos |
| CK-MB elevada com troponina normal | Provável origem não cardíaca (muscular) ou falso positivo | Investigar causas musculares, repetir marcadores em 3–6h |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| CK total > 1.000 U/L + CK-MB normal | Rabdomiólise, miopatia inflamatória, exercício extenuante | Mioglobina urinária, TGO/TGP, aldolase, eletrólitos | Nefrologia / Reumatologia |
| CK total e CK-MB elevadas + índice CK-MB/CK > 6% | IAM, miocardite, contusão cardíaca | Troponina de alta sensibilidade, ECG, ecocardiograma | Cardiologia |
| CK total moderadamente elevada + CK-MB normal | Uso de estatinas, hipotireoidismo, miopatia metabólica | TSH, perfil lipídico, teste de esforço muscular | Endocrinologia / Neurologia |
| CK-MB elevada isolada | Macro-CK, insuficiência renal, neoplasia | Eletroforese de CK, creatinina, imagem torácica | Nefrologia / Oncologia |
| CK total persistentemente elevada | Distrofia muscular, miopatia genética, polimiosite | EMG, biópsia muscular, painel genético | Neurologia / Genética Médica |
Medicamentos e Interferentes
- Estatinas (sinvastatina, atorvastatina) — inibem síntese de colesterol muscular, elevam CK por miotoxicidade
- Corticoides — podem causar miopatia por uso crônico, elevando CK moderadamente
- Álcool — miotoxicidade direta e deficiência nutricional, eleva CK
- Hipotireoidismo — reduz clearance de CK, causando elevação moderada
- Insuficiência renal — reduz excreção de CK, podendo elevar níveis basais
Contextos Clínicos Especiais
Idoso
Idosos frequentemente têm massa muscular reduzida (sarcopenia), podendo apresentar CK total basal mais baixa. Lesões miocárdicas podem ter elevação enzimática mais discreta. Maior prevalência de uso de estatinas e comorbidades que interferem nos resultados.
Atleta
Atletas de alto rendimento podem ter CK total basal até 2–3 vezes acima do limite superior devido a adaptação muscular. A interpretação deve considerar o treinamento recente. CK-MB também pode estar moderadamente elevada por hipertrofia muscular cardíaca.
Gestante
A CK total pode estar discretamente elevada no terceiro trimestre devido ao aumento do esforço muscular. Valores muito elevados sugerem pré-eclâmpsia grave ou síndrome HELLP. CK-MB elevada na gestação é sempre patológica e requer investigação cardíaca urgente.
Exames Relacionados
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
CK total: homens 39–308 U/L, mulheres 26–192 U/L. CK-MB: < 25 U/L para ambos os sexos. O índice CK-MB/CK total deve ser < 6%. Valores podem variar entre laboratórios.
Depende do contexto. Em repouso, sem exercício recente, pode indicar miopatia, uso de estatinas ou hipotireoidismo. Com exercício nas últimas 48h, pode ser fisiológico. Avaliar sintomas musculares e exames complementares.
É um achado incomum. Pode representar macro-CK (complexo imunológico sem significado clínico), erro laboratorial ou minúscula lesão miocárdica. Investigar com repetição da dosagem e troponina.
No IAM, CK-MB está elevada com índice CK-MB/CK > 6%. Na rabdomiólise, CK total está muito elevada (> 1.000 U/L) com CK-MB normal ou discretamente elevada e índice < 3%. Troponina é normal na rabdomiólise pura.
A troponina é preferencial para IAM. CK-MB ainda é útil quando a troponina está cronicamente elevada (insuficiência renal, ICC) para detectar recidiva, ou em locais sem troponina de alta sensibilidade disponível.
Não. A coleta pode ser feita sem jejum, pois a alimentação não interfere significativamente nos níveis de CK. Evitar exercício físico vigoroso nas 48h anteriores para não causar elevação fisiológica.
Ambas elevam CK total. Miopatias inflamatórias (polimiosite) têm CK moderadamente elevada (500–5.000 U/L) com flutuações. Distrofias musculares têm CK persistentemente muito elevada (> 5.000 U/L). Biópsia muscular e genética confirmam.
Não, especialmente se a coleta for muito precoce (< 4h do início dos sintomas). A CK-MB pode ainda não ter se elevado. Troponina de alta sensibilidade é mais precoce e sensível. Sempre correlacionar com ECG e clínica.
Referências
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST (2021). 10.5935/abc.20210112
- Thygesen K, et al. Fourth Universal Definition of Myocardial Infarction (2018). European Heart Journal. 10.1093/eurheartj/ehy462
- Chavez LO, Leon M, Einav S, Varon J. Beyond muscle destruction: a systematic review of rhabdomyolysis for clinical practice. Crit Care. 2016. 10.1186/s13054-016-1314-5
- Maron BA, et al. Contemporary Use of Biomarkers in the Management of Heart Failure. Circulation: Heart Failure. 2020. 10.1161/CIRCHEARTFAILURE.119.006396
- Henry JB, ed. Clinical Diagnosis and Management by Laboratory Methods. 21st ed. Saunders; 2017.