Definição
A queimadura é definida como: lesões teciduais que ocorrem pelo contato ou exposição térmica, elétrica ou química. Nesse resumo vamos aprofundar sobre as queimaduras químicas, estas que ocorrem após o contato com agentes ácidos e/ou álcalis – lembrando que há necessidade de cuidados especiais com a região dos olhos e vias respiratórias.
Classificação das Queimaduras
As queimaduras são classificadas quanto: agente causal, profundidade e extensão.
Profundidade da lesão: queimaduras de primeiro grau atingem somente a epiderme, tem hiperemia, dor, e palidez a digitopressão. A queimadura de segundo grau atinge tanto a epiderme quanto a derme; esta tem hiperemia, dor, e palidez a digitopressão e flictenas, que são bolhas. As queimaduras de segundo grau ainda são divididas em superficial (lesiona a derme superficial ou papilar) e profunda (lesiona derme superficial ou papilar e derme profunda). Queimaduras de terceiro grau atinge epiderme, derme e hipoderme e as queimaduras de quarto grau acometem abaixo da hipoderme (fáscias, músculo…).
A classificação por extensão de acometimento é baseada na “Regra dos 9”, a qual divide o corpo em regiões anatômicas que correspondem a 9% da superfície corporal ou a múltiplos de 9. (vide imagem ao lado). É importante lembrar que o cálculo para adultos e crianças são diferentes.
Quadro clínico de Queimaduras Químicas
Antes de apresentar o quadro clínico e seus sinais e sintomas, é necessário ressaltar que as queimaduras por álcalis, tendem a ser mais perigosas que por ácidos, pois os álcalis são capazes de penetrar mais camadas da pele. Queimaduras por agentes ácidos apresentam lesão com necrose de coagulação seca. Por outro lado, queimaduras por agentes álcalis apresentam lesão com necrose úmida devido a liquefação proteica, a qual favorece a maior penetração do agente nocivo nas camadas da pele.
Queimaduras químicas oculares são as mais comuns – queimaduras por agentes químicos – estes agentes causadores tendem a afetar a pálpebra, conjuntiva e córnea.
Sinais e sintomas que podem acompanhar queimaduras químicas: marcas de queimaduras ou flictenas na pele, cefaleia, dor abdominal, dispneia, convulsões, tontura, perda de consciência, olhos vermelhos e/ou lacrimejantes e olhos sensíveis à luz.
Imagem 1: Imagem mostrando uma queimadura química ocular.
Imagem 2: Queimadura química por agente químico ácido.
Tratamento de Queimaduras Químicas
A primeira coisa que deve ser feita é realizar o ATLS, o famoso ABCDE do trauma e logo depois afastar a vítima do agente causador da queimadura. Como estamos tratando de queimaduras químicas, temos que retirar cuidadosamente as roupas do paciente e despejar grandes quantidades de água sobre a ferida, para então lavar e remover todo o excesso de agente químico nas áreas de lesão. Lavamos o local queimado com água limpa corrente por quinze a vinte minutos. É muito importante ressaltar que NÃO devemos nunca tentar neutralizar um álcali com ácido ou vice-versa. Se o agente químico causador for em pó seco, como soda caústica, deve-se removê-lo antes de iniciar a irrigação da lesão. Uma vez terminada a lavagem do local queimado, vamos cobrir com curativo estéril toda a áreas da lesão. Ademais, iremos cobrir o paciente com uma cobertura seca e quente, afim de evitar perda de calor e também, talvez seja o mais importante, verificar presença de queimaduras de vias aéreas superiores por inalação, suspeitamos disto principalmente em pacientes com queimaduras de face.
Fonte: https://blog.dimave.com.br/abcde-do-trauma/
Uma vez que este paciente esteja internado, vamos começar a reposição volêmica, calculada com a fórmula de Parkland. A solução deve ser administrada nas primeiras 24 horas, metade nas primeiras oito horas após o trauma.
O que mais devemos monitorar?
Controle dos sinais vitais, elevação das extremidades queimadas, a fim de reduzir o edema, inserção de acesso venoso, monitorização do balanço hídrico, sondagem vesical, avaliação da temperatura corporal, balanço hídrico, realizar exame físico completo.
Alguns Agentes Químicos e suas Particularidades
Alguns agentes químicos possuem mecanismos de ação, repercussão sistêmica únicas e medidas específicas de tratamento. Abaixo seguem algumas delas.
Ácido Fluorídrico
Mecanismo de ação: liquefação dos tecidos
Repercussão Sistêmica: Causa hipocalemia
Medidas Específicas: utilizar gluconato de cálcio local, subcutâneo e/ou via endovenosa.
Fósforo Branco
Mecanismo de ação: combustão espontâneo em contato com o ar.
Repercussão Sistêmica: Causa hipocalemia
Medidas Específicas: remover imediatamente o agente causador, e utilizar sulfato de cobre ou a Lâmpada de Wood para auxiliar na identificação de partículas.
Fenol
Mecanismo de ação: rápida absorção cutânea e pulmonar.
Repercussão Sistêmica: disfunção cardíaca de sistema nervoso central.
Medidas Específicas: primeiramente realizar neutralização com álcool etílico a 30%, ou polietilenoglicol ou glicerol e logo após iniciar a irrigação da queimadura.
Sulfeto de Hidrogênio
Mecanismo de ação: irritação direta nas mucosas e no trato respiratório, causando toxicidade para o sistema nervoso central.
Repercussão Sistêmica: Depressão do sistema nervoso central.
Medidas Específicas: Providenciar suporte respiratório e neurológico e ainda considerar o uso de hidroxicobalamina.
Autor(a) : Maria Isabel Duque Estrada – @MIDE.MED
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
https://grandequeimado.com.br/queimadura-quimica/
https://pt.slideshare.net/aretusad/queimaduras-31409195
https://www.suprevida.com.br/blog/queimaduras-quimicas:-cuidados-e-primeiros-socorros