Recentes publicações em veículos de mídia informativa, como o G1, trouxeram à tona a história de vida de Tiago Pitthan. Aos 49 anos, recebeu o diagnóstico de câncer gástrico e foi submetido a uma cirurgia com proposta curativa. Porém, o inventário da cavidade mostrou disseminação carcinomatosa. O procedimento não pôde ser realizado, e aquilo que tinha intento curativo transformou-se em uma sentença de morte lenta, mas certa.
A reflexão aqui é simples e ao mesmo tempo profunda: o que fazer com a própria vida quando se recebe uma sentença como essa?
O que fazer quando se recebe um diagnóstico terminal?
Tiago optou por algo não usual. Aproveitar ao máximo a vida que lhe resta e fazer um “velório em vida” animado, festivo e na presença das pessoas que o amam.
Se pararmos para pensar, faz todo sentido, não?
Quem ousaria dizer que se trata de uma inflação do ego ou então de uma necessidade de autoafirmação?
Diante da consciência da finitude, talvez muitos desejos deixem de fazer sentido, enquanto outros passem a ocupar um espaço muito maior. Estar perto de pessoas amadas, ouvir palavras sinceras e viver momentos marcantes pode ganhar um valor impossível de mensurar.
O olhar dos Cuidados Paliativos sobre o sofrimento
Aos olhos dos Cuidados Paliativos, a mitigação do sofrimento é quase sempre o maior objetivo da especialidade.
Nesse contexto, decisões como a de Tiago podem ser vistas como uma maneira legítima de lidar com a própria trajetória de vida e com a proximidade da morte.
Posso dizer, inclusive, que se eu fosse seu médico seria o primeiro a apoiar a ideia e também estaria presente na festividade.
Porque, muitas vezes, aquilo que traz paz ao paciente é justamente o que deve ser valorizado.
Elisabeth Kübler-Ross e as fases do luto
Elisabeth Kübler-Ross, um dos maiores expoentes dos Cuidados Paliativos, trouxe a fragmentação do luto em cinco fases:
- Negação: fase inicial em que a pessoa tem dificuldade de aceitar a realidade da perda ou do diagnóstico. Pode surgir como mecanismo de proteção emocional temporário.
- Raiva: sentimentos de revolta, injustiça e frustração tornam-se mais presentes. A raiva pode ser direcionada a si mesmo, outras pessoas, profissionais de saúde ou até à situação vivida.
- Barganha: tentativa de buscar acordos ou alternativas para evitar a perda ou mudar a realidade. Costuma envolver pensamentos como “e se eu tivesse feito diferente?”.
- Depressão: momento marcado por tristeza profunda, sensação de vazio, sofrimento emocional e maior consciência da perda e de suas consequências.
- Aceitação: não significa ausência de dor, mas sim um estado de maior compreensão e integração da realidade vivida, permitindo seguir adiante com mais serenidade.
Vale ressaltar que essas fases não são sequenciais. Pendulação talvez seja a palavra-chave desse processo.
O indivíduo pode transitar entre sentimentos diferentes inúmeras vezes ao longo da experiência do adoecimento.
Alguns diriam que comportamentos como o de Tiago poderiam ser classificados como negação. Mas será mesmo?
Será que não seriam sinais de plena aceitação? É improvável imaginar que conflitos internos não ocorram em sua mente e espírito. Porém, o que se vê é uma aparente leveza e paz.
O luto antecipatório na terminalidade
Vou além: será que Tiago está vivendo uma espécie de luto antecipatório aos olhares de Erich Lindemann?
O conceito de luto antecipatório está relacionado justamente ao processo emocional vivido antes da perda em si acontecer. Em situações de terminalidade, reflexões sobre despedida, vida, vínculos e significado tornam-se inevitáveis.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo.
E se fosse comigo?
Volto à reflexão proposta inicialmente: o que fazer se fosse comigo?
Minha experiência como paliativista me traz uma ressalva importante. Qualquer resposta dada agora seria construída com minha mente, corpo e espírito de hoje: saudável, em plena capacidade cognitiva e funcional e em paz de espírito.
Mas será que, sofrendo em todas as esferas do ser humano, eu não pensaria diferente?
Talvez essa seja uma pergunta impossível de responder antecipadamente.
O que histórias como essa fazem é nos lembrar da fragilidade da vida e da profundidade das experiências humanas diante da finitude.
Referências
A reflexão apresentada neste artigo foi inspirada na reportagem publicada pelo portal G1 sobre a história de Tiago Pitthan, paciente com câncer terminal que organizou um “velório em vida” ao lado de familiares e amigos. A matéria aborda questões relacionadas à terminalidade, finitude e qualidade de vida diante de um diagnóstico sem possibilidade curativa. G1 – Homem com câncer terminal organiza festa para o próprio “velório em vida”