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Hematologia

Mielograma: Interpretação Clínica e Indicações

O mielograma é um exame invasivo que consiste na aspiração e/ou biópsia de medula óssea, geralmente realizada no osso ilíaco posterior ou esterno, para avaliação direta da hematopoese. Ele permite a análise quantitativa e qualitativa das células precursoras hematopoiéticas, do estroma medular e da arquitetura óssea. Clinicamente, é fundamental para o diagnóstico, estadiamento e monitoramento de doenças primárias da medula óssea, como síndromes mielodisplásicas, leucemias agudas e crônicas, mieloma múltiplo, mielofibrose e para investigação de citopenias inexplicadas. Também é crucial na detecção de infiltração metastática por neoplasias sólidas e em doenças de depósito. É indicado principalmente por hematologistas e oncologistas quando exames periféricos como hemograma e esfregaço de sangue são insuficientes para elucidar a etiologia de uma alteração hematológica. Sinônimos incluem aspirado de medula óssea e biópsia de medula óssea.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Fragmentos de medula óssea aspirados e/ou biópsia em bloco — coletados em seringa com EDTA ou formol
Resultado em
24–72 horas (citologia) e 3–7 dias (histopatologia com imuno-histoquímica)
Código TUSS
40313220
Especialidade
Hematologia / Oncologia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de pancitopenia persistente e inexplicada (anemia, leucopenia, trombocitopenia) após avaliação periférica inicial CID D61.9
  • Diagnóstico e classificação de leucemia aguda (linfoblástica ou mieloide) com blastos no sangue periférico ou suspeita clínica CID C95.9
  • Avaliação de síndrome mielodisplásica em paciente com displasias no hemograma e citopenias crônicas CID D46.9
  • Estadiamento de linfoma (especialmente Hodgkin e não-Hodgkin) para definição de envolvimento medular e tratamento CID C85.9
  • Confirmação diagnóstica de mieloma múltiplo em paciente com gamopatia monoclonal, lesões líticas e insuficiência renal CID C90.0
  • Investigação de esplenomegalia maciça com suspeita de mielofibrose primária ou secundária CID D47.1
  • Avaliação de resposta ao tratamento em leucemias agudas após quimioterapia de indução (mielograma de remissão) CID Z08.0
  • Pesquisa de infiltração metastática em neoplasia sólida conhecida (ex: câncer de próstata, mama, pulmão) com alterações hematológicas CID C79.5
  • Investigação de febre de origem indeterminada em paciente imunossuprimido com suspeita de infecção medular (ex: histoplasmose, leishmaniose) CID R50.9
  • Diagnóstico de doenças de depósito como doença de Gaucher ou amiloidose com envolvimento hematológico CID E75.2

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Aspiração excessivamente sanguinolenta — dilui as células medulares, subestimando a celularidade e alterando a relação mieloide/eritroide
  • Dry tap (aspiração seca) — comum em mielofibrose, impossibilita a análise citológica, exigindo confiança na biópsia
  • Fragmentos inadequados na biópsia (< 1,5 cm) — compromete a avaliação da arquitetura medular e pode levar a falsos negativos
  • Fixação inadequada em formol (tempo excessivo) — prejudica a qualidade da imuno-histoquímica e das colorações especiais
  • Atraso no processamento do aspirado em EDTA (> 2 horas) — causa degeneração celular, dificultando a diferenciação morfológica

Valores de Referência

Valores de referência do Mielograma
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Celularidade global30–70%30–70%80–100% (até 1 ano); 50–70% (1–10 anos)%
Relação mieloide/eritroide (M:E)2:1 a 4:12:1 a 4:12:1 a 5:1proporção
Blastos< 5%< 5%< 5%%
Série granulocítica (mieloblastos a neutrófilos)50–70%50–70%50–70%%
Série eritroide (proeritroblastos a eritrócitos)15–30%15–30%15–30%%
Linfócitos10–20%10–20%10–30%%
Plasmócitos< 2%< 2%< 2%%

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Mielograma
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Blastos ≥ 20% no aspiradoDiagnóstico de leucemia aguda (linfoblástica ou mieloide conforme imunofenótipo) Encaminhar urgente para hematologista/oncologista para quimioterapia de indução e estudos moleculares
Displasias em ≥ 10% das células de uma linhagemSugere síndrome mielodisplásica, especialmente com citopenias periféricas Solicitar cariótipo medular e painel molecular (ex: NGS para mutações) para classificação
Hipercelularidade com fibrose reticulinica (MF-2 ou MF-3)Compatível com mielofibrose primária ou secundária Pesquisar mutação JAK2 V617F e encaminhar para hematologista para manejo com ruxolitinibe
Infiltração por células linfoides atípicas (CD20+, CD5+)Sugere envolvimento medular por linfoma (ex: linfoma não-Hodgkin) Solicitar imuno-histoquímica completa e PET-CT para estadiamento
Plasmócitos ≥ 10% ou aglomeradosSugere mieloma múltiplo ou gamopatia monoclonal de significado indeterminado Dosar proteína de Bence-Jones na urina, eletroforese de proteínas séricas e cadeias leves livres
Hipocelularidade global (< 30%) sem fibroseSugere anemia aplástica ou hipoplasia medular
Presença de granulomas ou microorganismos (ex: histoplasma)Indica infecção medular (micose sistêmica, tuberculose) Solicitar culturas específicas e iniciar terapia antimicrobiana dirigida
Células neoplásicas não hematológicas (ex: adenocarcinoma)Metástase medular de neoplasia sólida Investigar sítio primário com imagem (TC) e marcadores tumorais (PSA, CA 125)

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Mielograma
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Pancitopenia com medula hipocelularAnemia aplástica, hipoplasia pós-quimioterapia, síndrome mielodisplásica hipoplásicaCariótipo medular, teste de Ham, sorologia para parvovírus B19Hematologia
Blastose (5–19%) sem critérios de leucemia agudaSíndrome mielodisplásica com excesso de blastos, leucemia mieloide crônica em aceleraçãoCitometria de fluxo, PCR para BCR-ABL, painel molecular por NGSHematologia
Fibrose reticulinica (MF-1) sem esplenomegaliaMielofibrose primária precoce, fibrose secundária (MDS, neoplasia sólida)Mutação JAK2 V617F, biópsia hepática para hipertensão portalHematologia
Plasmocitose (3–9%) sem critérios de mielomaGamopatia monoclonal de significado indeterminado, infecção crônica, doença autoimuneEletroforese de proteínas séricas, dosagem de cadeias leves livres, radiografia de ossos longosHematologia / Reumatologia
Granulomas sem necrose caseosaHistoplasmose, sarcoidose, doença de HodgkinCultura para fungos, PCR para Mycobacterium tuberculosis, PET-CTInfectologia / Reumatologia

Medicamentos e Interferentes

  • Fator de crescimento granulocítico (G-CSF) — estimula a granulopoese, aumentando a celularidade e relação M:E; efeito: eleva
  • Corticosteroides — causam linfólise, reduzindo linfócitos medulares; efeito: reduz
  • Quimioterapia citotóxica — induz hipocelularidade e displasias transitórias; efeito: reduz
  • Eritropoetina recombinante — estimula a eritropoese, diminuindo a relação M:E; efeito: reduz
  • Infecção viral aguda (ex: HIV) — pode causar hipoplasia medular ou infiltração linfocítica; efeito: variável

Contextos Clínicos Especiais

Criança

A medula óssea em crianças é normalmente hipercelular (até 100% no primeiro ano), com predominância eritroide no lactente. Leucemias agudas linfoblásticas são mais comuns. A punção esternal é contraindicada em menores de 2 anos; preferir crista ilíaca posterior ou tíbia proximal. Sedação consciente é frequentemente necessária.

Idoso

A celularidade medular diminui progressivamente após os 60 anos, podendo ser hipocelular mesmo sem doença. A incidência de síndromes mielodisplásicas e neoplasias mieloides é maior. Considerar fragilidade óssea e comorbidades no risco de sangramento. A interpretação deve incluir exclusão de causas secundárias de citopenias.

Gestante

A gestação normal causa expansão do volume plasmático e leve anemia dilucional, mas a medula geralmente mantém celularidade normal. O mielograma é raramente indicado, reservado para suspeita de leucemia aguda ou pancitopenia grave. Realizar com proteção abdominal contra radiação se usar fluoroscopia. Anestésicos locais seguros (lidocaína sem vasoconstritor) são preferidos.

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Swerdlow SH, Campo E, Harris NL, et al. WHO Classification of Tumours of Haematopoietic and Lymphoid Tissues. 4th ed. Lyon: IARC; 2017.
  2. Sociedade Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (SBHH). Diretrizes para diagnóstico e tratamento das síndromes mielodisplásicas. 2020.
  3. Döhner H, Estey E, Grimwade D, et al. Diagnosis and management of AML in adults: 2017 ELN recommendations from an international expert panel. Blood. 2017;129(4):424-447. 10.1182/blood-2016-08-733196
  4. Bain BJ. Bone marrow aspiration. J Clin Pathol. 2001;54(9):657-663. 10.1136/jcp.54.9.657
  5. Tefferi A, Barbui T. Polycythemia vera and essential thrombocythemia: 2021 update on diagnosis, risk-stratification and management. Am J Hematol. 2020;95(12):1599-1613. 10.1002/ajh.26008

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