Nova atualização do GINA: o que muda no manejo da asma em adolescentes e adultos?

A atualização mais recente do GINA reforça uma mudança que já vinha redesenhando o tratamento da asma nos últimos anos: o controle da inflamação deve guiar a conduta desde o início, e não apenas após a piora dos sintomas. Portanto, o manejo atual da asma exige uma abordagem mais preventiva, mais individualizada e, sobretudo, mais conectada ao risco de exacerbações.
Embora muitos pacientes ainda associem o tratamento da asma ao uso pontual de broncodilatadores de curta ação, o GINA orienta uma leitura mais ampla da doença. Afinal, a asma não envolve somente broncoconstrição transitória. Pelo contrário, ela envolve inflamação crônica das vias aéreas, variabilidade de sintomas e risco de crises potencialmente graves, mesmo em pacientes que relatam poucos sintomas no dia a dia.
Além disso, a atualização amplia a atenção do médico para aspectos práticos que frequentemente determinam o sucesso terapêutico: adesão, técnica inalatória, escolha do dispositivo, avaliação de comorbidades, exposição a fatores desencadeantes e monitoramento regular. Dessa forma, o tratamento deixa de depender apenas da prescrição e passa a incluir um plano contínuo de acompanhamento.
O que é o GINA e por que sua atualização importa?
O GINA, sigla para Global Initiative for Asthma, organiza recomendações internacionais para diagnóstico, tratamento e prevenção da asma. Ainda que cada país adapte suas condutas conforme disponibilidade de medicamentos, perfil epidemiológico e acesso ao sistema de saúde, o documento funciona como uma das principais referências globais para a prática clínica.
Nesse contexto, a nova atualização ganha relevância porque consolida uma visão mais moderna da asma. Em vez de tratar a doença como um quadro episódico, o GINA posiciona a asma como uma condição inflamatória crônica que exige estratégia de longo prazo. Consequentemente, o médico deve avaliar não apenas a presença de sintomas, mas também o risco futuro de exacerbações, perda funcional e eventos adversos relacionados ao tratamento inadequado.
Além disso, a atualização aproxima o manejo da asma de uma lógica de cuidado escalonado. Ou seja, o médico inicia, ajusta, intensifica ou reduz a terapia conforme controle clínico, risco, função pulmonar e resposta ao tratamento. Assim, a conduta se torna dinâmica, e não fixa.
A principal mensagem: evitar tratamento apenas com SABA
Entre os pontos mais importantes, o GINA reforça que adolescentes e adultos com asma não devem depender exclusivamente de broncodilatadores beta-2 agonistas de curta ação, conhecidos como SABA. Essa orientação representa uma virada importante, pois, durante décadas, muitos pacientes usaram medicações como salbutamol apenas para alívio rápido dos sintomas.
No entanto, essa estratégia pode transmitir uma falsa sensação de segurança. Embora o SABA alivie a broncoconstrição, ele não trata a inflamação subjacente. Além disso, o uso frequente de SABA pode indicar pior controle da asma e maior risco de exacerbações. Por isso, o GINA prioriza esquemas que incluam corticosteroide inalatório, seja de forma contínua, seja associado ao medicamento de resgate em estratégias específicas.
Portanto, a atualização orienta o médico a reconhecer que o alívio imediato não basta. O tratamento precisa reduzir sintomas, prevenir crises, preservar função pulmonar e diminuir a necessidade de corticoide sistêmico.
Tracks do GINA: como entender a lógica atual do tratamento
A organização em “tracks” facilita a tomada de decisão terapêutica. Em linhas gerais, o GINA divide o tratamento de adolescentes e adultos em duas estratégias principais, de acordo com o medicamento de alívio escolhido.
Track 1: estratégia preferencial com ICS-formoterol
No Track 1, o paciente utiliza uma combinação de corticosteroide inalatório em baixa dose com formoterol como medicação de alívio. Além disso, nos passos mais avançados, o mesmo princípio pode compor a terapia de manutenção e alívio, conhecida como MART ou SMART, dependendo da terminologia utilizada.
Essa estratégia faz sentido porque o formoterol tem início de ação rápido, enquanto o corticosteroide inalatório atua diretamente na inflamação das vias aéreas. Assim, cada uso para alívio também entrega tratamento anti-inflamatório. Consequentemente, o paciente não trata apenas o sintoma imediato; ele também reduz o componente inflamatório associado ao risco de crise.
Na prática, o Track 1 ajuda especialmente pacientes com baixa adesão ao controlador diário. Afinal, muitos pacientes usam a medicação apenas quando sentem sintomas. Logo, quando o dispositivo de alívio já contém corticosteroide inalatório, a chance de exposição anti-inflamatória aumenta.
Track 2: alternativa quando Track 1 não é possível
Apesar da preferência pelo Track 1, o GINA também contempla o Track 2. Nesse caso, o paciente usa SABA como medicação de alívio, porém precisa receber corticosteroide inalatório de forma regular ou associado a uma estratégia que garanta tratamento anti-inflamatório.
Entretanto, essa alternativa exige mais cuidado. O médico precisa avaliar se o paciente realmente compreende o papel do controlador e se consegue manter adesão. Caso contrário, o paciente pode voltar ao padrão antigo: usar apenas o broncodilatador de alívio e abandonar o anti-inflamatório. Portanto, o Track 2 depende de educação, acompanhamento e revisão constante da técnica e do uso real das medicações.
Como iniciar o tratamento da asma em adolescentes e adultos?
A decisão inicial deve considerar intensidade dos sintomas, frequência de despertares noturnos, limitação de atividades, função pulmonar, histórico de exacerbações, necessidade prévia de corticoide oral e fatores de risco. Além disso, o médico deve investigar rinite, rinossinusite crônica, refluxo gastroesofágico, obesidade, tabagismo, exposição ocupacional, ansiedade, depressão e uso incorreto do inalador.
De modo geral, pacientes com sintomas pouco frequentes ainda precisam de proteção anti-inflamatória. Portanto, mesmo nos quadros leves, o GINA não incentiva uma abordagem baseada apenas em alívio broncodilatador. Já pacientes com sintomas mais frequentes, despertares noturnos, limitação funcional ou exacerbações recentes podem exigir terapia de manutenção desde o início.
Na prática, o médico deve seguir alguns passos:
- Confirmar o diagnóstico sempre que possível com história clínica e evidência de limitação variável ao fluxo expiratório;
- Avaliar gravidade inicial e risco futuro de exacerbação;
- Escolher o track mais adequado conforme disponibilidade, perfil do paciente e adesão esperada;
- Ensinar a técnica inalatória antes de concluir a consulta;
- Entregar plano de ação por escrito;
- Agendar reavaliação para medir resposta e ajustar o tratamento.
Além disso, o médico deve evitar iniciar uma terapia e manter o paciente sem revisão. A asma muda ao longo do tempo; portanto, o tratamento também precisa mudar.
Monitoramento: o que acompanhar depois da prescrição?
O acompanhamento clínico ocupa papel central na atualização do GINA. Afinal, a resposta ao tratamento depende de múltiplas variáveis. Assim, o médico deve avaliar controle dos sintomas, uso da medicação de alívio, limitações de atividade, despertares noturnos, exacerbações, efeitos adversos e adesão.
Além disso, a função pulmonar deve entrar no seguimento sempre que possível. A espirometria ajuda a confirmar diagnóstico, mensurar limitação ao fluxo aéreo e identificar pacientes com pior evolução. No entanto, quando a espirometria não está disponível, o médico pode usar outros recursos, como pico de fluxo expiratório seriado, desde que interprete os resultados dentro do contexto clínico.
Outro ponto essencial envolve a técnica inalatória. Muitos pacientes não melhoram porque usam o dispositivo de forma inadequada. Portanto, antes de aumentar a dose, o médico deve observar o uso do inalador, corrigir erros e confirmar adesão. Essa etapa evita escalonamentos desnecessários e reduz risco de efeitos adversos.
Quando subir ou reduzir o tratamento?
O GINA trabalha com a lógica de step-up e step-down. Ou seja, o médico pode intensificar o tratamento quando o paciente mantém sintomas, apresenta exacerbações ou demonstra risco aumentado. Entretanto, antes de subir um passo, o médico deve revisar diagnóstico, técnica inalatória, adesão, exposição a gatilhos e comorbidades.
Por outro lado, quando o paciente mantém bom controle por período suficiente, o médico pode considerar redução gradual da terapia. Ainda assim, essa decisão exige cautela. O objetivo não é retirar proteção anti-inflamatória de forma abrupta, mas encontrar a menor intensidade terapêutica capaz de manter controle e reduzir riscos.
Consequentemente, o step-down deve ocorrer com acompanhamento, plano de ação e orientação clara sobre sinais de piora. Além disso, pacientes com histórico de exacerbações graves, baixa função pulmonar ou múltiplos fatores de risco podem exigir uma abordagem mais conservadora.
Exacerbações: reconhecer risco muda a conduta
A atualização também reforça a importância de prevenir exacerbações. Isso importa porque pacientes com poucos sintomas ainda podem evoluir com crises graves. Além disso, exacerbações repetidas aumentam uso de corticoide sistêmico, visitas à emergência, internações e impacto na qualidade de vida.
Por isso, o médico deve perguntar ativamente sobre crises anteriores, uso de pronto atendimento, necessidade de corticoide oral, intubação, internação e aumento recente do uso de resgate. Além disso, deve investigar baixa adesão ao corticosteroide inalatório, uso excessivo de SABA, tabagismo, exposição a alérgenos, poluição, infecções virais e comorbidades respiratórias.
Na prática, um bom plano de ação orienta o paciente sobre:
- Como reconhecer piora dos sintomas;
- Quando aumentar medicações conforme prescrição;
- Quando buscar atendimento;
- Como agir diante de limitação respiratória progressiva;
- Como evitar uso repetido de resgate sem avaliação médica.
Assim, o paciente participa ativamente do cuidado, e o médico reduz a chance de atraso no tratamento da crise.
Asma grave: quando pensar em fenótipo e tratamento avançado?
Nem todo paciente sintomático tem asma grave. Frequentemente, o paciente apresenta asma difícil de tratar por adesão inadequada, técnica inalatória incorreta, exposição contínua a gatilhos ou comorbidades não controladas. Portanto, antes de classificar a asma como grave, o médico precisa corrigir esses fatores.
Ainda assim, alguns pacientes mantêm sintomas e exacerbações apesar de tratamento otimizado em doses altas. Nesses casos, o GINA orienta uma investigação mais detalhada, com avaliação de fenótipo inflamatório, biomarcadores, eosinófilos, FeNO quando disponível, IgE, alergias associadas e doenças coexistentes.
Além disso, terapias biológicas podem beneficiar pacientes selecionados, especialmente quando há inflamação tipo 2 ou características específicas. Porém, a escolha exige avaliação criteriosa, já que custo, acesso, indicação, resposta esperada e comorbidades influenciam a decisão.
Educação do paciente: uma etapa terapêutica, não um detalhe
A atualização do GINA reforça, direta ou indiretamente, que educação em asma muda desfechos. Afinal, o melhor esquema falha quando o paciente não entende a diferença entre medicação de controle e medicação de alívio. Além disso, muitos pacientes interrompem o tratamento quando melhoram, justamente porque interpretam ausência de sintomas como cura.
Portanto, a consulta deve incluir explicações claras sobre inflamação, prevenção de crises, uso correto do inalador, reconhecimento de piora e importância do seguimento. Além disso, o médico deve adaptar a comunicação à realidade do paciente. Em outras palavras, o plano precisa funcionar fora do consultório.
O que muda na prática para o médico?
A nova atualização do GINA não representa apenas uma troca de medicamentos. Pelo contrário, ela reforça uma mudança de mentalidade. O médico deve sair de uma lógica reativa, centrada no alívio imediato, e adotar uma estratégia preventiva, centrada em risco, inflamação e acompanhamento.
Em resumo, os principais impactos práticos incluem:
- Evitar tratamento isolado com SABA em adolescentes e adultos;
- Priorizar esquemas com corticosteroide inalatório;
- Considerar ICS-formoterol como estratégia preferencial de alívio no Track 1;
- Avaliar adesão e técnica inalatória antes de intensificar tratamento;
- Monitorar sintomas, exacerbações e função pulmonar;
- Tratar comorbidades e fatores modificáveis;
- Usar plano de ação por escrito;
- Reavaliar periodicamente a necessidade de step-up ou step-down;
- Encaminhar casos difíceis ou graves para avaliação especializada.
Conclusão
A atualização do GINA consolida uma abordagem mais segura, preventiva e individualizada para adolescentes e adultos com asma. Embora o broncodilatador de alívio ainda tenha papel em estratégias específicas, o centro do tratamento passa pelo controle da inflamação das vias aéreas. Portanto, o corticosteroide inalatório assume papel essencial desde os estágios iniciais.
Além disso, o documento reforça que o manejo adequado depende de mais do que prescrever. O médico precisa confirmar diagnóstico, avaliar risco, escolher o track adequado, educar o paciente, revisar técnica inalatória, monitorar resposta e ajustar o tratamento ao longo do tempo.
Assim, a nova atualização do GINA ajuda a prática clínica a avançar em uma direção mais racional: menos dependência de alívio isolado, mais prevenção de exacerbações e maior atenção ao cuidado contínuo da asma.
Referências
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