As doenças inflamatórias intestinais (DII) ganharam espaço na agenda da saúde brasileira. Entre 2012 e 2025, um levantamento de dados do Sistema Único de Saúde (SUS) apontou aumento da prevalência de aproximadamente 30 para 158 casos por 100 mil habitantes. Os pesquisadores identificaram mais de 337 mil pessoas com diagnóstico de doença de Crohn, retocolite ulcerativa ou colite ainda sem classificação definitiva. Além disso, uma projeção indica que a prevalência pode alcançar 264 casos por 100 mil habitantes em 2035, caso a tendência observada continue.
Os números pedem atenção, mas também exigem leitura cuidadosa. O aumento da prevalência significa que os registros passaram a reunir mais pessoas vivendo com DII. Por si só, esse indicador não demonstra que o número de novos diagnósticos cresceu na mesma proporção. Afinal, a prevalência também muda quando a assistência identifica casos antes desconhecidos e quando mais pessoas permanecem em acompanhamento por longos períodos.
Para o médico, a notícia reforça uma necessidade prática: reconhecer sinais de inflamação intestinal, investigar o diagnóstico de forma estruturada e acompanhar a atividade da doença além do relato de sintomas. Ao mesmo tempo, o crescimento dos registros amplia a demanda por acesso a exames, tratamento contínuo e equipes com experiência no manejo das DII.
O que o levantamento mostra sobre as DII no Brasil?
O levantamento analisou registros do SUS ao longo de 13 anos. Nesse intervalo, a prevalência estimada passou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes, um aumento de cerca de 427%. Entre os mais de 337 mil pacientes identificados, aproximadamente 207 mil tinham retocolite ulcerativa, 99 mil tinham doença de Crohn e 30 mil integravam um grupo com colite sem classificação definitiva. Uma pesquisa anterior da mesma linha de investigação já havia reunido 212.026 pacientes entre 2012 e 2020.
Prevalência não equivale a incidência
Essa distinção orienta a interpretação da notícia. Prevalência representa o conjunto de pessoas que vivem com a doença em determinado momento ou período. Incidência, por sua vez, mede a ocorrência de novos casos. Portanto, o crescimento de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes descreve o aumento da prevalência nos dados analisados; ele não autoriza a afirmação de que o risco individual de desenvolver DII quintuplicou.
Além disso, os registros administrativos refletem a população que acessa os serviços contemplados pela base de dados. Pessoas que recebem assistência exclusivamente fora do SUS podem escapar desse recorte. Desse modo, os números ajudam a dimensionar a demanda observada na rede pública, mas não encerram a discussão sobre a frequência real das DII em toda a população brasileira.
Outro ponto merece cautela: os dados referentes a 2025 chegaram ao público por meio de uma apresentação em congresso e, segundo a cobertura do levantamento, ainda aguardavam publicação científica com revisão por pares. Já a estimativa para 2035 resulta de um modelo preditivo. Assim, os 264 casos por 100 mil habitantes representam um cenário possível, e não uma contagem futura confirmada.
Por que os registros podem ter aumentado?
Nenhuma explicação isolada resolve essa pergunta. Por um lado, a maior familiaridade de profissionais e pacientes com as DII pode favorecer o reconhecimento de quadros que antes permaneciam sem diagnóstico. Por outro, mudanças reais na ocorrência das doenças também podem contribuir para a tendência. Fatores genéticos, imunológicos e ambientais participam da compreensão das DII; contudo, o levantamento de prevalência não permite atribuir o crescimento brasileiro a uma exposição específica.
Portanto, o dado epidemiológico deve orientar perguntas clínicas e decisões de planejamento, sem virar uma explicação causal simplificada. A principal consequência imediata consiste em preparar a assistência para identificar, tratar e monitorar um número maior de pessoas.
Doença de Crohn e retocolite ulcerativa: quais diferenças importam?
As duas condições provocam inflamação crônica e alternam períodos de atividade e remissão. Entretanto, elas diferem quanto à localização e ao padrão de acometimento do trato gastrointestinal.
A retocolite ulcerativa compromete o reto e pode avançar pelo cólon, com inflamação contínua da mucosa. Já a doença de Crohn pode atingir diferentes segmentos do tubo digestivo e apresentar áreas inflamadas intercaladas com áreas sem lesões. Além disso, seu processo inflamatório pode alcançar camadas mais profundas da parede intestinal. Essas características ajudam a explicar por que o médico precisa avaliar a possibilidade de estenoses, fístulas e doença perianal em determinados pacientes com Crohn.
Apesar dessas diferenças, o quadro inicial nem sempre revela o diagnóstico com clareza. Diarreia persistente, dor abdominal, sangue nas fezes, urgência evacuatória, perda de peso e fadiga podem motivar a investigação. Contudo, outras doenças também causam sintomas semelhantes. Por isso, a equipe deve integrar história clínica, exame físico, exames laboratoriais, avaliação das fezes, endoscopia com biópsias e, quando houver indicação, métodos de imagem.
Quais sinais devem aumentar a suspeita clínica?
Alguns achados justificam investigação mais atenta, especialmente quando persistem, recorrem ou aparecem em conjunto:
- Diarreia prolongada ou recorrente
- Sangramento retal ou sangue nas fezes
- Dor abdominal associada a perda de peso
- Urgência para evacuar e episódios noturnos
- Fadiga acompanhada de anemia ou outros sinais de repercussão sistêmica
- Lesões perianais, como fístulas ou abscessos
- Sintomas fora do intestino, como manifestações articulares, cutâneas ou oculares
Esses sinais não confirmam DII de forma individual. Ainda assim, eles ajudam o médico a definir a prioridade da avaliação e a evitar que sintomas persistentes recebam apenas tratamento pontual, sem investigação da causa.
Como investigar uma possível doença inflamatória intestinal?
O raciocínio diagnóstico começa pela caracterização dos sintomas. O médico deve perguntar quando eles surgiram, como evoluíram, se acordam o paciente à noite e se há sangue nas fezes, emagrecimento ou manifestações extraintestinais. Também deve revisar medicamentos, antecedentes familiares, viagens e possíveis exposições infecciosas. A partir daí, a avaliação laboratorial pode investigar anemia, alterações nutricionais e sinais de inflamação, conforme o contexto clínico.
A calprotectina fecal pode ajudar a identificar inflamação intestinal e a orientar os próximos passos. Entretanto, nenhum resultado isolado substitui a avaliação clínica ou define sozinho o diagnóstico. Quando a suspeita persiste, a colonoscopia com avaliação do íleo terminal e biópsias, conforme a indicação, permite examinar a distribuição das lesões e obter material para análise histológica. Além disso, a equipe pode recorrer a métodos de imagem para investigar o intestino delgado ou complicações que a endoscopia não esclarece adequadamente.
O diagnóstico diferencial também importa. Infecções intestinais, efeitos de medicamentos e outras causas de colite podem produzir manifestações parecidas. Portanto, antes de atribuir a diarreia e a dor abdominal à DII, o médico precisa confrontar os achados com as hipóteses alternativas e com o contexto de cada paciente.
O que muda após a confirmação?
Após confirmar a doença, a equipe deve descrever sua extensão, localização, atividade e eventuais complicações. Essa caracterização orienta o tratamento e oferece uma referência para comparações futuras. Além disso, o médico precisa avaliar repercussões nutricionais, anemia, qualidade de vida e manifestações fora do intestino.
A escolha terapêutica depende do tipo de DII e do perfil clínico. Entre as possibilidades, o tratamento pode incluir medicamentos com ação anti-inflamatória intestinal, corticosteroides para situações específicas, imunomoduladores e terapias avançadas. Em alguns casos, complicações ou falha terapêutica também levam a equipe a considerar cirurgia. Portanto, uma lista de medicamentos não substitui a definição individualizada de objetivos, riscos e estratégia de acompanhamento.
Sintomas persistentes significam atividade da DII?
Nem sempre. Essa questão ganha importância à medida que mais pessoas convivem por anos com a doença. Um paciente pode relatar dor abdominal, distensão ou alteração do hábito intestinal mesmo quando a avaliação indica remissão da inflamação. Por outro lado, a melhora dos sintomas não garante, sozinha, que a mucosa intestinal também melhorou.
A avaliação de sintomas gastrointestinais persistentes em adultos com DII em remissão. Na prática, o médico precisa verificar se existe atividade inflamatória antes de intensificar a terapia. Para isso, deve comparar o padrão atual de sintomas com a evolução anterior, examinar sinais de alarme e selecionar biomarcadores, exames de fezes, endoscopia ou imagem conforme a situação. Diretrizes da American Gastroenterological Association também apoiam o uso contextual de biomarcadores, como calprotectina fecal e proteína C reativa, no monitoramento da retocolite ulcerativa.
Quando a investigação não encontra inflamação ativa, outras hipóteses entram em cena. Alterações funcionais intestinais, infecções, efeitos adversos de medicamentos e consequências estruturais da própria doença podem contribuir para os sintomas. Assim, a equipe evita tanto a escalada desnecessária de imunossupressão quanto a desvalorização da queixa do paciente.
Como organizar essa avaliação na consulta?
Uma sequência clínica útil reúne perguntas objetivas:
- O paciente apresenta sangue nas fezes, febre, perda de peso ou piora progressiva?
- O padrão atual se parece com crises inflamatórias anteriores?
- Biomarcadores e exames disponíveis sugerem inflamação ativa?
- Uma infecção, um medicamento ou uma complicação pode explicar os sintomas?
- O quadro exige endoscopia, imagem ou avaliação especializada adicional?
Com essas respostas, o médico consegue relacionar os sintomas aos achados objetivos e escolher a conduta mais adequada. Além disso, consegue comunicar ao paciente por que a persistência de uma queixa nem sempre exige a mesma resposta terapêutica que uma recidiva inflamatória.
O crescimento das DII também desafia a organização do cuidado
O aumento da prevalência registrada representa mais consultas de seguimento, exames de monitoramento e necessidade de continuidade terapêutica. Consequentemente, a rede de saúde precisa reduzir atrasos entre a suspeita diagnóstica e a avaliação especializada, além de manter acesso consistente ao tratamento e ao acompanhamento.
Esse cuidado não termina quando os sintomas melhoram. As DII seguem um curso variável; por isso, a equipe precisa revisar a atividade da doença, identificar complicações, acompanhar repercussões nutricionais e ajustar a estratégia conforme a evolução. Nos pacientes com acometimento colônico relevante e de longa duração, o planejamento também deve contemplar a vigilância do câncer colorretal segundo o risco individual e as recomendações aplicáveis.
Para o profissional que atende na atenção primária, na urgência ou no ambulatório especializado, os novos números reforçam três atitudes: suspeitar de DII diante de sinais persistentes, diferenciar sintomas de inflamação comprovada e garantir continuidade ao cuidado. Ao mesmo tempo, a leitura crítica dos dados evita transformar uma projeção epidemiológica em diagnóstico individual ou em previsão inevitável.
O que a notícia ensina para a prática médica?
O salto de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025 coloca as doenças inflamatórias intestinais em maior evidência no Brasil. Entretanto, o valor clínico da notícia vai além do percentual de crescimento. Ela chama atenção para uma população que precisa de diagnóstico oportuno, avaliação objetiva da atividade inflamatória e acompanhamento duradouro.
Assim, o médico deve manter duas perguntas em mente: há evidências de DII neste paciente? E, quando o diagnóstico já existe, os sintomas atuais refletem inflamação ativa ou outra condição que também exige cuidado? As respostas dependem da combinação entre escuta clínica, investigação dirigida e interpretação criteriosa dos exames.
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Referências
- G1. Doenças inflamatórias intestinais crescem mais de cinco vezes no Brasil em 13 anos. G1, 25 set. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/09/25/doencas-inflamatorias-intestinais-crescem-mais-de-cinco-vezes-no-brasil-em-13-anos.ghtml. Acesso em: 29 set. 2026.
- QUARESMA, A. B. et al. Temporal trends in the epidemiology of inflammatory bowel disease in the public healthcare system in Brazil: a large population-based study. The Lancet Regional Health – Americas, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36777324/. Acesso em: 29 set. 2026.
- UPTODATE. Approach to persistent gastrointestinal symptoms in adults with inflammatory bowel disease in remission. UpToDate, [s. d.]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/approach-to-persistent-gastrointestinal-symptoms-in-adults-with-inflammatory-bowel-disease-in-remission. Acesso em: 29 set. 2026.