17-OH progesterona: Interpretação Clínica e Indicações
A 17-OH progesterona (17-hidroxiprogesterona) é um esteroide intermediário na via de síntese do cortisol e aldosterona nas adrenais, e também um precursor androgênico. Sua dosagem sérica é o principal marcador bioquímico para triagem e diagnóstico da hiperplasia adrenal congênita (HAC) por deficiência da enzima 21-hidroxilase, a forma mais comum da doença. Clinicamente, é relevante na investigação de virilização em neonatos do sexo feminino, puberdade precoce, hirsutismo e infertilidade em mulheres, e na triagem neonatal para HAC. O exame é indicado por endocrinologistas, pediatras e médicos de família diante de suspeita clínica de distúrbios da esteroidogênese adrenal. Sinônimos incluem 17-OHP, 17-hidroxiprogesterona.
Quando solicitar este exame?
- Triagem neonatal para hiperplasia adrenal congênita (HAC) por deficiência de 21-hidroxilase, em programa de triagem neonatal (teste do pezinho ampliado). CID E25.0
- Investigação de virilização em neonatos do sexo feminino (genitália ambígua, clitoromegalia, fusão labial). CID Q56.0
- Avaliação de puberdade precoce isosexual em meninos (aumento de volume testicular, acne, odor axilar antes dos 9 anos). CID E30.1
- Investigação de hirsutismo de início recente ou progressivo em mulheres (escore de Ferriman-Gallwey ≥ 8). CID L68.0
- Avaliação de infertilidade feminina com oligomenorreia ou amenorreia e sinais de hiperandrogenismo. CID N97.9
- Monitoramento do tratamento com glicocorticoide em pacientes com HAC clássica ou não clássica. CID E25.9
- Investigação de crise adrenal em lactentes com vômitos, desidratação, hiponatremia e hipercalemia (forma perdedora de sal da HAC). CID E27.2
- Avaliação de massa adrenal incidental com suspeita de tumor produtor de androgênios (adenoma ou carcinoma adrenal). CID D35.0
- Triagem de HAC não clássica em mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP) e hiperandrogenismo marcado. CID E28.2
- Investigação de baixa estatura com avanço da idade óssea em crianças, sem outras causas evidentes. CID R62.8
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise da amostra — interfere na dosagem por imunoensaio, podendo causar resultados falsamente elevados ou reduzidos; invalida a amostra.
- Lipemia intensa — pode interferir na leitura espectrofotométrica em alguns métodos, causando pseudo-elevação; requer ultracentrifugação.
- Coleta em tubo inadequado — uso de tubo com gel separador pode adsorver o esteroide, reduzindo o resultado; preferir tubo sem aditivos.
- Tempo prolongado entre coleta e processamento — degradação da 17-OH progesterona se a amostra não for centrifugada e congelada em até 2 horas; mantém estabilidade por 24h a 4°C.
- Uso de glicocorticoides exógenos — suprime a produção endógena de ACTH e 17-OH progesterona, resultando em falso negativo; suspender por 24h antes da coleta, se clinicamente seguro.
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| 17-OH progesterona | 0,3–2,5 ng/mL | Fase folicular: 0,2–1,5 ng/mL; Fase lútea: 0,8–3,0 ng/mL | Recém-nascidos a termo (2–5 dias): < 10 ng/mL; Crianças pré-púberes: 0,1–1,0 ng/mL | ng/mL |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| 17-OH progesterona > 10 ng/mL em recém-nascido | Altamente sugestivo de HAC clássica por deficiência de 21-hidroxilase; requer confirmação com teste de estimulação com ACTH. | Iniciar terapia com hidrocortisona e fludrocortisona imediatamente, solicitar sódio, potássio, glicose e avaliação por endocrinologista pediátrico. |
| 17-OH progesterona 2–10 ng/mL em adulto ou criança | Sugere HAC não clássica (forma tardia) ou elevação fisiológica (estresse, fase lútea); zona cinzenta que requer confirmação. | Solicitar teste de estimulação com ACTH (cortrosyn) com dosagem de 17-OH progesterona basal e 60 minutos pós-estímulo. |
| 17-OH progesterona < 2 ng/mL em contexto de suspeita clínica | Reduz a probabilidade de HAC por deficiência de 21-hidroxilase, mas não exclui outras formas de HAC ou hiperandrogenismo. | Investigar outras causas de hiperandrogenismo com dosagem de testosterona total, SDHEA e ultrassom pélvico. |
| 17-OH progesterona elevada em mulher com hirsutismo e ciclos regulares | Pode indicar HAC não clássica ou SOP com superposição; diferenciação requer avaliação clínica e hormonal completa. | Solicitar perfil androgênico (testosterona livre, SDHEA), LH, FSH e ultrassom pélvico para diagnóstico diferencial. |
| 17-OH progesterona normal em neonato com genitália ambígua | Afasta deficiência de 21-hidroxilase, mas requer investigação de outras causas de distúrbio da diferenciação sexual. | Encaminhar para equipe multidisciplinar (endocrinologia pediátrica, genética) e solicitar cariótipo, dosagem de androgênios e imagem pélvica. |
| 17-OH progesterona elevada em paciente sob glicocorticoide | Indica subdosagem do tratamento na HAC, com risco de hiperandrogenismo e avanço da idade óssea. | Ajustar dose de hidrocortisona, monitorizar androgênios e crescimento, e reavaliar em 4–6 semanas. |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| 17-OH progesterona > 10 ng/mL em neonato | HAC clássica por deficiência de 21-hidroxilase, tumor adrenal produtor | Teste de estimulação com ACTH, sódio, potássio, ultrassom adrenal | Endocrinologia pediátrica |
| 17-OH progesterona 2–10 ng/mL em mulher com hirsutismo | HAC não clássica, SOP, hipertecose ovariana | Teste de estimulação com ACTH, testosterona livre, SDHEA, ultrassom pélvico | Endocrinologia |
| 17-OH progesterona elevada com hipertensão | Deficiência de 11-beta-hidroxilase (outra forma de HAC), feocromocitoma | Endocrinologia | |
| 17-OH progesterona normal com genitália ambígua | Deficiência de 5-alfa-redutase, síndrome de insensibilidade a androgênios, distúrbio da diferenciação gonadal | Cariótipo, dosagem de testosterona e DHT, genética molecular | Endocrinologia pediátrica / Genética |
| 17-OH progesterona baixa com hipotensão e hiperpigmentação | Doença de Addison, hipopituitarismo | Cortisol basal, ACTH, teste de estimulação com ACTH, RM de sela túrcica | Endocrinologia |
Medicamentos e Interferentes
- Glicocorticoides (ex: prednisona, dexametasona) — suprimem a produção de ACTH, reduzindo a 17-OH progesterona; efeito: reduz.
- Indutores da CYP17 (ex: cetoconazol em altas doses) — inibem a 17,20-liase, podendo elevar precursores; efeito: eleva.
- Anticoncepcionais orais combinados — suprimem a produção ovariana, reduzindo os níveis na fase folicular; efeito: reduz.
- Estresse agudo (ex: cirurgia, infecção) — aumenta a produção de ACTH e esteroides adrenais, elevando transitoriamente; efeito: eleva.
- Obesidade — associada a aumento da atividade da 17,20-liase em alguns casos, com elevação leve; efeito: eleva.
Contextos Clínicos Especiais
Gestante
Os níveis de 17-OH progesterona aumentam progressivamente durante a gestação, devido à produção placentária e conversão de precursores. Valores de referência são específicos para cada trimestre. A dosagem não é rotineira na gestação, mas pode ser útil na investigação de hiperandrogenismo materno ou monitoramento de gestantes com HAC conhecida.
Criança
Em crianças pré-púberes, os níveis são baixos ( 10 ng/mL são altamente sugestivos de HAC clássica, exigindo intervenção imediata. Em lactentes com crise adrenal, a dosagem é crucial para diagnóstico rápido.
Idoso
Nos idosos, há declínio gradual da produção adrenal de esteroides, com níveis de 17-OH progesterona tendendo a ser mais baixos. Elevações devem levantar suspeita de tumor adrenal ou HAC de apresentação tardia (rara). Considerar comorbidades e uso de medicamentos que interferem no eixo adrenal.
Exames Relacionados
- Se 17-OH progesterona 2–10 ng/mL em adulto com suspeita de HAC Teste de estimulação com ACTH
- Se 17-OH progesterona normal com hiperandrogenismo persistente Testosterona e SDHEA
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Em homens adultos, o valor normal é 0,3–2,5 ng/mL. Em mulheres, varia conforme a fase do ciclo menstrual: fase folicular 0,2–1,5 ng/mL, fase lútea 0,8–3,0 ng/mL. Valores acima de 2 ng/mL em repouso podem sugerir hiperplasia adrenal congênita não clássica e requerem investigação com teste de estimulação com ACTH.
Na triagem neonatal (teste do pezinho), valores de 17-OH progesterona acima de 10 ng/mL são altamente sugestivos de HAC clássica por deficiência de 21-hidroxilase e exigem confirmação imediata. Em prematuros, limiares são ajustados pela idade gestacional, podendo chegar a 20 ng/mL sem doença. Sempre correlacionar com a clínica e eletrólitos.
17-OH progesterona elevada em mulher com hirsutismo sugere hiperplasia adrenal congênita não clássica (deficiência parcial de 21-hidroxilase) como causa do hiperandrogenismo. Difere da SOP, onde a elevação é geralmente leve ou ausente. O diagnóstico é confirmado com teste de estimulação com ACTH, mostrando resposta exacerbada (> 10 ng/mL pós-estímulo). Avalie também testosterona e SDHEA.
Solicite 17-OH progesterona quando houver suspeita de hiperplasia adrenal congênita, como em neonatos com genitália ambígua, crianças com puberdade precoce, ou mulheres com hirsutismo de início rápido e ciclos irregulares. Use testosterona para avaliação geral de hiperandrogenismo na SOP ou tumores. Em muitos casos, ambos são complementares no diagnóstico diferencial.
Não, a dosagem de 17-OH progesterona não requer jejum. Pode ser coletada a qualquer hora do dia, embora haja variação circadiana leve (valores mais altos pela manhã). Interferentes como estresse agudo ou medicamentos (glicocorticoides) são mais relevantes. Colete em tubo adequado (soro ou EDTA) e processe dentro de 2 horas para evitar degradação.
Na HAC não clássica, a 17-OH progesterona basal pode estar elevada (> 2 ng/mL) ou normal com resposta exacerbada ao ACTH (> 10 ng/mL pós-estímulo). Na SOP, a elevação basal é geralmente leve (< 3 ng/mL) e a resposta ao ACTH é normal. Além disso, na SOP há tipicamente elevação de testosterona e LH, com morfologia policística ao ultrassom, enquanto na HAC o SDHEA pode estar mais elevado.
Não, 17-OH progesterona normal não exclui completamente a HAC, especialmente a forma não clássica. Pacientes com deficiência parcial de 21-hidroxilase podem ter níveis basais normais e elevação apenas no teste de estimulação com ACTH. Se a suspeita clínica for alta (ex.: hirsutismo familiar, puberdade precoce), solicite o teste dinâmico para confirmação.
Valores > 30 ng/mL em adulto são críticos e sugerem HAC clássica grave ou tumor adrenal produtor. Conduta imediata: avaliar função adrenal (cortisol, eletrólitos), solicitar imagem adrenal urgente (TC ou RM), e encaminhar ao endocrinologista. Se houver sinais de crise adrenal (hipotensão, hipercalemia), iniciar hidrocortisona IV e correção hidroeletrolítica.
Referências
- Speiser PW, Arlt W, Auchus RJ, et al. Congenital Adrenal Hyperplasia Due to Steroid 21-Hydroxylase Deficiency: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(11):4043-4088. 10.1210/jc.2018-01865
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Triagem Neonatal: Hiperplasia Adrenal Congênita. Diretrizes SBP, 2020.
- Merke DP, Auchus RJ. Congenital Adrenal Hyperplasia Due to 21-Hydroxylase Deficiency. N Engl J Med. 2020;383(13):1248-1261. 10.1056/NEJMra1909786
- Falhammar H, Thorén M. Clinical outcomes in the management of congenital adrenal hyperplasia. Endocrine. 2012;41(3):355-373. 10.1007/s12020-011-9591-x
- Bachelot A, Chakhtoura Z, Samara-Boustani D, et al. Determination of 17-hydroxyprogesterone in dried blood spots by LC-MS/MS: a promising method for neonatal screening of congenital adrenal hyperplasia. Clin Chem Lab Med. 2013;51(10):e237-239. 10.1515/cclm-2013-0218