O Natural Cycles é o único aplicativo com registro na Anvisa como dispositivo médico contraceptivo. Entender o que isso significa é hoje parte do aconselhamento contraceptivo básico.
A pergunta que pode chegar ao consultório
“Doutor, quero parar a pílula. Vi um aplicativo que funciona como anticoncepcional. Serve?”
A resposta não deve ser simplesmente “sim” ou “não”. A indicação depende do aplicativo utilizado, das características da paciente, de seus objetivos reprodutivos e de uma conversa detalhada sobre eficácia, adesão e alternativas contraceptivas.
Por isso, o profissional deve apresentar o Natural Cycles dentro do conjunto de opções disponíveis. O aplicativo não representa uma substituição automática aos métodos contraceptivos hormonais ou aos dispositivos intrauterinos.
Aplicativo de ciclo menstrual não é o mesmo que dispositivo médico
Existe uma diferença importante entre aplicativos de acompanhamento menstrual e softwares desenvolvidos com finalidade médica.
Aplicativos como Flo, Clue, Glow e outros rastreadores de ciclo permitem registrar a menstruação e estimar períodos do ciclo. Entretanto, essa função não significa que o produto tenha avaliação ou autorização para atuar como método contraceptivo.
Já um Software as a Medical Device (SaMD) possui uma finalidade médica específica e segue requisitos regulatórios, documentação técnica, gerenciamento de riscos e avaliação de desempenho.
Segundo o posicionamento da FEBRASGO publicado em 2026, o Natural Cycles é, até o momento, o aplicativo identificado com registro da Anvisa para finalidade contraceptiva no Brasil. A Resolução-RE nº 806, de 27 de fevereiro de 2025, registra essa autorização.
No exterior, o aplicativo recebeu a marcação CE europeia em 2017 e a liberação do FDA em agosto de 2018. Essa liberação americana veio pela via De Novo, reservada a dispositivos para os quais não havia um produto equivalente previamente autorizado no mercado, o que significa que o produto inaugurou uma nova categoria regulatória: a da contracepção digital. Liberações posteriores ocorreram pela via 510(k), um processo da FDA que permite autorizar um novo dispositivo quando o fabricante demonstra que ele é substancialmente equivalente a outro dispositivo já autorizado. Foi por essa via que novas formas de coletar a temperatura foram validadas, com o Oura Ring em 2021 e o Apple Watch em 2023. A autorização, portanto, vale para o conjunto (algoritmo + dispositivo de aferição), e não para o aplicativo isolado.
A fisiologia por trás do método
Nada aqui é novo do ponto de vista fisiológico. O método se apoia em dois fatos clássicos:
- A janela fértil dura cerca de seis dias por ciclo: os cinco dias que antecedem a ovulação (sobrevida espermática no trato genital feminino) mais o dia da ovulação (sobrevida do oócito, bem mais curta).
- A progesterona do corpo lúteo é termogênica: atua no centro termorregulador hipotalâmico e eleva a temperatura basal em 0,3 a 0,5 °C após a ovulação.
Note a limitação intrínseca: a temperatura basal confirma retrospectivamente que a ovulação ocorreu. Isoladamente, ela não identifica o início da janela fértil. É por isso que o método da temperatura basal puro tem índice de Pearl de 12 a 24 em uso típico.
O que muda com o aplicativo é o tratamento estatístico do dado, não o marcador. O algoritmo recebe a temperatura basal aferida diariamente ao acordar, opcionalmente testes urinários de LH, e classifica cada dia como verde (não fértil, relação desprotegida permitida) ou vermelho (fértil, exige abstinência ou barreira). Na dúvida, o algoritmo marca vermelho: erra deliberadamente para o lado seguro, porque o falso verde custa uma gravidez e o falso vermelho custa um preservativo. A contrapartida é um número maior de dias vermelhos, sobretudo nos primeiros ciclos, enquanto o modelo ainda não conhece o padrão individual.
Na prática: como o aplicativo funciona no dia a dia
Esta é a parte da consulta que não pode faltar, pois determina se o método vai funcionar para a sua paciente. Vale descrever o protocolo com precisão antes de ela decidir.
- Aferição: termômetro basal de dois decimais, por via oral (sublingual, boca fechada, cerca de 30 segundos), logo ao acordar, antes de sentar ou levantar da cama. O plano anual costuma incluir o termômetro.
- Wearables: a aferição da temperatura pode ser realizada por Oura Ring ou Apple Watch (temperatura captada durante o sono, dispensando o termômetro).
- Horário: sempre dentro de uma janela de aproximadamente duas horas em torno do horário habitual de despertar, e após quantidade semelhante de sono (idealmente ao menos três horas ininterruptas).
- Frequência: recomenda-se pelo menos cinco medidas por semana (cerca de 70% dos dias). Medir menos não anula a eficácia contraceptiva, porque o algoritmo simplesmente marca mais dias vermelhos, mas reduz muito a satisfação e é a principal causa de abandono.
- Medidas a excluir: o aplicativo tem função para descartar aferições contaminadas. Devem ser excluídos dias com febre ou doença aguda, ingestão alcoólica na véspera, noite mal dormida, plantão, mudança de fuso ou despertar duas horas mais cedo ou mais tarde que o habitual. Medicamentos que alteram a temperatura também precisam ser considerados.
- Testes de LH: opcionais e urinários. Ajudam o algoritmo a localizar a ovulação com mais precisão, o que tende a liberar mais dias verdes.
- Leitura do status: a paciente deve se orientar apenas pelo status do dia. A previsão mensal exibida no calendário é estimativa e muda conforme os novos dados entram, não servindo para decidir sobre relação desprotegida.
- Curva de aprendizado: nos primeiros ciclos há mais dias vermelhos, porque o algoritmo ainda não conhece o padrão individual. Avisar isso na consulta evita a frustração que leva ao uso inadequado.
- Modos do aplicativo: o mesmo software opera em modos distintos (contracepção, planejamento de gravidez, acompanhamento de gestação e pós-parto). A lógica das cores muda entre eles, e a troca acidental de modo é fonte real de erro de interpretação.
- Custo: assinatura mensal ou anual, com aplicativo em português e pagamento em reais no Brasil. É um método pago e recorrente, o que precisa entrar na conversa sobre continuidade.
Traduzindo para a paciente em uma frase: o método exige uma medição matinal quase diária, uma leitura do aplicativo todos os dias e disciplina absoluta de preservativo ou abstinência nos dias vermelhos. Sem os três, o desempenho cai para a faixa dos métodos comportamentais tradicionais.
Os números
Índice de Pearl (gestações não planejadas por 100 mulheres-ano):
| Método | Uso perfeito | Uso típico |
| Implante subdérmico | 0,05 a 0,1 | 0,05 a 0,1 |
| DIU de levonorgestrel | 0,2 a 0,3 | 0,2 a 0,4 |
| DIU de cobre | 0,6 | 0,8 |
| Sintotérmico | 0,4 a 0,6 | 1,8 a 2,0 |
| Natural Cycles (app) | 1,0 a 2,0 | 6,2 a 6,9 |
| Pílula combinada | 0,3 | 7,0 a 9,0 |
| Preservativo externo | 2 | 13 |
| Tabelinha (Ogino-Knaus) | 5 | 12 a 24 |
Fonte: FEBRASGO Position Statement, Femina 2026;54(4):286-95.
O estudo pivotal (Contraception, 2017; 22.785 usuárias, 18.548 mulheres-ano) encontrou índice de Pearl de 6,9 em uso típico (IC 95%: 6,5 a 7,2) e 1,0 em uso perfeito (IC 95%: 0,5 a 1,5), com taxa de falha de 8,3% em 13 ciclos. A falha atribuível ao próprio algoritmo (dia fértil classificado erroneamente como verde) foi de 0,5 por 100 mulheres-ano. Coortes dos EUA e do Reino Unido reproduziram índices de 6,1 a 6,5 em uso típico.
Leitura correta desses números: em uso típico, o desempenho é comparável ao da pílula combinada e claramente inferior ao dos LARCs. Em uso perfeito, é inferior ao do método sintotérmico bem ensinado. O aplicativo não transforma um método comportamental em método de alta eficácia; ele torna um método comportamental mais reprodutível.
Onde a evidência é frágil
Um bom aconselhamento exige conhecer os limites do que se está oferecendo:
- Não existe ensaio clínico randomizado. Toda a base é observacional prospectiva, em coortes autosselecionadas de usuárias pagantes, motivadas, majoritariamente em relacionamento estável, com idade média em torno de 27 anos. A validade externa para adolescentes, para populações de baixa renda e para o contexto do SUS não está demonstrada.
- O desfecho é autorrelatado. As gestações dependem do relato da usuária, e o status de quem abandona o aplicativo é imputado por critérios do próprio estudo.
- O “uso perfeito” é enviesado para cima, e os próprios autores reconhecem isso: só entraram na conta os ciclos em que havia confiança de que não houve coito desprotegido em dia vermelho, o que exclui ciclos de abstinência não registrada.
- Conflito de interesse relevante: os autores do estudo pivotal são os fundadores da empresa e acionistas, o que está declarado na publicação.
- Descontinuação de 54% em 12 meses. Metade das usuárias troca de método no primeiro ano, e transições contraceptivas são justamente o período de maior risco de gravidez não planejada.
- Histórico de marketing questionado: em 2018 a agência regulatória sueca investigou o aplicativo após notificações de gestações não desejadas (encerrou o caso concluindo que o número era compatível com a documentação de certificação, mas exigiu esclarecimento do risco de falha), e a autoridade britânica de publicidade proibiu anúncio que descrevia o método como “altamente preciso”.
Quem pode usar: os critérios da FEBRASGO
Candidata adequada:
- 18 anos ou mais;
- ciclos regulares entre 24 e 38 dias, com variação interciclos de até nove dias;
- rotina de vida compatível com aferição diária ao acordar, no mesmo horário;
- parceria cooperativa e engajada (o método é do casal, não da mulher);
- desejo manifestado após aconselhamento contraceptivo completo.
Desaconselhado como método principal:
- adolescentes e, de modo geral, mulheres abaixo de 25 anos;
- ciclos irregulares, anovulação crônica, SOP;
- transição menopausal;
- puerpério e amamentação;
- qualquer paciente para quem uma gravidez não planejada represente risco inaceitável à saúde ou ao projeto de vida (cardiopatias, uso de teratogênicos, nefropatias, entre outras).
Atenção ao efeito de arrasto do uso prévio: quem vinha de contracepção hormonal tem índices de falha maiores nos primeiros ciclos, porque o padrão ovulatório ainda está se restabelecendo e o algoritmo ainda não tem histórico. Estudos de vigilância pós-comercialização mostram índice de Pearl de 8,1 entre usuárias que vinham da pílula, contra 3,5 entre as que vinham do preservativo.
Checklist prático de consulta
- Apresente o método dentro do leque completo, com comparação honesta de eficácia (a paciente precisa ouvir “implante 0,1, aplicativo 6,9”).
- Confirme os critérios de elegibilidade acima antes de validar a escolha.
- Deixe explícito que dia vermelho exige abstinência ou preservativo, sem exceção, e que o preservativo permanece indispensável para prevenção de IST.
- Prescreva ou oriente antecipadamente sobre contracepção de emergência, com acesso garantido.
- Registre tudo em prontuário: as opções oferecidas, a escolha da paciente e as orientações dadas.
- Reavalie em três a seis meses, com atenção à adesão real e à proporção de dias vermelhos, que costuma ser o principal motivo de abandono.
Resumindo
- Aplicativo de calendário e dispositivo médico digital são coisas distintas. Só o segundo pode ser oferecido como contracepção.
- No Brasil, apenas o Natural Cycles tem registro na Anvisa para essa finalidade (RE nº 806/2025).
- Eficácia em uso típico próxima à da pílula combinada, muito inferior à dos LARCs.
- O desempenho depende de um protocolo diário exigente: medir, ler o status e respeitar o dia vermelho.
- Evidência exclusivamente observacional, com conflitos de interesse declarados e alta descontinuação.
- O papel do médico não é aprovar ou reprovar a escolha, e sim garantir que ela seja informada, elegível e monitorada.
Referências
- Cordioli E, Monteiro IMU, Wender MCO. Métodos de contracepção comportamentais e consciência da fertilidade. Femina. 2026;54(4):286-95.
- Berglund Scherwitzl E, Lundberg O, Kopp Kallner H, Gemzell Danielsson K, Trussell J, Scherwitzl R. Perfect-use and typical-use Pearl Index of a contraceptive mobile app. Contraception. 2017;96(6):420-5.
- Pearson JT, Chelstowska M, Rowland SP, Benhar E, Kopp-Kallner H, Berglund Scherwitzl E, et al. Contraceptive effectiveness of an FDA-cleared birth control app: results from the Natural Cycles US Cohort. J Womens Health (Larchmt). 2021;30(6):782-8.
- Bull J, Rowland S, Lundberg O, Berglund Scherwitzl E, Gemzell Danielsson K, Trussell J, et al. Typical use effectiveness of Natural Cycles: postmarket surveillance study investigating the impact of previous contraceptive choice on the risk of unintended pregnancy. BMJ Open. 2019;9(3):e026474.
- Urrutia RP, Polis CB, Jensen ET, Greene ME, Kennedy E, Stanford JB. Effectiveness of fertility awareness-based methods for pregnancy prevention: a systematic review. Obstet Gynecol. 2018;132(3):591-604.
- Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução-RE nº 806, de 27 de fevereiro de 2025. Diário Oficial da União. 5 mar 2025;Seç.1:69.
- Food and Drug Administration. De Novo Classification Request for Natural Cycles (DEN170052). Silver Spring: FDA; 2018.
- World Health Organization. Family planning: a global handbook for providers. Geneva: WHO; 2022.