Quedas e queimaduras representam as principais causas externas de internação de crianças no Brasil, afetando especialmente menores de 5 anos, que combinam curiosidade exploratória com falta de percepção de risco. A supervisão inadequada, ausência de barreiras de proteção e acesso a locais de risco no domicílio contribuem diretamente para esse cenário.
O domicílio concentra a maioria dos acidentes, tornando a orientação antecipatória uma intervenção de alto impacto na prática ambulatorial.
Como orientar a prevenção de acidentes por faixa etária?
A prevenção deve ser específica para cada estágio do desenvolvimento neuropsicomotor. Recomendações genéricas não reduzem incidência; medidas concretas e registradas no prontuário, sim.
Quedas: orientações por faixa etária
| Faixa etária | Situação de risco | Medida de prevenção |
|---|---|---|
| Menores de 1 ano | Troca de fralda em superfícies elevadas; andadores | Nunca deixar a criança sozinha no trocador; desaconselhar uso de andadores |
| 1 a 2 anos | Escadas, camas, janelas sem proteção | Instalar portões de segurança no topo e na base de escadas; telas ou grades em janelas |
| 2 a 5 anos | Esquadrias, móveis altos, árvores e lajes | Manter móveis afastados de janelas; supervisionar brincadeiras em altura |
| Escolares e adolescentes | Esportes, brinquedos de parques, bicicletas e patinetes | Uso obrigatório de capacete; verificação da segurança do equipamento antes do uso |
Queimaduras: orientações por faixa etária
| Faixa etária | Situação de risco | Medida de prevenção |
|---|---|---|
| Menores de 1 ano | Líquidos quentes durante preparo de alimentos; banho em temperatura inadequada | Manter a criança longe da cozinha; testar a temperatura da água do banho (≤ 37°C); ajustar o aquecedor a gás para no máximo 49°C |
| 1 a 2 anos | Cabos de panela ao alcance; toalhas de mesa pendentes; tomadas | Usar as bocas traseiras do fogão e virar os cabos para o centro; retirar toalhas compridas; instalar protetores de tomada |
| 2 a 5 anos | Fósforos, isqueiros, fogos de artifício | Manter fósforos e isqueiros fora do alcance e trancados; proibir manuseio de fogos de artifício |
| Escolares e adolescentes | Manuseio de álcool e produtos inflamáveis; exposição solar prolongada | Orientar sobre inflamabilidade de produtos; ensinar aplicação correta de protetor solar |
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda incorporar orientação antecipatória a toda consulta de puericultura, com registro sistemático das orientações prescritas no prontuário. A prescrição de segurança deve ter a mesma objetividade que a prescrição de medicamentos.
Quais sinais indicam negligência ou violência em acidentes?
Acidentes ocorrem naturalmente na infância, mas acidentes repetidos, história inconsistente com o padrão da lesão ou atraso na busca por atendimento devem levantar suspeita de maus-tratos.
Avalie com atenção:
- Lesões múltiplas em diferentes estágios de cicatrização
- Queimaduras simétricas em padrão de luva ou bota, ou com marcas bem delimitadas sugestivas de escaldo por imersão forçada
- Fraturas em crianças que ainda não deambulam ou em idade inadequada para o mecanismo relatado
- Mudança de comportamento da criança ou dos responsáveis durante a consulta
- Atraso entre o evento e a procura por atendimento, desproporcionais à gravidade
O pediatra tem obrigação legal de notificar o Conselho Tutelar e os sistemas de vigilância em violência, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. A notificação é ato médico e não depende de confirmação diagnóstica.
Como realizar a avaliação inicial da criança vítima de queda?
A abordagem inicial segue a sequência preconizada pelo PHTLS e ATLS, adaptada à criança: XABCDE.
Etapas da avaliação inicial no traumatismo cranioencefálico
| Etapa | Ação principal | Particularidade pediátrica |
|---|---|---|
| X | Controle de hemorragia externa grave | Compressão direta; torniquete apenas se inefetivo e com risco de morte |
| A | Vias aéreas com proteção cervical | Crânio proporcionalmente maior; usar prancha com espaço para occipício |
| B | Ventilação e oxigenação | Frequências respiratórias mais elevadas; ausculta bilateral obrigatória |
| C | Circulação e controle de hemorragia | Hipotensão é sinal tardio; usar frequência cardíaca e perfusão periférica como marcadores precoces |
| D | Avaliação neurológica | Escala de coma de Glasgow pediátrica; medir glicemia |
| E | Exposição e prevenção de hipotermia | Criança perde calor rapidamente; aquecer após exposição |
A indicação de tomografia de crânio após queda deve seguir os critérios PECARN, que estratificam o risco de lesão intracraniana clinicamente importante sem exposição desnecessária à radiação.
Leia mais: Traumatismo cranioencefálico: classificação, conduta e complicações
Quais critérios orientam a solicitação de tomografia após traumatismo cranioencefálico leve?
Os critérios PECARN aplicam-se a crianças com traumatismo cranioencefálico leve (Glasgow 14 a 15) e são estratificados por idade.
Crianças menores de 2 anos com traumatismo cranioencefálico leve
| Critério | Conduta |
|---|---|
| Glasgow < 15; alteração do nível de consciência; palpação de fratura de crânio; cefalohematoma não parietal; perda de consciência ≥ 5 segundos; mecanismo grave | Tomografia indicada se presente qualquer critério de alto risco; observação clínica se critérios intermediários |
| Comportamento anormal segundo os pais | Considerar tomografia ou observação conforme contexto clínico |
Crianças com 2 anos ou mais com traumatismo cranioencefálico leve
| Critério | Conduta |
|---|---|
| Glasgow < 15; alteração do nível de consciência; sinal de fratura de base de crânio; vômitos repetidos; perda de consciência; cefaleia intensa; mecanismo grave | Tomografia indicada se presente qualquer critério de alto risco; observação clínica se critérios intermediários |
Mecanismo grave inclui: queda de altura superior a 0,9 metro (menores de 2 anos) ou 1,5 metro (maiores); colisão de veículo automotor com ejeção, morte de ocupante ou capotamento; atropelamento; impacto na cabeça com objeto de alta energia.
Como classificar a profundidade e extensão de uma queimadura?
A avaliação inicial da queimadura define necessidade de encaminhamento a centro especializado, reposição volêmica e risco de complicações. Profundidade, extensão e presença de lesão inalatória devem ser determinadas.
Profundidade da queimadura
| Grau | Acometimento | Aspecto clínico | Sensibilidade |
|---|---|---|---|
| 1º grau | Epiderme | Eritema, sem bolhas | Dolorosa |
| 2º grau superficial | Epiderme e derme papilar | Bolhas, base úmida e rosada | Muito dolorosa |
| 2º grau profunda | Derme reticular | Bolhas rotas, base pálida | Pouco dolorosa |
| 3º grau | Espessura total da pele | Aparência de couro, esbranquiçada ou carbonizada | Indolor |
Estimativa de extensão em superfície corporal queimada
Em crianças, utiliza-se o diagrama de Lund-Browder, que considera variações proporcionais da cabeça e membros ao longo do crescimento. A regra dos nove superestima ou subestima a área queimada em populações pediátricas.
Para estimativa rápida em queimaduras pontuais, a palma da mão da criança representa aproximadamente 1% da superfície corporal total.
Indicações de encaminhamento a centro especializado em queimaduras
- Queimadura de 2º grau com extensão ≥ 10% da superfície corporal
- Queimadura de 3º grau em qualquer extensão
- Queimadura em face, mãos, pés, genitália, períneo ou grandes articulações
- Queimadura elétrica ou química, incluindo lesão por corrente elétrica
- Suspeita de lesão inalatória
- Queimadura em pacientes com doenças pré-existentes ou imunossupressão
- Suspeita de maus-tratos
Como executar o atendimento inicial da criança queimada?
O atendimento inicial segue a lógica do trauma, com adaptações para a fisiologia pediátrica.
Abordagem inicial em 6 passos
- Parar o processo de queimadura: resfriar a área com água corrente em temperatura ambiente por até 20 minutos, nas primeiras 3 horas após o evento. Não usar gelo.
- Avaliar vias aéreas: suspeitar de lesão inalatória se houver queimadura em face, vibrissas nasais chamuscadas, escarro carbonáceo, estridor ou história de exposição em ambiente fechado.
- Reposição volêmica: usar a fórmula de Parkland: 4 mL/kg/% de superfície corporal queimada de Ringer lactato nas primeiras 24 horas, administrando metade nas primeiras 8 horas e a outra metade nas 16 horas seguintes. A reposição é indicada para queimaduras de 2º e 3º grau com extensão ≥ 10% em crianças.
- Analgesia: opioides por via endovenosa são primeira escolha; via intramuscular é contraindicada.
- Cobertura local: limpar com clorexidina degermante e soro fisiológico, romper bolhas já abertas e manter as íntegras; aplicar curativo com sulfadiazina de prata a 1% ou cobertura equivalente conforme protocolo local.
- Prevenção do tétano: atualizar vacinação conforme calendário vigente.
Monitorização durante reposição volêmica
| Parâmetro | Alvo pediátrico |
|---|---|
| Diurese | 1 a 2 mL/kg/h |
| Frequência cardíaca | Dentro do percentil para a idade, com tendência a normalizar |
| Nível de consciência | Alerta e responsivo |
| Perfusão periférica | Enchimento capilar < 2 segundos |
| Temperatura central | Manter aquecimento ativo; criança perde calor rapidamente |
A criança queimada tem risco elevado de hipotermia. O ambiente deve ser aquecido e a exposição limitada ao tempo necessário para avaliação e curativo.
Se aprofunde em: Resumo sobre queimaduras: causas, epidemiologia, classificação e tratamento
Quais são os erros mais comuns no manejo inicial de queimaduras?
| Erro comum | Consequência | Conduta correta |
|---|---|---|
| Aplicar gelo, pasta de dente, manteiga ou outras substâncias | Aumento da lesão térmica e risco de infecção | Água corrente em temperatura ambiente |
| Usar a regra dos nove em crianças | Superestimativa ou subestimativa da área queimada | Diagrama de Lund-Browder |
| Atrasar reposição volêmica aguardando confirmação em centro especializado | Choque hipovolêmico e falha de órgãos | Iniciar Ringer lactato na emergência local |
| Não considerar lesão inalatória em queimadura de face | Obstrução de via aérea com deterioração rápida | Intubação precoce se sinais de comprometimento |
| Liberar a criança sem analgesia adequada | Dor intensa e sofrimento desnecessário | Analgesia endovenosa precoce e sistemática |
| Não notificar suspeita de maus-tratos | Manutenção do ciclo de violência | Notificação obrigatória ao Conselho Tutelar |
Pontos-chave
- Quedas e queimaduras são as principais causas externas de internação infantil no Brasil, com maior impacto em menores de 5 anos.
- A orientação antecipatória deve ser oferecida em toda consulta de puericultura, com medidas específicas por faixa etária e registro sistemático no prontuário.
- A avaliação inicial da criança vítima de queda segue o protocolo XABCDE; os critérios PECARN orientam a decisão sobre tomografia no traumatismo cranioencefálico leve.
- Em queimaduras, a classificação de profundidade e extensão utiliza o diagrama de Lund-Browder, nunca a regra dos nove.
- Queimaduras de 2º grau com extensão ≥ 10%, queimaduras de 3º grau em qualquer extensão, ou localizadas em face, mãos, pés, genitália, períneo ou grandes articulações devem ser referenciadas imediatamente.
- A fórmula de Parkland (4 mL/kg/% SCQ de Ringer lactato) guia reposição volêmica nas primeiras 24 horas; o alvo de diurese em criança é 1 a 2 mL/kg/h.
- Acidentes repetidos, história inconsistente ou lesões compatíveis com maus-tratos exigem notificação compulsória ao Conselho Tutelar.
Referências
- BHERING, L. Quedas e queimaduras são maior causa de internação de crianças. Agência Brasil, 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-08/quedas-e-queimaduras-sao-maior-causa-de-internacao-de-criancas. Acesso em: 20 ago. 2026.
- KUPERMAN, N. et al. Pediatric blunt head trauma: evaluation and diagnostic imaging in children older than two years. UpToDate, 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/pediatric-blunt-head-trauma-evaluation-and-diagnostic-imaging-in-children-older-than-two-years. Acesso em: 20 ago. 2026.
- KUPERMAN, N. et al. Pediatric burns: emergency evaluation and initial care. UpToDate, 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/pediatric-burns-emergency-evaluation-and-initial-care. Acesso em: 20 ago. 2026.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Guia prático de atualização: prevenção de acidentes na infância e adolescência. Rio de Janeiro: SBP, 2022. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23143c-GPA-PrevencaoAcidentesnaInfanciaeAdolescencia.pdf. Acesso em: 20 ago. 2026.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global report on burns. Genebra: WHO, 2018. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241564881. Acesso em: 20 ago. 2026.