FSH, LH e Estradiol: Interpretação Clínica e Indicações
O FSH (hormônio folículo-estimulante), o LH (hormônio luteinizante) e o estradiol são os pilares da avaliação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal feminino e masculino. O FSH estimula o crescimento folicular ovariano e a espermatogênese; o LH desencadeia a ovulação e estimula a produção de testosterona nas células de Leydig; o estradiol é o principal estrogênio feminino, produzido principalmente pelos folículos ovarianos. A análise conjunta dessas três dosagens permite caracterizar o estado funcional do eixo reprodutivo, distinguir causas centrais (hipogonadismo hipogonadotrófico) de causas primárias (hipogonadismo hipergonadotrófico), avaliar a reserva ovariana, diagnosticar a menopausa, investigar infertilidade e puberdade precoce ou tardia. O momento da coleta em relação à fase do ciclo menstrual é determinante para a correta interpretação dos resultados.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de infertilidade feminina e masculina CID N97
- Avaliação de amenorreia primária e secundária CID N91
- Diagnóstico de menopausa e climatério CID N95
- Investigação de síndrome dos ovários policísticos (SOP) CID E28
- Diagnóstico de puberdade precoce e puberdade tardia CID E30
- Avaliação de insuficiência ovariana prematura CID E28
- Monitoramento de estimulação ovariana em técnicas de reprodução assistida CID N97
- Investigação de hipogonadismo masculino CID E29
- Avaliação de galactorreia e hiperprolactinemia CID N64
- Diagnóstico diferencial de ginecomastia CID N62
- Monitoramento de tratamento com agonistas de GnRH CID E28
- Avaliação de sintomas climatéricos em mulheres jovens CID N95
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Anotar obrigatoriamente o dia do ciclo menstrual na requisição para interpretação correta dos resultados
- Informar uso de contraceptivos orais, injetáveis, adesivos ou dispositivos hormonais — suprimem o eixo e invalidam a interpretação basal
- Informar uso de análogos de GnRH (leuprolida, buserelina), que suprimem completamente FSH e LH
- Não é necessário jejum; evitar estresse físico intenso antes da coleta (altera LH pulsátil)
- Em homens, a coleta pode ser feita em qualquer horário, preferencialmente pela manhã
- Informar uso de clomifeno, letrozol, gonadotrofinas exógenas ou progesterona
- Amostras hemolisadas podem interferir nos imunoensaios de estradiol — repetir coleta se necessário
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| FSH | 1,5 – 12,4 mUI/mL | Fase folicular: 3,5–12,5; Pico ovulatório: 4,7–21,5; Fase lútea: 1,7–7,7; Pós-menopausa: 25,8–134,8 | Pré-púberes: <2,0; Púberes: variável por estágio de Tanner | mUI/mL |
| LH | 1,7 – 8,6 mUI/mL | Fase folicular: 2,4–12,6; Pico ovulatório: 14,0–95,6; Fase lútea: 1,0–11,4; Pós-menopausa: 7,7–58,5 | Pré-púberes: <0,3; Púberes: variável por estágio de Tanner | mUI/mL |
| Estradiol (E2) | 10 – 40 pg/mL | Fase folicular: 12,5–166; Pico ovulatório: 85,8–498; Fase lútea: 43,8–211; Pós-menopausa: <6–54,7 | Pré-púberes: <15 pg/mL | pg/mL |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| FSH ↑ + LH ↑ + Estradiol ↓ | Hipogonadismo hipergonadotrófico (falência ovariana primária) — insuficiência ovariana prematura ou menopausa | Confirmar com dosagem repetida; solicitar anti-TPO, cariótipo (se <40 anos); encaminhar para ginecologia/endocrinologia |
| FSH ↓ + LH ↓ + Estradiol ↓ | Hipogonadismo hipogonadotrófico — falha central (hipofisária ou hipotalâmica) | Solicitar prolactina, IGF-1, cortisol, RM de sela túrcica; descartar hiperprolactinemia e tumores hipofisários |
| FSH entre 10–25 mUI/mL (fase folicular D2–D5) | Reserva ovariana reduzida — menor número de folículos antrais, indicador prognóstico para FIV | Associar AMH e contagem de folículos antrais (CFA) por USG; orientar sobre fertilidade e urgência reprodutiva |
| LH/FSH ≥ 2–3 com anovulação e hiperandrogenismo | Padrão sugestivo de síndrome dos ovários policísticos (SOP) | Confirmar com critérios de Rotterdam; solicitar testosterona total, DHEA-S, 17-OH-progesterona, insulina/glicemia, USG pélvica |
| FSH e LH elevados com estradiol elevado em criança <8 anos (menina) ou <9 anos (menino) | Puberdade precoce central (gonadotrófico-dependente) | Solicitar RM de crânio; encaminhar à endocrinologia pediátrica; avaliar indicação de análogo de GnRH |
| FSH > 25 mUI/mL + estradiol < 20 pg/mL em mulher < 40 anos | Insuficiência ovariana prematura (IOP) — antes chamada de falência ovariana precoce | Confirmar com 2 dosagens com intervalo de 4 semanas; solicitar cariótipo, anti-TPO, FAN; encaminhar para tratamento e aconselhamento reprodutivo |
| Estradiol muito elevado (>500 pg/mL) fora do pico ovulatório | Tumor produtor de estrogênio, endometriose grave ou hiperstimulação ovariana | Solicitar AFP, CA-125, USG pélvica com Doppler; afastar síndrome de hiperestimulação ovariana em pacientes em RA |
| FSH, LH e estradiol normais com amenorreia | Amenorreia normogonadotrófica — descartar gravidez, SOP, distúrbios uterinos (síndrome de Asherman) | Solicitar beta-hCG, progesterona, USG pélvica e histerossalpingografia se indicado |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| FSH ↑↑, LH ↑, E2 ↓ | Menopausa, insuficiência ovariana prematura, síndrome de Turner | Cariótipo, anti-TPO, AMH, USG pélvica | Ginecologia, Endocrinologia |
| FSH ↓, LH ↓, E2 ↓, prolactina ↑ | Hiperprolactinemia, prolactinoma | Prolactina sérica, RM de sela túrcica | Endocrinologia, Neurocirurgia |
| FSH ↓, LH ↓, E2 ↓, prolactina normal | Síndrome de Kallmann, amenorreia hipotalâmica funcional, pan-hipopituitarismo | IGF-1, cortisol, TSH/T4L, RM crânio com gadolínio, teste de estimulação com GnRH | Endocrinologia |
| LH/FSH ≥ 2, testosterona ↑, oligomenorreia | Síndrome dos ovários policísticos (SOP) | Testosterona total e livre, DHEA-S, 17-OH-progesterona, insulina, USG pélvica | Ginecologia, Endocrinologia |
| FSH elevado em criança com caracteres sexuais secundários precoces | Puberdade precoce central | RM de crânio, IGF-1, idade óssea | Endocrinologia Pediátrica |
| LH pico ausente em monitoramento de ciclo | Anovulação, SOP, hiperprolactinemia, estresse | Progesterona na fase lútea, prolactina, USG folicular seriada | Ginecologia, Reprodução Humana |
| Estradiol muito elevado com FSH suprimido em homem | Tumor testicular produtor de estrogênio, cirrose, ginecomastia patológica | AFP, beta-hCG, testosterona, USG testicular, função hepática | Endocrinologia, Urologia |
Medicamentos e Interferentes
- Contraceptivos orais e outros anticoncepcionais hormonais: suprimem completamente o eixo gonadotrófico
- Análogos de GnRH (leuprolida, nafarelina): suprimem FSH e LH abaixo dos limites de detecção
- Esteroides anabolizantes: suprimem o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal por retroalimentação negativa
- Hiperprolactinemia (fisiológica ou por medicamentos): suprime GnRH e, consequentemente, FSH e LH
- Medicamentos que elevam prolactina (metoclopramida, risperidona, haloperidol, metildopa): indiretamente suprimem gonadotrofinas
- Clomifeno: bloqueia receptores de estrogênio hipofisários, elevando FSH e LH de forma mediada
- Heparina: pode interferir em ensaios de estradiol por liberação de ácidos graxos livres
- Estrogênios exógenos (TRH, fitoestrógenos em altas doses): elevam estradiol e suprimem FSH/LH
- Hemólise intensa: pode degradar hormônios esteroides na amostra antes do processamento
Contextos Clínicos Especiais
Mulheres em investigação de infertilidade
A dosagem de FSH no 3º dia do ciclo (D3-FSH) é um dos marcadores de reserva ovariana. FSH D3 > 10 mUI/mL sugere reserva ovariana reduzida; > 20 mUI/mL indica prognóstico ruim para fertilização in vitro. Deve ser interpretado em conjunto com hormônio antimülleriano (AMH) e contagem de folículos antrais.
Adolescentes com amenorreia primária
Em adolescentes com amenorreia primária e FSH/LH elevados, priorizar cariótipo para excluir síndrome de Turner (45,X) ou outras disgenesias gonadais. Se FSH/LH baixos, investigar causas hipotalâmicas (anorexia, síndrome de Kallmann — associada a anosmia) ou hipofisárias.
Mulheres em climatério/perimenopausa
Durante a perimenopausa, os níveis hormonais são muito variáveis. O diagnóstico de menopausa é clínico (12 meses de amenorreia) em mulheres > 45 anos. Em mulheres entre 40–45 anos com sintomas, confirmar com dosagens seriadas. FSH > 40 mUI/mL + estradiol < 20 pg/mL em 2 dosagens confirma falência ovariana.
Pacientes em reprodução assistida (FIV)
Durante a estimulação ovariana controlada, o monitoramento do estradiol é realizado a cada 1–3 dias para ajuste das doses de FSH exógeno e para detecção precoce de síndrome de hiperestimulação ovariana (SHEO). Estradiol > 3000 pg/mL é sinal de alerta para SHEO.
Homens com hipogonadismo
Em homens, FSH e LH devem ser dosados em conjunto com testosterona total e matinal. FSH e LH elevados com testosterona baixa indicam hipogonadismo primário (testicular). FSH e LH baixos com testosterona baixa indicam hipogonadismo secundário (hipofisário/hipotalâmico), exigindo investigação com RM e dosagens hormonais completas.
Exames Relacionados
- Suspeita de prolactinoma ou hiperprolactinemia Prolactina
- Suspeita de SOP com hiperandrogenismo Testosterona e DHEA-S
- Investigação de infertilidade completa Progesterona fase lútea
- Puberdade precoce central IGF-1
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Referências
- Webber L, et al. ESHRE Guideline: management of women with premature ovarian insufficiency. Hum Reprod. 2016;31(5):926-937. 10.1093/humrep/dew027
- The Rotterdam ESHRE/ASRM-Sponsored PCOS Consensus Workshop Group. Revised 2003 consensus on diagnostic criteria and long-term health risks related to polycystic ovary syndrome. Hum Reprod. 2004;19(1):41-47. 10.1093/humrep/deh098
- Stuenkel CA, et al. Treatment of Symptoms of the Menopause: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2015;100(11):3975-4011. 10.1210/jc.2015-2236
- Spratt DI, et al. Reproductive Axes. In: Jameson JL, editor. Endocrinology: Adult and Pediatric. 7th ed. Philadelphia: Saunders; 2016. https://www.sciencedirect.com/book/9780323189071/endocrinology-adult-and-pediatric
- Azziz R, et al. Polycystic Ovary Syndrome. Nat Rev Dis Primers. 2016;2:16057. 10.1038/nrdp.2016.57