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Psicoses: o que são, principais sintomas e tratamento

Homem cobre o rosto com as mãos em imagem ilustrativa sobre psicoses

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O termo psicose descreve uma síndrome clínica na qual a pessoa perde, em algum grau, a capacidade de avaliar a realidade. Em vez de indicar um diagnóstico único, o termo reúne manifestações que podem surgir em transtornos psiquiátricos, doenças neurológicas, condições clínicas, intoxicações ou síndromes de abstinência. Portanto, reconhecer uma síndrome psicótica representa apenas o início da investigação.

Em geral, o quadro envolve delírios, alucinações, pensamento desorganizado, comportamento motor muito desorganizado ou anormal e sintomas negativos. Contudo, cada paciente apresenta uma combinação própria dessas alterações. Além disso, a intensidade, a duração, o nível de consciência e o impacto funcional ajudam o médico a definir as hipóteses diagnósticas.

A psicose também não equivale automaticamente à esquizofrenia. Embora a esquizofrenia integre o diagnóstico diferencial, transtornos do humor, uso de substâncias, delirium, epilepsia, doenças autoimunes e diversas alterações metabólicas também podem causar sintomas psicóticos. Desse modo, o profissional deve evitar conclusões precoces, sobretudo diante do primeiro episódio.

Quais são os principais sintomas das psicoses?

Os sintomas psicóticos afetam percepção, pensamento, linguagem, comportamento e funcionamento social. Entretanto, a entrevista clínica precisa caracterizar cada fenômeno com cuidado, porque crenças culturais, experiências religiosas, linguagem figurada e ansiedade intensa não configuram psicose por si sós.

Delírios

Delírios correspondem a crenças falsas e firmes que não mudam facilmente diante de evidências contrárias e que não encontram explicação adequada no contexto sociocultural da pessoa. Por exemplo, o paciente pode acreditar que terceiros o perseguem, que mensagens da televisão se dirigem especificamente a ele ou que alguém controla seus pensamentos.

Além disso, o conteúdo do delírio pode assumir formas persecutórias, referenciais, grandiosas, somáticas, religiosas, erotomaníacas ou niilistas. A convicção, a preocupação gerada pelo tema e a influência sobre o comportamento variam. Portanto, o médico deve investigar não apenas o conteúdo, mas também o risco associado, como fuga, confronto, recusa alimentar ou tentativa de defesa contra uma ameaça imaginada.

Alucinações

Alucinações são percepções que ocorrem sem um estímulo externo correspondente. As alucinações auditivas aparecem com frequência nos transtornos psicóticos primários. Nesse contexto, o paciente pode ouvir vozes que conversam entre si, comentam seus atos ou emitem ordens.

Entretanto, experiências visuais, táteis, olfatórias e gustativas também podem ocorrer. Quando predominam manifestações visuais ou táteis, especialmente se o quadro começa de forma aguda, o clínico deve ampliar a busca por intoxicação, abstinência, delirium, doença neurológica ou outra causa orgânica. Ainda assim, nenhum tipo isolado de alucinação confirma uma etiologia.

Pensamento e discurso desorganizados

O clínico infere a organização do pensamento por meio da fala. Assim, mudanças abruptas de assunto, respostas pouco relacionadas à pergunta, associações difíceis de acompanhar ou discurso quase incompreensível podem revelar desorganização formal do pensamento.

Contudo, diferenças educacionais, linguísticas ou culturais também influenciam a comunicação. Por isso, a avaliação exige contexto, exemplos concretos e, quando necessário, informações de familiares ou cuidadores. Além disso, alterações graves da atenção podem sugerir delirium, e não um transtorno psicótico primário.

Comportamento desorganizado ou catatonia

O comportamento pode variar desde agitação sem objetivo claro até atitudes inadequadas ao contexto, negligência do autocuidado ou incapacidade de organizar atividades simples. Além disso, alguns pacientes desenvolvem catatonia, síndrome psicomotora que pode incluir estupor, mutismo, negativismo, posturas mantidas, flexibilidade cérea, ecolalia, ecopraxia ou agitação não influenciada por estímulos externos.

A catatonia exige reconhecimento rápido, pois pode acompanhar transtornos psiquiátricos e condições clínicas potencialmente graves. Portanto, o médico deve avaliar hidratação, nutrição, mobilidade, temperatura, sinais autonômicos e risco de complicações.

Sintomas negativos

Os sintomas negativos representam redução de funções que normalmente integram a vida psíquica. Entre eles, destacam-se menor expressão emocional, redução da fala espontânea, falta de iniciativa, dificuldade para experimentar prazer e retraimento social.

No entanto, depressão, sedação medicamentosa, sintomas extrapiramidais, isolamento ambiental e uso de substâncias podem produzir manifestações semelhantes. Consequentemente, o profissional precisa diferenciar sintomas negativos primários de causas secundárias antes de ajustar o tratamento.

Alterações cognitivas e afetivas

Muitos pacientes também apresentam prejuízos de atenção, memória de trabalho, velocidade de processamento e funções executivas. Além disso, ansiedade, depressão, irritabilidade, mania e labilidade emocional podem acompanhar a psicose. Embora esses achados não definam sozinhos a síndrome, eles interferem no prognóstico, na adesão terapêutica e na funcionalidade.

Quais condições podem causar psicose?

A psicose possui diagnóstico diferencial amplo. Por isso, o raciocínio clínico deve integrar idade de início, curso temporal, sintomas associados, medicamentos, substâncias, antecedentes pessoais e história familiar.

Entre as principais categorias, incluem-se:

  • Transtornos do espectro da esquizofrenia, como esquizofrenia, transtorno esquizofreniforme, transtorno psicótico breve e transtorno delirante
  • Transtornos do humor, como episódios maníacos ou depressivos com características psicóticas
  • Uso de substâncias, incluindo estimulantes, alucinógenos, cannabis e outras drogas capazes de desencadear sintomas
  • Abstinência, especialmente de álcool ou sedativos em determinados contextos
  • Medicamentos, como corticosteroides, agentes dopaminérgicos e outros fármacos conforme dose, suscetibilidade e interação clínica
  • Doenças neurológicas, como epilepsia, demências, tumores, encefalites e doenças neurodegenerativas
  • Condições autoimunes, infecciosas, endócrinas ou metabólicas, conforme os sinais clínicos e a epidemiologia
  • Delirium, que costuma cursar com alteração aguda da atenção, flutuação e mudança do nível de consciência

Além disso, a relação temporal fornece pistas importantes. Um início súbito, em horas ou dias, aumenta a suspeita de substâncias, medicamentos, delirium ou doença clínica aguda. Por outro lado, sintomas insidiosos, declínio funcional progressivo e alterações negativas podem apoiar um transtorno psicótico primário, embora não o confirmem isoladamente.

Como avaliar um paciente com sintomas psicóticos?

A avaliação inicial deve responder a três perguntas: existe risco imediato, o paciente apresenta uma síndrome clínica aguda e qual causa parece mais provável? Dessa forma, o médico prioriza a segurança sem abandonar a investigação etiológica.

História clínica e exame do estado mental

O profissional deve investigar o início, a evolução e o impacto funcional dos sintomas. Além disso, deve perguntar sobre alterações do sono, humor, energia, apetite, cognição, trauma, uso de álcool e outras substâncias, medicamentos prescritos, suplementos e exposições tóxicas.

Frequentemente, o paciente oferece informações incompletas por desorganização, medo, pouca consciência do adoecimento ou prejuízo cognitivo. Por isso, relatos de familiares, amigos, equipes de emergência e prontuários anteriores podem esclarecer o funcionamento basal e a mudança recente. Contudo, a equipe precisa respeitar privacidade, autonomia e normas éticas durante essa coleta.

No exame do estado mental, o médico avalia aparência, comportamento, cooperação, atividade psicomotora, fala, humor, afeto, curso e conteúdo do pensamento, percepção, cognição, crítica e julgamento. Além disso, deve perguntar de maneira direta e não confrontativa sobre ideias suicidas, homicidas, ordens alucinatórias, acesso a meios letais e capacidade de autocuidado.

Exame físico e investigação complementar

O exame físico, incluindo a avaliação neurológica, ajuda a identificar febre, trauma, rigidez, déficits focais, intoxicação, abstinência ou alterações sistêmicas. Portanto, sinais vitais, glicemia quando indicada e nível de consciência merecem atenção desde o primeiro contato.

Os exames complementares não seguem um pacote universal para todos os pacientes. Em vez disso, idade, história, exame físico e apresentação clínica orientam a seleção. Conforme o caso, a investigação pode incluir hemograma, eletrólitos, função renal e hepática, função tireoidiana, testes toxicológicos, teste de gravidez, sorologias, neuroimagem, eletroencefalograma ou análise do líquido cefalorraquidiano. Entretanto, o médico deve solicitar cada exame para responder a uma hipótese clínica plausível.

Quando a psicose representa uma emergência?

Uma pessoa com sintomas psicóticos precisa de atendimento urgente quando apresenta risco de suicídio, violência, grave agitação, incapacidade de cuidar das necessidades básicas ou suspeita de condição clínica aguda. Além disso, catatonia, intoxicação, abstinência, delirium, febre, rigidez, rebaixamento da consciência, convulsões e déficits neurológicos exigem avaliação imediata.

Alguns sinais de alerta incluem:

  • Ideação suicida ou homicida, sobretudo com plano, intenção ou acesso a meios
  • Alucinações de comando, principalmente quando ordenam atos perigosos
  • Agitação intensa, agressividade ou comportamento imprevisível
  • Recusa persistente de água, alimentos ou cuidados essenciais
  • Incapacidade de manter abrigo, higiene ou segurança
  • Alteração flutuante da atenção ou da consciência
  • Sintomas neurológicos, febre, rigidez ou instabilidade autonômica
  • Primeiro episódio com início abrupto ou apresentação atípica

Nessas situações, a equipe deve organizar um ambiente seguro, reduzir estímulos e abordar o paciente com comunicação calma e objetiva. Ao mesmo tempo, deve evitar confrontar diretamente o conteúdo delirante. Em vez de validar a crença, o profissional pode reconhecer o sofrimento e explicar as ações necessárias para proteger o paciente e terceiros.

Como funciona o tratamento das psicoses?

O tratamento depende da causa, da gravidade, do risco e das preferências do paciente. Assim, nenhuma estratégia única atende a todos os episódios psicóticos. Ainda assim, o manejo inicial costuma combinar medidas de segurança, cuidado do quadro subjacente, tratamento farmacológico quando indicado e intervenções psicossociais.

Manejo inicial e controle da agitação

Primeiramente, a equipe deve reduzir riscos e avaliar causas médicas reversíveis. Um espaço tranquilo, poucos profissionais falando ao mesmo tempo, limites claros e oferta de escolhas simples podem diminuir a escalada. Além disso, a desescalada verbal preserva a aliança terapêutica e pode evitar medidas restritivas.

Quando a agitação ameaça a segurança ou impede cuidados indispensáveis, o médico pode indicar medicação. A escolha depende do diagnóstico provável, do grau de agitação, da via disponível, das comorbidades e do risco de efeitos adversos.

Contudo, a equipe deve empregar contenção física apenas em situações excepcionais, pelo menor tempo possível e com monitorização apropriada, conforme protocolos institucionais e normas locais.

Antipsicóticos

Os antipsicóticos constituem um dos pilares do tratamento de muitos quadros psicóticos. Em geral, esses fármacos reduzem delírios, alucinações e desorganização. Entretanto, a escolha deve considerar resposta anterior, perfil metabólico, efeitos extrapiramidais, prolongamento do intervalo QT, sedação, hiperprolactinemia, comorbidades, interações, disponibilidade e preferência do paciente.

Além disso, o médico deve iniciar uma estratégia compatível com a situação clínica e acompanhar eficácia e tolerabilidade. A monitorização pode abranger peso, circunferência abdominal, pressão arterial, glicemia, perfil lipídico, sintomas motores e outros parâmetros conforme o medicamento escolhido. Portanto, prescrever o fármaco sem planejar o seguimento deixa uma parte importante do cuidado incompleta.

Formulações injetáveis de longa ação podem ajudar pacientes que preferem essa via ou enfrentam dificuldade persistente para manter o uso diário. Contudo, a decisão exige conversa compartilhada e não deve funcionar como punição por baixa adesão.

Já a clozapina ocupa lugar específico nos quadros resistentes e em algumas situações de alto risco, mas requer acompanhamento clínico e laboratorial rigoroso.

Tratamento da causa subjacente

Quando uma substância, um medicamento ou uma doença clínica provoca a psicose, a equipe precisa tratar o fator desencadeante. Por exemplo, o manejo pode exigir suspensão segura de um agente, tratamento de intoxicação ou abstinência, correção metabólica ou terapia direcionada a uma condição neurológica, infecciosa ou autoimune.

Entretanto, o profissional não deve interromper abruptamente medicamentos essenciais sem avaliar riscos. Além disso, alguns pacientes necessitam de antipsicótico por um período mesmo após o controle da causa, enquanto outros melhoram com a resolução do fator precipitante. Desse modo, a evolução clínica orienta a duração do tratamento.

Intervenções psicossociais e continuidade do cuidado

O tratamento não termina quando os sintomas agudos diminuem. Pelo contrário, a recuperação funcional exige acompanhamento longitudinal. Psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental adaptada à psicose, intervenção familiar, reabilitação psicossocial, apoio ocupacional e tratamento do uso de substâncias podem reduzir o sofrimento e favorecer a autonomia.

Além disso, programas de intervenção precoce para o primeiro episódio psicótico integram cuidados médicos, psicológicos, familiares, educacionais e profissionais. Essa abordagem coordenada pode melhorar a adesão e o funcionamento. Portanto, o encaminhamento rápido após a estabilização ajuda a reduzir períodos sem tratamento e rupturas de cuidado.

Como acompanhar a evolução e prevenir recaídas?

O acompanhamento deve avaliar sintomas positivos, negativos, cognitivos e afetivos, bem como sono, funcionalidade, uso de substâncias, adesão e efeitos adversos. Além disso, familiares e pacientes podem aprender a reconhecer sinais iniciais, como isolamento crescente, insônia, desconfiança, queda no autocuidado ou piora do desempenho.

Um plano de crise registra contatos, serviços de referência, preferências terapêuticas e medidas que ajudaram em episódios anteriores. Dessa forma, a equipe responde mais cedo a uma possível recaída. Contudo, o plano precisa respeitar a capacidade decisória, a autonomia e a legislação aplicável.

A interrupção do antipsicótico pode elevar o risco de recaída em determinados transtornos. Por isso, qualquer redução deve ocorrer com avaliação médica, decisão compartilhada e acompanhamento próximo. Ao mesmo tempo, o médico deve tratar efeitos adversos de maneira ativa, pois desconforto, estigma e falta de benefício percebido frequentemente prejudicam a continuidade.

Estigma, comunicação e cuidado centrado na pessoa

A psicose descreve uma experiência clínica, não a identidade de alguém. Portanto, profissionais e familiares devem evitar linguagem estigmatizante e pressupostos de periculosidade. A maioria das pessoas com transtornos psicóticos não pratica violência. Além disso, vulnerabilidade, vitimização e risco de autoagressão também merecem atenção.

Uma comunicação clínica útil valida o sofrimento sem confirmar o conteúdo delirante. Por exemplo, o médico pode dizer que percebe o medo do paciente e, em seguida, explorar o que o ajudaria a se sentir seguro. Assim, mantém o vínculo, coleta informações e propõe tratamento sem entrar em disputa sobre a crença.

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Referências bibliográficas

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