Poucos quadros desafiam tanto o médico do esporte quanto a dor inguinal e do quadril no atleta. A região concentra estruturas anatômicas próximas — articulação coxofemoral, sínfise púbica, tendões adutores e flexores, parede abdominal inferior, complexo iliopsoas — e a sobreposição clínica entre elas é a regra, não a exceção. Não é incomum o atleta chegar com mais de uma fonte de dor simultaneamente, o que torna o diagnóstico um exercício de raciocínio integrado.
A proposta aqui é organizar a abordagem de forma prática, alinhada com o consenso de Doha e com a literatura mais recente sobre dor inguinal no atleta — e apontar as armadilhas que vejo se repetirem no consultório.
A terminologia importa: o consenso de Doha
Por décadas, dor inguinal no atleta foi tratada como sinônimo de “púbica”, “hérnia do esportista” ou “pubalgia” — termos imprecisos que misturavam topografia, mecanismo e estrutura envolvida. O consenso de Doha, publicado em 2015, organizou a discussão ao propor cinco entidades clínicas que cobrem a maior parte dos casos.
- Dor inguinal relacionada aos adutores
- Dor inguinal relacionada ao iliopsoas
- Dor inguinal relacionada à parede abdominal inferior (inguinal)
- Dor inguinal relacionada ao púbis
- Dor relacionada ao quadril (intra-articular)
Adotar essa terminologia em laudo, prontuário e comunicação com a equipe técnica reduz ruído e melhora decisão clínica. Continuar usando “pubalgia” como rótulo guarda-chuva mantém o problema invisível — o que é tratado como pubalgia muitas vezes não tem sequer envolvimento púbico.
Avaliação clínica: o que separa cada entidade
A anamnese precisa caracterizar mecanismo (sprint, mudança de direção, chute, gesto repetitivo), localização exata da dor, irradiação, tempo de evolução e relação com gestos esportivos específicos. Dor que piora com chute e mudança de direção sugere envolvimento adutor ou da parede abdominal. Dor inguinal profunda, com piora à flexão de quadril com resistência, aponta para iliopsoas ou para causa intra-articular.
O exame físico estruturado costuma diferenciar boa parte dos casos:
- Adutores: dor à palpação da inserção, dor ao squeeze test (adução resistida), perda de força em adução
- Iliopsoas: dor à flexão resistida de quadril, dor ao alongamento (Thomas test modificado)
- Parede abdominal inferior: dor à contração resistida do reto abdominal, dor à palpação do anel inguinal externo
- Púbis: dor à palpação direta da sínfise, dor bilateral em adutores como achado associado
- Intra-articular (quadril): teste FADIR e FABER positivos, dor inguinal profunda, perda de amplitude em flexão e rotação interna
Vale lembrar que múltiplas entidades coexistem com frequência, sobretudo em atletas com sintomas crônicos. O exame físico raramente “fecha” um único diagnóstico; ele aponta a entidade dominante e os componentes secundários. Reconhecer essa hierarquia muda a estratégia: tratar apenas o componente óbvio, ignorando o secundário, é uma das razões mais comuns de recidiva precoce após retorno ao esporte.
Quando pensar em causa intra-articular
A dor intra-articular do quadril merece atenção específica, principalmente em atletas jovens ativos. O impacto femoroacetabular (FAI) e as lesões labrais associadas são causas frequentes de dor inguinal profunda, com perda de amplitude articular e bloqueio mecânico em alguns casos.
Os critérios diagnósticos do consenso de Warwick para FAI sintomático combinam três pilares: sintomas (dor, restrição funcional), achados clínicos (dor à provocação, restrição de amplitude) e achados de imagem (alteração morfológica em cam, pincer ou mista). A presença isolada de morfologia em imagem, sem sintomas, não justifica diagnóstico — e isso é importante: imagens “alteradas” são frequentes em atletas assintomáticos, e tratar a imagem em vez do paciente é erro recorrente.
Imagem: indicações racionais
A radiografia simples segue sendo o exame inicial para avaliação de morfologia óssea, alinhamento e descarte de causas estruturais grosseiras. A ressonância magnética é o exame de escolha para avaliação de partes moles, lesões labrais (idealmente com artrorressonância), edema ósseo púbico e envolvimento de adutores e iliopsoas. A ultrassonografia tem papel relevante na avaliação dinâmica de hérnias inguinais e no acompanhamento de tendinopatias.
Pedir ressonância de quadril em todo paciente com dor inguinal não é estratégia razoável. A imagem deve ser solicitada para confirmar suspeita clínica específica, não como pesca diagnóstica. Achados incidentais — labrum heterogêneo, leve edema púbico, pequenas alterações morfológicas — são comuns em assintomáticos e podem desviar o raciocínio. Uma boa pergunta a se fazer antes de pedir o exame: o que vou mudar na conduta com cada possível resultado?
Diagnósticos diferenciais que não podem escapar
Algumas condições precisam ser ativamente afastadas pela morbidade associada se não reconhecidas:
- Fratura por estresse de colo femoral, especialmente em corredoras com REDs ou perda menstrual
- Necrose avascular da cabeça femoral, em pacientes com fatores de risco (corticoide, doenças hematológicas)
- Causas urogenitais e ginecológicas, frequentemente esquecidas em mulheres atletas
- Causas inflamatórias sistêmicas (espondiloartrites), com dor inguinal como apresentação inicial
- Bursite trocantérica e síndrome do glúteo médio, na dor lateral mais que medial
Em atleta mulher com dor inguinal, perda menstrual e treino de alto volume, a fratura por estresse precisa ser considerada precocemente — o atraso diagnóstico nessa população tem custo elevado.
Princípios de manejo: por entidade, não por rótulo
O tratamento depende da entidade dominante. Lesão de adutores responde bem a programa de fortalecimento progressivo, com ênfase em exercícios excêntricos (Copenhagen adduction protocol é a referência mais robusta). Tendinopatia do iliopsoas se beneficia de carga progressiva e correção de fatores biomecânicos. Dor relacionada ao púbis demanda manejo de carga, controle de inflamação e fortalecimento de cadeia anterior e posterior.
A causa intra-articular tem manejo escalonado: reabilitação inicial com foco em controle motor e força, infiltração diagnóstica e terapêutica em casos selecionados, e indicação cirúrgica quando há falha de tratamento conservador adequado em FAI sintomático com lesão labral. A decisão cirúrgica precisa ser bem fundamentada — operar imagem alterada sem correlação clínica é receita para insatisfação.
A dor da parede abdominal inferior, por sua vez, frequentemente exige avaliação cirúrgica especializada quando há falha do tratamento conservador, com técnicas que vão desde reparo aberto até abordagens laparoscópicas. A decisão é multidisciplinar.
Conclusão prática
A dor inguinal no atleta é, antes de tudo, um exercício de precisão diagnóstica. O esforço de classificar cada caso dentro das entidades de Doha — em vez de apelar para rótulos amplos — paga dividendos no manejo e na conversa com a equipe técnica.
Três princípios que costumo reforçar: examinar antes de pedir imagem, e não o contrário; respeitar a frequência com que entidades coexistem, sem forçar diagnóstico único; e nunca tratar imagem alterada em paciente assintomático ou com sintomas que não se correlacionam com o achado. A morfologia em imagem é informação — não é diagnóstico.
Por fim, vale lembrar que a maioria desses quadros responde bem ao tratamento conservador estruturado, com retorno ao esporte em prazos razoáveis quando o diagnóstico é preciso e o manejo, individualizado. A pressa diagnóstica costuma cobrar caro — em afastamento prolongado, em recidiva e em decisões cirúrgicas que poderiam ter sido evitadas.
Referências
- Weir A, et al. Doha agreement meeting on terminology and definitions in groin pain in athletes. Br J Sports Med. 2015;49(12):768-774.
- Griffin DR, et al. The Warwick Agreement on femoroacetabular impingement syndrome (FAI syndrome): an international consensus statement. Br J Sports Med. 2016;50(19):1169-1176.
- Serner A, et al. Diagnosis of acute groin injuries: a prospective study of 110 athletes. Am J Sports Med. 2015;43(8):1857-1864.
- Hölmich P, et al. Effectiveness of active physical training as treatment for long-standing adductor-related groin pain in athletes: randomised trial. Lancet. 1999;353(9151):439-443.