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Endocrinologia

17-OH progesterona: Interpretação Clínica e Indicações

A 17-OH progesterona (17-hidroxiprogesterona) é um esteroide intermediário na via de síntese do cortisol e aldosterona nas adrenais, e também um precursor androgênico. Sua dosagem sérica é o principal marcador bioquímico para triagem e diagnóstico da hiperplasia adrenal congênita (HAC) por deficiência da enzima 21-hidroxilase, a forma mais comum da doença. Clinicamente, é relevante na investigação de virilização em neonatos do sexo feminino, puberdade precoce, hirsutismo e infertilidade em mulheres, e na triagem neonatal para HAC. O exame é indicado por endocrinologistas, pediatras e médicos de família diante de suspeita clínica de distúrbios da esteroidogênese adrenal. Sinônimos incluem 17-OHP, 17-hidroxiprogesterona.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou tubo EDTA (tampa roxa) para alguns métodos
Resultado em
24–48 horas (método de imunoensaio por quimioluminescência)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Endocrinologia / Pediatria

Quando solicitar este exame?

  • Triagem neonatal para hiperplasia adrenal congênita (HAC) por deficiência de 21-hidroxilase, em programa de triagem neonatal (teste do pezinho ampliado). CID E25.0
  • Investigação de virilização em neonatos do sexo feminino (genitália ambígua, clitoromegalia, fusão labial). CID Q56.0
  • Avaliação de puberdade precoce isosexual em meninos (aumento de volume testicular, acne, odor axilar antes dos 9 anos). CID E30.1
  • Investigação de hirsutismo de início recente ou progressivo em mulheres (escore de Ferriman-Gallwey ≥ 8). CID L68.0
  • Avaliação de infertilidade feminina com oligomenorreia ou amenorreia e sinais de hiperandrogenismo. CID N97.9
  • Monitoramento do tratamento com glicocorticoide em pacientes com HAC clássica ou não clássica. CID E25.9
  • Investigação de crise adrenal em lactentes com vômitos, desidratação, hiponatremia e hipercalemia (forma perdedora de sal da HAC). CID E27.2
  • Avaliação de massa adrenal incidental com suspeita de tumor produtor de androgênios (adenoma ou carcinoma adrenal). CID D35.0
  • Triagem de HAC não clássica em mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP) e hiperandrogenismo marcado. CID E28.2
  • Investigação de baixa estatura com avanço da idade óssea em crianças, sem outras causas evidentes. CID R62.8

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — interfere na dosagem por imunoensaio, podendo causar resultados falsamente elevados ou reduzidos; invalida a amostra.
  • Lipemia intensa — pode interferir na leitura espectrofotométrica em alguns métodos, causando pseudo-elevação; requer ultracentrifugação.
  • Coleta em tubo inadequado — uso de tubo com gel separador pode adsorver o esteroide, reduzindo o resultado; preferir tubo sem aditivos.
  • Tempo prolongado entre coleta e processamento — degradação da 17-OH progesterona se a amostra não for centrifugada e congelada em até 2 horas; mantém estabilidade por 24h a 4°C.
  • Uso de glicocorticoides exógenos — suprime a produção endógena de ACTH e 17-OH progesterona, resultando em falso negativo; suspender por 24h antes da coleta, se clinicamente seguro.

Valores de Referência

Valores de referência do 17-OH progesterona
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
17-OH progesterona0,3–2,5 ng/mLFase folicular: 0,2–1,5 ng/mL; Fase lútea: 0,8–3,0 ng/mLRecém-nascidos a termo (2–5 dias): < 10 ng/mL; Crianças pré-púberes: 0,1–1,0 ng/mLng/mL

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do 17-OH progesterona
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
17-OH progesterona > 10 ng/mL em recém-nascidoAltamente sugestivo de HAC clássica por deficiência de 21-hidroxilase; requer confirmação com teste de estimulação com ACTH. Iniciar terapia com hidrocortisona e fludrocortisona imediatamente, solicitar sódio, potássio, glicose e avaliação por endocrinologista pediátrico.
17-OH progesterona 2–10 ng/mL em adulto ou criançaSugere HAC não clássica (forma tardia) ou elevação fisiológica (estresse, fase lútea); zona cinzenta que requer confirmação. Solicitar teste de estimulação com ACTH (cortrosyn) com dosagem de 17-OH progesterona basal e 60 minutos pós-estímulo.
17-OH progesterona < 2 ng/mL em contexto de suspeita clínicaReduz a probabilidade de HAC por deficiência de 21-hidroxilase, mas não exclui outras formas de HAC ou hiperandrogenismo. Investigar outras causas de hiperandrogenismo com dosagem de testosterona total, SDHEA e ultrassom pélvico.
17-OH progesterona elevada em mulher com hirsutismo e ciclos regularesPode indicar HAC não clássica ou SOP com superposição; diferenciação requer avaliação clínica e hormonal completa. Solicitar perfil androgênico (testosterona livre, SDHEA), LH, FSH e ultrassom pélvico para diagnóstico diferencial.
17-OH progesterona normal em neonato com genitália ambíguaAfasta deficiência de 21-hidroxilase, mas requer investigação de outras causas de distúrbio da diferenciação sexual. Encaminhar para equipe multidisciplinar (endocrinologia pediátrica, genética) e solicitar cariótipo, dosagem de androgênios e imagem pélvica.
17-OH progesterona elevada em paciente sob glicocorticoideIndica subdosagem do tratamento na HAC, com risco de hiperandrogenismo e avanço da idade óssea. Ajustar dose de hidrocortisona, monitorizar androgênios e crescimento, e reavaliar em 4–6 semanas.

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para 17-OH progesterona
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
17-OH progesterona > 10 ng/mL em neonatoHAC clássica por deficiência de 21-hidroxilase, tumor adrenal produtorTeste de estimulação com ACTH, sódio, potássio, ultrassom adrenalEndocrinologia pediátrica
17-OH progesterona 2–10 ng/mL em mulher com hirsutismoHAC não clássica, SOP, hipertecose ovarianaTeste de estimulação com ACTH, testosterona livre, SDHEA, ultrassom pélvicoEndocrinologia
17-OH progesterona elevada com hipertensãoDeficiência de 11-beta-hidroxilase (outra forma de HAC), feocromocitomaEndocrinologia
17-OH progesterona normal com genitália ambíguaDeficiência de 5-alfa-redutase, síndrome de insensibilidade a androgênios, distúrbio da diferenciação gonadalCariótipo, dosagem de testosterona e DHT, genética molecularEndocrinologia pediátrica / Genética
17-OH progesterona baixa com hipotensão e hiperpigmentaçãoDoença de Addison, hipopituitarismoCortisol basal, ACTH, teste de estimulação com ACTH, RM de sela túrcicaEndocrinologia

Medicamentos e Interferentes

  • Glicocorticoides (ex: prednisona, dexametasona) — suprimem a produção de ACTH, reduzindo a 17-OH progesterona; efeito: reduz.
  • Indutores da CYP17 (ex: cetoconazol em altas doses) — inibem a 17,20-liase, podendo elevar precursores; efeito: eleva.
  • Anticoncepcionais orais combinados — suprimem a produção ovariana, reduzindo os níveis na fase folicular; efeito: reduz.
  • Estresse agudo (ex: cirurgia, infecção) — aumenta a produção de ACTH e esteroides adrenais, elevando transitoriamente; efeito: eleva.
  • Obesidade — associada a aumento da atividade da 17,20-liase em alguns casos, com elevação leve; efeito: eleva.

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

Os níveis de 17-OH progesterona aumentam progressivamente durante a gestação, devido à produção placentária e conversão de precursores. Valores de referência são específicos para cada trimestre. A dosagem não é rotineira na gestação, mas pode ser útil na investigação de hiperandrogenismo materno ou monitoramento de gestantes com HAC conhecida.

Criança

Em crianças pré-púberes, os níveis são baixos ( 10 ng/mL são altamente sugestivos de HAC clássica, exigindo intervenção imediata. Em lactentes com crise adrenal, a dosagem é crucial para diagnóstico rápido.

Idoso

Nos idosos, há declínio gradual da produção adrenal de esteroides, com níveis de 17-OH progesterona tendendo a ser mais baixos. Elevações devem levantar suspeita de tumor adrenal ou HAC de apresentação tardia (rara). Considerar comorbidades e uso de medicamentos que interferem no eixo adrenal.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Speiser PW, Arlt W, Auchus RJ, et al. Congenital Adrenal Hyperplasia Due to Steroid 21-Hydroxylase Deficiency: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(11):4043-4088. 10.1210/jc.2018-01865
  2. Sociedade Brasileira de Pediatria. Triagem Neonatal: Hiperplasia Adrenal Congênita. Diretrizes SBP, 2020.
  3. Merke DP, Auchus RJ. Congenital Adrenal Hyperplasia Due to 21-Hydroxylase Deficiency. N Engl J Med. 2020;383(13):1248-1261. 10.1056/NEJMra1909786
  4. Falhammar H, Thorén M. Clinical outcomes in the management of congenital adrenal hyperplasia. Endocrine. 2012;41(3):355-373. 10.1007/s12020-011-9591-x
  5. Bachelot A, Chakhtoura Z, Samara-Boustani D, et al. Determination of 17-hydroxyprogesterone in dried blood spots by LC-MS/MS: a promising method for neonatal screening of congenital adrenal hyperplasia. Clin Chem Lab Med. 2013;51(10):e237-239. 10.1515/cclm-2013-0218

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