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Qual o cenário atual da mortalidade materna no Brasil?

Gestante segurando a barriga próxima à janela, representando a importância do acompanhamento pré-natal na prevenção da mortalidade materna.

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A Razão de Mortalidade Materna (RMM) brasileira é de aproximadamente 107,4 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2024, valor significativamente superior à meta da Organização Mundial da Saúde (OMS < 70) e aos objetivos do Plano Nacional de Redução da Mortalidade Materna. Cerca de 80% dos óbitos maternos resultam de causas diretas e evitáveis, com destaque para hipertensão gestacional, hemorragia pós-parto e sepse puerperal.

As causas diretas principais incluem:

  • Hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia (aproximadamente 25%);
  • Hemorragia pós-parto (aproximadamente 20%);
  • Sepse e infecções puerperais (aproximadamente 12%).

A distribuição geográfica é heterogênea: a região Norte registra as maiores taxas. Dados epidemiológicos apontam que a mortalidade materna entre mulheres indígenas é 3,3 vezes maior que a média nacional, com apenas 62% dessas gestantes realizando seis ou mais consultas de pré-natal em comparação com 82% da população geral.

Como diagnosticar e manejar a pré-eclâmpsia?

A pré-eclâmpsia é uma síndrome específica da gestação caracterizada pelo surgimento de hipertensão arterial após 20 semanas de idade gestacional associada a proteinúria ou disfunção de órgão-alvo. O diagnóstico baseia-se em critérios clínicos e laboratoriais bem definidos.

Critérios diagnósticos de pré-eclâmpsia

ParâmetroCritério de diagnóstico
Pressão arterialPA sistólica ≥ 140 mmHg e/ou PA diastólica ≥ 90 mmHg
Proteinúria≥ 300 mg em 24 horas ou relação proteína/creatinina ≥ 0,3
Disfunção de órgão-alvoPlaquetas 1,1 mg/dL; elevação de transaminases 2 vezes o limite superior

Estratégia de rastreio na atenção primária

O rastreio adequado da pré-eclâmpsia reduz a progressão para formas graves e a eclâmpsia. A rotina recomendada compreende:

  1. Aferição de PA em todas as consultas pré-natais com técnica padronizada: gestante sentada, braço ao nível do coração, manguito adequado ao perímetro braquial, repouso prévio de 5 minutos.
  2. Coleta de proteinúria em amostra isolada ou urina de 24 horas na primeira consulta; repetição após 20 semanas em gestantes com fatores de risco.
  3. Solicitação de USG com Doppler das artérias uterinas entre 20 e 24 semanas para gestantes de alto risco, melhorando a predição de pré-eclâmpsia precoce.

Prevenção de pré-eclâmpsia em alto risco

Gestantes com risco elevado devem receber intervenção farmacológica preventiva. Assim, a aspirina em baixa dose (100 a 150 mg uma vez ao dia) a partir de 12 semanas de gestação reduz significativamente a incidência de pré-eclâmpsia, eclâmpsia e morte materna em populações de alto risco, particularmente naquelas com:

  • História prévia de pré-eclâmpsia ou eclâmpsia;
  • Obesidade (IMC ≥ 35 kg/m²);
  • Diabetes mellitus pré-gestacional;
  • Doença autoimune ou antifosfolípides;
  • Hipertensão arterial crônica;
  • Idade materna > 40 anos.

Tratamento de emergência da pré-eclâmpsia grave

O reconhecimento precoce e o manejo imediato reduzem o risco de morte materna por mais de 50%.

Sulfato de magnésio:

  • Dose de ataque: 4 a 6 g IV em 15 a 20 minutos;
  • Dose de manutenção: 1 a 2 g/hora IV por 24 horas;
  • Reduz o risco de eclâmpsia em aproximadamente 50% conforme o MAGPIE Trial.

Antihipertensivos de primeira linha:

  • Labetalol: 20 mg IV inicial, incrementos de 20 a 40 mg a cada 10 minutos até máximo de 300 mg;
  • Nifedipino de liberação imediata: 10 mg por via oral, repetindo a cada 30 minutos conforme necessário;
  • Meta de pressão arterial: manutenção em < 160/110 mmHg para evitar acidentes vasculares cerebrais maternos.

Como reconhecer e tratar a hemorragia pós-parto?

A hemorragia pós-parto (HPP) é a complicação obstétrica aguda mais frequente e principal causa de morte materna evitável. Define-se como perda sanguínea ≥ 500 mL no parto vaginal ou ≥ 1000 mL na cesariana, ou qualquer volume que resulte em instabilidade hemodinâmica, taquicardia ou hipotensão.

Etiologia: regra dos 4 Ts

CausaFrequência aproximadaConduta inicial
Tônus (atonia uterina)70%Massagem uterina bimanual contínua; ocitocina 10 UI IM ou 10 UI em 20 mL de SF 0,9% IV lenta
Trauma (lacerações genital e canal parto)20%Revisão cuidadosa do canal parto sob visualização; sutura de lacerações identificadas
Tecido (retenção placentária)6%Remoção manual da placenta sob anestesia; se falha, curetagem uterina
Trombina (coagulopatia)4%Avaliação imediata de coagulograma; transfusão de hemoderivados conforme protocolo institucional

Algoritmo farmacológico escalonado

A resposta clínica determina a progressão terapêutica. Cada degrau deve ser iniciado em paralelo com medidas não farmacológicas.

  1. Ocitocina: 10 UI IM ou 10 UI IV diluído em solução salina 0,9% infundido lentamente, seguido de infusão contínua de 20 a 40 UI em 500 mL a 60 gotas por minuto.
  2. Metilergometrina: 0,2 mg IM; contraindicada em hipertensão arterial grave ou suspeita de vasoespasmo.
  3. Misoprostol: 800 a 1000 mcg por via retal, podendo ser associado aos anteriores para potencialização do efeito.
  4. Ácido tranexâmico: 1 g IV; quando iniciado nas primeiras 3 horas após início da hemorragia, reduz a mortalidade por hemorragia em aproximadamente 30% conforme o estudo WOMAN Trial.

Manejo da falha farmacológica

Caso a hemorragia persista apesar das medidas farmacológicas, procedimentos hemostáticos mecânicos devem ser realizados:

  • Tamponamento intrauterino com balão de Bakri ou sonda de Foley modificada;
  • Sutura compressiva tipo B-Lynch ou variantes;
  • Ligadura das artérias hipogástricas;
  • Histerectomia perimortem como último recurso.

Todos os profissionais que assistem partos devem reconhecer sinais de choque (hipotensão persistente, taquicardia > 120 bpm, palidez, oligúria) e transferir imediatamente para unidade de alto risco se disponível.

Como identificar e tratar a sepse puerperal?

A sepse puerperal é infecção bacteriana que ocorre no período pós-parto imediato ou até 42 dias após o parto. Os agentes causais incluem estreptococo do grupo B, Escherichia coli, Clostridium perfringens, Staphylococcus aureus e anaeróbios.

O diagnóstico precoce com critérios qSOFA ou SOFA, coleta de hemoculturas e início de antibioticoterapia empírica nas primeiras 6 horas reduz significativamente a mortalidade.

Antibioticoterapia empírica de primeira linha:

  • Ceftriaxona 2 g IV a cada 12 horas + metronidazol 500 mg IV a cada 6 horas;
  • Ou piperacilina-tazobactam 4,5 g IV a cada 6 horas.

Qual a estratégia de otimização do pré-natal para reduzir mortes?

A estratificação de risco gestacional deve ser realizada na primeira consulta pré-natal com reavaliação trimestral. Esse processo permite identificar gestantes que necessitam de seguimento em serviço especializado de pré-natal de alto risco.

Critérios de classificação de risco

Alto risco gestacional:

  • Idade < 15 anos ou ≥ 40 anos;
  • História prévia de pré-eclâmpsia, eclâmpsia ou síndrome HELLP;
  • Diabetes mellitus pré-gestacional ou em uso de insulina;
  • Obesidade com IMC ≥ 35 kg/m²;
  • Hipertensão arterial crônica;
  • Gestação múltipla (gemelaridade ou multiparidade);
  • Condições socioeconômicas desfavoráveis ou vulnerabilidade social;
  • Doença renal crônica ou autoimune;
  • Antecedentes de tromboembolismo venoso.

Gestantes classificadas como alto risco devem ser referenciadas ao pré-natal de alto risco e ter acesso a exames complementares estruturados, incluindo USG com Doppler das artérias uterinas entre 20 e 24 semanas para melhoria da predição de pré-eclâmpsia precoce.

Elementos essenciais do pré-natal qualificado

  1. Primeira consulta idealmente antes de 12 semanas: história clínica completa, exame físico, aferição inicial de PA e coleta de proteinúria.
  2. Consultas mensais até 28 semanas, quinzenais até 36 semanas e semanais após 36 semanas.
  3. Investigação de fatores de risco em cada trimestre para ajuste de condutas preventivas.
  4. Educação sobre sinais de alerta: edema de face ou mãos, cefaleia occipital, escotomas visuais, dor epigástrica, sangramento vaginal, perda de líquido amniótico.

Quais os desafios específicos na atenção a gestantes indígenas?

Gestantes indígenas enfrentam múltiplas barreiras que prolongam a demora no acesso ao pré-natal qualificado e ao parto em ambiente hospitalar seguro. As barreiras incluem:

  • Distância geográfica de centros de saúde e maternidades;
  • Dificuldades linguísticas e barreiras culturais;
  • Baixa cobertura de pré-natal (apenas 62% realizam seis ou mais consultas);
  • Preferência por parto assistido por parteira tradicional sem acesso a recursos de emergência;
  • Acesso limitado a exames complementares e medicações essenciais;
  • Menor renda per capita e condições habitacionais precárias.

Estratégias recomendadas pelo Ministério da Saúde (2025)

O Guia de Atenção Integral à Saúde das Gestantes Indígenas recomenda:

  1. Constituição de equipes multidisciplinares itinerantes para áreas remotas, incluindo obstétrica, enfermagem e agentes comunitários indígenas.
  2. Capacitação de parteiras tradicionais em identificação e manejo de emergências obstétricas como hemorragia pós-parto e pré-eclâmpsia grave.
  3. Estruturação de Casas de Apoio à Gestante (alojamento seguro nas proximidades de maternidades para gestantes referenciadas).
  4. Organização de transporte sanitário para urgências obstétricas, com comunicação clara e protocolada.
  5. Respeito às práticas culturais compatíveis com segurança clínica, como presença de acompanhante indígena durante trabalho de parto.
  6. Tradução ou facilitação linguística em todas as fases da assistência.

A mortalidade materna em população indígena é 3,3 vezes superior à média nacional, tornando essas estratégias prioritárias para redução de iniquidades em saúde materna.

Pontos-chave

  • A RMM brasileira de 107,4 por 100 mil nascidos vivos está acima da meta da OMS (< 70) e dos objetivos do Plano Nacional; 80% dos óbitos são decorrentes de causas diretas e evitáveis.
  • Hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia representam aproximadamente 25% das mortes maternas diretas; rastreio pressórico em todas as consultas e proteinúria após 20 semanas são mandatórios.
  • Sulfato de magnésio é a intervenção mais eficaz na prevenção da eclâmpsia em gestantes com pré-eclâmpsia grave, reduzindo o risco em 50%.
  • Na hemorragia pós-parto, ocitocina IM imediata associada a massagem uterina bimanual contínua são medidas de primeira linha que todo profissional que assiste partos deve conhecer e executar.
  • Ácido tranexâmico iniciado nas primeiras 3 horas de hemorragia pós-parto reduz a mortalidade em aproximadamente 30% conforme evidências do WOMAN Trial.
  • Demora no reconhecimento de sinais de choque obstétrico (hipotensão, taquicardia > 120 bpm, oligúria) e atraso na transferência para unidade de alto risco são os principais fatores contribuintes para óbitos por hemorragia.
  • Gestantes indígenas apresentam mortalidade materna 3,3 vezes superior à população geral; estratégias de equipes itinerantes, capacitação de parteiras tradicionais e acesso assegurado ao parto hospitalar são essenciais.
  • Implementação de protocolos institucionais padronizados para pré-eclâmpsia e hemorragia obstétrica reduz a mortalidade materna em até 40% em serviços que os adotam.

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Referências bibliográficas

  • FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA. Manual de Assistência Pré-Natal. São Paulo: FEBRASGO, 2024. Acesso em: 28 maio 2025.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Atenção Integral à Saúde das Gestantes Indígenas. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Acesso em: 28 maio 2025.
  • ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Mortalidade materna na Região das Américas: situação atual e recomendações. Washington: OPAS, 2023. Acesso em: 28 maio 2025.

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