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Hematologia

TP/INR (Tempo de protrombina): Interpretação Clínica e Indicações

O TP (Tempo de Protrombina) e seu derivado INR (International Normalized Ratio) são exames fundamentais na avaliação da via extrínseca e comum da coagulação. O TP mede o tempo necessário para a formação do coágulo após ativação do fator tissular, refletindo a atividade dos fatores II, V, VII e X, além do fibrinogênio. O INR é um cálculo padronizado que corrige a variação entre reagentes e métodos laboratoriais, tornando-se o parâmetro universal para monitoramento da anticoagulação oral com antagonistas da vitamina K (varfarina, fenprocumom). Clinicamente, é indispensável para ajuste de dose em pacientes com fibrilação atrial, trombose venosa profunda, próteses valvares mecânicas e investigação de coagulopatias adquiridas como deficiência de vitamina K, doença hepática ou coagulação intravascular disseminada. Também conhecido como tempo de Quick, seu uso é rotineiro em serviços de urgência, pré-operatório e ambulatórios de hematologia.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo com citrato de sódio 3,2% (tampa azul)
Resultado em
1–2 horas (urgência: 30–60 minutos)
Código TUSS
40322241
Especialidade
Hematologia / Clínica Médica / Cardiologia

Quando solicitar este exame?

  • Monitoramento da anticoagulação oral com varfarina ou fenprocumom em pacientes com fibrilação atrial não valvar CID I48
  • Controle terapêutico após trombose venosa profunda ou embolia pulmonar em tratamento com antagonistas da vitamina K CID I26
  • Acompanhamento de pacientes com próteses valvares mecânicas (mitral, aórtica) em uso de anticoagulantes orais CID Z95.2
  • Investigação de sangramento espontâneo ou prolongado com suspeita de coagulopatia adquirida CID R58
  • Avaliação pré-operatória de risco hemorrágico em pacientes com história de doença hepática ou desnutrição CID K74
  • Diagnóstico de deficiência de vitamina K em recém-nascidos (doença hemorrágica do recém-nascido) ou adultos com má absorção CID E56.1
  • Triagem de coagulopatia em pacientes com icterícia colestática ou obstrução biliar CID K83.1
  • Monitoramento de reversão de anticoagulação com vitamina K ou concentrado de complexo protrombínico em sangramento grave CID D68.4
  • Avaliação de pacientes em uso crônico de antibióticos de amplo espectro com risco de sobrecrescimento bacteriano e deficiência de vitamina K CID K90.8
  • Investigação de coagulação intravascular disseminada em sepse, neoplasias ou complicações obstétricas CID D65

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Coleta com volume insuficiente de sangue — altera a proporção sangue:citrato, causando prolongamento artificial do TP; a amostra deve ser descartada
  • Heparina contaminante — interfere diretamente na via comum da coagulação, elevando o TP; usar tubo com citrato e evitar coleta de cateteres heparinizados
  • Hemólise intensa — libera fatores tissulares e fosfolipídios das hemácias, podendo encurtar o TP; a amostra deve ser rejeitada
  • Lipemia acentuada — interfere na leitura óptica do coagulômetro, causando resultados imprecisos; requer centrifugação ou diluição
  • Tempo de estase venosa prolongado — causa hemoconcentração e ativação parcial da coagulação, alterando os resultados; coletar com estase mínima

Valores de Referência

Valores de referência do TP/INR (Tempo de protrombina)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
TP (Tempo de Protrombina)10–14 segundos10–14 segundos10–14 segundos (acima de 1 ano)segundos
INR (International Normalized Ratio)0,9–1,20,9–1,20,9–1,2 (acima de 1 ano)razão

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do TP/INR (Tempo de protrombina)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
INR entre 2,0 e 3,0Alvo terapêutico para maioria das indicações (fibrilação atrial, TVP, embolia pulmonar) Manter dose atual do anticoagulante oral; reavaliar em 4 semanas ou conforme protocolo
INR entre 3,0 e 4,5Supra-terapêutico, aumento moderado do risco hemorrágico Reduzir dose do anticoagulante ou omitir uma dose; reavaliar INR em 3–7 dias
INR > 4,5Supra-terapêutico significativo, alto risco de sangramento Suspender anticoagulante; considerar vitamina K oral 1–2,5 mg se sem sangramento ativo; reavaliar INR em 24–48 horas
INR < 1,5 em paciente anticoaguladoSub-terapêutico, risco aumentado de eventos tromboembólicos Aumentar dose do anticoagulante conforme algoritmo; investigar interações medicamentosas ou dieta rica em vitamina K
TP prolongado com INR normalSugere deficiência isolada de fator VII ou uso de reagente com ISI baixo
TP e TTPA prolongadosDeficiência de múltiplos fatores (via comum), como doença hepática, CIVD ou deficiência de vitamina K Solicitar fibrinogênio, D-dímero, dosagem de vitamina K e avaliação hepática

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para TP/INR (Tempo de protrombina)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
TP prolongado, TTPA normalDeficiência isolada de fator VII, uso inicial de varfarina (primeiro fator a cair), deficiência de vitamina K leveDosagem de fator VII, pesquisa de anticoagulante lúpico, vitamina K séricaHematologia
TP e TTPA prolongadosDoença hepática avançada, CIVD, deficiência grave de vitamina K, anticoagulação com heparinaFibrinogênio, D-dímero, painel hepático, tempo de trombinaHematologia / Clínica Médica
TP prolongado com sangramento ativoIntoxicação por superwarfarinas, coagulopatia adquirida, deficiência grave de fatoresDosagem de fatores II, VII, IX, X, pesquisa de rodenticidas na urinaHematologia / Toxicologia
TP prolongado sem sangramentoAnticorpos antifosfolipídios (lúpus anticoagulante), deficiência congênita de fatores, interferência pré-analíticaTeste de confirmação para lúpus anticoagulante, dosagem de fatores, repetição da coletaHematologia / Reumatologia
TP normal com história de tromboseTrombofilia (fator V Leiden, mutação da protrombina), deficiência de antitrombina, proteína C ou SPesquisa de trombofilias hereditárias, dosagem de inibidores naturaisHematologia

Medicamentos e Interferentes

  • Varfarina/fenprocumom — inibem a vitamina K epóxido redutase, reduzindo síntese de fatores II, VII, IX, X; eleva TP/INR
  • Heparina não fracionada — inibe trombina e fator Xa, prolonga TP em doses altas; eleva TP
  • Antibióticos de amplo espectro (cefalosporinas, metronidazol) — reduzem flora intestinal produtora de vitamina K; elevam TP/INR
  • Amiodarona, fluconazol, metronidazol — inibem metabolismo hepático da varfarina; elevam TP/INR
  • Fenitoína, carbamazepina — induzem enzimas hepáticas, aumentam metabolismo da varfarina; reduzem TP/INR
  • Vitamina K (suplementos, dieta rica em folhas verdes) — antagoniza efeito da varfarina; reduz TP/INR
  • Contraceptivos orais — aumentam síntese hepática de fatores da coagulação; reduzem TP

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

Na gestação, há aumento fisiológico dos fatores da coagulação, com tendência a encurtamento do TP. O INR pode ficar abaixo de 0,9 sem significar hipercoagulabilidade patológica. Para gestantes com próteses valvares mecânicas, o alvo terapêutico é mantido (INR 2,5–3,5 para mitral), com monitoramento frequente devido a alterações farmacocinéticas. Heparina de baixo peso molecular é preferida no primeiro trimestre e periparto para evitar teratogenicidade da varfarina.

Idoso

Idosos apresentam maior sensibilidade à varfarina devido a redução do clearance hepático, menor volume de distribuição e polifarmácia. O risco hemorrágico é 2–4 vezes maior que em adultos jovens. Recomenda-se alvo terapêutico mais baixo (INR 1,8–2,5 para fibrilação atrial) e monitoramento mais frequente. Atenção a interações com medicamentos comuns nessa faixa (amiodarona, AINEs, antibióticos).

Criança

Valores de referência são semelhantes aos adultos após o primeiro ano de vida. Recém-nascidos têm TP prolongado fisiológico (até 20 segundos) devido à imaturidade hepática e deficiência de vitamina K. A doença hemorrágica do recém-nascido (por deficiência de vitamina K) manifesta-se com TP muito prolongado e sangramento. Profilaxia com vitamina K intramuscular ao nascimento é padrão. Crianças em anticoagulação exigem ajuste frequente devido a mudanças de peso e metabolismo.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...
  • Se TP prolongado com suspeita de coagulação intravascular disseminada D-dímero

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial. Arq Bras Cardiol. 2021;116(1):160-220. 10.36660/abc.20210113
  2. Kearon C, et al. Antithrombotic Therapy for VTE Disease: CHEST Guideline and Expert Panel Report. Chest. 2016;149(2):315-352. 10.1016/j.chest.2015.11.026
  3. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial. Recomendações da SBPC/ML: Coagulograma. 2019.
  4. Ansell J, et al. Pharmacology and Management of the Vitamin K Antagonists: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines (8th Edition). Chest. 2008;133(6 Suppl):160S-198S. 10.1378/chest.08-0670
  5. Hoffman R, et al. Hematology: Basic Principles and Practice. 7th ed. Elsevier; 2018.

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