Testosterona total e livre: Interpretação Clínica e Indicações
A testosterona total e livre são exames fundamentais na avaliação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, essenciais para o diagnóstico de hipogonadismo masculino e hiperandrogenismo feminino. A testosterona total representa a fração circulante ligada a proteínas (SHBG e albumina) e livre, enquanto a testosterona livre corresponde à fração biologicamente ativa, não ligada. Clinicamente, são indicados para investigação de sintomas como diminuição da libido, disfunção erétil, fadiga, perda de massa muscular e osteoporose em homens, e hirsutismo, acne, alopecia e irregularidades menstruais em mulheres. A interpretação conjunta permite diferenciar causas primárias (testiculares/ovariana) de secundárias (hipofisárias/hipotalâmicas), guiando a conduta terapêutica. Sinônimos incluem dosagem de androgênios, hormônio sexual masculino e T total/livre.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de hipogonadismo masculino com sintomas de fadiga persistente, diminuição da libido e disfunção erétil CID E29
- Avaliação de infertilidade masculina com oligospermia ou azoospermia em espermograma CID N46
- Monitoramento de terapia de reposição hormonal com testosterona em hipogonadismo confirmado CID E29
- Investigação de hiperandrogenismo feminino com hirsutismo moderado a grave (escore de Ferriman-Gallwey > 8) CID E28
- Avaliação de síndrome dos ovários policísticos (SOP) com irregularidade menstrual e sinais de hiperandrogenismo CID E28
- Investigação de puberdade precoce em meninos com desenvolvimento de caracteres sexuais secundários antes dos 9 anos CID E30
- Avaliação de atraso puberal em adolescentes masculinos sem desenvolvimento testicular aos 14 anos CID E30
- Monitoramento de terapia antiandrogênica em câncer de próstata metastático CID C61
- Investigação de osteoporose em homens jovens sem fatores de risco secundários evidentes CID M81
- Avaliação de ginecomastia em homens adultos sem causa medicamentosa identificada CID N62
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Coleta fora do pico matinal (após 10h) — a testosterona tem variação circadiana, com pico ao amanhecer; coleta tardia pode subestimar valores em até 30%
- Hemólise moderada a grave — interfere na dosagem por quimioluminescência, podendo causar resultados falsamente reduzidos
- Lipemia intensa — pode interferir na leitura espectrofotométrica, especialmente em métodos de dosagem direta da testosterona livre
- Uso recente de biotina (> 5 mg/dia) — interfere em ensaios que utilizam estreptavidina-biotina, causando resultados falsamente elevados ou reduzidos
- Temperatura inadequada de transporte — amostras não refrigeradas podem degradar a testosterona, reduzindo valores em até 10% em 24 horas
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Testosterona total | 264–916 ng/dL | 15–70 ng/dL | < 10 ng/dL (pré-puberes) | ng/dL |
| Testosterona livre | 5,0–21,0 ng/dL | 0,1–0,6 ng/dL | < 0,5 ng/dL (pré-puberes) | ng/dL |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| Testosterona total baixa (< 264 ng/dL) com LH/FSH elevados | Sugere hipogonadismo primário (hipergonadotrófico), como em síndrome de Klinefelter, orquite viral ou quimioterapia | Solicitar cariótipo e dosagem de inibina B; encaminhar para endocrinologista |
| Testosterona total baixa (< 264 ng/dL) com LH/FSH normais ou baixos | Sugere hipogonadismo secundário (hipogonadotrófico), como em prolactinoma, síndrome de Kallmann ou obesidade grave | Solicitar ressonância magnética de hipófise e dosagem de prolactina |
| Testosterona total elevada (> 916 ng/dL) em homens | Pode indicar tumor produtor de androgênios (testicular ou adrenal), abuso de esteroides anabolizantes ou resistência androgênica | Solicitar ultrassom testicular e dosagem de DHEA-S; investigar uso de anabolizantes |
| Testosterona total elevada (> 70 ng/dL) em mulheres | Sugere hiperandrogenismo de origem ovariana (SOP) ou adrenal (tumores, HAC) | Solicitar dosagem de DHEA-S, 17-OH progesterona e ultrassom pélvico |
| Testosterona livre baixa com testosterona total normal | Indica aumento da SHBG, comum em idosos, hipotireoidismo, uso de anticoncepcionais ou hepatopatias | Dosar TSH, T4 livre e função hepática; considerar cálculo da testosterona livre por Vermeulen |
| Testosterona livre elevada com testosterona total normal | Sugere redução da SHBG, como em obesidade, síndrome metabólica, hipertireoidismo ou uso de glicocorticoides | Avaliar IMC, glicemia de jejum e perfil lipídico; dosar TSH |
| Testosterona total limítrofe (200–264 ng/dL) em homem sintomático | Zona cinzenta que requer confirmação com repetição do exame e avaliação clínica criteriosa | Repetir dosagem com coleta entre 7h e 9h; associar à escala de sintomas (AMS ou ADAM) |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| Testosterona total baixa com LH elevado | Hipogonadismo primário: Klinefelter, orquite, falência testicular pós-quimioterapia | Cariótipo, dosagem de inibina B, ultrassom testicular | Endocrinologia / Urologia |
| Testosterona total baixa com LH baixo/normal | Hipogonadismo secundário: prolactinoma, Kallmann, obesidade, hipopituitarismo | Ressonância magnética de hipófise, prolactina, FSH/LH, IGF1 | Endocrinologia |
| Testosterona total elevada em mulher com hirsutismo | SOP vs. hiperplasia adrenal congênita vs. tumor produtor de androgênios | DHEA-S, 17-OH progesterona, ultrassom pélvico, cortisol livre urinário | Endocrinologia / Ginecologia |
| Testosterona livre baixa com total normal em homem idoso | Aumento de SHBG por envelhecimento vs. hipotireoidismo vs. hepatopatia | TSH, T4 livre, albumina, provas de função hepática | Endocrinologia / Clínica Médica |
| Testosterona total limítrofe em homem jovem com infertilidade | Hipogonadismo subclínico vs. variação circadiana vs. coleta inadequada | Repetição com coleta matinal, espermograma, dosagem de estradiol | Urologia / Endocrinologia |
Medicamentos e Interferentes
- Anticoncepcionais hormonais combinados — aumentam a SHBG, reduzindo a testosterona livre; efeito: reduz testosterona livre
- Glicocorticoides (ex: prednisona) — suprimem o eixo hipotálamo-hipófise, reduzem a testosterona total; efeito: reduz testosterona total
- Espironolactona — antagonista de androgênios, compete pelos receptores; efeito: reduz efeito biológico da testosterona
- Finasterida/dutasterida — inibidores da 5-alfa-redutase, reduzem conversão em DHT; efeito: altera perfil androgênico sem mudar testosterona total
- Biotina em altas doses (> 5 mg/dia) — interfere em ensaios com estreptavidina; efeito: resultados falsamente elevados ou reduzidos
Contextos Clínicos Especiais
Idoso
No envelhecimento masculino, há declínio fisiológico da testosterona total e livre, com aumento da SHBG. Sintomas como fadiga e diminuição da libido devem ser diferenciados de outras comorbidades. O diagnóstico de hipogonadismo tardio requer valores consistentemente abaixo de 264 ng/dL associados a sintomas específicos. A terapia de reposição deve considerar riscos cardiovasculares e prostáticos.
Gestante
A testosterona total aumenta progressivamente na gestação, principalmente no terceiro trimestre, devido à produção placentária e aumento da SHBG. Valores podem ser 2–4 vezes maiores que os de referência para mulheres não grávidas. A dosagem rotineira não é indicada; suspeita de hiperandrogenismo deve ser avaliada com cautela, priorizando a clínica.
Criança
Em pré-púberes, a testosterona deve ser indetectável ou muito baixa. Valores elevados sugerem puberdade precoce ou tumor produtor de androgênios. A interpretação requer curva de crescimento e estadiamento de Tanner. Em adolescentes, os valores de referência variam conforme o estágio puberal, não devendo ser comparados com adultos.
Exames Relacionados
- Se hipogonadismo primário confirmado em homem jovem Cariótipo
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Os valores de referência para testosterona total em homens adultos são 264–916 ng/dL, conforme guidelines da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Valores abaixo de 264 ng/dL associados a sintomas característicos sugerem hipogonadismo. É fundamental considerar variações metodológicas entre laboratórios.
O diagnóstico de hipogonadismo requer testosterona total < 264 ng/dL em duas dosagens separadas, coletadas entre 7h e 10h, associada a sintomas como diminuição da libido, disfunção erétil, fadiga ou redução de massa muscular. Apenas a dosagem laboratorial sem sintomas não configura hipogonadismo.
Testosterona total elevada (> 70 ng/dL) em mulher sugere hiperandrogenismo, com principais causas sendo síndrome dos ovários policísticos (SOP), hiperplasia adrenal congênita ou tumores produtores de androgênios. Deve ser investigada com dosagem de DHEA-S, 17-OH progesterona e imagem pélvica/adrenal.
Testosterona livre baixa com total normal indica aumento da SHBG, comum em idosos, hipotireoidismo, uso de anticoncepcionais ou hepatopatias. A fração livre é a biologicamente ativa, portanto, pode justificar sintomas de hipogonadismo mesmo com total normal. Calcular por fórmula de Vermeulen ou dosar diretamente.
Solicitar testosterona livre quando houver suspeita clínica de hipogonadismo com testosterona total normal, especialmente em obesos, idosos ou pacientes com alterações de SHBG. Também é útil no monitoramento de terapia de reposição, para evitar dosagens suprafisiológicas. Na rotina, iniciar com total e calcular livre se necessário.
Não, a coleta de testosterona não requer jejum obrigatório. O fator crítico é o horário: deve ser coletada entre 7h e 10h devido ao ritmo circadiano, com pico ao amanhecer. Coletas tardias podem subestimar valores em até 30%, simulando falsamente hipogonadismo.
Na SOP, a testosterona está moderadamente elevada (geralmente 2. Na hiperplasia adrenal por deficiência de 21-hidroxilase, a testosterona pode estar similar, mas a 17-OH progesterona está marcadamente elevada (> 2 ng/mL). Dosar 17-OH progesterona e DHEA-S para diferenciação.
Não, testosterona total normal não exclui hipogonadismo se a testosterona livre estiver baixa (aumento de SHBG) ou se houver resistência androgênica. Além disso, valores limítrofes (200–264 ng/dL) em homem sintomático requerem repetição e avaliação clínica. O diagnóstico é clínico-laboratorial, não apenas laboratorial.
Referências
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Diretrizes Brasileiras de Hipogonadismo Masculino. São Paulo: SBEM; 2018.
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. 10.1210/jc.2018-00229
- Rotterdam ESHRE/ASRM-Sponsored PCOS Consensus Workshop Group. Revised 2003 consensus on diagnostic criteria and long-term health risks related to polycystic ovary syndrome (PCOS). Hum Reprod. 2004;19(1):41-47. 10.1093/humrep/deh098
- Khera M, Adaikan G, Buvat J, et al. Diagnosis and Treatment of Testosterone Deficiency: Recommendations From the Fourth International Consultation for Sexual Medicine (ICSM 2015). J Sex Med. 2016;13(12):1787-1804. 10.1016/j.jsxm.2016.10.009