Calprotectina fecal: Interpretação Clínica e Indicações
A calprotectina fecal é um biomarcador não invasivo de inflamação intestinal, amplamente utilizado na prática clínica para diferenciar doenças inflamatórias intestinais (DII) da síndrome do intestino irritável (SII). Trata-se de uma proteína citoplasmática dos neutrófilos que se eleva em processos inflamatórios da mucosa intestinal, sendo liberada nas fezes durante a migração dessas células para o lúmen. Sua dosagem é realizada por imunoensaio (ELISA ou quimioluminescência) em amostra fecal, oferecendo alta sensibilidade e especificidade para detectar inflamação ativa. Clinicamente, é indicada para pacientes com sintomas intestinais crônicos como diarreia, dor abdominal e sangramento retal, permitindo estratificar a necessidade de exames endoscópicos invasivos. Também conhecida como calprotectina nas fezes ou fecal calprotectin, é um exame fundamental na abordagem inicial de suspeita de DII e no monitoramento da resposta terapêutica.
Quando solicitar este exame?
- Diferenciação entre doença inflamatória intestinal (DII) e síndrome do intestino irritável (SII) em pacientes com sintomas intestinais crônicos CID K58
- Monitoramento da atividade inflamatória em pacientes com doença de Crohn estabelecida CID K50
- Avaliação da resposta terapêutica em colite ulcerativa em remissão clínica CID K51
- Investigação de diarreia crônica com suspeita de inflamação intestinal CID K52
- Triagem de pacientes com dor abdominal recorrente e alteração do hábito intestinal para definir necessidade de colonoscopia CID R10
- Avaliação de sangramento retal indolor em adultos jovens para excluir DII CID K62
- Monitoramento pós-operatório em doença de Crohn para detectar recidiva precoce CID K50
- Investigação de anemia ferropriva com suspeita de perda sanguínea intestinal oculta CID D50
- Avaliação de pacientes com artrite periférica ou espondiloartropatia e sintomas intestinais CID M07
- Triagem de inflamação intestinal em pacientes com história familiar de DII e sintomas sugestivos CID Z83
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Uso recente de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) — induz inflamação intestinal transitória, elevando falsamente os níveis de calprotectina
- Sangramento gastrointestinal ativo — hemácias contêm calprotectina, causando pseudo-elevação independente de inflamação
- Coleta inadequada (contaminação com urina ou água) — dilui a amostra, podendo resultar em falsa redução
- Armazenamento prolongado em temperatura ambiente (>7 dias) — degradação proteica, reduzindo os níveis mensuráveis
- Uso de laxantes ou enemas antes da coleta — altera a consistência fecal e pode diluir o marcador
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Calprotectina fecal | < 50 μg/g | < 50 μg/g | < 100 μg/g (1–4 anos); < 50 μg/g (>4 anos) | μg/g |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| < 50 μg/g | Baixa probabilidade de inflamação intestinal ativa; sugere síndrome do intestino irritável (SII) ou outra causa funcional | Reavaliar diagnóstico, considerar outras causas de sintomas intestinais (ex: intolerâncias alimentares, supercrescimento bacteriano) |
| 50–100 μg/g | Zona cinzenta; inflamação intestinal leve ou indeterminada | Repetir exame em 4–6 semanas; avaliar contexto clínico e fatores de risco para DII |
| 100–250 μg/g | Inflamação intestinal moderada; sugere DII ativa ou colite infecciosa | Solicitar colonoscopia com biópsias para confirmação diagnóstica |
| > 250 μg/g | Inflamação intestinal grave; alta probabilidade de DII ativa | Encaminhar para gastroenterologista urgente; iniciar investigação com colonoscopia e exames complementares |
| Elevação persistente > 100 μg/g em DII conhecida | Atividade inflamatória subclínica ou resposta inadequada à terapia | Reavaliar tratamento; considerar ajuste terapêutico ou exames de imagem para avaliação de extensão |
| Redução > 80% do valor basal após tratamento | Resposta terapêutica adequada; sugere remissão bioquímica | Manter terapia atual; monitorar clinicamente e repetir calprotectina em 3–6 meses |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| Calprotectina > 250 μg/g + diarreia sanguinolenta | Colite ulcerativa ativa, colite infecciosa grave (C. difficile, E. coli), colite isquêmica | Colonoscopia com biópsia, coprocultura, toxina A/B de C. difficile | Gastroenterologia |
| Calprotectina 100–250 μg/g + dor abdominal em fossa ilíaca direita | Doença de Crohn ileal, tuberculose intestinal, linfoma intestinal | Colonoscopia com ileoscopia, tomografia de abdome, enterorressonância | Gastroenterologia |
| Calprotectina < 50 μg/g + alteração do hábito intestinal | Síndrome do intestino irritável, supercrescimento bacteriano, intolerâncias alimentares | Teste de hidrogênio expirado, dieta de exclusão, manometria anorretal | Gastroenterologia / Clínica Médica |
| Calprotectina elevada + artrite periférica | DII com manifestação articular, artrite reativa, espondiloartropatia | FAN, fator reumatoide, radiografia de articulações, HLA-B27 | Reumatologia / Gastroenterologia |
| Calprotectina normal + anemia ferropriva | Sangramento de trato digestivo alto, doença celíaca, perdas menstruais | Endoscopia digestiva alta, sorologia para doença celíaca, ferritina | Gastroenterologia / Clínica Médica |
Medicamentos e Interferentes
- Corticosteroides — reduzem a migração neutrofílica, podendo diminuir falsamente os níveis
- Imunossupressores (azatioprina, metotrexato) — controlam a inflamação, reduzindo os valores
- Antibióticos — tratam colite infecciosa, normalizando a calprotectina
- Inibidores de TNF-α (infliximab, adalimumab) — induzem remissão na DII, reduzindo os níveis
- Gestação — alterações fisiológicas podem elevar moderadamente os valores
Contextos Clínicos Especiais
Criança
Valores de referência são mais elevados em crianças menores de 4 anos (<100 μg/g) devido à imaturidade intestinal e maior permeabilidade. A calprotectina é particularmente útil na diferenciação entre DII pediátrica e dor abdominal funcional. Crianças com doença de Crohn podem apresentar elevações mais pronunciadas durante surtos.
Idoso
Maior prevalência de causas secundárias de elevação (diverticulite, colite isquêmica, uso de AINEs). Valores >250 μg/g em idosos devem levantar suspeita de neoplasia colorretal. A interpretação deve considerar comorbidades e polifarmácia.
Gestante
Pode haver elevação fisiológica moderada (até 100 μg/g) sem significado patológico. Em gestantes com DII conhecida, a calprotectina é segura para monitoramento não invasivo da atividade inflamatória. Valores >250 μg/g requerem investigação adequada.
Exames Relacionados
- Se calprotectina elevada e anemia concomitante Ferritina
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
O valor normal de calprotectina fecal é < 50 μg/g em adultos e crianças acima de 4 anos. Em crianças de 1 a 4 anos, o valor de referência é < 100 μg/g devido à imaturidade intestinal. Valores entre 50 e 100 μg/g constituem a zona cinzenta, requerendo correlação clínica.
O valor de corte mais utilizado para diferenciar doença inflamatória intestinal (DII) da síndrome do intestino irritável (SII) é 50 μg/g. Valores abaixo deste limiar têm alta probabilidade de SII, enquanto valores acima sugerem inflamação intestinal. Acima de 100 μg/g, a probabilidade de DII é significativa.
Calprotectina fecal elevada (>50 μg/g) indica inflamação intestinal ativa. As principais causas são doenças inflamatórias intestinais (doença de Crohn, colite ulcerativa), colites infecciosas, uso de AINEs e neoplasias colorretais. Valores >250 μg/g são altamente sugestivos de DII ativa.
Calprotectina normal (<50 μg/g) não exclui completamente doença inflamatória intestinal. Pacientes com DII em remissão profunda, doença confinada ao intestino delgado ou sob terapia imunossupressora eficaz podem apresentar valores normais. A colonoscopia permanece o padrão-ouro para diagnóstico definitivo.
Solicite calprotectina fecal como exame de triagem em pacientes com sintomas intestinais crônicos (diarreia, dor abdominal) para estratificar a necessidade de colonoscopia. Se a calprotectina for normal (100 μg/g), a colonoscopia é indicada.
Não, a calprotectina fecal não requer jejum. A coleta é feita em amostra de fezes, sem necessidade de preparo intestinal específico. Recomenda-se evitar o uso de laxantes ou enemas nas 72 horas anteriores, pois podem interferir nos resultados.
A calprotectina fecal não diferencia entre doença de Crohn e colite ulcerativa. Ambas as condições causam elevação significativa. A diferenciação requer colonoscopia com biópsias (padrão histológico), exames de imagem (enterorressonância) e avaliação clínica (localização, comportamento da doença).
A calprotectina fecal tem alta sensibilidade (80–90%) para detectar recidiva subclínica em doença inflamatória intestinal. Valores >250 μg/g predizem recidiva endoscópica com 85% de acurácia. Monitoramento serial a cada 3–6 meses é recomendado para pacientes em remissão clínica.
Referências
- Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Diretrizes para o diagnóstico e tratamento da doença inflamatória intestinal. São Paulo: SBCP; 2021.
- Menees SB, Powell C, Kurlander J, Goel A, Chey WD. A meta-analysis of the utility of C-reactive protein, erythrocyte sedimentation rate, fecal calprotectin, and fecal lactoferrin to exclude inflammatory bowel disease in adults with IBS. Am J Gastroenterol. 2015;110(3):444-54.
- van Rheenen PF, Van de Vijver E, Fidler V. Faecal calprotectin for screening of patients with suspected inflammatory bowel disease: diagnostic meta-analysis. BMJ. 2010;341:c3369.
- ECCO-ESGAR Guideline for Diagnostic Assessment in IBD. J Crohns Colitis. 2019;13(2):144-164.
- Bressler B, Panaccione R, Fedorak RN, Seidman EG. Clinical practice guidelines for the medical management of nonhospitalized ulcerative colitis: the Toronto consensus. Gastroenterology. 2015;148(5):1035-1058.e3.