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Nefrologia

Potássio sérico (Calemia): Interpretação Clínica e Indicações

O potássio sérico, também conhecido como calemia, é um exame laboratorial que mede a concentração de potássio no sangue, um eletrólito essencial para a função neuromuscular, cardíaca e celular. Avalia o equilíbrio do potássio extracelular, sendo clinicamente relevante para o diagnóstico e monitoramento de diskalemias (hipocalemia e hipercalemia), que podem levar a arritmias cardíacas graves, fraqueza muscular e alterações metabólicas. É indicado para pacientes com sintomas sugestivos de alterações do potássio, como palpitações, fadiga, cãibras ou paralisia, e em contextos de doença renal, uso de diuréticos, desidratação ou acidose metabólica. Sinônimos incluem K+ sérico e dosagem de potássio no sangue, com linguagem técnica direcionada a médicos e residentes.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou tubo com heparina (tampa verde) para gasometria
Resultado em
1–2 horas (urgência: 30–60 minutos)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Nefrologia / Medicina de Urgência / Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de arritmias cardíacas inexplicadas, especialmente em pacientes com história de doença renal ou uso de medicamentos que afetam o potássio CID I49.9
  • Avaliação de fraqueza muscular progressiva ou paralisia flácida aguda em contexto de distúrbios eletrolíticos CID G72.3
  • Monitoramento de pacientes em uso crônico de diuréticos (como tiazídicos ou de alça) para prevenção de hipocalemia CID E87.6
  • Diagnóstico de hipercalemia em pacientes com insuficiência renal aguda ou crônica e oligúria CID N17.9
  • Avaliação de acidose metabólica com anion gap elevado, como na cetoacidose diabética ou acidose lática CID E87.2
  • Triagem de distúrbios do potássio em pacientes com vômitos ou diarreia persistentes e desidratação CID R11
  • Investigação de hipocalemia em pacientes com hipertensão arterial e suspeita de hiperaldosteronismo primário CID E26.0
  • Monitoramento pós-operatório em cirurgias com grandes perdas de líquidos ou uso de soluções hipocalêmicas CID T81.9
  • Avaliação de pacientes com queimaduras extensas ou rabdomiólise para risco de hipercalemia CID T79.6
  • Investigação de alterações do potássio em usuários de inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor da angiotensina com função renal comprometida CID Y57.9

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — liberação de potássio intracelular das hemácias, causando pseudo-hipercalemia; invalida a amostra
  • Punção venosa traumática com garrote prolongado — isquemia local e liberação de potássio muscular, elevando falsamente o resultado
  • Coleta em tubo com EDTA (tampa roxa) — quelação de cálcio e interferência no eletrodo, causando falsa redução do potássio
  • Tempo excessivo entre coleta e processamento — liberação gradual de potássio das células sanguíneas, especialmente em temperaturas ambientes elevadas
  • Lipemia intensa — interfere na leitura do eletrodo seletivo, podendo causar variações nos resultados dependendo do método de correção

Valores de Referência

Valores de referência do Potássio sérico (Calemia)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Potássio sérico3,5–5,03,5–5,03,5–5,5 (0–18 anos, com pequenas variações por idade)mmol/L

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Potássio sérico (Calemia)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Potássio sérico <3,5 mmol/L (hipocalemia leve a moderada)Indica depleção de potássio corporal, frequentemente por perdas renais (diuréticos) ou gastrointestinais (vômitos/diarreia), ou redistribuição para o intracelular (alcalose) Solicitar gasometria arterial para avaliar pH, eletrocardiograma (ECG) para risco de arritmia, e dosagem de magnésio sérico
Potássio sérico >5,0 mmol/L (hipercalemia leve a moderada)Sugere excesso de potássio por redução da excreção renal (insuficiência renal), aumento da ingestão, ou redistribuição do intracelular (acidose, rabdomiólise) Realizar ECG imediato para detectar alterações como ondas T altas, e solicitar creatinina-ureia para avaliar função renal
Potássio sérico entre 3,0–3,5 mmol/L (limítrofe baixo)Pode ser fisiológico em alguns indivíduos ou indicar início de depleção, necessitando correlação clínica com sintomas e medicações
Potássio sérico entre 5,0–5,5 mmol/L (limítrofe alto)Frequentemente associado a pseudohipercalemia por hemólise ou amostra inadequada, mas pode indicar risco em pacientes renais Confirmar com nova coleta sem hemólise, e avaliar função renal com TFG
Potássio sérico <3,0 mmol/L (hipocalemia grave)Risco elevado de arritmias cardíacas, fraqueza muscular intensa e paralisia, exigindo correção urgente Iniciar reposição de potássio por via oral ou venosa com monitorização contínua por ECG e dosagens seriadas
Potássio sérico >6,0 mmol/L (hipercalemia grave)Emergência médica com alto risco de parada cardíaca por hipercalemia, necessitando intervenção imediata Administrar gluconato de cálcio IV, insulina com glicose, e considerar diálise se refratário, com ECG contínuo

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Potássio sérico (Calemia)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Hipocalemia com acidose metabólicaDiarréia crônica, acidose tubular renal distal, uso de anfotericina BGasometria arterial, eletrólitos urinários, pH urinárioNefrologia
Hipocalemia com alcalose metabólicaUso de diuréticos, vômitos, hiperaldosteronismo primário, síndrome de CushingAldosterona e renina plasmáticas, cortisol urinárioEndocrinologia
Hipercalemia com função renal normalPseudohipercalemia, acidose metabólica, rabdomiólise, uso de succinilcolinaCK, mioglobina urinária, gasometria arterialMedicina de Urgência
Hipercalemia com insuficiência renalDoença renal crônica avançada, nefropatia obstrutiva, uso de AINEsTFG (CKD-EPI), ultrassom renal, urina 24hNefrologia
Hipocalemia refratária à reposiçãoDeficiência de magnésio, síndrome de Gitelman, abuso de laxantesMagnésio sérico, eletrólitos urinários 24hGastroenterologia

Medicamentos e Interferentes

  • Heparina — uso de heparina não fracionada em altas doses pode causar liberação de potássio de células endoteliais, elevando falsamente o resultado
  • Digoxina — em overdose, inibe a bomba Na+/K+ ATPase, causando hipercalemia por redistribuição intracelular
  • Beta-bloqueadores não seletivos — reduzem a captação de potássio pelas células, podendo elevar levemente os níveis séricos
  • Succinilcolina — despolarização muscular durante anestesia, liberando potássio intracelular e causando hipercalemia transitória
  • Diuréticos poupadores de potássio (espironolactona) — reduzem a excreção renal de potássio, elevando os níveis séricos

Contextos Clínicos Especiais

Idoso

Idosos têm maior risco de diskalemias devido à redução da função renal, polifarmácia (como diuréticos e IECA), e menor reserva corporal de potássio. A hipocalemia é frequente e pode se apresentar com confusão mental ou quedas, enquanto a hipercalemia é comum em doença renal crônica estágio 3–5. Monitorização regular é essencial, com ajuste de medicações e dieta.

Gestante

Na gestação, há leve redução fisiológica do potássio sérico (cerca de 0,2–0,3 mmol/L) devido à hemodiluição e aumento da filtração glomerular. Hipocalemia pode ocorrer em hiperêmese gravídica, exigindo reposição cuidadosa para evitar arritmias fetais. Hipercalemia é rara, mas pode indicar doença renal pré-existente ou pré-eclâmpsia grave.

Criança

Crianças têm valores de referência similares a adultos, mas são mais suscetíveis a alterações rápidas devido ao menor volume extracelular. Hipocalemia é comum em gastroenterites com desidratação, enquanto hipercalemia pode ocorrer em insuficiência renal congênita ou síndrome hemolítico-urêmica. A correção deve ser gradual para evitar oscilações perigosas.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney Int Suppl. 2012;2(1):1-138. 10.1038/kisup.2012.1
  2. Sociedade Brasileira de Nefrologia. Diretrizes Brasileiras de Prática Clínica para o Manejo da Doença Renal Crônica. 2021.
  3. Mount DB. Disorders of Potassium Balance. In: Brenner and Rector's The Kidney. 11th ed. Elsevier; 2020:472-511.
  4. Weiner ID, Wingo CS. Hyperkalemia: A Review. JAMA. 2015;314(22):2405-2414. 10.1001/jama.2015.15672

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