A onicomicose corresponde à infecção fúngica da unidade ungueal e representa uma das causas mais frequentes de distrofia ungueal na prática clínica. Embora muitos pacientes enxerguem o problema apenas como uma alteração estética, o médico deve reconhecer a condição como uma doença infecciosa crônica, com impacto funcional, risco de recorrência e potencial de complicações em grupos específicos.
Além disso, a onicomicose exige atenção porque várias dermatoses ungueais mimetizam o quadro. Psoríase ungueal, trauma repetitivo, líquen plano, eczema, tumores subungueais e alterações relacionadas ao envelhecimento podem produzir sinais semelhantes. Portanto, o diagnóstico não deve depender apenas da inspeção clínica, especialmente quando o paciente receberá tratamento sistêmico.
Na maioria dos casos, dermatófitos causam a infecção, principalmente nas unhas dos pés. Entretanto, leveduras e bolores não dermatófitos também podem participar, sobretudo em determinados contextos clínicos e geográficos. Assim, o reconhecimento do padrão clínico, a confirmação micológica e a escolha adequada do tratamento ajudam o médico a aumentar a chance de cura e reduzir recidivas.
O que é onicomicose?
A onicomicose envolve a invasão da lâmina ungueal, do leito ungueal ou da matriz por fungos. Na prática, o termo inclui infecções por dermatófitos, leveduras e fungos filamentosos não dermatófitos. Quando dermatófitos causam a doença, muitos autores também utilizam o termo tinea unguium.
Embora a infecção possa acometer unhas das mãos, ela atinge com mais frequência as unhas dos pés. Isso ocorre porque o ambiente fechado, úmido e quente dos calçados favorece a proliferação fúngica. Além disso, microtraumas repetitivos, menor velocidade de crescimento da unha do pé e coexistência de tinea pedis contribuem para a persistência do fungo.
Principais agentes envolvidos
Os agentes variam conforme a região, o perfil do paciente e o tipo de acometimento. Ainda assim, alguns grupos merecem destaque:
- Dermatófitos: principalmente Trichophyton rubrum e Trichophyton interdigitale
- Leveduras: especialmente espécies de Candida, com maior associação às unhas das mãos e à paroníquia crônica
- Bolores não dermatófitos: como Scopulariopsis, Aspergillus, Fusarium e outros, sobretudo quando o laboratório confirma a relevância clínica.
Portanto, o médico precisa interpretar o resultado laboratorial junto com o quadro clínico, já que alguns fungos ambientais podem representar contaminação da amostra.
Fatores de risco para onicomicose
A onicomicose se torna mais frequente com o avançar da idade. Além disso, algumas condições aumentam a predisposição à infecção ou dificultam a resolução do quadro.
Fatores individuais
Entre os principais fatores individuais, destacam-se:
- Idade avançada
- História prévia de onicomicose
- Tinea pedis associada
- Hiperidrose
- Diabetes mellitus
- Doença vascular periférica
- Imunossupressão
- Psoríase ou outras doenças ungueais prévias
- Trauma repetitivo nas unhas
- Crescimento ungueal lento.
Fatores ambientais e comportamentais
Além dos fatores individuais, hábitos e exposições também influenciam o risco. Por exemplo, o uso prolongado de calçados fechados, a umidade persistente nos pés, o compartilhamento de instrumentos de manicure ou pedicure e a circulação descalça em áreas úmidas favorecem a transmissão e a reinfecção.
Por isso, a prevenção precisa acompanhar o tratamento. Caso contrário, o paciente pode atingir melhora clínica e, posteriormente, apresentar recorrência por manutenção das mesmas condições que favoreceram a infecção inicial.
Como identificar a onicomicose?
O diagnóstico começa pela anamnese e pelo exame das unhas. No entanto, o aspecto clínico isolado não confirma a infecção. Mesmo assim, alguns sinais aumentam a suspeita e orientam a investigação.
Sinais clínicos mais comuns
A onicomicose pode produzir:
- Alteração da coloração da unha, com tons esbranquiçados, amarelados, acastanhados ou enegrecidos
- Espessamento da lâmina ungueal
- Hiperqueratose subungueal
- Descolamento da unha em relação ao leito ungueal, chamado onicólise
- Friabilidade
- Deformidade progressiva
- Perda de brilho
- Acúmulo de detritos subungueais
- Desconforto ao caminhar ou usar calçados, especialmente em casos avançados.
Além disso, o paciente pode relatar evolução lenta, acometimento assimétrico e piora gradual. Frequentemente, a infecção começa em uma unha do hálux e depois compromete outras unhas.

Principais formas clínicas
A classificação clínica ajuda o médico a estimar extensão, profundidade e melhor estratégia terapêutica.
Onicomicose subungueal distal e lateral
Esse padrão ocorre com mais frequência. O fungo invade a região distal ou lateral da unha e avança em direção proximal. O médico observa hiperqueratose subungueal, mudança de cor, onicólise e espessamento progressivo.
Onicomicose superficial branca
Nesse padrão, o fungo compromete a superfície dorsal da lâmina ungueal. Assim, surgem manchas brancas, opacas e friáveis. Embora o quadro possa parecer mais superficial, o médico deve confirmar o diagnóstico antes de indicar tratamento.
Onicomicose subungueal proximal
Esse padrão exige atenção, pois pode ocorrer em pacientes imunossuprimidos. A alteração começa na região proximal da unha e avança distalmente. Portanto, quando o médico identifica esse padrão, deve avaliar o contexto clínico geral do paciente.

Onicomicose distrófica total
A onicomicose distrófica total representa estágio avançado ou doença extensa. Nessa forma, a unha apresenta destruição importante, espessamento acentuado, deformidade e perda da arquitetura normal. Consequentemente, o tratamento costuma exigir abordagem mais prolongada e maior atenção à adesão.

Onicomicose por Candida
A infecção por Candida aparece com maior frequência nas unhas das mãos, sobretudo quando existe paroníquia crônica, exposição frequente à água ou irritantes e alteração da barreira periungueal. Nesses casos, o cuidado com a pele ao redor da unha também influencia o resultado terapêutico.
Diagnóstico: por que confirmar antes de tratar?
A confirmação laboratorial tem papel central, principalmente antes de antifúngicos orais. Isso acontece porque nem toda unha espessada ou descolada tem origem fúngica. Além disso, tratamentos sistêmicos exigem análise de riscos, interações medicamentosas e duração adequada.
Métodos diagnósticos
O médico pode usar diferentes exames, conforme disponibilidade e suspeita clínica:
- Exame micológico direto com KOH: identifica elementos fúngicos rapidamente
- Cultura fúngica: ajuda a determinar o agente, embora possa apresentar falso negativo
- Histopatologia da lâmina ungueal com PAS: aumenta a sensibilidade para detectar fungos em fragmentos ungueais
- PCR ou métodos moleculares: podem auxiliar em centros com disponibilidade, especialmente quando a identificação rápida do agente influencia a conduta.
Portanto, a coleta adequada faz diferença. O profissional deve obter material da área mais proximal e ativa da lesão, além de remover detritos superficiais que possam contaminar a amostra. Além disso, o uso recente de antifúngicos tópicos ou sistêmicos pode reduzir a positividade dos exames.
Diagnósticos diferenciais
O raciocínio clínico deve incluir outras causas de distrofia ungueal. Entre elas:
- Psoríase ungueal
- Líquen plano
- Trauma crônico por calçado
- Dermatite e eczema
- Onicogrifose
- Síndrome das unhas amarelas
- Melanoma subungueal
- Verruga subungueal
- Tumores do aparelho ungueal
- Alterações ungueais por medicamentos.
Esse ponto tem grande relevância porque o atraso no diagnóstico de lesões pigmentadas ou tumorais pode gerar consequências graves. Portanto, melanoniquia longitudinal, pigmentação irregular, sinal de Hutchinson, dor localizada persistente ou lesão única progressiva devem motivar avaliação dermatológica cuidadosa.
Tratamento da onicomicose
O tratamento depende da extensão da doença, do número de unhas acometidas, da espessura da lâmina, da presença de acometimento da matriz, do agente provável, das comorbidades e das preferências do paciente. Além disso, o médico deve alinhar expectativas desde a primeira consulta, já que a melhora estética depende do crescimento da unha saudável.
Quando considerar tratamento tópico?
O tratamento tópico pode beneficiar pacientes com doença leve a moderada, sem acometimento extenso da matriz e com poucas unhas afetadas. Além disso, ele pode atender pacientes que têm contraindicações ao tratamento oral ou que preferem evitar medicação sistêmica.
Entre os tópicos usados em diferentes países e cenários, incluem-se ciclopirox, amorolfina, efinaconazol e tavaborol. A disponibilidade varia conforme o mercado local. Em geral, o tratamento tópico exige aplicação regular por muitos meses, já que a penetração pela lâmina ungueal costuma limitar a eficácia.
Portanto, o médico deve reforçar adesão, orientar lixamento ou desbastamento quando apropriado e acompanhar a evolução. Sem essas medidas, o paciente tende a abandonar o tratamento antes de observar crescimento ungueal satisfatório.
Quando considerar tratamento oral?
O tratamento oral costuma apresentar melhores taxas de cura em onicomicoses moderadas a graves, especialmente nas unhas dos pés. O médico considera essa opção quando há:
- Acometimento de múltiplas unhas
- Doença extensa
- Hiperqueratose subungueal importante
- Envolvimento da matriz
- Falha de tratamento tópico
- Impacto funcional ou dor
- Progressão clínica.
A terbinafina oral costuma representar uma das principais opções para onicomicose por dermatófitos. Já o itraconazol pode atuar como alternativa em alguns cenários, inclusive quando o agente ou o perfil clínico favorece outro espectro antifúngico. Entretanto, a escolha exige avaliação individual.
Antes de prescrever, o médico deve revisar doenças hepáticas, medicamentos em uso, risco de interações, gestação, lactação e outras condições clínicas. Além disso, deve solicitar exames laboratoriais quando o perfil do paciente ou o protocolo local indicar monitoramento.
Desbastamento e medidas adjuvantes
O desbastamento mecânico da unha pode reduzir a carga fúngica, melhorar dor por pressão e aumentar a penetração de medicamentos tópicos. Além disso, o tratamento da tinea pedis concomitante reduz reservatórios fúngicos e diminui o risco de reinfecção.
Em alguns casos, o médico pode combinar tratamento oral, tópico e medidas de cuidado local. Essa estratégia faz sentido principalmente em doença extensa, hiperqueratose importante ou recorrência.
Acompanhamento e expectativa de resposta
O paciente precisa entender que a unha não volta ao aspecto normal imediatamente. Ainda que o antifúngico controle o fungo, a aparência melhora conforme a unha cresce. Assim, unhas das mãos costumam mostrar resposta estética mais rápida, enquanto unhas dos pés podem demorar muitos meses para renovar completamente.
Durante o seguimento, o médico deve observar:
- Redução da área acometida
- Crescimento de lâmina ungueal saudável a partir da matriz
- Melhora da espessura
- Redução de detritos subungueais
- Desaparecimento de dor ou desconforto
- Adesão ao tratamento
- Sinais de reação adversa.
Caso o quadro não melhore, o médico deve reavaliar diagnóstico, adesão, coleta laboratorial, agente etiológico, presença de reinfecção e diagnósticos diferenciais.
Recorrência: por que a onicomicose volta?
A recorrência ocorre com frequência porque o paciente mantém reservatórios fúngicos na pele, nos calçados ou no ambiente. Além disso, idade avançada, diabetes, doença vascular periférica, deformidades dos pés e trauma ungueal aumentam o risco de novo episódio.
Portanto, o plano terapêutico deve incluir prevenção desde o início. Tratar a unha sem abordar tinea pedis, umidade, calçados contaminados e hábitos de exposição reduz a chance de sucesso duradouro.
Como prevenir onicomicose?
A prevenção combina higiene, controle de umidade, cuidado com calçados e redução de trauma. O médico pode orientar medidas simples, porém consistentes.
Orientações práticas para pacientes
- Manter os pés secos, principalmente entre os dedos
- Trocar meias diariamente ou sempre que houver suor excessivo
- Preferir meias que reduzam umidade
- Alternar calçados para permitir secagem completa
- Evitar calçados muito apertados, já que o trauma favorece onicólise
- Usar chinelos em vestiários, piscinas e banheiros coletivos
- Não compartilhar alicates, lixas ou cortadores de unha
- Garantir esterilização adequada de instrumentos em manicure ou podologia
- Cortar as unhas retas e evitar cortes excessivos nos cantos
- Tratar tinea pedis quando houver descamação, prurido ou maceração interdigital
- Descartar ou higienizar calçados muito antigos quando houver recorrência frequente.
Além disso, pacientes diabéticos devem examinar os pés regularmente, já que fissuras, maceração, trauma e deformidades aumentam risco de complicações. Nesses casos, a abordagem deve integrar controle metabólico, avaliação vascular, cuidado podológico e educação em saúde.
Quando encaminhar ao dermatologista?
O encaminhamento ganha relevância quando o diagnóstico permanece incerto, quando o paciente apresenta falha terapêutica, quando há suspeita de doença inflamatória ungueal ou quando surge sinal de alerta para neoplasia. Além disso, pacientes imunossuprimidos, diabéticos com alterações nos pés e indivíduos com dor importante podem se beneficiar de avaliação especializada.
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Referências
- GOLDSTEIN, Adam O.; GOLDSTEIN, Beth G. Onychomycosis: Management. Waltham: UpToDate, 2026. Disponível em: UpToDate. Acesso em: 4 jul. 2026.
- GOLDSTEIN, Adam O.; GOLDSTEIN, Beth G. Onychomycosis: Epidemiology, clinical features, and diagnosis. Waltham: UpToDate, 2026. Disponível em: UpToDate. Acesso em: 4 jul. 2026.
