O Vírus Sincicial Respiratório (VSR) não é um adversário novo. Descrito pela primeira vez na década de 1950, ele acompanha a pediatria há décadas como principal causa de bronquiolite e de hospitalização em lactentes, especialmente nos primeiros seis meses de vida. O que é novo — e muda profundamente o cenário clínico — é que, pela primeira vez na história, dispomos de estratégias eficazes de prevenção primária para toda a população de recém-nascidos: a vacinação materna com a vacina RSVpreF (Abrysvo®, Pfizer) e a imunoprofilaxia neonatal com o anticorpo monoclonal nirsevimabe (Beyfortus®, Sanofi/AstraZeneca).
E no Brasil, 2025 marca uma virada sem precedentes: ambas as tecnologias foram incorporadas ao SUS em fevereiro daquele ano, por decisão da Conitec na sua 137ª Reunião Ordinária, tornando o país um dos primeiros do mundo a oferecer proteção universal contra o VSR pelo sistema público de saúde.
Este texto resume o que sabemos sobre essas duas estratégias — mecanismos, evidências clínicas, dados de vida real, comparação direta e o detalhamento do marco regulatório brasileiro — para ajudar médicos e estudantes a compreender o estado da arte e as implicações práticas dessa mudança histórica.
O problema: por que o VSR ainda mata e hospitaliza
O VSR é um RNA-vírus da família Pneumoviridae com dois subtipos principais (A e B), ambos capazes de causar doença grave. Sua proteína de fusão (proteína F) é o principal alvo de anticorpos neutralizantes e o centro das estratégias preventivas modernas.
O impacto epidemiológico é expressivo: cerca de dois em cada três bebês serão infectados pelo VSR durante o primeiro ano de vida. O vírus é responsável por aproximadamente 80% dos casos de bronquiolite pediátrica e por até 60% das pneumonias em lactentes. Segundo dados da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS), estima-se que uma em cada cinco crianças infectadas necessite de atendimento ambulatorial, e uma em cada 50 seja hospitalizada no primeiro ano de vida. A maioria das crianças hospitalizadas por VSR não tem comorbidades — são lactentes previamente hígidos, nascidos a termo, com menos de três meses de vida.
No Brasil, a sazonalidade do VSR varia por região: de fevereiro a junho na Região Norte, e de março a julho nas demais regiões — uma característica determinante para o planejamento das intervenções preventivas e para a janela de vacinação materna.
Historicamente, a única estratégia disponível pelo setor público era o palivizumabe (Synagis®), um anticorpo monoclonal de primeira geração que exige aplicações mensais durante toda a temporada, com alto custo e logística complexa, restrito a prematuros extremos e crianças com cardiopatia congênita ou doença pulmonar crônica da prematuridade. A grande maioria dos lactentes — justamente aqueles que mais lotam as UTIs pediátricas no inverno — permanecia desprotegida.
Estratégia 1: Vacinação materna com RSVpreF (Abrysvo®)
O conceito
A vacinação materna contra o VSR segue a mesma lógica já consolidada para tétano, coqueluche e influenza na gestação: imunizar a mãe para proteger o bebê por transferência passiva de anticorpos via placenta. A proteína F do VSR em sua conformação pré-fusão é o alvo antigênico ideal, pois é altamente conservada entre os subtipos A e B e acessível ao sistema imune antes da fusão viral com a membrana celular.
A Abrysvo® é uma vacina bivalente não adjuvantada, contendo 60 µg de cada antígeno (RSV-A e RSV-B na conformação pré-fusão), administrada em dose única por via intramuscular. No Brasil, a Anvisa licenciou seu uso em gestantes entre 24 e 36 semanas de gestação — janela mais ampla que a dos EUA (32–36 semanas), alinhada à autorização europeia.
Evidências clínicas: o estudo MATISSE
O ensaio de fase 3 MATISSE (Maternal Immunization Study for Safety and Efficacy), conduzido em 18 países com 7.420 gestantes randomizadas (1:1), demonstrou na análise final eficácia de 82,4% (IC 95%: 57,5–93,9) contra doença grave do trato respiratório inferior por VSR com atendimento médico nos primeiros 90 dias de vida, declinando para 70,0% (IC 95%: 50,6–82,5) aos 180 dias. A vacina induziu respostas imunológicas robustas e resultou em transferência altamente eficiente de anticorpos maternos para os recém-nascidos, consistente entre diferentes idades gestacionais no momento da vacinação e do parto.
Uma ressalva importante surgiu durante o processo regulatório nos EUA: o comitê da FDA apontou uma taxa discretamente maior de partos prematuros no grupo vacinado — diferença não estatisticamente significativa, mas que motivou a restrição da janela de vacinação americana para 32–36 semanas. A análise de segurança global até o encerramento do estudo não identificou novos sinais de alerta.
Vantagens e limitações
A vacina materna tem atributos únicos: integra-se ao pré-natal, uma janela de contato já estabelecida com a gestante; confere proteção ao recém-nascido desde o nascimento, com anticorpos circulantes presentes no momento do primeiro contato com o VSR; e protege também a própria mãe, um benefício frequentemente subestimado.
Suas limitações são relevantes: a proteção depende de vacinação oportuna dentro da janela gestacional, de transferência placentária adequada — que pode ser comprometida em prematuros extremos — e da adesão da gestante ao esquema. Os títulos de anticorpos maternos declinam ao longo dos primeiros meses de vida, explicando a redução da eficácia dos 90 para os 180 dias.
Estratégia 2: Imunoprofilaxia neonatal com nirsevimabe (Beyfortus®)
O mecanismo: uma engenharia molecular sofisticada
O nirsevimabe representa um salto geracional em relação ao palivizumabe. Trata-se de um anticorpo monoclonal humano recombinante IgG1κ de terceira geração, direcionado especificamente ao sítio antigênico Ø (zero) da proteína F na conformação pré-fusão — epítopo de neutralização altamente conservado, inacessível na conformação pós-fusão. Ao se ligar a esse sítio, o nirsevimabe inibe a etapa de fusão da membrana viral com a célula hospedeira, neutralizando ambos os subtipos A e B do VSR e bloqueando a fusão célula a célula.
O que o diferencia farmacocineticamente do palivizumabe é uma substituição tripla de aminoácidos (YTE — tirosina-treonina-glutamato) na região Fc, que aumenta a afinidade pelo receptor Fc neonatal (FcRn). Esse receptor é responsável pelo reciclagem das IgGs: ao se ligar com maior afinidade ao FcRn, o nirsevimabe é menos degradado e tem meia-vida sérica significativamente prolongada — de semanas para meses. Uma única dose intramuscular confere proteção durante toda a temporada do VSR (pelo menos cinco meses), eliminando as doses mensais do palivizumabe. A atividade neutralizante do nirsevimabe é aproximadamente 50 vezes superior à do palivizumabe.
Posologia
A dose segue estratificação por peso: 50 mg para lactentes com menos de 5 kg, e 100 mg para aqueles com 5 kg ou mais. Para crianças de até 24 meses que permanecem vulneráveis em uma segunda temporada do VSR — incluindo pacientes com doença pulmonar crônica da prematuridade, cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica, fibrose cística, doenças neuromusculares, imunocomprometimento e síndrome de Down — a dose para a segunda temporada é de 200 mg em dose única. O PNI não recomenda, na atualidade, a intercambialidade entre palivizumabe e nirsevimabe dentro de uma mesma temporada.
Evidências clínicas: MELODY, HARMONIE e MEDLEY
O programa de desenvolvimento clínico do nirsevimabe envolveu três grandes estudos:
MELODY (fase 3): Ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo em lactentes saudáveis nascidos a termo e prematuros tardios (≥35 semanas de IG). Demonstrou eficácia de 74,5% (IC 95%: 49,6–87,1) contra doença do trato respiratório inferior por VSR com atendimento médico em 150 dias, e redução de 79,5% no risco relativo na análise agrupada com o estudo de fase 2b.
HARMONIE (fase 3b): O maior ensaio do programa, conduzido no Reino Unido, França e Alemanha, com 8.058 lactentes (≥29 semanas de IG) randomizados para nirsevimabe ou cuidado padrão. Demonstrou eficácia de 83,2% (IC 95%: 67,8–92,0) contra hospitalização por VSR, consistente tanto em nascidos a termo (84,4%) quanto em prematuros (78,3%), sem influência do peso ao nascimento.
MEDLEY (fase 2–3): Focado em lactentes de alto risco (doença pulmonar crônica da prematuridade, cardiopatia congênita, prematuridade extrema <29 semanas), comparou nirsevimabe ao palivizumabe em segurança. Os níveis séricos atingidos nessa população foram semelhantes aos dos estudos de eficácia, com exposições acima do alvo eficaz em mais de 80% dos pacientes (94%), sustentando a extrapolação de eficácia para esses grupos vulneráveis.
O estudo que todos esperavam: nirsevimabe vs. vacina materna
A questão que pairava desde 2023 — qual estratégia protege mais o recém-nascido? — começou a ser respondida com a publicação no JAMA em dezembro de 2025 (Jabagi et al.), um estudo de coorte de base populacional conduzido na França.
Desenho e resultados
Utilizando dados do sistema nacional de saúde francês, os pesquisadores incluíram mais de 42.000 lactentes nascidos entre setembro e dezembro de 2024, pareados 1:1 por data de alta da maternidade, sexo, idade gestacional e região — 21.280 bebês de mães vacinadas com RSVpreF entre 32 e 36 semanas versus 21.280 que receberam nirsevimabe antes da alta hospitalar. O seguimento mediano foi de 84 dias.
Entre 481 hospitalizações por VSR registradas, 44% ocorreram no grupo nirsevimabe e 56% no grupo vacina materna (diferença de −11,8%). O nirsevimabe foi associado a menor risco de hospitalização (HR ajustado: 0,74; IC 95%: 0,61–0,88), bem como a menor risco de admissão em UTI pediátrica (HR: 0,58), necessidade de suporte ventilatório (HR: 0,57) e oxigenoterapia (HR: 0,56).
O achado mais didático foi a dinâmica temporal da proteção: nas primeiras semanas após o nascimento, a proteção pela vacina materna foi superior — anticorpos maternos já presentes na circulação do recém-nascido desde o nascimento. Nos primeiros 7 dias após a alta, o risco de doença do trato respiratório inferior era quase três vezes maior no grupo nirsevimabe (aHR
= 2,94). Porém, após 60 dias, a relação se inverteu: o risco no grupo nirsevimabe era apenas metade daquele do grupo vacina materna (aHR = 0,51). Esse padrão faz sentido farmacológico: os anticorpos maternos transferidos protegem imediatamente, mas declinam; o nirsevimabe, com meia-vida estendida, supera essa proteção ao longo do tempo.
Os próprios autores ressaltam que os achados não devem ser interpretados como evidência contra a eficácia da vacina RSVpreF — há muitos cenários em que ela é mais acessível ou preferível, especialmente em sistemas de saúde com boa cobertura pré-natal.
Combinação das duas estratégias: o que ainda não sabemos
Uma questão em aberto é se a administração combinada das duas intervenções no mesmo lactente oferece benefício adicional. Há uma preocupação teórica sobre interferência: anticorpos maternos pré-existentes poderiam neutralizar parcialmente o nirsevimabe administrado ao recém-nascido. Os dados disponíveis indicam que o nirsevimabe não interfere com as vacinas pediátricas de rotina, mas o efeito inverso ainda não foi completamente caracterizado.
Um ensaio clínico em andamento (NCT06551506) avalia especificamente a magnitude e durabilidade das respostas imunológicas com vacina materna isolada, nirsevimabe isolado e a combinação. Até que esses resultados estejam disponíveis, a recomendação atual do PNI brasileiro — alinhada às diretrizes internacionais — é de que o nirsevimabe seja indicado prioritariamente para lactentes cujas mães não receberam a vacina RSV durante a gestação, para aqueles com situação vacinal materna desconhecida, ou para os nascidos dentro de 14 dias após a vacinação materna.
O marco brasileiro: incorporação ao SUS em 2025
Este é o ponto que transforma a discussão clínica em discussão de saúde pública — e que torna o Brasil um caso singular no cenário internacional.
A decisão da Conitec e as portarias de incorporação
Em 13 de fevereiro de 2025, na sua 137ª Reunião Ordinária, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) recomendou a incorporação simultânea de ambas as tecnologias ao SUS. As portarias foram publicadas dias depois, no Diário Oficial da União:
- Portaria SECTICS/MS nº 14, de 24 de fevereiro de 2025: incorpora ao SUS a vacina vírus sincicial respiratório A e B (recombinante) em gestantes — a Abrysvo® — para prevenção da doença do trato respiratório inferior causada pelo VSR em recém-nascidos, conforme estratégia do Programa Nacional de Imunizações (PNI). A janela de administração definida pelo PNI é de 32 a 36 semanas de gestação.
- Portaria SECTICS/MS nº 15, de 28 de fevereiro de 2025: incorpora ao SUS o nirsevimabe para prevenção de infecção do trato respiratório inferior associada ao VSR em bebês prematuros com menos de 37 semanas e crianças menores de 2 anos portadoras de comorbidades, conforme Protocolo Clínico do Ministério da Saúde.
Ambas as portarias determinaram prazo máximo de 180 dias para efetivação da oferta no SUS a partir de sua publicação.
O que cada portaria cobre — e o que isso significa na prática
É fundamental compreender que as duas incorporações têm escopos populacionais distintos e complementares:
A Portaria nº 14 (vacina materna) tem cobertura universal para gestantes — qualquer gestante acompanhada no SUS, independentemente de condição de risco do bebê, pode e deve receber a vacina entre 32 e 36 semanas. A proteção se dirige indiretamente a todos os recém-nascidos de mães vacinadas. Segundo dados apresentados à Conitec, a estratégia tem potencial de evitar aproximadamente 28 mil internações anuais no país, beneficiando cerca de 2 milhões de bebês em seus primeiros meses de vida.
A Portaria nº 15 (nirsevimabe) é restrita a grupos de risco: prematuros com menos de 37 semanas de idade gestacional e crianças com menos de 2 anos portadoras de comorbidades. Essa cobertura substitui e amplia o palivizumabe anteriormente disponível, com logística mais simples (dose única vs. doses mensais) e eficácia superior.
A implementação: linha do tempo
A implementação ocorreu em etapas ao longo de 2025 e início de 2026:
Saúde suplementar (ANS): antes mesmo das portarias do Ministério da Saúde, a ANS incorporou o nirsevimabe para prematuros pelo setor privado por meio da Resolução Normativa nº 624/2024, em vigor desde 3 de fevereiro de 2025.
Nirsevimabe no SUS: a Nota Técnica nº 109/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS, publicada em 29 de setembro de 2025, detalhou a operacionalização da distribuição do nirsevimabe em maternidades públicas, com início previsto antes da temporada de VSR de 2026. O documento definiu um sistema em camadas — Centros de Referência em Imunobiológicos Especiais (CRIE), Centros Intermediários de Imunobiológicos Especiais (CIIE) e salas de vacina integradas à Atenção Primária — para garantir acesso equitativo entre regiões. O registro das doses deve ser feito obrigatoriamente no SI-PNI ou sistema conectado à Rede Nacional de Dados de Saúde (RNDS).
Vacina materna no SUS: a Abrysvo® foi incorporada ao Calendário de Vacinação da Gestante do PNI, com início da disponibilização na rede pública a partir de dezembro de 2025, conforme estratégia nacional. Alguns estados, como o Espírito Santo, documentaram o início da operacionalização a partir da segunda quinzena de novembro de 2025. A meta operacional adotada na introdução foi de vacinação de pelo menos 80% das gestantes na rotina.
A Rede de Imunobiológicos Especiais (RIE)
A Portaria GM/MS nº 6.623, de 14 de fevereiro de 2025, instituiu a Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais (RIE), que passou a integrar os CRIE, os CIIE e as salas de vacina do SUS, centros de vacinação e clínicas de saúde integradas à Atenção Primária. É por meio dessa rede que o nirsevimabe é dispensado nas maternidades SUS para os grupos elegíveis. A RIE representa uma reorganização estrutural significativa do PNI para acomodar imunobiológicos especiais de forma mais capilar.
Recomendações da SBIm e Febrasgo para o SUS
A SBIm e a Comissão Nacional Especializada (CNE) de Vacinas da Febrasgo recomendam, como parte da estratégia de implementação no PNI, a aplicação da vacina materna entre 32 e 36 semanas como estratégia year-round — ou seja, independente da sazonalidade, podendo ser aplicada em qualquer época do ano. Essa abordagem garante que gestantes vacinadas em qualquer mês do ano gerem proteção nos seus bebês, sem depender de uma janela sazonal restrita.
Síntese comparativa
| Aspecto | Vacina materna (Abrysvo®) | Nirsevimabe (Beyfortus®) |
| Mecanismo | Transferência passiva de anticorpos maternos via placenta | Anticorpo monoclonal administrado diretamente ao lactente |
| Momento de administração | 32–36 semanas de gestação | Nascimento ou início da temporada do VSR |
| Eficácia contra hospitalização (ensaios clínicos) | ~70–82% (90–180 dias) | ~83% (HARMONIE); 92% (vida real EUA) |
| Proteção nas primeiras semanas | Superior (anticorpos já presentes ao nascimento) | Início discretamente mais lento (dias para plena proteção |
| Durabilidade da proteção | Menor (declínio progressivo dos anticorpos maternos) | Superior (meia-vida estendida pela modificação YTE-Fc) |
| Cobertura de subtipos | RSV-A e RSV-B | RSV-A e RSV-B |
| Posologia | Dose única materna | Dose única no lactente (50 mg ou 100 mg conforme peso) |
| Benefício para a mãe | Sim (proteção direta durante a gestação) | Não |
| Independência da adesão materna | Não — depende da cobertura pré-natal | Sim — administrado diretamente ao RN |
| Prematuridade extrema | Transferência placentária pode ser comprometida | Eficácia mantida; dados farmacocinéticos robustos |
| Cobertura SUS (Portaria) | Universal para gestantes — Portaria SECTICS/MS nº 14/2025 | Prematuros <37 sem e crianças <2 anos com comorbidades — Portaria SECTICS/MS nº 15/2025 |
| Início no SUS | Dezembro de 2025 (Calendário da Gestante/PNI) | Previsto antes da temporada de VSR de 2026 (NT 109/2025) |
| Saúde suplementar | Rede privada (por prescrição) | ANS: RN 624/2024 (cobertura obrigatória desde fev/2025) |
Perspectivas e lacunas de conhecimento
O campo ainda tem questões relevantes em aberto. A proteção a longo prazo na segunda temporada de VSR para grupos de risco — com a dose de 200 mg — está sendo consolidada em dados de vida real. A segurança da combinação das duas estratégias no mesmo lactente está sendo avaliada em ensaio clínico específico (NCT06551506). O impacto da variabilidade antigênica do VSR — especialmente de cepas emergentes — sobre a eficácia do nirsevimabe é monitorado continuamente, embora o sítio Ø seja altamente conservado.
No plano doméstico, o desafio agora é de implementação e equidade: garantir cobertura vacinal materna suficiente nas UBSs e nas maternidades SUS de todas as regiões do país — sobretudo no Norte e Nordeste, onde a sazonalidade começa mais cedo e a infraestrutura de atenção pré-natal enfrenta maiores desafios. A meta de 80% de cobertura das gestantes é ambiciosa e requer esforço de comunicação, mobilização de agentes comunitários, ações extramuros e integração com o acompanhamento pré-natal rotineiro. Para o nirsevimabe, a capilaridade da nova RIE nas maternidades públicas será testada na temporada de 2026 — a primeira com disponibilidade universal pelo SUS.
O dado americano da temporada 2024–2025 oferece um referencial animador: a proporção de lactentes de 0–7 meses protegidos por alguma das duas estratégias aumentou de 30% em outubro de 2024 para 66% em fevereiro de 2025, coincidindo com quedas de 28% a 43% nas taxas de hospitalização por VSR em comparação às temporadas pré-pandêmicas. As maiores reduções foram justamente nos lactentes de 0–2 meses — exatamente o grupo mais vulnerável e aquele para quem a proteção materna é mais crítica.
A mensagem central é clara: pela primeira vez, temos ferramentas capazes de mudar radicalmente o impacto do VSR nos primeiros meses de vida — e o Brasil, com a decisão histórica de incorporá-las ao SUS, deu um passo que poucos países de renda média conseguiram dar. O desafio que se impõe é transformar portarias em prática clínica cotidiana: da consulta pré-natal à maternidade, do CRIE à sala de vacina da UBS.
Referências principais
- Jabagi MJ, et al. Nirsevimab vs RSVpreF vaccine for respiratory syncytial virus–related hospitalization in newborns. JAMA. 2026;335(9):787–798. doi:10.1001/jama.2025.24082
- Kampmann B, et al. (MATISSE Study Group). Bivalent prefusion F vaccine in pregnancy to prevent RSV illness in infants. N Engl J Med. 2023;388:1451–64.
- Moline HL, et al. Effectiveness and Impact of Maternal RSV Immunization and Nirsevimab on Medically Attended RSV in US Children. JAMA Pediatrics. 2026. doi:10.1001/jamapediatrics.2025.xxx
- Griffin MP, et al. (MELODY trial). Single-dose nirsevimab for prevention of RSV in preterm infants. N Engl J Med. 2020;383:415–25.
- Drysdale S, et al. (HARMONIE trial). Nirsevimab for prevention of hospitalizations due to RSV in infants. N Engl J Med. 2023;389:2187–96.
- Simões EAF, et al. (MEDLEY trial). Nirsevimab for prevention of RSV in preterm infants.
- Lancet Child Adolesc Health. 2023;7:177–88.
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 14, de 24 de fevereiro de 2025. Incorpora ao SUS a vacina VSR A e B (recombinante) em gestantes. Diário Oficial da União, 25 fev. 2025.
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 15, de 28 de fevereiro de 2025. Incorpora ao SUS o nirsevimabe para bebês prematuros e crianças com comorbidades. Diário Oficial da União, 5 mar. 2025.
- Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 109/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS, 29 set.
- 2025. Descrição das maternidades com internações públicas que irão dispensar o nirsevimabe.
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 6.623, de 14 de fevereiro de 2025.
- Institui a Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais (RIE).
- Conitec. Relatório de Recomendação nº 974 – Nirsevimabe para VSR em bebês prematuros ou com comorbidades. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
- Conitec. Relatório de Recomendação nº 975 – Vacina VSR A e B (recombinante) em gestantes. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
- ANS. Resolução Normativa nº 624/2024. Inclui nirsevimabe no rol de procedimentos obrigatórios da saúde suplementar. Vigência: 3 fev. 2025.
- SBIm / Febrasgo (CNE Vacinas). Estratégia de vacinação contra o VSR em gestantes. Outubro de 2025.
- Patton ME, Moline HL, et al. Interim evaluation of RSV hospitalization rates among infants after introduction of RSV prevention products — United States, October 2024–February 2025. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2025;74(16):273–281.