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Linfogranuloma venéreo: apresentação clínica e manejo

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O linfogranuloma venéreo (LGV) corresponde a uma infecção sexualmente transmissível causada pelos sorovares invasivos L1, L2 e L3 da bactéria Chlamydia trachomatis. Diferentemente dos sorovares D a K, que costumam permanecer no epitélio e causar uretrite ou cervicite, os sorovares associados ao LGV invadem os tecidos, alcançam os vasos linfáticos e provocam uma resposta inflamatória mais intensa.

Embora médicos tradicionalmente relacionem o LGV a regiões tropicais e subtropicais, surtos registrados nas últimas décadas modificaram esse perfil epidemiológico. Atualmente, serviços de saúde também identificam casos em países da Europa e da América do Norte, sobretudo entre homens que fazem sexo com homens. Além disso, a infecção pelo HIV, a presença de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e práticas sexuais com exposição da mucosa retal podem aumentar a probabilidade de transmissão.

A apresentação clínica varia conforme o local de inoculação e o estágio da doença. Por isso, o LGV pode simular outras causas de úlcera genital, linfadenopatia inguinal, doença inflamatória intestinal ou proctite infecciosa. Consequentemente, o médico precisa integrar história sexual, exame físico e testes laboratoriais para estabelecer o diagnóstico e iniciar o tratamento em tempo oportuno.

Como ocorre a transmissão do linfogranuloma venéreo?

A transmissão ocorre principalmente durante relações sexuais com contato direto entre mucosas ou entre a mucosa e uma lesão infectada. Assim, relações anais, vaginais ou orais podem permitir a entrada de C. trachomatis. Além disso, o compartilhamento de objetos sexuais sem higienização ou sem troca de preservativo também pode contribuir para a disseminação.

Depois da inoculação, a bactéria invade células epiteliais e macrófagos. Em seguida, alcança os canais linfáticos regionais e estimula uma resposta inflamatória. Esse processo explica tanto o surgimento de linfonodos dolorosos quanto as complicações fibróticas que podem aparecer quando o paciente não recebe tratamento adequado.

A localização da porta de entrada determina parte da apresentação. Por exemplo, a inoculação genital costuma preceder linfadenopatia inguinal ou femoral. Por outro lado, a inoculação retal pode causar proctite ou proctocolite, muitas vezes sem qualquer lesão genital visível.

Quais são as fases clínicas do linfogranuloma venéreo?

A evolução clássica do LGV inclui três estágios. Entretanto, nem todos os pacientes apresentam as três etapas de maneira evidente. Além disso, muitos não percebem a lesão inicial, o que dificulta a identificação precoce.

Primeiro estágio: lesão no local de inoculação

O primeiro estágio costuma surgir após um período de incubação variável, geralmente entre alguns dias e algumas semanas. Nessa fase, o paciente pode apresentar uma pequena pápula, pústula, erosão ou úlcera no ponto de entrada da bactéria.

Em geral, essa lesão provoca pouca ou nenhuma dor e desaparece espontaneamente. Por isso, muitos pacientes não procuram atendimento. Além disso, lesões localizadas na vagina, no colo uterino, na uretra ou no reto podem passar despercebidas durante a avaliação inicial.

A lesão primária pode acompanhar sintomas inespecíficos, como desconforto local, secreção uretral ou cervical e disúria. No entanto, a ausência desses sinais não exclui o LGV.

Segundo estágio: linfadenopatia ou doença anorretal

Após a resolução da lesão inicial, o LGV pode atingir os linfonodos regionais. Nesse momento, o paciente geralmente apresenta linfadenopatia inguinal ou femoral dolorosa, com maior frequência unilateral.

Com a progressão da inflamação, os linfonodos podem aumentar de volume, aderir aos tecidos adjacentes e formar conglomerados. Posteriormente, essas estruturas podem evoluir para abscessos e fistulização. Os médicos frequentemente chamam esses linfonodos inflamados e flutuantes de bubões.

Em alguns casos, o ligamento inguinal divide visualmente o conglomerado linfonodal e produz o chamado “sinal do sulco”. Embora esse achado sugira LGV, ele não aparece na maioria dos pacientes. Portanto, sua ausência não afasta o diagnóstico.

Além das alterações linfonodais, o paciente pode apresentar manifestações sistêmicas, como:

  • Febre
  • Calafrios
  • Mal-estar
  • Mialgia
  • Cefaleia
  • Artralgia
  • Náuseas
  • Redução do apetite

Por outro lado, quando a inoculação ocorre na mucosa retal, a infecção frequentemente produz proctite ou proctocolite. Essa apresentação ganhou relevância clínica nos surtos contemporâneos, sobretudo entre homens que fazem sexo com homens.

Os principais sintomas anorretais incluem:

  • Dor anorretal
  • Tenesmo
  • Secreção retal mucosa ou purulenta
  • Sangramento retal
  • Constipação
  • Dor durante a evacuação
  • Sensação de evacuação incompleta
  • Alteração do hábito intestinal

Durante a anuscopia, o médico pode identificar exsudato, friabilidade, sangramento, ulcerações e inflamação da mucosa. Entretanto, esses achados não confirmam isoladamente o LGV. Como a apresentação pode simular doença inflamatória intestinal, neoplasia colorretal ou outras proctites infecciosas, a investigação exige uma análise clínica abrangente.

Terceiro estágio: complicações inflamatórias e fibróticas

Sem tratamento, a inflamação persistente pode provocar destruição tecidual, cicatrização anormal e obstrução linfática. Consequentemente, o paciente pode desenvolver estenoses, fístulas, abscessos recorrentes e linfedema genital.

Entre as complicações tardias, destacam-se:

  • Estenose retal
  • Fístulas perianais ou retais
  • Abscessos persistentes
  • Linfedema genital
  • Elefantíase genital
  • Deformidades vulvares ou penianas
  • Obstrução linfática crônica

Atualmente, o diagnóstico e o tratamento precoces reduzem a frequência dessas complicações. Contudo, o médico deve considerar o LGV em pacientes com doença anorretal prolongada, principalmente quando a história sexual indicar exposição relevante.

Fonte: UpToDate, 2026.

Como realizar o diagnóstico do linfogranuloma venéreo?

O diagnóstico definitivo exige a identificação de um sorovar L1, L2 ou L3 de C. trachomatis. Para isso, laboratórios especializados podem utilizar testes moleculares capazes de diferenciar os genótipos associados ao LGV. Entretanto, muitos serviços não oferecem genotipagem ou apresentam demora na liberação do resultado.

Na prática, o médico frequentemente estabelece um diagnóstico presuntivo com base na combinação de três elementos:

  • Quadro clínico compatível
  • Contexto epidemiológico sugestivo
  • Teste de amplificação de ácido nucleico positivo para C. trachomatis no local sintomático

Os testes de amplificação de ácido nucleico apresentam maior sensibilidade do que métodos antigos, como cultura e sorologia. Portanto, quando o paciente apresenta sintomas retais, o profissional deve coletar uma amostra retal. Da mesma forma, lesões genitais, uretrais ou cervicais exigem coleta no sítio correspondente.

A sorologia para clamídia pode apresentar títulos elevados em infecções invasivas. Contudo, ela não diferencia com segurança uma infecção atual de uma exposição anterior. Além disso, variações entre métodos laboratoriais limitam sua utilidade. Por isso, o médico não deve usar a sorologia isoladamente para confirmar ou excluir LGV.

Quando o paciente apresenta bubão flutuante, o profissional pode aspirar o conteúdo com agulha e encaminhar a amostra para análise. Esse procedimento também pode aliviar a dor e reduzir o risco de ruptura espontânea. Entretanto, a incisão ampla e a drenagem cirúrgica rotineira podem favorecer a formação de fístulas; assim, o médico deve avaliar cada caso com cautela.

Quais diagnósticos diferenciais devem entrar na avaliação?

Como o LGV apresenta manifestações variadas, o raciocínio clínico deve incluir outras causas de úlceras, adenopatia e proctite. Além disso, a coinfecção pode ocorrer, portanto, a identificação de outro agente não exclui automaticamente o LGV.

Os principais diagnósticos diferenciais incluem:

  • Sífilis
  • Herpes genital
  • Cancroide
  • Donovanose
  • Infecção por variantes não invasivas de C. trachomatis
  • Gonorreia
  • Mpox
  • Proctite por vírus herpes simples
  • Doença inflamatória intestinal
  • Neoplasia anorretal
  • Tuberculose ganglionar
  • Linfoma
  • Infecções bacterianas de pele e tecidos moles

Além disso, o profissional deve oferecer testes para HIV, sífilis, gonorreia e outras ISTs conforme a exposição relatada. Essa abordagem identifica coinfecções e permite que a equipe organize prevenção, tratamento e acompanhamento de forma integrada.

Qual é o tratamento do linfogranuloma venéreo?

O esquema preferencial utiliza doxiciclina 100 mg por via oral, duas vezes ao dia, durante 21 dias. Esse regime apresenta alta taxa de cura clínica e microbiológica. Além disso, a duração de três semanas busca tratar a infecção invasiva nos tecidos e linfonodos, não apenas a infecção epitelial por clamídia.

O médico deve iniciar o tratamento de forma presuntiva quando o paciente apresentar síndrome clínica compatível, principalmente diante de proctocolite, úlcera genital acompanhada de linfadenopatia importante ou bubão. Dessa maneira, a equipe não precisa aguardar a genotipagem para controlar a infecção e reduzir o risco de complicações.

Como alternativas, algumas diretrizes consideram azitromicina ou eritromicina em situações específicas. Entretanto, os estudos sustentam com maior consistência o uso da doxiciclina por 21 dias. Portanto, condições como gestação, lactação, intolerância medicamentosa, interações ou contraindicações exigem avaliação individual e consulta ao protocolo clínico vigente.

Durante o tratamento, o profissional também deve orientar o paciente sobre adesão. Afinal, interrupções podem favorecer persistência dos sintomas e falha terapêutica. Além disso, o desaparecimento precoce da dor ou da secreção não significa que o paciente já concluiu o tratamento.

O manejo dos bubões pode exigir aspiração por agulha. Em algumas situações, o médico precisa repetir o procedimento para evitar ruptura espontânea. Contudo, o antibiótico continua como base do tratamento, pois a drenagem isolada não elimina a infecção.

Como conduzir o acompanhamento?

O médico deve acompanhar o paciente até que os sinais e os sintomas desapareçam. Embora a melhora clínica possa começar nos primeiros dias, adenopatias volumosas e alterações anorretais podem levar mais tempo para regredir.

Caso os sintomas persistam, o profissional deve avaliar:

  • Adesão ao esquema prescrito
  • Reexposição sexual
  • Coinfecção por outro agente
  • Presença de abscesso
  • Desenvolvimento de fístula ou estenose
  • Diagnóstico diferencial não infeccioso
  • Necessidade de avaliação cirúrgica ou coloproctológica

Além disso, pessoas tratadas por infecção por clamídia apresentam risco de reinfecção. Por esse motivo, protocolos clínicos recomendam nova testagem após o tratamento, frequentemente em torno de três meses, conforme o perfil clínico e epidemiológico.

Como manejar as parcerias sexuais?

A abordagem das parcerias reduz a reinfecção e interrompe novas cadeias de transmissão. Portanto, o paciente deve informar as pessoas com quem manteve contato sexual durante os 60 dias anteriores ao início dos sintomas ou ao diagnóstico.

Essas parcerias precisam receber avaliação clínica e testes para clamídia e outras ISTs. Quando não apresentam sinais de LGV, muitos protocolos recomendam tratamento para infecção por clamídia conforme o esquema destinado à forma não complicada. Entretanto, uma parceria com sintomas compatíveis com LGV precisa receber o esquema prolongado e investigação direcionada.

Além disso, o paciente e suas parcerias devem evitar relações sexuais até que todos concluam o tratamento e os sintomas desapareçam. Posteriormente, o uso de preservativos e barreiras durante práticas sexuais reduz o risco de novas infecções, embora não elimine completamente a possibilidade de transmissão por áreas não cobertas.

Quando suspeitar de LGV na prática clínica?

O profissional deve considerar o diagnóstico diante de:

  • Proctite ou proctocolite acompanhada de dor, tenesmo, secreção ou sangramento
  • Teste retal positivo para C. trachomatis associado a sintomas intensos
  • Linfadenopatia inguinal ou femoral dolorosa, principalmente unilateral
  • Bubão inguinal sem outra causa evidente
  • Úlcera genital transitória seguida de adenopatia
  • Proctite que simula doença inflamatória intestinal
  • Fístula, abscesso ou estenose anorretal sem explicação definida
  • História sexual compatível com exposição à clamídia

Em síntese, o LGV exige atenção porque pode produzir manifestações discretas no início e inflamação importante nas fases seguintes. Além disso, a apresentação anorretal pode levar o médico a investigar inicialmente doenças gastrointestinais. Portanto, uma história sexual acolhedora, sem julgamentos e clinicamente detalhada melhora a precisão diagnóstica.

Por fim, o tratamento precoce com doxiciclina durante 21 dias costuma alcançar excelente resposta. Ao mesmo tempo, a avaliação de outras ISTs, o manejo das parcerias e o seguimento clínico reduzem a transmissão, a reinfecção e as complicações tardias.

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