As queixas dermatológicas representam uma parcela expressiva dos atendimentos na Atenção Primária à Saúde (APS). Estudos brasileiros mostram que boa parte dos médicos generalistas tende a subdiagnosticar ou confundir certas dermatoses, ao mesmo tempo em que superdiagnostica quadros mais “familiares”, como eczemas e micoses (Anais Brasileiros de Dermatologia, 2020). Como a UBS costuma ser a porta de entrada do paciente ao sistema de saúde, reconhecer com segurança as lesões cutâneas mais prevalentes — e saber quando resolver na própria unidade ou encaminhar — é uma competência essencial do médico de família e comunidade.
Um levantamento realizado em Florianópolis (2016-2017), com mais de 55 mil atendimentos dermatológicos na APS, identificou a dermatite atópica como o diagnóstico mais frequente, seguida por outras afecções da pele e do tecido subcutâneo (Anais Brasileiros de Dermatologia, 2020). Esses achados dialogam com o que os Cadernos de Atenção Básica nº 9 do Ministério da Saúde (“Dermatologia na Atenção Básica”) já apontavam: dermatofitoses, escabiose e dermatites figuram entre as afecções mais comuns e mais resolutivas no primeiro nível de atenção (Ministério da Saúde, 2002). A acne, por sua vez, é considerada a dermatose mais prevalente na população em geral, afetando entre 85% e 100% das pessoas em algum momento da vida (Silva, Costa & Moreira, 2014).
A seguir, reunimos as cinco lesões de pele mais recorrentes na rotina da UBS e um resumo prático de manejo para cada uma.
1. Dermatite atópica
Perfil clínico: doença inflamatória crônica e recidivante, de base multifatorial (disfunção de barreira cutânea, predisposição genética e fatores ambientais), que costuma iniciar na infância. Cursa com prurido intenso, xerose e lesões eczematosas — eritema, pápulas e liquenificação — em regiões flexurais (fossas antecubitais e poplíteas) em crianças maiores e adultos, e em face e superfícies extensoras em lactentes.
Diagnóstico: eminentemente clínico, baseado em critérios de história (prurido, cronicidade, distribuição típica, atopia pessoal ou familiar), sem necessidade de exames complementares na maioria dos casos.
Manejo na UBS:
- Orientação sobre cuidados de barreira cutânea: banhos mornos e curtos, sabonetes sem fragrância, hidratação diária e regular com emolientes.
- Corticoide tópico de baixa a média potência nas crises, aplicado sobre as lesões ativas, com desmame gradual.
- Anti-histamínicos podem auxiliar no controle do prurido, sobretudo à noite.
- Identificação e afastamento de fatores desencadeantes (tecidos sintéticos, sabões irritantes, calor excessivo).
Quando encaminhar: falha terapêutica com corticoide tópico bem indicado, sinais de infecção secundária persistente, comprometimento extenso ou impacto importante na qualidade de vida, sugerindo necessidade de terapias de segunda linha (inibidores tópicos de calcineurina, fototerapia ou imunobiológicos) com o dermatologista.
2. Dermatofitoses (tineas)
Perfil clínico: infecções fúngicas superficiais causadas por dermatófitos (gêneros Trichophyton, Microsporum e Epidermophyton), transmitidas por contato direto com pessoas, animais ou fômites contaminados. Apresentam-se como lesões anulares, com bordas ativas eritemato-descamativas e clareamento central (tinea do corpo), placas de alopecia com tonsura no couro cabeludo (tinea da cabeça, mais comum em crianças) ou maceração interdigital nos pés (tinea dos pés) (Ministério da Saúde, 2002; Saber Digital, 2018).
Diagnóstico: predominantemente clínico. Quando há dúvida, o exame micológico direto (KOH) confirma a presença de hifas.
Manejo na UBS:
- Tinea do corpo, da virilha e dos pés (formas localizadas): antifúngico tópico (imidazólicos como clotrimazol, cetoconazol ou miconazol) por 2 a 4 semanas, mantendo o tratamento por alguns dias após o desaparecimento das lesões.
- Tinea do couro cabeludo ou lesões extensas/refratárias: exigem tratamento sistêmico (griseofulvina ou terbinafina, conforme faixa etária e disponibilidade), já que o antifúngico tópico não penetra o folículo piloso.
- Orientar sobre higiene, secagem adequada das áreas intertriginosas e não compartilhamento de objetos pessoais, dado o potencial de transmissão.
Quando encaminhar: ausência de resposta ao tratamento tópico ou sistêmico bem conduzido, dúvida diagnóstica persistente, ou onicomicose extensa que demande terapia sistêmica prolongada com acompanhamento mais próximo.
3. Escabiose
Perfil clínico: ectoparasitose causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei, de transmissão por contato direto prolongado (incluindo contato interpessoal e, com menor frequência, fômites). O sintoma cardinal é o prurido de piora noturna, com pápulas, vesículas e sulcos escabióticos característicos em espaços interdigitais, punhos, região periumbilical, genitália e, em crianças, também palmas, plantas e couro cabeludo (Ministério da Saúde, 2002).
Diagnóstico: clínico, pela distribuição típica das lesões associada ao prurido noturno e, frequentemente, história de casos semelhantes entre contatos domiciliares.
Manejo na UBS:
- Escabicida tópico (permetrina 5%) aplicado em todo o corpo do pescoço para baixo, mantido por 8 a 12 horas, com repetição após 7 dias.
- Ivermectina oral pode ser considerada em casos extensos, institucionais ou de difícil adesão ao tratamento tópico.
- Tratamento simultâneo de todos os contactantes domiciliares e sexuais, mesmo assintomáticos, para evitar reinfestação.
- Lavagem de roupas de cama e vestuário em água quente; o prurido pode persistir por semanas mesmo após a erradicação do ácaro, o que não indica falha terapêutica isolada.
Quando encaminhar: escabiose crostosa (norueguesa), especialmente em imunossuprimidos e idosos institucionalizados, exige manejo mais cuidadoso pela alta carga parasitária e potencial de surtos.
4. Acne vulgar
Perfil clínico: doença inflamatória crônica da unidade pilossebácea, considerada a dermatose mais frequente na população geral, afetando entre 85% e 100% das pessoas em algum momento da vida — o que a torna um motivo constante de consulta na Atenção Primária (Silva, Costa & Moreira, 2014). Sua etiopatogenia envolve aumento da produção de andrógenos, hiperprodução sebácea, alteração da queratinização do ducto folicular e proliferação de Cutibacterium acnes (antigo Propionibacterium acnes), com resposta inflamatória associada. Manifesta-se com comedões, pápulas, pústulas e, nas formas mais graves, nódulos e cistos, predominantemente em face, tórax e dorso.
Diagnóstico: clínico, com classificação de gravidade (leve, moderada ou grave, com base no tipo e na quantidade de lesões) orientando a escolha terapêutica (BVS Atenção Primária em Saúde).
Manejo na UBS:
- Formas leves a moderadas (predomínio de comedões e lesões inflamatórias superficiais): retinoides tópicos (adapaleno ou tretinoína) e/ou peróxido de benzoíla, associados quando necessário a antibiótico tópico (clindamicina).
- Formas moderadas com maior componente inflamatório: associação de tratamento tópico a antibiótico oral (tetraciclinas, quando não houver contraindicação), por tempo limitado.
- Em mulheres com componente hormonal evidente, o anticoncepcional hormonal oral pode ser considerado como parte do tratamento, especialmente diante de sinais de hiperandrogenismo.
- Orientações gerais: uso de produtos não comedogênicos, evitar manipulação das lesões e reforçar a adesão, já que a resposta terapêutica costuma ser gradual, em semanas.
Quando encaminhar: acne grave (nodulocística), presença de cicatrizes em formação, falha de tratamento após ciclo adequado de terapia combinada ou indicação de isotretinoína oral, que exige prescrição e monitoramento especializados dado o perfil de efeitos adversos.
5. Dermatite de contato
Perfil clínico: reação inflamatória cutânea desencadeada por contato com substância irritante (dermatite de contato irritativa, mais comum, sem envolvimento imunológico) ou por sensibilização alérgica (dermatite de contato alérgica). Manifesta-se com eritema, vesículas, exsudação, crostas ou liquenificação na área exata de contato com o agente, muitas vezes em padrão que “espelha” o objeto ou substância causadora (Ministério da Saúde, 2002; Saber Digital, 2018).
Diagnóstico: clínico, com história ocupacional e de exposição a irritantes (detergentes, solventes, cosméticos, metais, plantas) sendo fundamental para identificar o agente causal.
Manejo na UBS:
- Afastamento do agente irritante ou alergênico identificado — medida mais importante para resolução e prevenção de recidivas.
- Corticoide tópico de potência adequada à localização e intensidade da lesão, por período curto.
- Emolientes para restaurar a barreira cutânea e compressas frias nas fases exsudativas agudas.
- Anti-histamínico oral pode auxiliar no controle do prurido associado.
Quando encaminhar: casos recorrentes sem agente identificável, suspeita de dermatite ocupacional relevante ou necessidade de teste de contato (patch test) para confirmação do alérgeno específico.
Por que isso importa para a qualificação do time da UBS
Essas cinco condições concentram grande parte da demanda dermatológica que chega à Atenção Primária e, na maioria dos casos, podem ser resolvidas na própria unidade — o que reduz filas de encaminhamento para a dermatologia e agiliza o cuidado do paciente. Fortalecer esse conhecimento entre médicos generalistas, residentes de Medicina de Família e Comunidade e demais profissionais da equipe é uma forma direta de aumentar a capacidade resolutiva da APS, reservando o encaminhamento especializado para os casos que de fato exigem uma avaliação mais aprofundada.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Dermatologia na Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, n. 9; Série A – Normas e Manuais Técnicos, n. 174. Brasília: Ministério da Saúde, 2002.
Perfil nosológico das doenças dermatológicas na atenção primária à saúde e atenção secundária de dermatologia em Florianópolis (2016-2017). Anais Brasileiros de Dermatologia, 2020.
Atenção primária à saúde, diagnóstico precoce das dermatoses mais prevalentes. Saber Digital, v. 11, n. 2, p. 71-84, 2018.
SILVA, A. M. F.; COSTA, F. P.; MOREIRA, M. Acne vulgar: diagnóstico e manejo pelo médico de família e comunidade. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 9, n. 30, p. 54-63, 2014.
Como fazer tratamento da acne na atenção primária? BVS Atenção Primária em Saúde, 2022.
Guia Prático de Dermatologia na Atenção Básica. Prefeitura Municipal de Campinas, Secretaria Municipal de Saúde.