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Clínica Médica

Parasitológico de Fezes (EPF): Interpretação Clínica e Indicações

O exame parasitológico de fezes (EPF) é o método laboratorial de referência para diagnóstico de parasitoses intestinais, identificando ovos, larvas, cistos, trofozoítos e oocistos de protozoários e helmintos. É um exame de baixo custo, amplamente disponível e fundamental na prática clínica brasileira, considerando a alta prevalência de enteroparasitoses no país. A sensibilidade do exame depende do método utilizado, do número de amostras coletadas e da carga parasitária. Para maximizar a detecção, recomenda-se a coleta de pelo menos 3 amostras em dias alternados. Métodos específicos como Baermann-Moraes (larvas de Strongyloides), Kato-Katz (ovos com quantificação), fita de Graham (Enterobius) e Faust (cistos por flutuação) complementam o exame direto. Sinônimos incluem EPF, protoparasitológico, PPF e exame de fezes.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Fezes frescas — coletadas em frasco limpo sem conservante ou com conservante (MIF, SAF, formalina 10%)
Resultado em
24–72 horas
Código TUSS
40311082
Especialidade
Clínica Médica / Pediatria / Infectologia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de diarreia crônica ou intermitente em paciente de área endêmica CID K52
  • Triagem de parasitoses intestinais em criança com dor abdominal recorrente CID R10
  • Investigação de eosinofilia periférica sem causa alérgica evidente CID D72
  • Avaliação de anemia ferropriva em criança ou adulto de área endêmica para ancilostomídeos CID D50
  • Triagem pré-imunossupressão para Strongyloides stercoralis (risco de hiperinfecção) CID B78
  • Investigação de distensão abdominal e flatulência crônica sugestiva de giardíase CID A07
  • Avaliação de prurido anal noturno sugestivo de oxiuríase CID B80
  • Investigação de síndrome de má absorção com suspeita de parasitose CID K90
  • Controle de cura pós-tratamento antiparasitário CID B82
  • Triagem de parasitoses em imigrantes e refugiados de áreas endêmicas CID B82

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Uso de antibióticos, antiparasitários ou laxantes recentes (< 7 dias) — reduz a carga parasitária, causando falso negativo
  • Contrastes radiológicos à base de bário (< 7 dias) — interfere na visualização microscópica
  • Contaminação com urina — pode destruir trofozoítos de protozoários
  • Demora na entrega ao laboratório (> 2 horas sem conservante) — degradação de trofozoítos e perda de viabilidade morfológica
  • Coleta de amostra única — sensibilidade de apenas 50-60%; solicitar mínimo de 3 amostras

Valores de Referência

Valores de referência do Parasitológico de Fezes (EPF)
Parâmetro Homens Mulheres Crianças Unidade
Parasitológico de fezes Negativo (ausência de parasitas) Negativo (ausência de parasitas) Negativo (ausência de parasitas) Qualitativo

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Parasitológico de Fezes (EPF)
Achado Interpretação Próxima conduta
Ovos de Ascaris lumbricoides nas fezes Ascaridíase — helmintíase mais comum no mundo; geralmente assintomática ou com sintomas GI inespecíficos Tratamento com albendazol 400 mg dose única ou mebendazol 100 mg 2x/dia por 3 dias; EPF de controle em 30 dias
Cistos de Giardia lamblia nas fezes Giardíase — causa comum de diarreia crônica, distensão abdominal e má absorção em crianças Tratamento com metronidazol 250 mg 3x/dia por 5 dias (adulto) ou albendazol 400 mg/dia por 5 dias; tratar contactantes
Larvas de Strongyloides stercoralis (Baermann-Moraes positivo) Estrongiloidíase — risco de hiperinfecção grave em imunossuprimidos Tratamento com ivermectina 200 mcg/kg dose única (repetir em 14 dias); CONTRAINDICAR imunossupressão até tratamento completo
Ovos de Ancylostoma ou Necator nas fezes Ancilostomíase — causa de anemia ferropriva crônica por espoliação sanguínea intestinal Tratamento com albendazol 400 mg dose única; avaliar hemograma e ferritina; repor ferro se anemia
Ovos de Schistosoma mansoni (Kato-Katz positivo) Esquistossomose mansônica — doença endêmica no Nordeste e Sudeste do Brasil Tratamento com praziquantel 50 mg/kg dose única; notificação compulsória; avaliar hepatoesplenomegalia
EPF negativo em 3 amostras com suspeita clínica persistente Não exclui parasitose — considerar métodos específicos ou tratamento empírico conforme epidemiologia Solicitar sorologia para Strongyloides, método de Baermann, pesquisa de antígenos fecais; considerar tratamento empírico

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Parasitológico de Fezes (EPF)
Alteração Hipóteses diagnósticas Exames complementares Especialidade
Diarreia crônica com EPF positivo para Giardia Giardíase vs. doença celíaca vs. supercrescimento bacteriano vs. intolerância à lactose Anti-transglutaminase IgA, teste de hidrogênio expirado, tratamento antiparasitário e reavaliação Gastroenterologia / Infectologia
Anemia ferropriva com EPF positivo para ancilostomídeos Ancilostomíase como causa de anemia vs. anemia multifatorial vs. sangramento GI por outra causa Hemograma, ferritina, ferro sérico, tratamento e EPF de controle Hematologia / Infectologia
Eosinofilia com EPF negativo Estrongiloidíase oculta vs. toxocaríase vs. alergia vs. síndrome hipereosinofílica Sorologia para Strongyloides, sorologia para Toxocara, IgE total, Baermann-Moraes Infectologia / Hematologia

Medicamentos e Interferentes

  • Antibióticos recentes (metronidazol, tetraciclina) — podem reduzir temporariamente a carga de protozoários
  • Antiparasitários prévios — aguardar mínimo 7 dias após tratamento para EPF de controle
  • Contraste baritado — resíduos opacos interferem na microscopia; aguardar 7-10 dias
  • Laxantes — podem diluir excessivamente a amostra, reduzindo a concentração de parasitas
  • Uso de óleo mineral — dificulta a visualização microscópica

Contextos Clínicos Especiais

Idoso

Em idosos, a estrongiloidíase crônica é uma preocupação especial, pois pode permanecer assintomática por décadas e reativar com imunossupressão. Antes de iniciar corticosteroides em idosos de área endêmica, sempre rastrear com Baermann-Moraes ou sorologia. A hiperinfecção por Strongyloides tem mortalidade > 70%.

Gestante

A maioria dos antiparasitários (albendazol, mebendazol, ivermectina) é contraindicada no primeiro trimestre. O EPF deve ser solicitado na gestante com sintomas sugestivos, mas o tratamento é postergado para após o primeiro trimestre quando possível. Exceção: Strongyloides com risco de hiperinfecção pode justificar tratamento mesmo na gestação.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...
  • Se EPF negativo com eosinofilia persistente Hemograma

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde: parasitoses intestinais. 2023.
  2. De Carli GA. Parasitologia Clínica: seleção de métodos e técnicas de laboratório para o diagnóstico das parasitoses humanas. 2ª ed. Atheneu, 2007.
  3. WHO. Soil-transmitted helminth infections: preventive chemotherapy. 2023.

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