A holoprosencefalia alobar corresponde à forma mais grave do espectro das holoprosencefalias, um grupo de malformações congênitas decorrentes da falha de divisão do prosencéfalo embrionário em dois hemisférios cerebrais. Essa alteração ocorre em uma fase muito precoce da embriogênese, geralmente nas primeiras semanas de desenvolvimento, quando o cérebro anterior deveria se separar em estruturas telencefálicas e diencefálicas bilaterais. Portanto, quando esse processo falha de maneira extensa, o feto desenvolve uma organização cerebral profundamente alterada, com ausência de separação hemisférica, fusão de estruturas da linha média e formação de uma cavidade ventricular única.
Além disso, a holoprosencefalia alobar não representa apenas uma alteração anatômica cerebral. Pelo contrário, ela expressa uma perturbação global do desenvolvimento da linha média craniofacial. Por esse motivo, muitos fetos apresentam malformações faciais associadas, que podem variar desde hipotelorismo, fenda labial mediana e alterações nasais até manifestações mais graves, como ciclopia, probóscide e ausência de estruturas faciais medianas. Dessa forma, o reconhecimento da relação entre cérebro e face tem grande valor clínico, sobretudo no diagnóstico pré-natal, já que as alterações faciais podem funcionar como pistas importantes para a investigação detalhada do encéfalo fetal.
Classificação da holoprosencefalia
Do ponto de vista classificatório, a holoprosencefalia pode se apresentar em diferentes graus de gravidade. A forma alobar ocupa o extremo mais severo, seguida pelas formas semilobar e lobar, que preservam algum grau de separação hemisférica.
Assim, enquanto a forma lobar pode apresentar fissura inter-hemisférica parcialmente formada e ventrículos laterais mais individualizados, a forma alobar demonstra uma falha quase completa da clivagem prosencefálica. Consequentemente, o exame de imagem costuma revelar um cérebro anterior único, sem divisão hemisférica adequada, com tálamos fusionados e ausência de estruturas medianas normalmente esperadas.
O que é a holoprosencefalia alobar?
A holoprosencefalia alobar é uma malformação estrutural grave do sistema nervoso central caracterizada pela ausência de separação do prosencéfalo em hemisférios cerebrais direito e esquerdo. Em condições normais, o prosencéfalo embrionário sofre um processo coordenado de segmentação, crescimento e clivagem, o que permite a formação dos hemisférios cerebrais, ventrículos laterais, estruturas da linha média, corpo caloso, septo pelúcido, bulbos olfatórios, tratos olfatórios, hipotálamo e hipófise. Entretanto, na holoprosencefalia alobar, esse processo não ocorre adequadamente. Como resultado, o cérebro anterior permanece em grande parte não dividido.
Achados anatômicos
Na prática, essa falha se traduz em achados anatômicos característicos. Em primeiro lugar, observa-se ausência da fissura inter-hemisférica anterior e da foice cerebral. Além disso, os ventrículos laterais não se separam e dão lugar a uma cavidade ventricular única, geralmente ampla, chamada de monoventrículo. Ainda, os tálamos costumam permanecer fusionados, o corpo caloso não se forma e o septo pelúcido está ausente.
Em muitos casos, também se identifica um cisto dorsal, que se comunica com o sistema ventricular e amplia ainda mais a distorção da anatomia intracraniana.
Anomalias craniofaciais
Além das alterações encefálicas, a holoprosencefalia alobar frequentemente se associa a anomalias craniofaciais. Essa associação ocorre porque o desenvolvimento da face média e do prosencéfalo depende de mecanismos embrionários compartilhados, especialmente relacionados à formação e à sinalização da linha média. Por isso, quanto mais grave a alteração cerebral, maior tende a ser a gravidade das manifestações faciais. No entanto, essa correlação não é absoluta. Assim, embora muitos fetos com forma alobar apresentem dismorfismos importantes, alguns podem exibir alterações faciais menos exuberantes, o que reforça a necessidade de avaliação sistemática do sistema nervoso central durante a ultrassonografia obstétrica.
Entre as alterações faciais possíveis, destacam-se:
- Hipotelorismo
- Fenda labial mediana
- Nariz único
- Narina única
- Agenesia nasal
- Probóscide
- E ciclopia.
Além disso, podem ocorrer microcefalia, alterações orbitárias, fendas craniofaciais e outras anomalias de linha média. Em um contexto clínico, esses achados devem aumentar imediatamente a suspeita de holoprosencefalia e direcionar o médico para uma avaliação neurosonográfica detalhada. Portanto, a presença de alterações faciais medianas no primeiro ou no segundo trimestre exige investigação minuciosa do encéfalo fetal, principalmente da fissura inter-hemisférica, dos ventrículos, do tálamo, do corpo caloso e do septo pelúcido.

Causas e fatores associados
A etiologia da holoprosencefalia alobar é heterogênea. Em muitos casos, a condição resulta da interação entre fatores genéticos, cromossômicos, ambientais e maternos. Dessa maneira, o diagnóstico não deve se limitar à descrição anatômica da malformação. Pelo contrário, ele deve estimular uma investigação etiológica cuidadosa, especialmente porque a causa influencia o aconselhamento genético, o risco de recorrência e a conduta obstétrica.
Causas cromossômicas
Entre as causas cromossômicas, a trissomia 13 representa uma das associações mais clássicas. Além dela, outras alterações cromossômicas também podem ocorrer, embora com menor frequência. Por esse motivo, quando o exame pré-natal identifica holoprosencefalia alobar, especialmente se houver malformações extracranianas associadas, deve-se considerar fortemente a investigação genética fetal.
Além disso, a presença de restrição de crescimento, cardiopatias congênitas, polidactilia, anomalias renais ou outras alterações sistêmicas aumenta a probabilidade de uma síndrome cromossômica ou genética subjacente.
Causas monogênicas
No campo das causas monogênicas, alterações em genes envolvidos na sinalização da linha média embrionária têm papel importante. Entre eles, destacam-se genes relacionados à via Sonic Hedgehog, que participa diretamente da padronização ventral do prosencéfalo e da formação de estruturas medianas da face. Assim, variantes patogênicas em genes como SHH e outros genes associados ao desenvolvimento craniofacial podem levar a diferentes graus de holoprosencefalia. Entretanto, a expressão clínica pode variar amplamente, inclusive dentro da mesma família. Por isso, alguns familiares podem apresentar apenas microformas, como incisivo central único, hipotelorismo leve ou alterações discretas de linha média, enquanto o feto pode apresentar uma forma grave, como a alobar.
Condições maternas
Além dos fatores genéticos, condições maternas também se associam ao risco aumentado de holoprosencefalia. O diabetes mellitus pré-gestacional, especialmente quando mal controlado no período periconcepcional, constitui um fator de risco relevante para malformações congênitas, incluindo defeitos do sistema nervoso central. Dessa forma, a hiperglicemia nas primeiras semanas de gestação pode interferir em processos críticos da organogênese.
Consequentemente, em casos de holoprosencefalia fetal, a história materna deve incluir investigação sobre diabetes prévio, controle glicêmico, uso de medicamentos, exposição a teratógenos e antecedentes obstétricos.
Exposições ambientais e medicamentosas
Exposições ambientais e medicamentosas também podem contribuir em alguns casos. Embora nem sempre se identifique um agente causal específico, a avaliação clínica deve considerar uso de substâncias potencialmente teratogênicas, consumo de álcool, exposição a retinoides, infecções e outras condições capazes de interferir na embriogênese precoce. Ainda assim, em uma parcela significativa dos casos, a etiologia permanece indefinida mesmo após investigação. Portanto, a ausência de uma causa identificável não exclui risco genético, tampouco elimina a necessidade de aconselhamento especializado.
Além disso, a holoprosencefalia pode ocorrer de forma isolada ou associada a síndromes complexas. Quando aparece isoladamente, o feto pode apresentar predominantemente alterações cerebrais e faciais. Por outro lado, quando integra um quadro sindrômico, podem surgir anomalias cardíacas, renais, esqueléticas, gastrointestinais e de membros. Assim, a avaliação fetal deve ser completa, com exame anatômico detalhado, ecocardiografia fetal quando indicada e discussão multidisciplinar envolvendo medicina fetal, genética médica, neonatologia e, em alguns contextos, neurologia pediátrica e neurocirurgia.
Diagnóstico da holoprosencefalia alobar
O diagnóstico da holoprosencefalia alobar ocorre, na maioria das vezes, por meio da ultrassonografia pré-natal. Como a alteração se estabelece muito cedo na embriogênese, sinais sugestivos podem aparecer ainda no primeiro trimestre, especialmente em exames realizados por profissionais experientes e com equipamentos adequados.
Entretanto, a confirmação e a caracterização anatômica costumam ganhar maior precisão no segundo trimestre, durante a avaliação morfológica fetal.
Ultrassonografia
Na ultrassonografia, os achados mais importantes incluem ausência de separação dos hemisférios cerebrais, ausência da fissura inter-hemisférica, ausência da foice cerebral, presença de cavidade ventricular única, fusão dos tálamos e ausência do septo pelúcido.
Além disso, o examinador pode identificar cisto dorsal, microcefalia, alterações faciais medianas e outras malformações associadas. Portanto, diante de qualquer suspeita de alteração da linha média, o médico deve ampliar a avaliação para planos neurosonográficos específicos, incluindo:
- Cortes axial
- Coronal e sagital, sempre que possível.
O plano axial transventricular, por exemplo, pode demonstrar a ausência da anatomia ventricular habitual. Em vez de dois ventrículos laterais separados, observa-se uma cavidade única central. Além disso, o plano transtalar pode evidenciar fusão talâmica, um achado bastante sugestivo da forma alobar. Já os cortes coronais e sagitais ajudam a avaliar a ausência da foice, do corpo caloso e de outras estruturas medianas. Dessa forma, a neurosonografia fetal detalhada contribui não apenas para confirmar o diagnóstico, mas também para diferenciar a forma alobar de outras formas de holoprosencefalia e de malformações que podem simular alterações ventriculares.
A avaliação da face fetal também tem papel decisivo. Como a holoprosencefalia alobar frequentemente se associa a alterações da linha média facial, o exame deve incluir órbitas, distância interorbital, nariz, lábio superior, palato e perfil fetal. Assim, hipotelorismo importante, fenda labial mediana, probóscide ou ciclopia reforçam a suspeita diagnóstica. Além disso, a presença dessas alterações pode indicar maior gravidade do distúrbio de desenvolvimento. No entanto, o médico não deve depender exclusivamente dos achados faciais para suspeitar da condição, já que algumas apresentações podem mostrar face relativamente preservada em comparação com a gravidade cerebral.
Ressonância magnética
A ressonância magnética fetal pode complementar a ultrassonografia em casos selecionados. Embora a ultrassonografia continue sendo o principal método de rastreamento e diagnóstico inicial, a ressonância pode detalhar melhor a anatomia cerebral, especialmente quando a posição fetal, a idade gestacional, o biotipo materno ou a presença de oligodrâmnio limitam a avaliação ultrassonográfica. Além disso, a ressonância pode auxiliar na diferenciação entre os subtipos de holoprosencefalia e na identificação de alterações associadas do parênquima cerebral. Ainda assim, a indicação deve considerar disponibilidade, idade gestacional, impacto clínico da informação adicional e planejamento do aconselhamento familiar.
Após a suspeita ou confirmação por imagem, a investigação etiológica assume grande importância. O médico deve oferecer avaliação genética, especialmente por meio de cariótipo fetal, microarray cromossômico ou testes moleculares, conforme disponibilidade, contexto clínico e aconselhamento especializado. Além disso, quando houver história familiar sugestiva, recorrência de malformações de linha média ou achados discretos em familiares, a investigação pode incluir painéis genéticos direcionados. Dessa maneira, a equipe consegue estimar melhor o risco de recorrência e orientar futuras gestações.
Diagnóstico diferencial
O diagnóstico diferencial inclui outras malformações cerebrais graves, como hidrocefalia severa, hidranencefalia, esquizencefalia extensa, malformações da linha média e algumas formas complexas de ventriculomegalia. Entretanto, a presença de monoventrículo, fusão talâmica e ausência de fissura inter-hemisférica favorece fortemente a holoprosencefalia alobar.
Além disso, as alterações faciais medianas, quando presentes, aumentam ainda mais a especificidade da suspeita. Portanto, a análise integrada entre encéfalo, face e demais sistemas fetais evita erros diagnósticos e melhora a qualidade do aconselhamento.
Importância clínica do diagnóstico
A holoprosencefalia alobar apresenta prognóstico reservado. Em geral, a gravidade anatômica se associa a alta mortalidade fetal ou neonatal, além de importante comprometimento neurológico nos casos que evoluem com sobrevida. Portanto, o diagnóstico pré-natal tem papel central no planejamento obstétrico, no aconselhamento familiar e na organização da assistência neonatal. Além disso, ele permite discutir de forma clara a extensão das alterações, as possibilidades de investigação complementar, os riscos associados e os cenários clínicos prováveis.
A abordagem deve ocorrer de maneira multidisciplinar. O médico fetalista ou obstetra deve integrar os achados de imagem, solicitar investigação complementar quando indicada e encaminhar a família para aconselhamento genético. Além disso, neonatologia, neurologia pediátrica, cuidados paliativos perinatais e psicologia podem participar do cuidado, especialmente quando a gestação segue em acompanhamento até o parto. Dessa forma, a equipe oferece uma condução mais organizada, transparente e alinhada às necessidades clínicas e emocionais da família.
Por fim, a holoprosencefalia alobar exige atenção especial porque reúne três dimensões diagnósticas fundamentais: a malformação cerebral grave, as alterações craniofaciais de linha média e a possibilidade de uma causa genética ou sindrômica subjacente. Assim, o médico que reconhece os principais achados ultrassonográficos, compreende as causas associadas e conduz a investigação de maneira sistemática contribui para um diagnóstico mais preciso e para um aconselhamento mais adequado. Em síntese, a identificação da forma alobar deve levar a uma avaliação fetal completa, investigação etiológica direcionada e discussão multidisciplinar cuidadosa, já que essa condição representa uma das expressões mais severas dos distúrbios precoces do desenvolvimento prosencefálico.
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Referência
- UPTODATE. Overview of craniofacial clefts and holoprosencephaly. Waltham, MA: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/overview-of-craniofacial-clefts-and-holoprosencephaly?search=Holoprosencefalia%20alobar&source=search_result&selectedTitle=1~32&usage_type=default&display_rank=1&searchCorrelationId=d0949ab6-cd5d-4a54-a5fe-765305ffb4c2&searchCorrelationTerm=Holoprosencefalia%20alobar. Acesso em: 18 maio 2026.
