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Ginecologia/Endocrinologia

FSH, LH e Estradiol: Interpretação Clínica e Indicações

O FSH (hormônio folículo-estimulante), o LH (hormônio luteinizante) e o estradiol são os pilares da avaliação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal feminino e masculino. O FSH estimula o crescimento folicular ovariano e a espermatogênese; o LH desencadeia a ovulação e estimula a produção de testosterona nas células de Leydig; o estradiol é o principal estrogênio feminino, produzido principalmente pelos folículos ovarianos. A análise conjunta dessas três dosagens permite caracterizar o estado funcional do eixo reprodutivo, distinguir causas centrais (hipogonadismo hipogonadotrófico) de causas primárias (hipogonadismo hipergonadotrófico), avaliar a reserva ovariana, diagnosticar a menopausa, investigar infertilidade e puberdade precoce ou tardia. O momento da coleta em relação à fase do ciclo menstrual é determinante para a correta interpretação dos resultados.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Soro (tubo seco ou com gel separador)
Resultado em
4–24 horas
Código TUSS
40322113 (FSH) / 40322121 (LH) / 40322148 (Estradiol)
Especialidade
Ginecologia, Endocrinologia, Reprodução Humana

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de infertilidade feminina e masculina CID N97
  • Avaliação de amenorreia primária e secundária CID N91
  • Diagnóstico de menopausa e climatério CID N95
  • Investigação de síndrome dos ovários policísticos (SOP) CID E28
  • Diagnóstico de puberdade precoce e puberdade tardia CID E30
  • Avaliação de insuficiência ovariana prematura CID E28
  • Monitoramento de estimulação ovariana em técnicas de reprodução assistida CID N97
  • Investigação de hipogonadismo masculino CID E29
  • Avaliação de galactorreia e hiperprolactinemia CID N64
  • Diagnóstico diferencial de ginecomastia CID N62
  • Monitoramento de tratamento com agonistas de GnRH CID E28
  • Avaliação de sintomas climatéricos em mulheres jovens CID N95

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Anotar obrigatoriamente o dia do ciclo menstrual na requisição para interpretação correta dos resultados
  • Informar uso de contraceptivos orais, injetáveis, adesivos ou dispositivos hormonais — suprimem o eixo e invalidam a interpretação basal
  • Informar uso de análogos de GnRH (leuprolida, buserelina), que suprimem completamente FSH e LH
  • Não é necessário jejum; evitar estresse físico intenso antes da coleta (altera LH pulsátil)
  • Em homens, a coleta pode ser feita em qualquer horário, preferencialmente pela manhã
  • Informar uso de clomifeno, letrozol, gonadotrofinas exógenas ou progesterona
  • Amostras hemolisadas podem interferir nos imunoensaios de estradiol — repetir coleta se necessário

Valores de Referência

Valores de referência do FSH, LH e Estradiol
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
FSH1,5 – 12,4 mUI/mLFase folicular: 3,5–12,5; Pico ovulatório: 4,7–21,5; Fase lútea: 1,7–7,7; Pós-menopausa: 25,8–134,8Pré-púberes: <2,0; Púberes: variável por estágio de TannermUI/mL
LH1,7 – 8,6 mUI/mLFase folicular: 2,4–12,6; Pico ovulatório: 14,0–95,6; Fase lútea: 1,0–11,4; Pós-menopausa: 7,7–58,5Pré-púberes: <0,3; Púberes: variável por estágio de TannermUI/mL
Estradiol (E2)10 – 40 pg/mLFase folicular: 12,5–166; Pico ovulatório: 85,8–498; Fase lútea: 43,8–211; Pós-menopausa: <6–54,7Pré-púberes: <15 pg/mLpg/mL

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do FSH, LH e Estradiol
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
FSH ↑ + LH ↑ + Estradiol ↓Hipogonadismo hipergonadotrófico (falência ovariana primária) — insuficiência ovariana prematura ou menopausa Confirmar com dosagem repetida; solicitar anti-TPO, cariótipo (se <40 anos); encaminhar para ginecologia/endocrinologia
FSH ↓ + LH ↓ + Estradiol ↓Hipogonadismo hipogonadotrófico — falha central (hipofisária ou hipotalâmica) Solicitar prolactina, IGF-1, cortisol, RM de sela túrcica; descartar hiperprolactinemia e tumores hipofisários
FSH entre 10–25 mUI/mL (fase folicular D2–D5)Reserva ovariana reduzida — menor número de folículos antrais, indicador prognóstico para FIV Associar AMH e contagem de folículos antrais (CFA) por USG; orientar sobre fertilidade e urgência reprodutiva
LH/FSH ≥ 2–3 com anovulação e hiperandrogenismoPadrão sugestivo de síndrome dos ovários policísticos (SOP) Confirmar com critérios de Rotterdam; solicitar testosterona total, DHEA-S, 17-OH-progesterona, insulina/glicemia, USG pélvica
FSH e LH elevados com estradiol elevado em criança <8 anos (menina) ou <9 anos (menino)Puberdade precoce central (gonadotrófico-dependente) Solicitar RM de crânio; encaminhar à endocrinologia pediátrica; avaliar indicação de análogo de GnRH
FSH > 25 mUI/mL + estradiol < 20 pg/mL em mulher < 40 anosInsuficiência ovariana prematura (IOP) — antes chamada de falência ovariana precoce Confirmar com 2 dosagens com intervalo de 4 semanas; solicitar cariótipo, anti-TPO, FAN; encaminhar para tratamento e aconselhamento reprodutivo
Estradiol muito elevado (>500 pg/mL) fora do pico ovulatórioTumor produtor de estrogênio, endometriose grave ou hiperstimulação ovariana Solicitar AFP, CA-125, USG pélvica com Doppler; afastar síndrome de hiperestimulação ovariana em pacientes em RA
FSH, LH e estradiol normais com amenorreiaAmenorreia normogonadotrófica — descartar gravidez, SOP, distúrbios uterinos (síndrome de Asherman) Solicitar beta-hCG, progesterona, USG pélvica e histerossalpingografia se indicado

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para FSH, LH e Estradiol
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
FSH ↑↑, LH ↑, E2 ↓Menopausa, insuficiência ovariana prematura, síndrome de TurnerCariótipo, anti-TPO, AMH, USG pélvicaGinecologia, Endocrinologia
FSH ↓, LH ↓, E2 ↓, prolactina ↑Hiperprolactinemia, prolactinomaProlactina sérica, RM de sela túrcicaEndocrinologia, Neurocirurgia
FSH ↓, LH ↓, E2 ↓, prolactina normalSíndrome de Kallmann, amenorreia hipotalâmica funcional, pan-hipopituitarismoIGF-1, cortisol, TSH/T4L, RM crânio com gadolínio, teste de estimulação com GnRHEndocrinologia
LH/FSH ≥ 2, testosterona ↑, oligomenorreiaSíndrome dos ovários policísticos (SOP)Testosterona total e livre, DHEA-S, 17-OH-progesterona, insulina, USG pélvicaGinecologia, Endocrinologia
FSH elevado em criança com caracteres sexuais secundários precocesPuberdade precoce centralRM de crânio, IGF-1, idade ósseaEndocrinologia Pediátrica
LH pico ausente em monitoramento de cicloAnovulação, SOP, hiperprolactinemia, estresseProgesterona na fase lútea, prolactina, USG folicular seriadaGinecologia, Reprodução Humana
Estradiol muito elevado com FSH suprimido em homemTumor testicular produtor de estrogênio, cirrose, ginecomastia patológicaAFP, beta-hCG, testosterona, USG testicular, função hepáticaEndocrinologia, Urologia

Medicamentos e Interferentes

  • Contraceptivos orais e outros anticoncepcionais hormonais: suprimem completamente o eixo gonadotrófico
  • Análogos de GnRH (leuprolida, nafarelina): suprimem FSH e LH abaixo dos limites de detecção
  • Esteroides anabolizantes: suprimem o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal por retroalimentação negativa
  • Hiperprolactinemia (fisiológica ou por medicamentos): suprime GnRH e, consequentemente, FSH e LH
  • Medicamentos que elevam prolactina (metoclopramida, risperidona, haloperidol, metildopa): indiretamente suprimem gonadotrofinas
  • Clomifeno: bloqueia receptores de estrogênio hipofisários, elevando FSH e LH de forma mediada
  • Heparina: pode interferir em ensaios de estradiol por liberação de ácidos graxos livres
  • Estrogênios exógenos (TRH, fitoestrógenos em altas doses): elevam estradiol e suprimem FSH/LH
  • Hemólise intensa: pode degradar hormônios esteroides na amostra antes do processamento

Contextos Clínicos Especiais

Mulheres em investigação de infertilidade

A dosagem de FSH no 3º dia do ciclo (D3-FSH) é um dos marcadores de reserva ovariana. FSH D3 > 10 mUI/mL sugere reserva ovariana reduzida; > 20 mUI/mL indica prognóstico ruim para fertilização in vitro. Deve ser interpretado em conjunto com hormônio antimülleriano (AMH) e contagem de folículos antrais.

Adolescentes com amenorreia primária

Em adolescentes com amenorreia primária e FSH/LH elevados, priorizar cariótipo para excluir síndrome de Turner (45,X) ou outras disgenesias gonadais. Se FSH/LH baixos, investigar causas hipotalâmicas (anorexia, síndrome de Kallmann — associada a anosmia) ou hipofisárias.

Mulheres em climatério/perimenopausa

Durante a perimenopausa, os níveis hormonais são muito variáveis. O diagnóstico de menopausa é clínico (12 meses de amenorreia) em mulheres > 45 anos. Em mulheres entre 40–45 anos com sintomas, confirmar com dosagens seriadas. FSH > 40 mUI/mL + estradiol < 20 pg/mL em 2 dosagens confirma falência ovariana.

Pacientes em reprodução assistida (FIV)

Durante a estimulação ovariana controlada, o monitoramento do estradiol é realizado a cada 1–3 dias para ajuste das doses de FSH exógeno e para detecção precoce de síndrome de hiperestimulação ovariana (SHEO). Estradiol > 3000 pg/mL é sinal de alerta para SHEO.

Homens com hipogonadismo

Em homens, FSH e LH devem ser dosados em conjunto com testosterona total e matinal. FSH e LH elevados com testosterona baixa indicam hipogonadismo primário (testicular). FSH e LH baixos com testosterona baixa indicam hipogonadismo secundário (hipofisário/hipotalâmico), exigindo investigação com RM e dosagens hormonais completas.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Webber L, et al. ESHRE Guideline: management of women with premature ovarian insufficiency. Hum Reprod. 2016;31(5):926-937. 10.1093/humrep/dew027
  2. The Rotterdam ESHRE/ASRM-Sponsored PCOS Consensus Workshop Group. Revised 2003 consensus on diagnostic criteria and long-term health risks related to polycystic ovary syndrome. Hum Reprod. 2004;19(1):41-47. 10.1093/humrep/deh098
  3. Stuenkel CA, et al. Treatment of Symptoms of the Menopause: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2015;100(11):3975-4011. 10.1210/jc.2015-2236
  4. Spratt DI, et al. Reproductive Axes. In: Jameson JL, editor. Endocrinology: Adult and Pediatric. 7th ed. Philadelphia: Saunders; 2016. https://www.sciencedirect.com/book/9780323189071/endocrinology-adult-and-pediatric
  5. Azziz R, et al. Polycystic Ovary Syndrome. Nat Rev Dis Primers. 2016;2:16057. 10.1038/nrdp.2016.57

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