Anualmente nascem aproximadamente 15 milhões de prematuros, cerca de 10% dos nascidos vivos no Brasil. Devido ao avanço da tecnologia e da ciência, cada vez mais bebês prematuros conseguem sobreviver ao período neonatal ao mesmo tempo que a prematuridade se torna uma das principais causas de morte no primeiro ano de vida, em detrimento de doenças infecto contagiosas e malformações congênitas.
Como surgiu o método canguru?
A prematuridade é definida como o nascimento de bebês com menos de 37 semanas de idade gestacional e esses bebês ainda podem ser divididos em:
- muito prematuros: para aqueles que nascem com 28-32 semanas de gestação,
- prematuros extremos: com menos de 28 semanas de gestação e tardios, quando nascem entre 34 e 37 semanas.
Na tentativa de mitigar os efeitos deletérios da prematuridade com maior estabilidade térmica e vínculo entre mãe e bebê. Foi criado em meados dos anos 1980, na Colômbia. Um modelo de atenção perinatal voltado para o cuidado qualificado e humanizado de atenção aos prematuros de baixo peso e suas famílias.
Essa metodologia foi instituída no Brasil como política pública em 2000, e é conhecida como método canguru. O método canguru é baseado em 4 componentes:
- contato pele a pele com a mãe,
- promoção da amamentação,
- alta precoce quando possível e
- acompanhamento ambulatorial intenso.
Etapas do método canguru
Esse método é dividido em 3 etapas. São elas:
Primeira etapa
Inicia no pré-natal de alto risco, chegando à internação em unidade de terapia intensiva. Um dos diferenciais desse modelo é a presença dos pais e seu acesso liberado durante todo o período de internação em UTI.
O objetivo é que ao atingir a estabilidade clínico. De acordo com o desejo dos pais, o RN já consiga ser colocado em posição canguru. Outras características como o manuseio mínimo pela equipe, a diminuição de ruídos e de estímulos dolorosos também devem ser observadas.
Tudo isso busca aumentar o vínculo dos pais com a criança e promover a sua alta o mais precoce possível
Segunda etapa
Nessa fase RN e mãe permanecem em Unidade de Cuidados Intermediários Canguru, uma enfermaria onde a equipe multidisciplinar trabalha para promover a autonomia dos pais nos cuidados com o RN e a amamentação.
Para participar dessa etapa, o RN deve ter estabilidade clínica, nutrição enteral plena e peso mínimo de 1250g.
Para a alta, o RN precisa atingir um peso mínimo de 1600g, ganho de peso adequado nos três dias que antecedem a alta, alimentação plena por seio materno ou, eventualmente, complemento, além da garantia de acompanhamento ambulatorial
Terceira etapa
Aqui acompanhamos ambulatorialmente o bebê até que atinja 2,5 kg, seguindo posteriormente em ambulatório de puericultura especializada.
O foco deve ser a garantia do:
- equilíbrio psicoafetivo entre criança e familiares,
- imunização,
- manutenção dos tratamentos especializados e
- avaliação do desenvolvimento da criança.
Impactos do Método Canguru
Mães que utilizaram o método canguru estão cerca de 50% mais propensas a amamentar os seus filhos. Tanto a amamentação quanto o contato pele a pele promovido pelo método podem diminuir a mortalidade, em até 41% nos 2 primeiros anos de follow up, principalmente entre bebês prematuros extremos e baixo peso.
Isso reflete o fato do método canguru ser capaz de reduzir em até 47% o risco de sepse, bem como hipoglicemia, hipotermia e readmissão hospitalar.
Principais complicações
A dor, uma das principais complicações desse período, também é mitigada pelo canguru. Estudos mostram que esses bebês apresentam pontuações menores nas principais escalas de dor utilizadas para a faixa etária e sinais vitais mais estáveis, mesmo quando submetidos a procedimentos dolorosos.
Isso corrobora a recente recomendação da OMS sobre mamalgesia, quando crianças recebem aleitamento materno durante a vacinação, diminuindo a dor durante o procedimento.
Outras condições clínicas
Outras condições clínicas como asma, epilepsia e alterações do metabolismo, não parecem ser tão influenciados pelo método canguru, porém, um dos maiores impactos percebidos nesses bebês é a melhora nos desfechos do neurodesenvolvimento.
Bebês prematuros tem maior risco de desenvolver autismo, TDAH, alterações neurossensoriais, déficits cognitivos, com absenteísmo escolar, além de distúrbios psiquiátricos, principalmente envolvendo comportamentos violentos, mesmo entre aqueles que não apresentam alterações estruturais do sistema nervoso central.
Estudo de Cohort
Em Cohort (1) que avaliou prematuros submetidos ao método e grupo controle após 20 anos, evidenciou-se mesmo nível de paralisia cerebral, com menor gravidade nos bebês do canguru (12% contra 38%), maior volume cerebral, massa cinzenta e do núcleo caudado, menor absenteísmo escolar e índice de alterações comportamentais.
Os melhores resultados ocorreram nos países em desenvolvimento, entre as famílias menos escolarizadas e quando as famílias contavam com a participação do pai nos cuidados com a criança no primeiro ano de vida.
Ao propiciar o maior engajamento dos familiares, o método ajuda na promoção de um ambiente saudável e famílias funcionais. O que contribui para esse desfecho.


O método canguru não melhora apenas a fisiologia do recém nascido de risco.
Contar com profissionais capacitados para promover o contato precoce entre a família e a criança. Além de acolher suas demandas de forma humanizada, contribui para que o método canguru promova o empoderamento dessas famílias e seu fortalecimento diante da frustração que pode envolver o nascimento de um prematuro e mudar sua perspectiva em relação ao nascimento e evolução desses pequenos milagres.
Sugestão de leitura
- Diferença entre parto e trabalho de parto e mais | Colunista
- Tudo sobre as fases do trabalho de parto | Colunistas
Mapa mental sobre método canguru

- Autora do mapa mental: Maria Beatriz Neves de Souza Costa.
- Revisor do mapa mental: Laís Pinho Cruz.
- Instagram da Liga autora do mapa mental: @laephbahiana
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
- Twenty-year Follow-up of Kangaroo Mother Care Versus Traditional Care. Nathalie Charpak, Rejean Tessier, Juan G. Ruiz, Jose Tiberio Hernandez, Felipe Uriza, Julieta Villegas, Line Nadeau, Catherine Mercier, Francoise Maheu, Jorge Marin, Darwin Cortes, Juan Miguel Gallegoand Dario Maldonado. Pediatrics January 2017, 139 (1) e20162063; DOI: https://doi.org/10.1542/peds.2016-2063
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção humanizada ao recém-nascido: Método Canguru: manual técnico / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – 3. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2017. 340 p.: il.
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Método Canguru: manual da terceira etapa do Método Canguru na Atenção Básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 98 p.: il
