DHEA-S (Sulfato de deidroepiandrosterona): Interpretação Clínica e Indicações
O DHEA-S (sulfato de deidroepiandrosterona) é um hormônio esteroide androgênico produzido predominantemente pelo córtex adrenal, com pequena contribuição ovariana e testicular. Representa a forma sulfatada e estável do DHEA, sendo o andrógeno circulante mais abundante no organismo. Clinicamente, sua dosagem é fundamental para avaliar a origem adrenal do hiperandrogenismo, diferenciando-o de causas ovarianas, como na síndrome dos ovários policísticos (SOP). O exame é particularmente útil na investigação de hirsutismo, acne grave, alopecia androgênica e irregularidades menstruais em mulheres, além de auxiliar no diagnóstico de tumores adrenais secretores e hiperplasia adrenal congênita (HAC) de início tardio. Também conhecido como dehidroepiandrosterona sulfato, seu perfil metabólico lento (meia-vida de 7-10 horas) e baixa variação diurna o tornam um marcador mais confiável da produção adrenal de andrógenos em comparação ao DHEA livre.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de hirsutismo de início recente ou progressivo em mulheres, especialmente com padrão masculino (face, tórax, linha alba). CID L68.0
- Avaliação de acne grave e resistente a tratamentos convencionais em mulheres adultas. CID L70.0
- Diagnóstico diferencial de alopecia androgênica feminina com sinais de hiperandrogenismo. CID L64.9
- Suspensão de menstruação (amenorreia) ou ciclos irregulares associados a sinais de virilização. CID N91.2
- Confirmação de hiperandrogenismo de origem adrenal na síndrome dos ovários policísticos (SOP). CID E28.2
- Rastreio de hiperplasia adrenal congênita (HAC) não clássica por deficiência de 21-hidroxilase em adultos com sintomas androgênicos. CID E25.0
- Avaliação de tumores adrenais secretores de andrógenos (adenoma ou carcinoma) em pacientes com virilização rápida. CID C74.0
- Monitoramento de resposta ao tratamento com glicocorticoides em HAC. CID E25.0
- Investigação de puberdade precoce em meninos com aumento isolado de andrógenos adrenais. CID E30.1
- Avaliação de infertilidade feminina com suspeita de distúrbio androgênico. CID N97.9
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise moderada a grave — interfere na leitura espectrofotométrica, podendo causar resultados falsamente elevados ou reduzidos.
- Lipemia intensa — turbidez interfere na reação antígeno-anticorpo, levando a subestimação dos níveis.
- Coleta em tubo com EDTA ou heparina — anticoagulantes podem alterar a ligação proteica, invalidando a amostra; usar sempre tubo seco.
- Exposição prolongada da amostra a temperatura ambiente (>2 horas) — degradação enzimática do DHEA-S, resultando em valores falsamente baixos.
- Uso de suplementos de DHEA oral — eleva artificialmente os níveis séricos, mascarando a produção endógena; suspender por 4 semanas antes da coleta.
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| DHEA-S | 80–560 µg/dL | 35–430 µg/dL | Pré-puberes: < 100 µg/dL; Puberdade: varia conforme Tanner | µg/dL |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| DHEA-S > 700 µg/dL em mulheres | Sugere origem adrenal do hiperandrogenismo, como tumor adrenal secretor ou HAC grave. | Solicitar cortisol, 17-OH progesterona e tomografia de adrenal para avaliação de massa. |
| DHEA-S 430–700 µg/dL em mulheres | Compatível com hiperandrogenismo adrenal leve a moderado, como HAC não clássica ou SOP com componente adrenal. | Dosar 17-OH progesterona e testosterona livre para confirmação. |
| DHEA-S < 35 µg/dL em mulheres jovens | Pode indicar insuficiência adrenal (doença de Addison) ou uso de glicocorticoides supressores. | Avaliar cortisol basal e ACTH; investigar sintomas de insuficiência adrenal. |
| DHEA-S elevado em homens com ginecomastia | Sugere produção excessiva de andrógenos adrenais com conversão periférica a estrógenos. | Dosar estradiol, testosterona total e livre; realizar USG testicular. |
| DHEA-S normal com testosterona livre elevada em mulheres | Indica origem ovariana do hiperandrogenismo, como SOP típica. | Solicitar USG pélvica e LH/FSH para confirmação de SOP. |
| DHEA-S progressivamente elevado em acompanhamento | Pode sugerir crescimento de tumor adrenal ou escape terapêutico em HAC. | Repetir imagem de adrenal (TC ou RM) e reavaliar dose de glicocorticoide. |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| DHEA-S > 700 µg/dL + virilização rápida | Tumor adrenal secretor, HAC grave | TC adrenal, 17-OH progesterona, cortisol | Endocrinologia |
| DHEA-S 430–700 µg/dL + hirsutismo | HAC não clássica, SOP com componente adrenal | 17-OH progesterona, testosterona livre, USG pélvica | Endocrinologia / Ginecologia |
| DHEA-S normal + testosterona livre elevada | SOP, tumor ovariano secretor | USG pélvica, LH/FSH, ressonância pélvica | Ginecologia |
| DHEA-S baixo + fadiga crônica | Insuficiência adrenal, hipopituitarismo | Cortisol basal, ACTH, teste de estimulação com ACTH | Endocrinologia |
| DHEA-S elevado em criança com pubarca precoce | Pubertade precoce adrenal, HAC | Idade óssea, 17-OH progesterona, USG adrenal | Endocrinologia Pediátrica |
Medicamentos e Interferentes
- Corticosteroides (ex: prednisona) — supressão do eixo hipófise-adrenal reduz a produção endógena de DHEA-S.
- Anticoncepcionais orais — reduzem os níveis de DHEA-S por supressão da produção adrenal e hepática de SHBG.
- Suplementos de DHEA — elevam artificialmente os níveis séricos, mascarando a produção endógena.
- Fenitoína — indução enzimática hepática pode aumentar o clearance de DHEA-S, reduzindo os níveis.
- Obesidade — elevação leve devido ao aumento da atividade da 17,20-liase adrenal e redução do clearance.
Contextos Clínicos Especiais
Gestante
Os níveis de DHEA-S caem progressivamente durante a gestação devido ao aumento da clearance placentária e da atividade da sulfatase placentária. Valores elevados no terceiro trimestre podem sugerir HAC materna não diagnosticada, associada a risco de virilização fetal feminina. Interpretar com cautela e usar valores de referência específicos para gestantes.
Idoso
Redução fisiológica acentuada (declínio de 2% ao ano após os 30 anos). Níveis muito baixos são esperados em idosos e não indicam necessariamente patologia. No entanto, queda abrupta pode sinalizar insuficiência adrenal aguda. Valores elevados em idosos assintomáticos geralmente são benignos, mas requerem investigação se houver sinais de virilização.
Exames Relacionados
- Se DHEA-S normal mas suspeita clínica de hiperandrogenismo Testosterona livre
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Os valores de referência para mulheres adultas variam conforme o método laboratorial, mas geralmente situam-se entre 35 e 430 µg/dL. Acima de 430 µg/dL sugere hiperandrogenismo adrenal, enquanto abaixo de 35 µg/dL pode indicar insuficiência adrenal. Sempre consulte os valores de referência do laboratório que emitiu o laudo.
Não, o DHEA-S não requer jejum para coleta, pois a alimentação não interfere significativamente em seus níveis séricos. A coleta pode ser realizada a qualquer horário do dia, devido à baixa variação circadiana. Recomenda-se apenas evitar exercícios intensos antes da coleta, que podem elevar temporariamente os andrógenos.
DHEA-S elevado em mulher com hirsutismo indica hiperandrogenismo de origem adrenal. As principais causas incluem hiperplasia adrenal congênita (especialmente deficiência de 21-hidroxilase), tumores adrenais secretores ou síndrome dos ovários policísticos com componente adrenal. Investigação complementar com 17-OH progesterona e imagem adrenal é necessária.
Na SOP, o DHEA-S pode estar normal ou levemente elevado (geralmente 500 µg/dL) e a 17-OH progesterona está marcadamente aumentada. O teste de supressão com dexametasona pode ajudar na confirmação.
Solicite DHEA-S quando a suspeita clínica for de origem adrenal do hiperandrogenismo, como em hirsutismo de início rápido, virilização ou quando há necessidade de diferenciar SOP de patologia adrenal. A testosterona total é melhor para avaliar produção ovariana e atividade androgênica global. Em muitos casos, a dosagem conjunta de ambos é ideal.
Não, DHEA-S normal não exclui hiperandrogenismo. Até 30% das mulheres com síndrome dos ovários policísticos têm DHEA-S normal, pois o excesso androgênico pode ser de origem ovariana (elevação da testosterona livre) ou por aumento da sensibilidade periférica aos andrógenos. A avaliação clínica e outros exames (como testosterona livre) são essenciais.
Corticosteroides (ex: prednisona) suprimem a produção adrenal, reduzindo DHEA-S. Anticoncepcionais orais também podem diminuir os níveis. Suplementos de DHEA elevam artificialmente os valores. Fenitoína pode reduzir por indução enzimática. Suspender interferentes por 4 semanas antes da coleta, se clinicamente seguro.
DHEA-S > 1000 µg/dL requer investigação urgente para tumor adrenal. Solicitar imediatamente TC de adrenal com contraste, dosar 17-OH progesterona, cortisol e testosterona. Encaminhar para endocrinologista para avaliação de possível adenoma ou carcinoma adrenal secretores, que podem cursar com virilização rápida e risco de malignidade.
Referências
- Endocrine Society. Diagnosis and Treatment of Hyperandrogenism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1-30. 10.1210/jc.2017-02457
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Hiperandrogenismo: diagnóstico e tratamento. Diretrizes SBEM 2020.
- Azziz R, Carmina E, Dewailly D, et al. The Androgen Excess and PCOS Society criteria for the polycystic ovary syndrome: the complete task force report. Fertil Steril. 2009;91(2):456-88. 10.1016/j.fertnstert.2008.06.035
- Fiet J, Gueux B, Gourmel B, et al. Comparison of basal and adrenocorticotropin-stimulated plasma 21-deoxycortisol and 17-hydroxyprogesterone values as biological markers of late-onset adrenal hyperplasia. J Clin Endocrinol Metab. 1988;66(4):659-67. 10.1210/jcem-66-4-659