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Contraceptivos hormonais e lesão do LCA: o que a ciência mostra e o que ainda não podemos concluir

Profissional de saúde examina o joelho de uma atleta sentada na maca, em clínica de reabilitação com muletas ao fundo.

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A cena aconteceu comigo mais de uma vez no futebol feminino. Atleta jovem, avaliação pré-temporada, e no meio da conversa sobre ciclo menstrual vem a pergunta: “doutora, é verdade que tomar anticoncepcional protege o joelho?” Ela leu em algum lugar, ouviu de uma colega ou viu num vídeo. E a resposta honesta é mais interessante, e mais complicada, do que um sim ou não.

O tema saiu do nicho e entrou de vez na pauta da medicina do esporte. Com o crescimento do esporte feminino, a lesão do ligamento cruzado anterior se tornou uma das principais preocupações da área, e qualquer fator potencialmente modificável passa a receber muita atenção. Os contraceptivos hormonais são hoje o candidato mais comentado. Vale entender o que os estudos realmente mostram antes de transformar hipótese em conduta.

O problema de base: por que mulheres rompem mais o LCA

A lesão do LCA sem contato é substancialmente mais frequente em atletas mulheres do que em homens praticando o mesmo esporte, com estimativas que variam de duas a oito vezes mais risco a depender da modalidade e da população estudada. Futebol, basquete e handebol lideram as estatísticas.

As explicações são multifatoriais. Existem fatores anatômicos, como o intercôndilo mais estreito e o maior ângulo Q, fatores neuromusculares, como padrões de aterrissagem em valgo e menor ativação de cadeia posterior, e fatores hormonais, que são o assunto deste texto. O estrogênio e a relaxina têm receptores no ligamento e influenciam o metabolismo do colágeno, e a frouxidão ligamentar varia ao longo do ciclo menstrual. Estudos prospectivos sugerem maior incidência de lesão na fase ovulatória, justamente quando o pico de estrogênio coincide com maior lassidão articular.

Foi dessa observação que nasceu a hipótese: se a flutuação hormonal aumenta o risco, será que estabilizar essas flutuações com contraceptivo hormonal poderia reduzi-lo?

O estudo que reacendeu o debate

A pergunta ganhou seu maior estudo até hoje em 2025, publicado na Arthroscopy. Pesquisadores do Colorado analisaram uma base de dados com quase 15 milhões de mulheres de 15 a 35 anos, acompanhadas entre 2011 e 2024, comparando usuárias e não usuárias de contraceptivos hormonais sistêmicos quanto à ocorrência de lesão do LCA tratada com reconstrução.

Os números chamam atenção. A incidência de lesão foi de 0,079% entre as usuárias de contraceptivo hormonal contra 0,12% entre as não usuárias, uma redução relativa na casa dos 30%. Entre as usuárias de pílula, o menor risco apareceu nas formulações apenas de progestagênio. E registros populacionais anteriores, como o dinamarquês de reconstrução ligamentar, já haviam apontado na mesma direção, com redução de risco em torno de 20% entre usuárias de contraceptivo oral.

Um achado do estudo americano, porém, merece destaque: na faixa de 15 a 19 anos, exatamente a de maior incidência de lesão no esporte feminino, não houve diferença entre usuárias e não usuárias de pílula. O suposto efeito protetor simplesmente não apareceu onde ele seria mais desejado.

Por que ainda não dá para falar em proteção

Aqui entra a parte do texto que considero mais importante, porque é onde a leitura apressada da literatura vira conduta ruim. Todos esses estudos são observacionais. Associação não é causalidade, e neste tema os motivos para cautela são concretos.

O primeiro é o viés de indicação e de comportamento. Mulheres que usam contraceptivo hormonal podem diferir das não usuárias em acesso a saúde, nível de atividade, modalidade praticada e exposição ao risco, e bases administrativas não conseguem ajustar bem para nada disso. O segundo é que esses bancos de dados medem reconstrução do LCA, não lesão. Se usuárias e não usuárias tiverem probabilidades diferentes de optar pela cirurgia, o resultado se distorce sem que ninguém perceba.

O terceiro motivo é o mais definitivo: não existe nenhum ensaio clínico randomizado testando contraceptivo hormonal como intervenção para prevenir lesão do LCA. A própria literatura de 2026 reforça esse ponto. Uma revisão da AOSSM sobre a crise do LCA na atleta reconhece a associação de até 20% de redução, mas frisa a ausência de estudos prospectivos, e um estudo transversal alemão com atletas de elite concluiu que os mecanismos permanecem incertos e a causalidade não está estabelecida. Curiosamente, esse mesmo estudo encontrou associação de menos lesões de LCA em atletas com disfunção menstrual, um resultado contraintuitivo que mostra bem o quanto esse tema ainda está em aberto.

O que isso muda na minha prática

Depois de anos acompanhando atletas mulheres, minha posição é clara: não prescrevo e não recomendo contraceptivo hormonal com a finalidade de proteger o joelho. A evidência não sustenta essa indicação, e medicalizar a prevenção de uma lesão multifatorial com um hormônio de efeitos sistêmicos seria trocar um risco incerto por outros bem conhecidos.

Isso não significa ignorar o tema. Significa colocá-lo no lugar certo, que é o da saúde integral da atleta. A escolha do método contraceptivo pertence à mulher, em decisão compartilhada com a ginecologia, considerando contracepção, controle de sintomas, saúde óssea e preferências individuais. O que cabe a nós, na medicina do esporte, é perguntar. Ciclo menstrual, regularidade, sintomas e uso de contraceptivo deveriam fazer parte de toda avaliação pré-participação feminina, do mesmo modo que perguntamos sobre sono e alimentação. Uma atleta com irregularidade menstrual, por exemplo, pode estar sinalizando deficiência energética relativa, e esse sim é um problema que precisa de intervenção.

Enquanto isso, a prevenção de lesão do LCA que tem evidência robusta continua sendo a mais simples e a menos comentada: programas neuromusculares estruturados, com fortalecimento de cadeia posterior, treino de aterrissagem, controle de valgo dinâmico e exposição progressiva de carga, aplicados de forma consistente ao longo da temporada. Reduções de 50% ou mais na incidência de lesão já foram demonstradas com esses programas em esportes coletivos femininos. Nenhum comprimido chega perto disso.

Erros comuns nesse tema

O primeiro erro é o atalho lógico de transformar dado observacional em prescrição, seja no consultório, seja no conteúdo que circula nas redes. O segundo é o oposto: descartar o tema como bobagem e seguir tratando a atleta como se fosse um atleta homem com cabelo comprido. A fisiologia da mulher no esporte foi historicamente subestudada, e a resposta certa para uma lacuna de conhecimento é mais pesquisa e mais escuta, não indiferença.

O terceiro erro é esquecer o contexto. Discutir hormônio e joelho sem falar de disponibilidade energética, força, técnica de movimento e calendário competitivo é olhar para um único fator e perder o quadro completo. A lesão do LCA na atleta é um problema de sistema, e sistemas não se previnem com soluções únicas.

Mensagem final

Os dados recentes são intrigantes e justificam a atenção que vêm recebendo: existe uma associação consistente entre uso de contraceptivo hormonal e menor incidência de reconstrução do LCA em mulheres jovens. Mas associação não autoriza prescrição, o efeito não aparece nas adolescentes, e o ensaio clínico que poderia responder à pergunta ainda não foi feito.

Até lá, minha recomendação é dupla. Para a prevenção do LCA, invista no que funciona: programa neuromuscular bem aplicado, força e gestão de carga. Para a saúde hormonal da atleta, abra espaço na consulta: pergunte sobre o ciclo, rastreie deficiência energética e trabalhe em conjunto com a ginecologia. Quando a atleta me pergunta se o anticoncepcional protege o joelho, a minha resposta é esta: talvez ajude, ainda não sabemos, e nenhuma decisão sobre o seu corpo deveria se apoiar num talvez.

Referências

  • Fry SA, Hirpara A, Whitney KE, Keeter CL, Constantine EP, Williams KG, Dragoo JL. Use of hormonal contraceptives is associated with decreased incidence of anterior cruciate ligament injuries requiring reconstruction in female patients. Arthroscopy. 2025;41(9):3413-3421.
  • Rahr-Wagner L, Thillemann TM, Mehnert F, Pedersen AB, Lind M. Is the use of oral contraceptives associated with operatively treated anterior cruciate ligament injury? A case-control study from the Danish Knee Ligament Reconstruction Registry. Am J Sports Med. 2014;42(12):2897-2905.
  • Kirschbaum EM, Henke J, Heyde K, Legerlotz K. Hormonal contraception, menstrual cycle characteristics, and lower limb injuries in elite female team sports: identifying factors associated with increased injury prevalence: a cross-sectional study. Health Sci Rep. 2026;9:e71812.
  • American Orthopaedic Society for Sports Medicine. The ACL female athlete crisis. Sports Medicine Update. 2026.
  • Martin D, Timmins K, Cowley E, et al. Injury incidence across the menstrual cycle in international footballers. Front Sports Act Living. 2021;3:616999.

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