A Klebsiella Pneumoniae é um bastonete gram-negativo, aeróbia facultativa, ou seja, produz ATP pela sua respiração com oxigênio, mas consegue mudar para fermentação se não houver oxigênio. Apesar do sobrenome Pneumoniae, ela não causa apenas pneumonia, graças a sua capacidade de mudar o tipo de respiração celular, ela também consegue infectar outros tecidos que possuem pouco/ausência de oxigênio, como exemplo infecções gastrointestinais e necrose de tecidos. A pneumonia causada pela Klebsiella é rara, mas é grave, normalmente a pneumonia é nosocomial.
Infecções por Klebsiella vs outras bactérias
Você deve estar se perguntando, “Como eu diferencio clinicamente a infecção causada pela Klebsiella por outras bactérias?”, começando pela história, sabemos que a Klebsiella está no grupos de bactérias causadores de infeções nosocomiais, podemos então suspeitar de infecções por Klebsiella ou outras bactérias nosocomiais em pacientes que estão internados há pelo menos 48h, paciente que começaram a piorar seu quadro inicial e/ou apresentam sintomas diferentes do quadro inicial.
Vamos ver alguns fatores que levam a suspeita de infecção por Klebsiella;
- Klebsiella pneumonie é causa comum de pneumonia em alcoólatras (40 a 60 anos), usualmente com higiene oral precária.
- Klebsiella pneumonie é a principal bactéria Gram-negativa causadora de pneumonia, ou seja, durante a coloração de escarro em adultos, com resultado indicando para bactérias gram negativas pode ser um forte indício para infecção por Klebsiella.
- Na forma aguda, a característica principal é a distribuição lobar das lesões, com envolvimento de mais de um lobo, resultando em pulmão consolidado.


- Realização de procedimentos invasivos (cateter venoso central, sonda vesical de demora e ventilação mecânica).
- À prescrição de antimicrobianos e ao próprio ambiente, que favorece a seleção natural de microrganismos.
Aqui estão alguns critérios para pneumonia associada aos cuidados da saúde:
| Hospitalização por ≥ 2 dias durante os 90 dias anteriores. |
| Residência num lar de idosos ou instalações de cuidados estendidos. |
| Uso longo de terapia endovenoso, incluindo antibióticos. |
| Hemodiálise nos últimos 30 dias. |
| Início de tratamento de feridas. |
| Membro da família com patógeno multirresistente. |
| Doença ou terapia imunossupressora. |
| Uso de antibióticos nos últimos 90 dias. |
| Incapacidade de deambulação e alimentação por tubo ou uso de agentes supressores de ácido gástricos. |
Dados?

Para que possamos suspeitar de infecções por Klebsiella, temos que saber a prevalência dela, entre alguns dados que achei, a distribuição das topografias das infecções por Klebsiella pneumoniae em UTI de adultos foi uma das mais interessantes, que nos ajuda a entender aonde a Klebsiella tem intenção de se “hospedar”.
Esse é um estudo que determina a prevalência de infecção hospitalar pela bactéria Klebsiella pneumoniae na Unidade de Terapia Intensiva de adulto de um hospital público de ensino, Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus no período de 2012 a 2013.
| Topografia | % |
| Respiratória/ lavado traqueal | 34,09 |
| Sistêmica (hemocultura) | 29,55 |
| Urinária | 18,18 |
| Ponta de cateter venoso central | 11,36 |
| Ferida operatória | 4,55 |
| Swab de região cervical | 2,27 |
| Total | 100 |
Distribuição das topografias das infecções por Klebsiella pneumoniae em UTI de adultos, durante 2012 e 2013, no Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, Juiz de Fora, Minas Gerais. Com um total de 44 pacientes.
Percebemos que o sobrenome Pneumoniae da Klebsiella não é à toa, pois ela possui um tropismo pelo sistema respiratório, claro, pois sua respiração é aeróbia, mas o estudo apontou uma coisa muito interessante, a segundo lugar onde foi mais comum de encontrar a Klebsiella foi no sangue, ou seja, a infecção sistêmica da Klebsiella pode causar falência circulatória, não é à toa que em outro estudo com 54 pacientes mostrou uma taxa de mortalidade total intra-hospitalar de 100% em pacientes infectados pela Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase.
“O fluxo sanguíneo dos rins é extremamente volumoso – 1.100 ml/min”, diz o livro de fisiologia, então, com essa pequena informação, poderíamos presumir que, se a Klebsiella se encontra no sangue, ela provavelmente também poderá infectar outros órgãos, Certo? CORRETO, também foram isolados a Klebsiella nas vias urinárias podendo causar uma pielonefrite ou abscesso renal.
Seguindo essa mesma linha de pensamento, o fluxo sanguíneo para o fígado é de 1.350 ml/min, portanto, apesar do estudo do estudo anterior não ter mostrado dados sobre infecções hepáticas da Klebsiella, ela acontece, vamos observar a seguir um caso clínico que foi abreviado:
Caso clínico

Agricultor, 50 anos, é levado ao pronto-socorro devido a sintomas clínicos cinco dias de febre não quantificada, dor de cabeça frontal, mialgia, dor no quadrante superior direito e fezes diarreicas, com intensificação dos sintomas e presença de alterações estado de consciência e vômito. No momento da admissão encontra-se em condições gerais regulares, sonolento, pressão arterial de 100/60 mmHg, frequência frequência cardíaca 110 batimentos por minuto, frequência respiratória 20 respirações por minuto, temperatura 39,5 ° C, pálido generalizado, cavidade oral com membranas mucosas secas sem lesões, pescoço rígido sem linfadenopatia, abdômen mole, sensível à palpação no quadrante superior direito, com hepatomegalia grau I. Alerta, parcialmente orientado pessoalmente, desorientado no tempo e espaço, com mobilização de suas quatro extremidades, sem alteração motora ou sensorial, com sinais de Babinski e Brudzinski. Ele foi hospitalizado com uma impressão diagnóstica de meningite e começou antibioticoterapia empírica com vancomicina 1 grama a cada 12 horas, ceftriaxona 2 gramas a cada 12 horas e dexametasona 6 miligramas a cada seis horas. Se trata de um paciente com abscesso hepático causado pela Klebsiella.
Tratamento
É importante termos a cultura e antibiograma do paciente para que possamos escolher o melhor esquema terapêutico para o paciente, pois a resistência bacteriana aos antibióticos pode variar de acordo com o hospital, no próximo quadro iremos ver o perfil de sensibilidade microbiano em um hospital, entre os mais comuns estão:
Perfil de sensibilidade bacteriana na UTI em adultos
| Antimicrobiano | % | Antimicrobiano | % | Antimicrobiano | % |
| Amicacina | 44% | Ceftazidima | 29,55% | Piper./Tazobac | 15,90% |
| Amp/Sulbactam | 13,64% | Ceftriaxona | 20,45% | Norfloxacina | 2,27% |
| Aztreonam | 34,10% | Ciprofloxacina | 25% | Polimixina B | 6,82% |
| Cefalotina | 18,18% | Gentamicina | 54,55% | Amox/Ac.Clav | 2,27% |
| Cefepime | 45,45% | Imipenem | 81,81% | Nitrofurantoína | 2,27% |
| Cefoxitina | 38,64% | Meropenem | 45,45% | Sulfazotrim | 20,45% |
Epílogo
Com base a análise que tivemos em alguns hospital, em algumas literaturas e artigos, chegamos a simples conclusão que a Klebsiella Pneumoniae é uma bactéria assombrosa, com capacidade de infectar diversos órgão, principalmente os pulmões, fígado ou rins, e por encontrar em ambiente hospitalar a torna ainda mais perigosa, já que pode desenvolver resistência a antibióticos de amplo espectro. Isso nos alerta sobre o aumento de resistência bacteriana ao nosso arsenal de antibiótico. A resistência apresentada por essa bactéria a antimicrobianos nos últimos anos se tornou um problema de saúde pública e preocupação em todos os campos da saúde
A investigação de infecção pela Klebsiella deve ser ampla, deve começar desde história de internação hospitalar no último mês à idade ou a comorbidades, como pacientes alcoólatras, que já sabemos que é a principal causadora de Pneumonia por gram negativos em pacientes entre 40 – 60 anos ou até mesmo pacientes diabéticos que possuem um risco 3,6 vezes superior, especialmente em pacientes com controle glicêmico deficiente, que apresentam alterações na fagocitose de neutrófilos para Klebsiella, especificamente genótipos K1 e K2.
Autor: João Victor Pinheiro Maia
Instagram: @jaovictorpinheiro
Patologia, Bogliolo – 9. edição – 2016
TADEU VELASCO, Ireneu. Medicina de emergência USP. 14ª ed. Manoele, 2020.
Klebsiella pneumonia. https://radiopaedia.org/cases/klebsiella-pneumonia-1?lang=us
Prevalência de infecção hospitalar pela bactéria do gênero klebsiella em uma Unidade de Terapia Intensiva. http://files.bvs.br/upload/S/1679-1010/2015/v13n2/a4740.pdf
Fatores associados à infecção e mortalidade por enterobactérias produtoras de Klebsiella pneumoniae carbapenemase em uma unidade de terapia intensiva em Teresina, Piauí. https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/37714
Abscesos renales y peri-renales: análisis de 44 casos. https://scielo.conicyt.cl/pdf/rci/v26n5/art09.pdf
Absceso hepático por Klebsiella pneumoniae, asociado con bacteriemia y meningitis. Reporte de un caso. http://www.scielo.org.pe/pdf/amp/v33n1/a12v33n1.pdf
Parte II – Pneumonia nosocomial. https://cdn.publisher.gn1.link/jornaldepneumologia.com.br/pdf/Suple_165_53_2cons_pn_imuno_2001_02a.pdf#:~:text=A%20pneumonia%20nosocomial%20%C3%A9%20definida,72h%20ap%C3%B3s%20a%20alta%20hospitalar.