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Endocrinologia

Vitamina D (25-OH-vitamina D): Interpretação Clínica e Indicações

A dosagem de 25-hidroxivitamina D (25-OH-vitamina D) é o exame padrão-ouro para avaliação do status de vitamina D no organismo, refletindo a soma da vitamina D sintetizada na pele pela exposição solar e da ingerida pela dieta. A vitamina D, na sua forma ativa (1,25-di-hidroxivitamina D), é um hormônio esteroide essencial para a homeostase do cálcio e fósforo, mineralização óssea, modulação do sistema imunológico e função muscular. Clinicamente, a deficiência de vitamina D está associada a osteomalácia, raquitismo, osteoporose, aumento do risco de quedas e fraturas, além de possíveis implicações em doenças autoimunes, cardiovasculares e metabólicas. O exame é indicado para rastreio e diagnóstico de deficiência/insuficiência em populações de risco, como idosos, gestantes, pacientes com osteoporose, doenças inflamatórias intestinais, insuficiência renal crônica e obesidade. Também conhecido como 25-OH-D, calcidiol ou 25-hidroxicolecalciferol.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou tubo com gel separador
Resultado em
24–48 horas (métodos de quimioluminescência ou ELISA)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Endocrinologia / Reumatologia / Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de osteoporose ou osteopenia em pacientes com fatores de risco (idade avançada, história de fratura por fragilidade, uso crônico de corticoides) CID M81.0
  • Avaliação de dor óssea difusa, fraqueza muscular proximal e suspeita de osteomalácia em adultos CID M83.8
  • Investigação de raquitismo em crianças com atraso no crescimento, deformidades ósseas (genu valgo, rosário raquítico) e hipocalcemia CID E55.0
  • Monitoramento de pacientes em terapia de reposição de vitamina D (suplementação oral ou parenteral) CID Z51.8
  • Avaliação de pacientes com doenças malabsortivas (doença celíaca, doença de Crohn, bypass gástrico) que comprometem a absorção intestinal de vitamina D CID K90.0
  • Rastreio em pacientes com insuficiência renal crônica (estágios 3–5) devido à redução da conversão renal para a forma ativa CID N18.9
  • Investigação de hipocalcemia persistente ou hiperparatireoidismo secundário CID E20.9
  • Avaliação de pacientes com obesidade mórbida (IMC ≥ 40 kg/m²) devido ao sequestro da vitamina D no tecido adiposo CID E66.01
  • Monitoramento de gestantes e lactantes com risco de deficiência (baixa exposição solar, dieta restritiva) CID O99.8
  • Investigação de pacientes com doenças autoimunes (lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide) e evidências de associação com baixos níveis de vitamina D CID M32.9

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise intensa — interfere na dosagem por alteração da matriz do soro, podendo causar resultados falsamente reduzidos
  • Lipemia acentuada — interfere na leitura espectrofotométrica, causando resultados falsamente elevados; recomenda-se ultracentrifugação ou diluição
  • Icterícia grave (bilirrubina > 20 mg/dL) — pode interferir em métodos colorimétricos, levando a resultados falsamente baixos
  • Exposição prolongada da amostra à luz — degradação fotoquímica da vitamina D, resultando em valores falsamente reduzidos; proteger do luz
  • Uso de tubo com heparina — anticoagulante pode interferir em alguns métodos imunoenzimáticos; preferir soro

Valores de Referência

Valores de referência do Vitamina D (25-OH-vitamina D)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
25-OH-vitamina D≥ 20 ng/mL (suficiência); 12–19 ng/mL (insuficiência); < 12 ng/mL (deficiência)≥ 20 ng/mL (suficiência); 12–19 ng/mL (insuficiência); < 12 ng/mL (deficiência)≥ 20 ng/mL (suficiência); 12–19 ng/mL (insuficiência); < 12 ng/mL (deficiência) — mesma faixa de adultosng/mL (conversão para nmol/L: multiplicar por 2,496)

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Vitamina D (25-OH-vitamina D)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Deficiência grave (< 12 ng/mL)Associada a risco aumentado de osteomalácia, raquitismo, miopatia proximal, hiperparatireoidismo secundário e fraturas por fragilidade Iniciar reposição com doses altas de vitamina D (ex: colecalciferol 50.000 UI/semana por 8 semanas), reavaliar após 3 meses, investigar causas (baixa exposição solar, má absorção)
Insuficiência (12–19 ng/mL)Estado subótimo com risco moderado de complicações ósseas e metabólicas, comum na população geral Suplementação com doses moderadas (ex: colecalciferol 2.000–4.000 UI/dia), orientar aumento de exposição solar segura, reavaliar após 3–6 meses
Suficiência (20–30 ng/mL)Nível adequado para a maioria das funções fisiológicas, incluindo saúde óssea Manutenção com doses preventivas (600–800 UI/dia em adultos, 400 UI/dia em crianças), reavaliar anualmente em grupos de risco
Níveis acima do ideal (31–100 ng/mL)Considerado adequado, mas acima do necessário; alguns guidelines sugerem ótimo entre 30–50 ng/mL para benefícios extrasqueléticos Manter suplementação em doses baixas ou apenas dieta/exposição solar, monitorar anualmente
Excesso (> 100 ng/mL)Risco de toxicidade (hipervitaminose D) com hipercalcemia, nefrocalcinose, calcificações teciduais Suspender suplementação, investigar ingestão excessiva ou doenças granulomatosas, solicitar cálcio sérico e urinário, PTH
Deficiência com PTH normalPode indicar deficiência recente ou resistência à ação do PTH; também comum em idosos com resposta paratireoidiana diminuída Repor vitamina D mesmo com PTH normal, monitorar resposta do PTH após correção
Níveis adequados com hipercalcemiaSugere outras causas de hipercalcemia (hiperparatireoidismo primário, neoplasias, sarcoidose) ou intoxicação por vitamina D de fontes exógenas Investigar PTH, eletroforese de proteínas, radiografias, dosar 1,25-di-hidroxivitamina D se suspeita de doenças granulomatosas

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Vitamina D (25-OH-vitamina D)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Deficiência de vitamina D com hiperparatireoidismo secundárioDeficiência nutricional, má absorção, insuficiência renalCálcio sérico e urinário, fósforo, creatinina-ureia, TFG, anticorpos antitransglutaminaseEndocrinologia / Nefrologia
Deficiência de vitamina D com hipocalcemiaOsteomalácia, raquitismo, hipoparatireoidismoPTH, fósforo, fosfatase alcalina, radiografias ósseasEndocrinologia / Reumatologia
Deficiência de vitamina D com dor óssea difusaOsteomalácia, metástases ósseas, mieloma múltiploEletroforese de proteínas, marcadores de turnover ósseo (fosfatase alcalina óssea), cintilografia ósseaReumatologia / Ortopedia
Deficiência de vitamina D em paciente obesoSequestro no tecido adiposo, baixa ingestão, pouca exposição solarPerfil lipídico, glicemia, insulina, HOMA-IREndocrinologia
Excesso de vitamina D com hipercalcemiaIntoxicação por suplementos, hiperparatireoidismo primário, neoplasias, sarcoidosePTH, 1,25-di-hidroxivitamina D, radiografia de tórax, angiotomografia de paratireoidesEndocrinologia / Nefrologia

Medicamentos e Interferentes

  • Anticonvulsivantes (fenitoína, carbamazepina) — induzem enzimas hepáticas CYP450, aumentando metabolismo da vitamina D para formas inativas; reduz níveis séricos
  • Corticoides (prednisona, dexametasona) — antagonizam ação da vitamina D no intestino e osso, aumentando excreção renal de cálcio; reduzem níveis e efeito
  • Antirretrovirais (efavirenz) — induzem CYP2B6, aumentando metabolismo; reduz níveis séricos
  • Colestiramina — sequestra vitamina D no intestino, reduzindo absorção; reduz níveis séricos
  • Orlistat — reduz absorção de vitaminas lipossolúveis; reduz níveis séricos
  • Suplementos de vitamina D — elevam níveis séricos; monitorar para evitar toxicidade

Contextos Clínicos Especiais

Idoso

Apresenta redução da síntese cutânea (até 75% menor), menor ingestão alimentar, menor exposição solar e possível comprometimento da conversão renal. A deficiência está associada a maior risco de quedas, fraturas e sarcopenia. Recomenda-se dosagem anual e suplementação com 800–2.000 UI/dia, conforme guidelines da SBEM.

Gestante

A deficiência materna está associada a maior risco de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, parto prematuro e baixo peso ao nascer. A vitamina D cruza a placenta e é essencial para desenvolvimento esquelético fetal. Recomenda-se dosagem no primeiro trimestre e suplementação com 600–2.000 UI/dia, mantendo níveis > 20 ng/mL.

Criança

A deficiência causa raquitismo, com deformidades ósseas, atraso no crescimento e hipocalcemia. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda suplementação de 400 UI/dia desde a primeira semana de vida até 1 ano, e 600 UI/dia após, com dosagem em grupos de risco (pele escura, pouca exposição solar).

Obeso

Pacientes com IMC ≥ 30 kg/m² têm maior prevalência de deficiência devido ao sequestro da vitamina D no tecido adiposo e menor exposição solar. Necessitam de doses 2–3 vezes maiores para alcançar níveis adequados (ex: 4.000–6.000 UI/dia), com monitoramento rigoroso.

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Posicionamento Oficial SBEM – Deficiência de Vitamina D. 2018.
  2. Holick MF. Vitamin D deficiency. N Engl J Med. 2007;357(3):266-81.
  3. Institute of Medicine (US) Committee to Review Dietary Reference Intakes for Vitamin D and Calcium. Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D. Washington (DC): National Academies Press; 2011.
  4. Bouillon R, Marcocci C, Carmeliet G, et al. Skeletal and extraskeletal actions of vitamin D: current evidence and outstanding questions. Endocr Rev. 2019;40(4):1109-51.
  5. Pereira-Santos M, Costa PR, Assis AM, Santos CA, Santos DB. Obesity and vitamin D deficiency: a systematic review and meta-analysis. Obes Rev. 2015;16(4):341-9.

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