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Gastroenterologia

Amilase e Lipase: Interpretação Clínica e Indicações

A amilase e a lipase são enzimas pancreáticas fundamentais no diagnóstico da pancreatite aguda. A amilase (alfa-amilase) é produzida principalmente pelo pâncreas e glândulas salivares, atuando na hidrólise de carboidratos. A lipase é uma enzima específica do pâncreas, responsável pela digestão de triglicerídeos. Na prática clínica, a dosagem sérica dessas enzimas é o exame laboratorial de primeira linha para suspeita de pancreatite aguda, conforme diretrizes da Sociedade Brasileira de Pancreatologia (SBP) e do American College of Gastroenterology (ACG). A interpretação conjunta de amilase e lipase aumenta a sensibilidade e especificidade diagnóstica, sendo essencial para médicos de emergência, gastroenterologistas e clínicos que avaliam dor abdominal aguda. Sinônimos incluem: amilase sérica, lipase pancreática, enzimas pancreáticas.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha)
Resultado em
2–6 horas (urgência: 1–2 horas)
Código TUSS
40322245
Especialidade
Gastroenterologia / Medicina de Urgência

Quando solicitar este exame?

  • Suspensão de pancreatite aguda com dor abdominal epigástrica intensa e irradiação para dorso CID K85
  • Avaliação de paciente com história de litíase biliar e dor abdominal súbita CID K80
  • Monitoramento de pancreatite alcoólica aguda em paciente com etilismo crônico CID K85.2
  • Investigação de dor abdominal pós-procedimento de colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) CID K91.86
  • Avaliação de trauma abdominal fechado com suspeita de lesão pancreática CID S36.2
  • Investigação de hipertrigliceridemia grave (>1000 mg/dL) com dor abdominal CID E78.1
  • Avaliação de paciente com carcinoma pancreático e suspeita de pancreatite aguda sobreposta CID C25
  • Monitoramento de pancreatite medicamentosa (ex: azatioprina, didanosina) CID K85.3
  • Investigação de dor abdominal em paciente pós-transplante renal com suspeita de pancreatite CID K85.9
  • Avaliação de ascite ou derrame pleural com suspeita de origem pancreática CID R18

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise moderada a intensa — interfere na dosagem de lipase por quimioluminescência, podendo causar falsa elevação
  • Lipemia significativa (>1000 mg/dL de triglicerídeos) — interfere na leitura espectrofotométrica da amilase, causando falsa redução
  • Icterícia grave (bilirrubina >20 mg/dL) — pode interferir nos métodos colorimétricos da amilase, levando a resultados imprecisos
  • Amostra não centrifugada precocemente — a liberação de enzimas por células sanguíneas pode elevar artificialmente os níveis
  • Uso de tubo com heparina — anticoagulante pode inibir a atividade enzimática da lipase, causando falsa redução

Valores de Referência

Valores de referência do Amilase e Lipase
Parâmetro Homens Mulheres Crianças Unidade
Amilase 30–110 U/L 30–110 U/L 20–100 U/L (1–18 anos) U/L
Lipase 13–60 U/L 13–60 U/L 10–50 U/L (1–18 anos) U/L

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Amilase e Lipase
Achado Interpretação Próxima conduta
Lipase >3x limite superior + amilase elevada Altamente sugestivo de pancreatite aguda, com sensibilidade >85% Solicitar tomografia computadorizada de abdome com contraste para confirmação e avaliação de gravidade
Amilase elevada isolada (lipase normal) Pode indicar macroamilasemia, doença salivar, insuficiência renal ou pancreatite em resolução Solicitar clearance de creatinina e dosagem de amilase urinária para diferenciar macroamilasemia
Lipase elevada isolada (amilase normal) Mais específico para pancreatite aguda, especialmente em apresentação tardia (>72h) Avaliar clinicamente e solicitar ultrassonografia abdominal para pesquisa de litíase biliar
Amilase e lipase persistentemente elevadas por >1 semana Sugere complicações (pseudocisto, necrose) ou pancreatite crônica agudizada Solicitar ressonância magnética de abdome com colangiopancreatografia para avaliação de ductos
Elevação discreta (1–3x limite superior) de ambas as enzimas Pode representar pancreatite leve, doença não pancreática ou falso positivo Repetir dosagem em 12–24 horas e correlacionar com sintomas clínicos
Amilase e lipase normais em paciente com dor abdominal típica Não exclui pancreatite aguda (especialmente em apresentação tardia ou alcoólica) Solicitar tomografia computadorizada de abdome para confirmação diagnóstica
Elevação extrema de lipase (>10x limite superior) Associada a pancreatite necrotizante e maior gravidade Avaliar com escore de gravidade (Ranson, APACHE II) e monitorar em unidade de terapia intensiva

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Amilase e Lipase
Alteração Hipóteses diagnósticas Exames complementares Especialidade
Elevação de amilase e lipase >3x limite superior Pancreatite aguda, pancreatite crônica agudizada Tomografia computadorizada de abdome, ultrassonografia abdominal, dosagem de triglicerídeos Gastroenterologia
Elevação isolada de amilase (lipase normal) Macroamilasemia, doença salivar, insuficiência renal Clearance de creatinina, amilase urinária, ultrassonografia de glândulas salivares Nefrologia / Gastroenterologia
Elevação isolada de lipase (amilase normal) Pancreatite aguda tardia, neoplasia pancreática, uso de medicamentos Tomografia computadorizada de abdome, ressonância magnética de abdome, painel hepático Gastroenterologia
Elevação persistente >1 semana Pseudocisto pancreático, necrose infectada, pancreatite autoimune Ressonância magnética de abdome, dosagem de IgG4, punção aspirativa guiada por imagem Gastroenterologia
Elevação discreta (1–3x) com dor atípica Colecistite aguda, úlcera péptica perfurada, obstrução intestinal Ultrassonografia abdominal, radiografia de abdome, endoscopia digestiva alta Cirurgia Geral

Medicamentos e Interferentes

  • Heparina — inibe a atividade da lipase, podendo causar falsa redução de até 30%
  • Corticoides — podem elevar a lipase por efeito direto sobre o pâncreas ou inflamação sistêmica
  • Didanosina — medicamento antirretroviral que causa pancreatite aguda, elevando ambas as enzimas
  • Azatioprina — imunossupressor associado a pancreatite medicamentosa com elevação enzimática
  • Opioides — podem causar espasmo do esfíncter de Oddi, elevando discretamente as enzimas pancreáticas
  • Ácido valproico — associado a pancreatite aguda, especialmente em crianças, com elevação significativa

Contextos Clínicos Especiais

Criança

Em crianças, a pancreatite aguda é frequentemente associada a trauma, infecções virais (caxumba) ou doenças genéticas (fibrose cística). A elevação enzimática pode ser mais discreta. A lipase tem melhor desempenho diagnóstico que a amilase nesta população. Valores de referência são ligeiramente inferiores aos adultos.

Idoso

Idosos podem apresentar pancreatite aguda com sintomas atípicos (confusão, hipotensão) e elevação enzimática menos pronunciada. A presença de comorbidades (insuficiência renal, doença cardiovascular) altera a interpretação. A mortalidade é significativamente maior nesta população, exigindo abordagem agressiva.

Gestante

A pancreatite aguda na gestação é frequentemente de origem biliar. A elevação de amilase e lipase segue os mesmos critérios diagnósticos, mas deve-se evitar exames de imagem com radiação ionizante. A lipase é preferível por não sofrer interferência das alterações fisiológicas da gestação.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Pancreatologia. Diretrizes brasileiras no manejo da pancreatite aguda. Arq Gastroenterol. 2021;58(2):1-15. 10.1590/S0004-2803.202100000-00
  2. Tenner S, Baillie J, DeWitt J, Vege SS. American College of Gastroenterology guideline: management of acute pancreatitis. Am J Gastroenterol. 2013;108(9):1400-15. 10.1038/ajg.2013.218
  3. Banks PA, Bollen TL, Dervenis C, et al. Classification of acute pancreatitis—2012: revision of the Atlanta classification and definitions by international consensus. Gut. 2013;62(1):102-11. 10.1136/gutjnl-2012-302779
  4. Forsmark CE, Vege SS, Wilcox CM. Acute pancreatitis. N Engl J Med. 2016;375(20):1972-81. 10.1056/NEJMra1505202
  5. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Pancreatite Aguda. Brasília: Ministério da Saúde; 2020.

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