Anúncio

Epiglotite: reconhecimento e manejo da via aérea na criança

Índice

Brinde exclusivo para os 30 primeiros alunos*

Inscreva-se na Lista VIP e receba as ofertas da Black em primeira mão.

*Consulte condições

Dias
Horas
Min

A epiglotite é uma inflamação aguda da epiglote e de estruturas supraglóticas que pode provocar obstrução rápida da via aérea. Embora a vacinação contra Haemophilus influenzae tipo b (Hib) tenha reduzido a frequência da doença na população pediátrica, o quadro ainda exige atenção, pois uma criança pode evoluir de desconforto respiratório para obstrução grave em poucas horas.

Na prática, o reconhecimento precoce depende da associação entre história clínica, aparência geral e sinais de dificuldade respiratória. Além disso, a equipe deve evitar intervenções que aumentem a agitação ou atrasem a avaliação especializada da via aérea.

O que é epiglotite?

A epiglotite corresponde à inflamação da epiglote e, frequentemente, de outras estruturas da região supraglótica. Por isso, a literatura também utiliza o termo supraglotite para descrever o processo inflamatório.

O edema nessa região pode reduzir a passagem de ar para a laringe. Na criança, as dimensões menores da via aérea aumentam o impacto de uma redução do seu calibre. Assim, mesmo uma progressão relativamente rápida do edema pode causar dificuldade respiratória importante.

A infecção bacteriana representa uma causa relevante. Historicamente, o Hib concentrou grande parte dos casos pediátricos. Entretanto, após a introdução da vacina conjugada, a incidência da doença por esse agente diminuiu em locais com boa cobertura vacinal.

Ainda assim, outros microrganismos podem causar epiglotite, incluindo outros tipos de Haemophilus influenzae, estreptococos e Staphylococcus aureus. Portanto, a vacinação completa reduz o risco de doença por Hib, mas não exclui a hipótese de epiglotite.

Por que a epiglotite pode causar obstrução rapidamente?

A epiglote participa da proteção da via aérea durante a deglutição. Quando a inflamação causa edema nessa estrutura e nos tecidos ao redor, o fluxo de ar encontra maior resistência.

Além disso, a criança pode adotar uma posição específica para facilitar a respiração. Se a equipe a obrigar a deitar, afastá-la do acompanhante ou realizar procedimentos que provoquem choro e agitação, o quadro respiratório pode piorar.

Por esse motivo, o atendimento inicial precisa equilibrar duas necessidades: reconhecer rapidamente a gravidade e evitar estímulos desnecessários. A equipe também deve preparar uma estratégia de controle da via aérea antes de manipular a orofaringe.

Como reconhecer a epiglotite na criança?

A apresentação costuma começar de forma aguda e evoluir ao longo de horas. Em geral, a criança apresenta febre, dor de garganta e dificuldade para engolir. Além disso, o desconforto pode fazer com que ela recuse líquidos e evite falar.

Os sinais de alerta incluem:

  • Febre, frequentemente alta
  • Dor de garganta intensa e dor ao engolir
  • Dificuldade para engolir, inclusive a própria saliva
  • Sialorreia, ou acúmulo de saliva na boca
  • Voz abafada
  • Estridor inspiratório
  • Dificuldade respiratória, com aumento do trabalho ventilatório
  • Aspecto toxêmico, ansiedade ou agitação
  • Preferência pela posição sentada, com inclinação do tronco para a frente

A combinação de febre, sialorreia, disfagia e desconforto respiratório deve levantar suspeita de epiglotite. Entretanto, a ausência de um desses sinais não exclui o diagnóstico.

Qual é o significado da posição em tripé?

A posição em tripé descreve a postura na qual a criança se senta, inclina o corpo para a frente e, muitas vezes, estende o pescoço. Ela também pode manter a boca aberta e apoiar as mãos para facilitar a respiração.

Essa postura indica que a criança tenta otimizar a passagem de ar. Portanto, a equipe deve respeitar a posição de conforto e evitar colocá-la em decúbito sem necessidade.

Além disso, o colo do acompanhante pode ajudar a manter a criança tranquila durante a avaliação inicial, desde que a equipe consiga observá-la e intervenha rapidamente se ocorrer deterioração.

Na figura abaixo observa-se a posição em tripé:

Fonte: UpToDate, 2026.

O estridor sempre aparece no início?

Não. O estridor pode surgir conforme a obstrução progride, mas sua ausência inicial não afasta a doença. Além disso, uma criança com obstrução grave pode apresentar redução do fluxo de ar e, consequentemente, menos ruído respiratório.

Por isso, a equipe não deve avaliar apenas a intensidade do estridor. Também precisa observar esforço respiratório, nível de consciência, coloração, capacidade de manter a posição e evolução do quadro.

Sinais como exaustão, alteração da consciência, cianose e redução importante da movimentação de ar indicam deterioração grave e exigem resposta imediata.

Epiglotite ou crupe: como diferenciar?

A epiglotite e o crupe podem causar estridor, mas costumam apresentar padrões clínicos diferentes. Ainda assim, nenhuma característica isolada substitui a avaliação do conjunto.

CaracterísticaEpiglotiteCrupe
InícioGeralmente rápido, ao longo de horasEm geral, progride após sintomas respiratórios virais
FebrePode ser altaPode ocorrer, com intensidade variável
TosseFrequentemente ausente ou pouco evidenteTosse característica, descrita como “metálica” ou “de cachorro”
VozPode ficar abafadaRouquidão é frequente
DeglutiçãoDor e dificuldade para engolir são comunsGeralmente menos comprometida
SalivaçãoSialorreia pode aparecerSialorreia importante não é típica
Aparência geralA criança pode apresentar aspecto toxêmico e ansiedadeVaria conforme a gravidade da obstrução

Além do crupe, a equipe deve considerar outras causas de obstrução de via aérea superior, como traqueíte bacteriana, abscesso retrofaríngeo, abscesso peritonsilar e aspiração de corpo estranho.

Por exemplo, uma história súbita de engasgo pode apontar para corpo estranho. Por outro lado, febre, limitação da movimentação cervical e dor no pescoço podem levantar suspeita de infecção profunda cervical. Entretanto, quando a criança apresenta sinais de obstrução, a equipe deve priorizar a via aérea enquanto investiga essas possibilidades.

Como confirmar o diagnóstico de epiglotite?

Na criança com quadro sugestivo, a suspeita clínica orienta as primeiras decisões. A equipe não precisa esperar exames de imagem ou resultados laboratoriais para acionar profissionais experientes e planejar o controle da via aérea.

A visualização da epiglote pode confirmar o diagnóstico. No entanto, a manipulação da orofaringe ou da laringe pode precipitar obstrução completa em uma criança com edema importante. Portanto, profissionais capacitados devem realizar a avaliação direta em ambiente controlado, com recursos imediatos para manejo avançado da via aérea.

O profissional deve examinar a garganta com abaixador de língua?

Na suspeita de epiglotite com sinais de obstrução, a equipe deve evitar o exame rotineiro da garganta com abaixador de língua. Esse estímulo pode provocar agitação e piorar a obstrução.

Da mesma forma, a equipe deve adiar procedimentos que possam causar desconforto, incluindo coletas e tentativas repetidas de acesso venoso, até que profissionais com experiência em via aérea avaliem a criança e definam uma abordagem segura.

Radiografia e tomografia ajudam?

Em situações selecionadas, exames de imagem podem contribuir para a investigação. Entretanto, eles não devem atrasar o controle da via aérea de uma criança com suspeita clínica e sinais de obstrução.

A radiografia lateral do pescoço pode mostrar aumento da epiglote, conhecido como sinal do polegar. Contudo, uma imagem sem alterações não exclui a doença. Além disso, deslocar a criança e mudar sua posição podem aumentar o risco quando ela apresenta instabilidade.

A tomografia também exige transporte e, frequentemente, posicionamento em decúbito. Assim, a equipe deve reservá-la para situações selecionadas, após avaliar a segurança da via aérea e a necessidade clínica do exame.

Qual é a conduta inicial diante da suspeita?

O primeiro objetivo consiste em manter a criança calma, reconhecer sinais de deterioração e reunir rapidamente uma equipe capaz de manejar uma via aérea potencialmente difícil.

Sempre que possível, o serviço deve envolver pediatria, anestesiologia, otorrinolaringologia e terapia intensiva. Além disso, a equipe deve preparar equipamentos adequados para a idade e um plano de resgate caso a intubação não tenha sucesso.

Medidas iniciais

  • Mantenha a criança acompanhada, preferencialmente no colo do responsável, se essa posição a confortar
  • Respeite a posição espontânea, sem obrigá-la a deitar
  • Observe continuamente o trabalho respiratório, a coloração e o nível de consciência
  • Ofereça oxigênio de forma gentil, conforme a tolerância da criança e os recursos disponíveis
  • Acione precocemente profissionais experientes em via aérea pediátrica
  • Prepare um ambiente controlado e equipamentos para intubação e resgate
  • Evite manipulações desnecessárias enquanto organiza o controle da via aérea

A oximetria pode auxiliar a monitorização se a criança tolerar o sensor. Contudo, uma saturação inicialmente preservada não elimina o risco de piora rápida. Portanto, a equipe deve interpretar o número junto com os sinais clínicos.

O que evitar durante a avaliação?

Algumas intervenções podem aumentar a ansiedade e agravar a obstrução. Por isso, a equipe deve evitar:

  • Separar a criança do acompanhante sem necessidade
  • Forçar o decúbito
  • Examinar a garganta com abaixador de língua em ambiente sem recursos para resgate
  • Insistir em procedimentos dolorosos antes de organizar a abordagem da via aérea
  • Transportar a criança para exames quando o quadro respiratório não permite um deslocamento seguro
  • Administrar sedativos sem um plano de via aérea e sem profissionais preparados para intervir

Se a criança evoluir para falência respiratória antes do controle definitivo, a equipe deve iniciar as medidas de emergência apropriadas. Nessa situação, a ventilação com bolsa e máscara pode servir como medida temporária enquanto profissionais capacitados estabelecem uma via aérea.

Como planejar o manejo da via aérea?

O controle da via aérea representa a prioridade no tratamento da criança com epiglotite e sinais de obstrução. Entretanto, o edema pode dificultar a visualização das estruturas laríngeas e tornar a intubação desafiadora.

Por isso, sempre que as condições permitirem, uma equipe experiente deve realizar a abordagem em centro cirúrgico ou em outro ambiente com recursos equivalentes. O planejamento deve incluir anestesiologia, suporte de otorrinolaringologia e materiais para uma via aérea cirúrgica de resgate, conforme os recursos e protocolos locais.

Antes da intervenção, a equipe deve alinhar:

  • Quem conduzirá a intubação e quem auxiliará
  • Quais dispositivos de via aérea estarão disponíveis em tamanhos pediátricos adequados
  • Qual estratégia anestésica melhor se adapta à condição da criança e à experiência da equipe
  • Como a equipe confirmará o posicionamento do tubo
  • Qual será o plano de resgate se a primeira abordagem falhar
  • Onde a criança receberá cuidados intensivos após a estabilização

A escolha da técnica depende da gravidade, dos recursos disponíveis e da experiência dos profissionais. Em uma criança que piora rapidamente, a equipe também precisa adaptar o plano ao tempo e ao ambiente disponíveis.

Quando a criança deve seguir para a terapia intensiva?

Após o controle da via aérea, a criança geralmente necessita de monitorização em unidade de terapia intensiva pediátrica. A equipe acompanha a ventilação, a resposta ao tratamento e a redução do edema.

A extubação exige avaliação individual. Antes de retirar o tubo, a equipe considera a evolução clínica e verifica se a via aérea apresenta condições adequadas para a respiração espontânea. Além disso, ela deve manter recursos disponíveis caso a criança necessite de nova intervenção.

Qual é o tratamento da epiglotite?

Além de proteger a via aérea, a equipe deve tratar a infecção e oferecer suporte clínico. A sequência e o momento de cada medida dependem da estabilidade da criança, mas a busca por acesso venoso ou exames não deve atrasar uma abordagem necessária da via aérea.

Antibióticos

Após a estabilização da via aérea, a equipe inicia antibiótico empírico por via intravenosa para cobrir os principais agentes bacterianos. Uma cefalosporina de terceira geração, como ceftriaxona ou cefotaxima, constitui uma opção frequente.

A escolha final deve considerar o quadro clínico, as recomendações locais, as alergias, o perfil de resistência e a possibilidade de outros focos infecciosos. Em situações específicas, a equipe pode ampliar a cobertura, inclusive para Staphylococcus aureus, conforme a avaliação clínica.

Quando possível, a equipe coleta hemoculturas e ajusta o tratamento de acordo com os resultados microbiológicos. Entretanto, ela não deve atrasar a antibioticoterapia por dificuldade de coleta após estabilizar a via aérea.

A duração e a eventual mudança para antibiótico por via oral dependem da evolução, do agente identificado e do protocolo adotado.

Corticoides e outras medidas

Alguns protocolos consideram corticoides para reduzir o edema. Contudo, a equipe deve avaliar essa medida conforme o contexto clínico e o protocolo institucional. Corticoides não substituem o planejamento nem o controle da via aérea.

Além disso, a equipe oferece hidratação, analgesia e suporte respiratório conforme a necessidade. Antes de liberar líquidos ou alimentação por via oral, ela também avalia a segurança da deglutição.

Quais complicações exigem atenção?

A complicação mais imediata é a obstrução completa da via aérea, que pode levar à insuficiência respiratória e à parada cardiorrespiratória. Por isso, o reconhecimento da deterioração e a disponibilidade de uma equipe treinada influenciam diretamente a segurança do atendimento.

Além disso, a infecção pode causar bacteremia e outras complicações, como pneumonia, meningite ou abscesso, conforme o agente e o quadro clínico.

Durante a internação, a equipe também deve monitorar possíveis dificuldades relacionadas à ventilação, à evolução do edema e ao momento da extubação.

Como prevenir a epiglotite por Hib?

A vacinação contra Haemophilus influenzae tipo b reduz o risco de doença invasiva por esse agente e teve papel importante na diminuição dos casos pediátricos de epiglotite.

Por isso, profissionais de saúde devem revisar a situação vacinal da criança conforme o calendário vigente e orientar a família sobre a atualização das doses quando necessário.

Quando a investigação identifica doença invasiva por Hib, a equipe também deve acionar a vigilância e avaliar a necessidade de quimioprofilaxia dos contatos, conforme as recomendações locais. Essa decisão depende das características dos contatos e do contexto de exposição.

Entretanto, é importante lembrar: mesmo uma criança vacinada pode desenvolver epiglotite por outros agentes. Portanto, o histórico vacinal ajuda na avaliação, mas não substitui o reconhecimento dos sinais clínicos.

O que lembrar na prática clínica?

A epiglotite pediátrica exige suspeita rápida e uma abordagem organizada. Diante de febre, dificuldade para engolir, sialorreia e sinais de obstrução de via aérea superior, a equipe deve manter a criança calma, respeitar sua posição de conforto e acionar profissionais experientes.

Além disso, exames e procedimentos não devem atrasar a proteção da via aérea. Depois da estabilização, a antibioticoterapia e a monitorização intensiva completam o cuidado.

Quer revisar outros temas de pediatria e emergência para a prática clínica? Conheça o SanarFlix e explore conteúdos médicos para apoiar seus estudos e sua atualização profissional.

Referências bibliográficas

Compartilhe este artigo:

Uma pós que te dá mais confiança para atuar.

Conheça os cursos de pós-graduação em medicina da Sanar e desenvolva sua carreira com especialistas.

Anúncio

Artigos relacionados:

📚💻 Não perca o ritmo!

Preencha o formulário e libere o acesso ao banco de questões 🚀