As doenças inflamatórias intestinais (DII) são distúrbios inflamatórios crônicos que acometem qualquer porção do trato intestinal. Apesar de ter uma definição relativamente ampla, 80% a 90% dos casos são classificados como Retocolite Ulcerativa (RCU) ou Doença de Crohn (DC). Os outros 10% incluem as colites linfocítica, colagênica e indeterminada.
As DII são distúrbios inflamatórios crônicos que podem acometer qualquer parte do intestino.
Elas representam grande importância clínica, seja pelo quadro clínico importante e prolongado, com grande impacto na qualidade de vida do paciente, ou pelas possíveis associações com outras condições médicas que podem ocorrer por conta do quadro de base ou até mesmo do tratamento.
Etiopatogenia das Doenças Inflamatórias Intestinais
Ainda não se conhece a etiologia exata das Doenças Inflamatórias Intestinais, mas acredita-se que se devam a uma incapacidade do organismo em regular efetivamente as respostas imunes contra antígenos aos quais o trato digestivo está constantemente sendo exposto.
O tempo inteiro, nosso trato digestivo é exposto a antígenos, principalmente os que fazem parte da própria microbiota intestinal. Em indivíduos saudáveis, o organismo consegue controlar a resposta imune contra estes microrganismos, já em portadores de DII, essa imunorregulação não acontece e há uma amplificação da inflamação, com consequente ataque imunológico às células do sistema digestivo.
O porque que essa imunorregulação está afetada ainda é motivo de estudos. O que se sabe é que há fatores genéticos; fatores luminais, relacionados a microbiota, seus antígenos, produtos metabólicos e antígenos alimentares; fatores relacionados com a barreira intestinal; e fatores associados a imunorregulação, incluindo as imunidades inata e adaptativa.
SE LIGA! O fator genético é evidenciado pela ocorrência maior de DII entre parentes de primeiro grau e gêmeos monozigóticos, o que não é observado em cônjuges que vivem na mesma casa, por exemplo. Parentes de primeiro grau de indivíduos afetados têm uma chance de 30 a 100 vezes maior de também desenvolver DII, e histórico familiar de primeiro grau positivo é encontrado em 15% dos portadores.
Tanto a doença de Crohn quanto a RCU se tratam de desordens poligênicas. Em relação a doença de Crohn, foi encontrado um gene relacionado a patogênese da doença: o NOD2. Este gene codifica uma proteína que atua como receptor intracelular para um antígeno de parede bacteriana e que auxilia no controle da resposta inflamatória.
Com o NOD2 defeituoso, a resposta inflamatória fica mais descontrolada. Este gene está alterado em 15% a 20% dos portadores caucasianos. Todavia, ele não explica isoladamente a doença: nem todos os portadores de DII o têm defeituoso, e nem todos os indivíduos que têm esse gene defeituoso terão DII.
Há outro defeito genético aparentemente envolvido na patogênese da DII: um polimorfismo no gene que produz o receptor da IL-23. Em condições normais, essa citocina ajuda a regular a inflamação crônica, a resposta contra agentes bacterianos e atua no Crohn. Um defeito no seu receptor, localizado em linfócitos e macrófagos, ocasiona amplificação da inflamação.
Ainda sobre fatores genéticos, estudos envolvendo o sistema HLA têm encontrado associação entre a presença de certos tipos de HLA e maior risco de desenvolvimento de Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), ou até mesmo a gravidade e extensão da doença em pacientes acometidos.
Além disso, as Doenças Inflamatórias Intestinais frequentemente vêm acompanhadas de desordens auto-imunes, como a espondilite anquilosante e a colangite esclerosante primária. Esta observação pode elucidar uma provável origem imunomediada/autoimune das doenças inflamatórias intestinais.
Há também evidências de que pacientes com DII apresentam defeitos relacionados com a barreira epitelial intestinal, causando uma resposta imunológica defeituosa contra antígenos da flora, facilitando a colonização e o estímulo dos produtos bacterianos e da formação de citocinas.
No que tange os fatores intraluminais, há alterações quantitativas e qualitativas na flora intestinal dos portadores de DII. Na DC, a concentração de gram-positivas e gram-negativas está aumentada.
Na RCU, foram descritas bactérias cujos metabólitos são lesivos a mucosa intestinal, ou seja, alterações da microbiota, associadas a uma resposta imune exacerbada contra essa mesma microbiota, trabalham juntas no desenvolvimento dessa doença. É muito sugestivo que irregularidades imunológicas tenham papel importante para o seu desenvolvimento e manutenção.
Epidemiologia das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII)
A incidência e prevalência das Doenças Inflamatórias Intestinais variam com a localização geográfica. São mais prevalentes na Europa setentrional e na América do Norte, com menor incidência na Europa central e meridional. A prevalência é mais baixa ainda na América do Sul, África e Ásia.
Existe ainda uma correlação entre as DII e o nível socioeconômico, ou seja, quanto mais desenvolvida a região geográfica, maior a prevalência de doença inflamatória intestinal. O porquê disso ainda não é bem elucidado. De qualquer forma, a incidência de Doenças Inflamatórias Intestinais em regiões menos desenvolvidas está aumentando, e acredita-se que isso se deva a crescente urbanização mesmo nessas regiões, expondo os indivíduos a novos estilos de vida, alimentação e exposições a antígenos.
Posts relacionados
- Dica de Gastroenterologia: Doença Inflamatória Intestinal
- Doenças inflamatórias intestinais: tratamento e complicações | Colunistas
- Resumo sobre colite ulcerativa (completo) – Sanarflix
- Doença de Crohn X Retocolite Ulcerativa? | Ligas
- Caso Clínico: Retocolite Ulcerativa | Ligas
- Você conhece a Doença de Crohn? | Colunistas