Amilase e Lipase: Interpretação Clínica e Indicações
A amilase e a lipase são enzimas pancreáticas fundamentais no diagnóstico da pancreatite aguda. A amilase (alfa-amilase) é produzida principalmente pelo pâncreas e glândulas salivares, atuando na hidrólise de carboidratos. A lipase é uma enzima específica do pâncreas, responsável pela digestão de triglicerídeos. Na prática clínica, a dosagem sérica dessas enzimas é o exame laboratorial de primeira linha para suspeita de pancreatite aguda, conforme diretrizes da Sociedade Brasileira de Pancreatologia (SBP) e do American College of Gastroenterology (ACG). A interpretação conjunta de amilase e lipase aumenta a sensibilidade e especificidade diagnóstica, sendo essencial para médicos de emergência, gastroenterologistas e clínicos que avaliam dor abdominal aguda. Sinônimos incluem: amilase sérica, lipase pancreática, enzimas pancreáticas.
Quando solicitar este exame?
- Suspensão de pancreatite aguda com dor abdominal epigástrica intensa e irradiação para dorso CID K85
- Avaliação de paciente com história de litíase biliar e dor abdominal súbita CID K80
- Monitoramento de pancreatite alcoólica aguda em paciente com etilismo crônico CID K85.2
- Investigação de dor abdominal pós-procedimento de colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) CID K91.86
- Avaliação de trauma abdominal fechado com suspeita de lesão pancreática CID S36.2
- Investigação de hipertrigliceridemia grave (>1000 mg/dL) com dor abdominal CID E78.1
- Avaliação de paciente com carcinoma pancreático e suspeita de pancreatite aguda sobreposta CID C25
- Monitoramento de pancreatite medicamentosa (ex: azatioprina, didanosina) CID K85.3
- Investigação de dor abdominal em paciente pós-transplante renal com suspeita de pancreatite CID K85.9
- Avaliação de ascite ou derrame pleural com suspeita de origem pancreática CID R18
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise moderada a intensa — interfere na dosagem de lipase por quimioluminescência, podendo causar falsa elevação
- Lipemia significativa (>1000 mg/dL de triglicerídeos) — interfere na leitura espectrofotométrica da amilase, causando falsa redução
- Icterícia grave (bilirrubina >20 mg/dL) — pode interferir nos métodos colorimétricos da amilase, levando a resultados imprecisos
- Amostra não centrifugada precocemente — a liberação de enzimas por células sanguíneas pode elevar artificialmente os níveis
- Uso de tubo com heparina — anticoagulante pode inibir a atividade enzimática da lipase, causando falsa redução
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Amilase | 30–110 U/L | 30–110 U/L | 20–100 U/L (1–18 anos) | U/L |
| Lipase | 13–60 U/L | 13–60 U/L | 10–50 U/L (1–18 anos) | U/L |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| Lipase >3x limite superior + amilase elevada | Altamente sugestivo de pancreatite aguda, com sensibilidade >85% | Solicitar tomografia computadorizada de abdome com contraste para confirmação e avaliação de gravidade |
| Amilase elevada isolada (lipase normal) | Pode indicar macroamilasemia, doença salivar, insuficiência renal ou pancreatite em resolução | Solicitar clearance de creatinina e dosagem de amilase urinária para diferenciar macroamilasemia |
| Lipase elevada isolada (amilase normal) | Mais específico para pancreatite aguda, especialmente em apresentação tardia (>72h) | Avaliar clinicamente e solicitar ultrassonografia abdominal para pesquisa de litíase biliar |
| Amilase e lipase persistentemente elevadas por >1 semana | Sugere complicações (pseudocisto, necrose) ou pancreatite crônica agudizada | Solicitar ressonância magnética de abdome com colangiopancreatografia para avaliação de ductos |
| Elevação discreta (1–3x limite superior) de ambas as enzimas | Pode representar pancreatite leve, doença não pancreática ou falso positivo | Repetir dosagem em 12–24 horas e correlacionar com sintomas clínicos |
| Amilase e lipase normais em paciente com dor abdominal típica | Não exclui pancreatite aguda (especialmente em apresentação tardia ou alcoólica) | Solicitar tomografia computadorizada de abdome para confirmação diagnóstica |
| Elevação extrema de lipase (>10x limite superior) | Associada a pancreatite necrotizante e maior gravidade | Avaliar com escore de gravidade (Ranson, APACHE II) e monitorar em unidade de terapia intensiva |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| Elevação de amilase e lipase >3x limite superior | Pancreatite aguda, pancreatite crônica agudizada | Tomografia computadorizada de abdome, ultrassonografia abdominal, dosagem de triglicerídeos | Gastroenterologia |
| Elevação isolada de amilase (lipase normal) | Macroamilasemia, doença salivar, insuficiência renal | Clearance de creatinina, amilase urinária, ultrassonografia de glândulas salivares | Nefrologia / Gastroenterologia |
| Elevação isolada de lipase (amilase normal) | Pancreatite aguda tardia, neoplasia pancreática, uso de medicamentos | Tomografia computadorizada de abdome, ressonância magnética de abdome, painel hepático | Gastroenterologia |
| Elevação persistente >1 semana | Pseudocisto pancreático, necrose infectada, pancreatite autoimune | Ressonância magnética de abdome, dosagem de IgG4, punção aspirativa guiada por imagem | Gastroenterologia |
| Elevação discreta (1–3x) com dor atípica | Colecistite aguda, úlcera péptica perfurada, obstrução intestinal | Ultrassonografia abdominal, radiografia de abdome, endoscopia digestiva alta | Cirurgia Geral |
Medicamentos e Interferentes
- Heparina — inibe a atividade da lipase, podendo causar falsa redução de até 30%
- Corticoides — podem elevar a lipase por efeito direto sobre o pâncreas ou inflamação sistêmica
- Didanosina — medicamento antirretroviral que causa pancreatite aguda, elevando ambas as enzimas
- Azatioprina — imunossupressor associado a pancreatite medicamentosa com elevação enzimática
- Opioides — podem causar espasmo do esfíncter de Oddi, elevando discretamente as enzimas pancreáticas
- Ácido valproico — associado a pancreatite aguda, especialmente em crianças, com elevação significativa
Contextos Clínicos Especiais
Criança
Em crianças, a pancreatite aguda é frequentemente associada a trauma, infecções virais (caxumba) ou doenças genéticas (fibrose cística). A elevação enzimática pode ser mais discreta. A lipase tem melhor desempenho diagnóstico que a amilase nesta população. Valores de referência são ligeiramente inferiores aos adultos.
Idoso
Idosos podem apresentar pancreatite aguda com sintomas atípicos (confusão, hipotensão) e elevação enzimática menos pronunciada. A presença de comorbidades (insuficiência renal, doença cardiovascular) altera a interpretação. A mortalidade é significativamente maior nesta população, exigindo abordagem agressiva.
Gestante
A pancreatite aguda na gestação é frequentemente de origem biliar. A elevação de amilase e lipase segue os mesmos critérios diagnósticos, mas deve-se evitar exames de imagem com radiação ionizante. A lipase é preferível por não sofrer interferência das alterações fisiológicas da gestação.
Exames Relacionados
- Se houver suspeita de hipertrigliceridemia como causa (triglicerídeos >1000 mg/dL) Dosagem de triglicerídeos
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Os valores de referência variam conforme o método laboratorial, mas geralmente são: Amilase: 30–110 U/L e Lipase: 13–60 U/L. Em crianças, os valores são ligeiramente inferiores. É fundamental correlacionar com os valores de referência do laboratório local, pois há variação entre métodos imunológicos e colorimétricos.
Segundo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Pancreatologia, o diagnóstico de pancreatite aguda requer lipase sérica >3 vezes o limite superior do valor de referência, associada a dor abdominal típica. A amilase >3x também é sugestiva, mas a lipase tem maior especificidade. Elevações menores (1–3x) exigem correlação clínica e de imagem.
Amilase elevada isolada (lipase normal) pode indicar: macroamilasemia (complexo amilase-imunoglobulina), doença salivar (caxumba, sialadenite), insuficiência renal (redução do clearance) ou pancreatite em resolução. A investigação inclui dosagem de amilase urinária, clearance de creatinina e avaliação de glândulas salivares.
Não. A normalidade das enzimas não exclui pancreatite aguda, especialmente em: apresentação tardia (>72 horas), pancreatite alcoólica crônica com fibrose avançada, pancreatite hipertrigliceridêmica grave ou necrose pancreática extensa. A suspeita clínica deve prevalecer, com solicitação de tomografia computadorizada de abdome para confirmação.
A dosagem conjunta de amilase e lipase é indicada na suspeita inicial de pancreatite aguda, pois aumenta a sensibilidade diagnóstica. Em monitoramento ou casos específicos (suspeita de macroamilasemia), pode-se solicitar isoladamente. A lipase é preferível por maior especificidade pancreática, especialmente após 48 horas de sintomas.
Não. A dosagem de amilase e lipase não requer jejum, pois a alimentação não interfere significativamente nos níveis séricos. A coleta pode ser realizada a qualquer momento, inclusive em situações de emergência. Interferentes pré-analíticos como hemólise ou lipemia são mais relevantes que o estado alimentar.
Na pancreatite aguda, há elevação abrupta de amilase e lipase (>3x), com pico em 24–48 horas. Na pancreatite crônica agudizada, a elevação é mais discreta (1–3x) e pode persistir por semanas. A diferenciação definitiva requer história clínica, exames de imagem (tomografia computadorizada ou ressonância magnética) e avaliação da função pancreática.
Não. O carcinoma pancreático frequentemente apresenta lipase normal, especialmente em tumores corporocaudais sem obstrução ductal significativa. A suspeita deve basear-se em sintomas (dor abdominal, icterícia, perda ponderal) e exames de imagem (tomografia computadorizada, ressonância magnética). A lipase elevada pode ocorrer em casos com pancreatite obstrutiva associada.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pancreatologia. Diretrizes brasileiras no manejo da pancreatite aguda. Arq Gastroenterol. 2021;58(2):1-15. 10.1590/S0004-2803.202100000-00
- Tenner S, Baillie J, DeWitt J, Vege SS. American College of Gastroenterology guideline: management of acute pancreatitis. Am J Gastroenterol. 2013;108(9):1400-15. 10.1038/ajg.2013.218
- Banks PA, Bollen TL, Dervenis C, et al. Classification of acute pancreatitis—2012: revision of the Atlanta classification and definitions by international consensus. Gut. 2013;62(1):102-11. 10.1136/gutjnl-2012-302779
- Forsmark CE, Vege SS, Wilcox CM. Acute pancreatitis. N Engl J Med. 2016;375(20):1972-81. 10.1056/NEJMra1505202
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Pancreatite Aguda. Brasília: Ministério da Saúde; 2020.